Quando nos mudamos para o Canadá em 1992, meu filho tinha dez anos e estava entusiasmadíssimo com cada novidade que o novo país lhe oferecia. Nos nossos anos no Brasil não havia ainda o aculturamento do Halloween, então o Gabriel nunca tinha feito o trick-or-treating. Final de outubro chegou e ele estava realmente animado—ganhar balas dos vizinhos, quantas ele quisesse, era para o guri natureba um ticket só de ida para o paraíso. Então no 31 de outubro ele estava todo preparado. Até se fantasiou, o pobre, e tentamos planejar como ele iria fazer o tar do trick-or-treating. Vendo a nossa inexperiência canuca, uns vizinhos se apiedaram e convidaram o Gabriel pra acompanhá-los no Halloween dos filhos deles. Não tínhamos sacado o detalhe mais importante da noite das bruxas naquele país— já estava um frio dos demônios com possibilidade de nevasca. Os vizinhos sabiam das coisas e como iria nevar—e realmente nevou—eles levaram os meninos pra pedir balas de carro. Fantasia? Forget about it! Todas as crianças vestiam casacão, luvas, mittens, touca e cachecol por cima dos super-heróis, astronautas, princesas, bailarinas. Ninguém via nada. E saiam do carro, faziam o blinblon trick or treat na porta das casas decoradas com abóboras e corriam de volta para o carro. Foi assim o primeiro Halloween do meu filho.
Nos anos seguintes ele já estava mais experiente e tinha uma turma de amigos que fazia absolutamente tudo juntos. Mesmo se o tempo não ajudasse, eles saiam trick-or-treating à pé, usando a técnica da fronha de travesseiro. Eles levavam uma fronha, que enchiam de doces e faziam pit stops em casa para esvaziar e voltar para as ruas para pedir mais. O Gabriel acumulava uma verdadeira montanha de doces todo ano, que durava quase que até a primavera! Eu me resignava, apenas lembrando dos bons tempos, quando açúcar não fazia parte da dieta do meu filho. Ele e os amigos nem se preocupavam em se fantasiar, voltavam pra casa com as caras vermelhas, as pestanas cheias de gelo e um excitamento que só uma tonelada de açúcar pode provocar. Quando viemos pra Califórnia, onde o clima permite que as crianças se fantasiem e saiam pelas ruas pedindo doces sem perigo de congelar os ossos, o Gabriel já tinha perdido o interesse por essa maratona. Eu continuo firme, todo ano decoro a minha porta e dou docinhos pros visitantes. Não tenho pena mais das crianças, que aqui não ficam congeladas, mas ainda penso nos pobres canadensezinhos - será que vai nevar esta noite em Saskatoon?
Para o domingo também quis fazer uma sobremesa especial, para usar as maçãs fresquinhas e orgânicas que comprei no Farmers market. Fiquei encantada com essa variedade bem escura chamada de Arkansas Black e decidi que iria fazer uma torta simples de maçã. Procurei loucamente por uma receita, até achar uma que me satisfez, na edição de novembro de 1992 da revista Gourmet.
A receita pedia pâte brisée, mas eu decidi usar uma de pâte sucrée, da revista Martha Stewart Living de novembro de 2006.
Pâte sucrée - versão citrus
1 1/4 xícara de farinha de trigo
4 1/2 colheres de chá de açúcar
1/2 colher de chá de sal
1 colher de sopa de raspas de limão verde
1/2 x'icara [1 tablete] de manteiga sem sal gelada e cortada em pedacinhos
1 ovo grande batido
2 colheres de sopa de água gelada, mais se precisar [eu usei 4 colheres]
No processador pulse a farinha, sal, as raspas de limão e açúcar até misturar. Adicione a manteiga e processe até ficar com uma aparência engrossada, uns 10 segundos. Adicione o ovo e pulse. Com a máquina em velocidade normal adicione a água até a massa ficar consistente. Retire do processador, forme um cilindro, embrulhe em plástico e ponha na geladeira por pelo menos 1 hora.
Torta de maçã com sour cream
Faça a cobertura:
3 colheres de sopa de manteiga sem sal amolecida
1/4 xícara, mais 2 colheres de sopa de açúcar
! colher de chá de raspas de limão
2 colheres de sopa de farinha de trigo
Misture todos os ingredientes e ponha na geladeira. Fica uma massinha bem mole e açúcarada.
Faça o recheio:
1 1/3 xícaras de sour cream
2/3 xícara de açúcar
1/4 colher de chá de sal
2 colheres de chá de baunilha
2 ovos grandes
3 colheres de sopa
5 maçãs grandes [mais ou menos um quilo] descascadas e fatiadas fino
Misture todos os ingredientes, menos a maçã, e bata bem manualmente ou com a batedeira, até formar um creme bem uniforme. Junte as maçãs fatiadas, misture bem, até as maçãs ficarem bem incorporadas ao creme.
Monte a torta:
Cubra a forma com o pâte sucrée que estava na geladeira. Coloque o creme de maçãs na forma com a massa. Cubra com a massinha de cobertura. Eu abri os pedacinhos na palma da mão e fui colocando por cima da torta já montada - último passo. Achei que ficou muito doce e podia ser dispensada. Eu prefiro uma torta de fruta menos doce e essa ficaria perfeita sem esse topping. mas pra quem gosta de um docinho extra, manda bala! Fica ao gosto do freguês.
Asse a torta em forno pré-aquecido em 350°F/176ºC por uma hora, ou até a massa ficar bem dourada. Essa variedade de maçãs que eu usei - Arkansas Black, é bem ácida e compacta e fez uma torta bem firme e consistente, que manteve as fatias da fruta inteiras e crocantes.
Para o domingo eu quis preparar coisas diferentes. Já tinha decidido fazer um chili, desde o dia daquele concurso. Coloquei o feijão para cozinhar na panela elétrica no sábado. Ficou muitas e muitas horas cozinhando. Usei uma variedade de feijão chamada “brown rice beans”, de sabor bem delicado. Consultei não sei quantos livros pra me inspirar pra fazer esse chili, no final usei como base uma receita do Moosewood Restaurant Celebrates. No domingo de manhã piquei em quadradinhos uma boa quantia de apple bacon e joguei numa panela funda. Deixei fritar bem. Quando o bacon estava bem fritinho, joguei meia cebola pequena picada e um talo de aipo picado. Refoguei. Juntei um pimentão vermelho picadinho e duas metades da pimenta cayenne –uma amarela, outra laranja. Usei luvas para abrir e retirar as sementes e membranas – não queria um sabor muito picante – essas pimentas me dão medo, pois não estou acostumada a usá-las para cozinhar. Refoguei mais um pouquinho e acrescentei o feijão cozido com o caldo. Salguei. Deixei ferver, juntei cominho em pó a gosto e três tabletes de chocolate amargo – não me perguntem o por que do chocolate, estava na receita e parece ser uma tradição mexicana colocar chocolate em comida salgada. Acrescentei as raspas e o suco de um limão verde grande. Deixei cozinhando em fogo baixo com a panela meio tampada por umas duas ou três horas. No final acrescentei bastante coentro fresco picado.
Servi com uma simples salada verde de rúcula e pepino japonês, com o bolo salgado de milho e comi com gula e gosto! Só achamos que eu fui exageradamente cuidadosa com a pimenta e quase não sentimos o picante da cayenne. Da próxima vez vou pôr um pouco mais e talvez até umas sementes.
O bolo salgado de milho foi uma aventura. Pesquisei inúmeras receitas de corn cake, mas eu queria uma que usasse o milho fresco e não só o cornmeal como são a maioria das receitas desse prato para acompanhar o chili. Finalmente achei uma que levava milho na edicão de novembro de 2000 da revista Bon Appétit. Adorei a idéia do corn cake with parmesan cheese, mas a receita era para fritar como panqueca, e levava uma quantidade pequena de milho. Eu tinha quatro espigas raladas. Decidi guardar metade do milho e arriscar nas minhas próprias medidas, e depois assar o bolo, invés de fritar às colheradas como mandava a receita. Mandei bala!
Misturei numa vasilha bem grande:
2 xícaras de grãos frescos de milho, ralados da espiga
1 xícara de corn meal – um fubá mais grossinho – talvez uma farinha de milho em flocos moída no processador fique com a mesma textura
1 xícara de farinha de trigo
1/2 xícara de queijo parmesão ralado bem fino
Sal e pimenta do reino a gosto
Mais ou menos 2 colheres de sopa de cebolinha verde picadinha – eu usei a chives
1 xícara de buttermilk
1 colher de sopa de fermento em pó
Misture tudo vigorosamente com uma colher de pau e coloque em forminhas de muffin untadas com manteiga – eu fiquei com preguiça e untei uma forma retangular de cerâmica. Asse em forno pré-aquecido em 350ºF/176ºC por mais ou menos uma hora. DEU CERTO!!!!!
Um dilema na sexta-feira à noite: ir à um restaurante ou comer em casa? O cansaço era grande, a fome era enorme, mas fiquei pensando onde ir? Onde? Peguei um enjôo da maioria dos restaurantes de Davis - e olha que eles abundam, principalmente os asiáticos. Sinceramente, pra comer uma comida como a feita em casa, só mesmo indo num lugar excelente, desses que não usam salada de saco e são bem mais caros. Estou ficando uma chatonilda de galochas. Assumo. E por isso decidi que comeríamos em casa. Fiz um rango simples, uma sops prática, rápida e nutritiva. A sopa de lentilhas.
| a lentilha beluga |
Minha receita de sopa de lentilha não tem segredo e fica pronta em menos de uma hora. Eu uso a variedade beluga, que acho gostosa. Quando você lava, fica mesmo com cara de caviar! Eu então lavo uma xícara de lentilhas, deixo escorrer. Refogo uns três dentes de alho cortadinho num tanto de azeite. Acrescento a lentilha, refogo um pouquinho. Ponho uns tomates picados. Refogo mais um pouquinho. Jogo três partes de água e deixo ferver, abaixo o fogo, deixo a panela meio tampada. Quando a lentilha ficar molinha e o caldo ficar grosso, acrescento sal, pimenta do reino. Não se cozinha nenhum grão com sal, pois ele não amolece direito. Na hora de servir jogo bastante salsinha fresca picada. Sirvo com torradas feitas na frigideira de ferro, regadas com um fio de azeite.
* se quiser pode usar bacon invés do azeite - fritar o bacon e no óleo que soltar fritar o alho. pode acrescentar os tomates, ou nao. fica uma sopa bem saborosa.
Assim que o comandante avisou que teríamos que esperar por pelo menos uma hora e meia, até os mecânicos terminarem o conserto do problema no avião, eu ouvi o barulho de desembrulhar de pacotes de papel e plástico nas cadeiras atrás de nós, onde sentava um casal de americanos. Senti cheiro de pão sendo cortado e barulhinho de vinho enchendo copos. Pensei, essa gente trouxe um farnel? Sim, trouxeram! Não olhei pra trás, é claro, mas fiquei invejando a idéia. Estamos acostumados com a falta de rango nos vôos domésticos, quando sempre garantimos comendo antes ou levando alguma coisinhas na mala de mão, mas para esse vôo internacional atravessando o Atlântico, eu só tinha trazido o básico: água, bolacha e umas barras de chocolate—o que não era nada comparado ao que eu ainda iria ver.
Eu ainda estava inebriada pelo cheiro do pão e vinho dos americanos, quando um espanhol que sentava com a esposa na fileira ao nosso lado se levantou. O fulano era uma figuraça de calça Calvin Kline e camiseta do sindicato Solidariedade. Tira coisa dali, tira coisa de lá, se vira, se revira e então eu comecei a sentir um cheiro maravilhoso de pão com queijo e presunto. Virei a cabeça e vi com meus dois olhões esbugalhados os espanhóis devorando enormes sanduiches embrulhados em papel branco. Em seguida os vi brindando com copos cheios de vinho tinto. Eu salivava de inveja. E pra completar a farra gastronômica, o espanhol começou a descascar laranjonas suculentas com um cortador de unha. Picnic completo! Levantei pra esticar as pernas e vi os americanos sentados atrás de nós guardando uma caixa de plástico com presunto cru e retirando do farnel uvas gigantonas verdes e potinhos com algum creme de sobremesa, que eles comiam com uma colherzinha descartável—gente organizadíssima! A mulher me ofereceu umas uvas, que eu recusei gentilmente por educação. Eu já tinha dado bandeira suficiente da minha dor de cotovelo por não ter tido essa idéia também.
Quando o avião finalmente decolou—quatro horas mais tarde, eu já tinha bebido toda a água, perdido todo o meu humor, estava descabelada e quase a beira de ter um dos meus ataques claustrofóbicos de avião, mas os sabidos americanos e espanhóis estavam felizões, dormindo refastelados de bucho cheio. Da próxima vez que eu fizer uma viagem internacional, vou ser esperta como esse pessoal e levar uma farofinha. Comida de avião é uma droga mesmo e pelo que eu percebi ninguém regula a entrada de comida clandestina a bordo!
* quando escrevi esse texto, em outubro de 2005, dava pra contrabandear garrafas de vinho para o avião. fosse hoje, com todas essas medidas extremas de segurança, essa turma iria ter que comer os sanduíches à seco.
Funky wine from CA-LI-FOOOOR-NIA! Mais rótulos modernex. Prosperity Red, um cabernet sauvignon de Los Olivos, vendido por oito mangos no Trader Joe's. Cardinal Zin, um zinfandel costal de vinhas antigas - beastly old - de Santa Cruz, um pouquinho mais caro, em torno de dezenove patacas.
Eu sou expert em preparar rangos brejeiros, que é como eu chamo aquela comida frugal, feita com ingredientes comuns, e de preparo simples. Pra mim o rango brejeiro funciona até como comfort food, para aqueles dias quando você precisa de uma comida nutritiva, saborosa e rápida, sem firulas, sem trélelês e, principalmente, sem receita. Como ontem cheguei do trabalho e tive que ir ao supermercado - ôô tarefa odiosa - para comprar comida para os gatos, mais pão e leite, encurtei meu tempo na cozinha. Eu tenho um time frame para as minhas cozinhanças durante a semana. Gosto de jantar cedo, porque é melhor para a digestão e também porque tenho fome cedo. Gasto no máximo uma hora e meia nas preparações - geralmente das 5:30 às 6:30 pm. Não dá pra inventar muito, mas há dias e há exceções. Mas nos dias em que o tempo está curto e a fome está grande, tento tirar da manga da camisa variações do tal rango brejeiro. É vapt-vupt. O de ontem foi:
Arroz branco:
Sempre que digo arroz por aqui, é o basmati. Faço o arroz de preguiçoso, que dá até vergonha de dar receita, mas valá, é sempre 1 xícara de arroz lavado, uma pitada generosa de sal, uma pitada generosa de alho seco em pó, uma colher de chá de óleo, 1 1/2 xícara de água. Fogo alto até ferver. Dai abaixo o fogo, tampo a panela e em cinco minutos o arroz está pronto. Deixo descansar uns minutos com a panela tampada. Usando o basmati, essa receita faz um arroz sequinho e soltinho. Impressionante!
Bife acebolado:
Tempero os bifes fininhos com sal grosso e pimenta do reino moída. Deixo descansar uns minutos. Aqueço um pouco de óleo numa frigideira larga com tampa. Ponho os bifes, deixo fritar de um lado, viro, tampo a panela - vai juntar água, mas logo seca. Fico de olho, quando os bifes ficam dourados e começa a formar aquele molho escuro, jogo uma cebola grande cortada em fatias grossas. Tampo, vou mexendo de vez em quando, até a cebola ficar cozida e com uma cor dourada. Super simples, super bom pra comer até com pão.
Espinafre refogado:
Como eu lavo todas as verduras quando pego a cesta na segunda-feira à noite, tenho o espinafre já lavado e drenado guardado em sacos fechados. Aqueço azeite numa panela [uso as de ferro], ralo uns dentes de alho em láminas finas, refogo no azeite, adiciono o espinafre, salgo, deixo murchar bem. Nesse espinafre acrescentei um pimentãozinho vermelho picadinho em cubinhos pra refogar junto com o alho.
Salada de tomate:
Corte tomates em rodelas finas, pique cebolinha francesa e jogue por cima. Tempere com sal marinho, azeite extra-virgem e vinagre de vinho.
No sábado comprei três caixas de morangos no Farmers Market. Já está no final da temporada e as frutinhas já não estão tão bonitonas. Comprei assim mesmo, pois pensei que poderia ser a minha última chance. Daí no domingo inventei de fazer um pavê. E fiz. Sem receita. A La Fezoca Mode.
Preparei um creme com duas xícaras de leite onde fervi uma fava de baunilha [tirei as sementes antes], acrescentei uma lata de leite condensado, uma de creme de leite, duas gemas de ovos e uma colher de sopa de maizena.
Emergi biscoitos champagne numa mistura de leite com limoncello. Fui fazendo as camadas - biscoitos embebidos, creme, morangos picadinhos. No final cobri com um ganache de chocolate - chocolate amargo derretido e misturado com creme de leite fresco. A cobertura de chocolate é dispensável, já que para o meu gosto ela ficou um tanto pesada.
No final resolvemos o dilema do carregamento de azeitonas cruas. Uma pessoa que sabe como processá-las levou tudo, vai fazer a salmoura e todo o mais, e quando elas estiverem prontas e comestíveis, vai nos dar uma parte. Done deal!
Meus dias se iniciam às seis e meia da manhã, que nem consigo dizer 'manhã', pois ainda está escuro. Vou para a cozinha com dois gatos pulando entre as minhas pernas. Ponho uma xícara com água no microondas pra fazer meu café com leite e um waffle na tostadeira. Vou até a laundry e pego os potinhos e a lata de rango felino. É um excitamento, uma coisa tão dramática que dá a impressão que os bichos ficaram uma semana sem ver comida. Eles correm pra laundry quando me vêem caminhando pela cozinha com os potes e se arranjam no tapetinho, sempre na mesma posição: Roux pra direita, Misty pra esquerda. Volto pra cozinha, termino de preparar meu café, que é minguado, pois todos já sabem que não tenho apetite logo que acordo. Sento e bebo o café com leite enquanto leio e-mails, bloglines. Enquanto isso os mortos de fome devoram o rango, o Roux tudo de uma vez só, o Misty fazendo pausas de lord pra lavar as patas, como quem usa um guardanapo de linho. Eu ainda estou na cozinha lendo quando começa a função do banheiro. Todo dia é a mesma coisa e todo dia eu fico rindo alto, considerando o meu permanente mau humor matinal. Primeiro vai o Roux, que faz tudo escandalosamente. Esse gato não faz nada discretamente - come fazendo barulho, caga e mija fazendo barulho, até para andar pela casa ele faz barulho. No banheiro dá a impressão que ele vai virar a caixa de cabeça para baixo. Finalizado a aliviação geral da fome e dos intestinos, ficam os dois caminhando pela casa, como que procurando coisas pra fazer. Se encaram, o Roux dá pulinhos, tenta dar um bote no Misty, que sai correndo injuriado. Um tédio de vida.... Nessa altura já são sete e alguma coisa e eu subo pra tomar banho, me arrumar. Rotina de gato é divertida de se observar, mesmo com um humor azedo, às seis da madrugada.
New Technology Turns Food Leftovers Into Electricity, Vehicle Fuels
Restos de comida doados por alguns restaurantes localizados na Bay Area - região de San Francisco - serão transformados em energia limpa e renovável através do Projeto Biogás Energia, desenvolvido por uma colega do meu marido no departamento de Engenharia Agrícola daqui da Universidade da Califórnia. Cascas de laranja e batata produzindo eletricidade. Esse tipo de pesquisa joga literalmente uma luz no panorama tenebroso que eu visualizo para o futuro da humanidade.
Hoje o blog mãe completa seis anos de escrevinhações ininterruptas.
Haja folêgo, hein cata-milho?
Ontem tivemos duas festas para ir. Uma foi um Chili Cookoff with Bluegrass, na casa de um professor da UC Davis. Ele é o guitarrista da banda de bluegrass que tocou durante a festa. Mas o evento - além do encontro de amigos - era um concurso de chili. Os contestantes teriam que levar uma receita especial que seria provada e votada, a mais criativa, a mais saborosa, a mais apimentada! Haveriam prêmios. Nós ficamos para ouvir o bluegrass, que eu adoro. Provei dois dos chilis também. Eu não sou muito fanzoca dessa comida, mas conversei com o autor de uma das receitas e achei que ele foi muito inovador usando limão e laranja nos temperos. Perguntei se a receita era dele, e ele respondeu - que nada, eu sou um tipo de cozinheiro do Joy [of Cooking]. Ele usou uma receita básica do livro Joy of Cooking, e acrescentou o toque pessoal. Era um chili vegetariano. Hoje fui correndo procurar a receita!
A banda Chicken Tractor tocou no evento do chili. Essa foto é de uma outra festa, pois ontem eu não levei a minha câmera. Eles ainda têm um baixista e um bandolinista.
A receita básica de Chili con Carne do Joy of Cooking:
Derreta 2 ou 3 colheres de sopa de gordura de bacon ou manteiga. Acrescente 1/2 xícara de cebola picada e/ ou 1/2 dente de alho picado. Refogue. Adicione 1 quilo de carne moiída [vaca ou carneiro]. Refogue até a carne ficar cozida. Adicione 1 1/2 xícara de tomates em lata, 4 xícaras de feijão cozido - Kidney é o mais comum, mas qualquer feijão funciona - no cookoff de ontem, uma das receitas levava feijão branco, 3/4 colher de chá de sal, 1/2 folha de louro, 1 colher de chá de açücar, 1/4 xícara de vinho tinto sêco, 2 colheres de chá ou de sopa - conforme a resistência e o gosto - de pimenta em pó - chili powder - aqui também o céu é o limite, pois o chili powder pode [e deve] ser substituído por pimenta fresca, as jalapeños, por exemplo. Cubra e cozinhe por no mínimo uma hora. Quando mais cozinhar, mais grosso e saboroso o chili vai ficar. Pode preparar um dia antes. Servir com tortilas ou pão de milho, sour cream, queijo amarelo ralado, azeitonas pretas picadas, coentro, cebola picada.
Muitos contestantes trouxeram o seu chili na panela elétrica - slow cooker. Alguns tinham carne, outros eram vegetarianos - que que fez muito o meu gosto! O chili do rapaz que usou essa receita básica do Joy of Cooking não tinha carne e ele temperou com o suco e as raspas de uma laranja e um limão. Usou as jalapeño peppers. Ficou bem picante, mas com um sabor de cítricos acentuado que eu gostei muito!
Tentando ajeitar minhas pilhas desorganizadas de revistas, vi essa receita na edição de agosto de 2006 da Martha Stewart Living. Fui correndo fazer, porque eu tinha uma lata de carne de caranguejo na geladeira, só esperando por uma boa idéia. Segui a receita direitinho, só mudei duas micro-coisinhas. Até fritei, coisa que faço raramente e sempre tento substituir pelo forno. Ficou muito bom, servi com uma salada de rúcula e fatias grossas de limão verde.
1/4 xícara de farinha de milho amarela - yelllow cornmeal, que tem uma textura mais fina que a farinha de milho, então eu acho que se passar pelo food processor deve ficar parecida.
2 colheres de sopa de manteiga sem sal derretida e fria
2 ovos grandes
3 colheres de sopa de sour cream
2 colheres de sopa de salsinha picada
2 colheres de sopa de suco de limão espremido na hora
1/2 colher de chá de molho inglês
1/2 colher de chá de paprica - usei a paprica defumada espanhola
1/4 colher de chá de pimenta cayenne - usei a chipotle
1/2 colher de chá de sal grosso
1/2 quilo de carne de caranguejo picada
3 pimentas em conserva picadas - não usei.
3/4 xícara de farinha de pão
1/4 de óleo vegetal para fritar
Forre uma forma de assar com papel manteiga e salpique com a farinha de milho. Numa vasilha misture bem com um batedor os 9 primeiros ingredientes da lista acima. Adicione o caranguejo e a farinha de pão e misture bem com as mãos. Faça bolinhos achatados, metade do tamanho de um hamburguer. Coloque os bolinhos na forma forrada e polvilhada. Polvilhe com mais farinha de milho, cubra com plástico de deixe na geladeira por 15 minutos. Esquente o óleo numa frigideira larga em fogo médio. Frite os bolinhos. Sirva com fatias de limão. Deu 8 bolinhos.
Ele espremeu o envelopinho de maionese e com o fio de creme amarelo pálido escreveu o meu nome no prato - FER.
Finalmente acabou a colheita da azeitona e do pistacho, e meu marido volta para Davis e para suas atividades normais - que não exclui correria, mas pelo menos é por aqui! Foram algumas semanas de omeletes, saladas, sanduíche de queijo com tomate, macarrão e outras improvisações. Eu não tenho motivação para cozinhar só para mim. Ontem fui pintar minha cabeleira mariabetânica descabelada, que estava lindamente multicolorida. Fiquei no salão, lendo revistas da Oprah até tarde. Saí de lá com tanta fome! Já tinha me decidido parar num restaurante no caminho de casa - eu faço tudo à pé aqui em downtown, mas depois que me vi no espelho com uma kanekalon NEGRA, parecendo um corvo corcunda gigante, resolvi só passar no lugar das saladas e pegar uma to-go. Mas da esquina já vi a fila dentro do lugar e desanimei total. Corri pra casa e preparei o famigerado alho e óleo com uma massa integral, e temperei uma salada de rúcula com tomates secos. Um copo de vinho e voalá - melhor do que qualquer restaurante. Mas com a volta do Uriel, vou poder retomar às minhas excursões culinárias, sem falar que ele está trazendo da fazenda uma tonelada de azeitonas fresquinhas, e já falou - procura uma receita para prepará-las. Azeitonas verders virgens, alguém sabe como processar as ditas?
A Raquel fez a pergunta que não quer calar — o que você comeu na sua lua de mel?
Bom, minha memória é péssima, e já são quase vinte e cinco anos, então não lembro muito bem que comi na minha lua de mel em Ilha Bela. Quer dizer, lembro que bebi o café com leite com mosca no hotel, e que voltei muitas vezes num tipo de um boteco, desses onde a frente da casa tinha sido transformada num bar onde o marido servia as pingas e cervejas, enquanto a esposa preparava uns aperitivos comestíveis. Não lembro como fomos parar lá, mas comi um camarão frito que nunca me esqueci, possívelmente temperado com alho e pimentão vermelho. Uma coisa maravilhosa! E porque na minha lua de mel eu estava grávida de seis meses, aquele camarão virou uma obsessão e eu só pensava e só queria comer aquilo! Tentei reproduzir o tal camarão em casa por anos, mas nunca consegui.
Ele vem sempre em outubro, e eu considero isso um presente. Sou fã dele desde que eu tinha uns quinze anos e nem entendia o que ele cantava. Sempre detestei línguas e digo pra quem quiser ouvir que uma das minhas motivações para aprender o inglês foi para entender o que Bob Dylan cantava. Sou uma mulher realizada! Hoje vou vê-lo em Sacramento, pela quinta vez. Só que vai ser um pouco diferente, pois o Uriel não vai comigo. Ele está na fazenda e eu convidei uma amiga para ir ao show comigo. Eu e o Uriel temos muitas histórias com o Dylan. Apesar de que eu já era uma fanzoca do Mr. Zimmerman antes de conhecê-lo, foi com ele que vi o Dylan pela primeira vez, sem contar que considero o meu marido my private Bob Dylan. Ele detesta quando eu falo isso, mas eu tinha essa foto do Dylan colada na parede do meu quarto, e um dia olhei pra ela e tive uma luz - eu conheço esse cara! Era o Uriel! Ele nega, recusa, abomina, rejeita. Eu acho que minha vida não seria a mesma sem os meus dois Bobs. Hoje vou sentir falta dele falando as coisas engraçadas, tentando me distrair, demonstrando ciúmes de um cara completamente inatingível e que não tem a menor idéia que eu existo. A melhor história que tenho com o Uriel e o Bob foi na nossa lua de mel. Fomos pra Ilha Bela com a Caravan do meu pai - éramos dois pirralhos e estudantes pobres - e eu levei todos os meus k7s do Dylan, que tocaram sem parar no tape do carro. Na volta, um amigo do Uriel fez aquela pergunta cretina - e ai, Uriel, como foi a Lua de Mel? E ele respondeu prontamente - ah, foi ótima, eu, a Fer e o Bob!
Uma receita do Pepys at Table, que eu ainda não fiz, mas vou com certeza fazer e quero deixá-la aqui como referência - porque logo vou ter que devolver o livro para a biblioteca. Uma receita do século 17 adaptada para os nossos tempos.
4 trutas fescas e limpas
Um raminho de cada: alecrim, folhas de erva doce, salsinha e manjericão
300 ml de água
Uma pitada de sal
4 fatias de laranja
25 gr de passas currant
25 gr de manteiga
25 gr de farelo de pão integral
Uma pitada generosa de canela
Suco de 2 laranjas
Um maço de agrião
Recheie os peixes com as ervas. Coloque-os numa panela rasa com tampa. Adicione a água, o sal, as fatias de laranja, cubra e leve ao fogo baixo, deixando ferver e então cozinhando devagar por mais ou menos 10 minutos, até os peixes ficarem cozido. Remova os peixes, reserve o liquido. Retire as peles e fatie. Reserve as ervas do recheio. Coloque os peixes numa forma aquecida. Derreta a manteiga numa frigideira. Misture as passas, o farelo de pão e a canela e adicione à manteiga derretida, refogando levemente por uns minutos. Adicione as ervas cozidas, o suco de laranja e metade do liquido do cozimento dos peixes. Cozinhe por uns minutos, salgue a gosto. Sirva os peixes acompanhados do agrião e do molho, que deve ser servido numa vasilha separada.
Todo mundo sabe como funciona e tem uma história pra contar com relação a essa memória do olfato. Aquela que nos faz relembrar de coisas, pessoas, reviver momentos, nos remete num flash a algum outro lugar ou tempo, nos faz viajar na lembrança. Hoje eu vivi um episódio desses, ao sair do banheiro do Robbins Hall. Uma estudante estava num nicho no corredor, onde ficam uma mesa, cadeiras, sofás, uma máquina de xerox e uma estante com panfletos e livretos. Ela falava no celular numa língua asiática, sentada à mesa, onde repousava o resto do seu almoço: uma dessas vasilhas enormes de isopor, onde se joga água quente e faz uma sopa de noodles. Passei por ela e imediatamente senti um cheiro de comida. Era um cheiro familiar e particular, um cheiro que me teletransportou para um outro prédio acadêmico, num outro país, por onde eu também passava frequentemente. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu fiquei uns segundos tomada por aquela sensação calorosa da lembrança. Aquele era o cheiro da cafeteria que tinha num dos andares do suntuoso prédio da Agricultura da Universidade de Saskatchewan. Um prédio todo de vidro, estrutura moderna, que custou não sei quantos milhões de patacas canadenses, e que tinha o mesmo cheiro da sopa de noodles da estudante da Universidade da Califórnia - desses no recipiente de isopor, que se compra em qualquer supermercado por uns meros mirréis.
Samuel Pepys foi um oficial da marinha inglesa que viveu no século 17, quando manteve um diário. Os escritos se iniciam em 1660, quando Pepys tinha 26 anos, e terminam em 1669, um pouco antes da morte da sua esposa, Elizabeth, com apenas 29 anos. Mas graças à esses anos em que Pepys manteve o seu diário, que pudemos saber muita coisa sobre a vida cotidiana dessa era. E especialmente sobre os hábitos alimentares, que foram compilados neste livro publicado pela University of California Press. As receitas tiveram que ser adaptadas para os dias de hoje, e os autores Christopher Driver e Michelle Berriedale-Johnson explicam os por ques. A comida em si mudou, pois em 1660 não havia refrigeração, e tudo era extremamente seazonal. Mudaram também os utensilios e utilitários domésticos, as cozinhas, os cozinheiros e os comensais. Só não mudou o prazer pela gastrônomia, que evoluiu e se sofisticou.
Pepys at Table contém inúmeras explicações, intercaladas por trechos do diário, a receita original e a sua adaptação para o século 20 - quando o livro foi escrito e publicado. Um livrinho pequeno, mas que me proporcionou uma grande viagem no tempo.
Meu café da manhã é paupérrimo. Acordo num mau humor desgranhento e não tenho o menor apetite. Bebo apenas uma xícara de café com leite morno, às vezes mordisco uma bolacha, um pedacinho de pão. Duas horas depois estou acordada, menos mal humorada e faminta! Por isso trago uma lancheira pro trabalho. É pela manhã que necessito desse ranguinho extra. Procuro caprichar, com frutas, cereais, algo com leite. Bebo água ou chá o dia todo. Acho que posso dizer que tenho mais hábitos alimentares saudáveis do que não saudáveis. Ou tento ter!
Na minha lunchbox de hoje:
—uma banana nanica orgânica, com selo de certificação de FAIRTRADE [adoro isso!]
—um saquinho com damascos secos do Farmers Market - eles são cor de laranja escuro e não amarelo como os de supermercado e têm um sabor inigualável.
—uma barra de cereal de limão com cranberry - essas nunca faltam na minha lancheira.
—um potinho com iogurte de leite de cabra [é booom!] adoçado com uma geléia de figo e açafrão, que comprei no Farmers Market, e que é o fino da bossa!
—crackers integrais da Dr. Kracker com queijo e sementes de abóbora - essas bolachas são simplesmente o máximo, sou viciada nelas!
Muitos vinhos de muitas vinícolas na Davis Fest. Eu comprei o ticket que dava direito a fazer tasting das comidas dos restaurantes participantes, das cervejas e vinhos. Fui sozinha, logo que o festival abriu, pois o Uriel estava preparando umas máquinas para uma outra viagem e não sabia se iria poder me acompanhar ou não. Eu não me aperto. Comecei a comilança - que nem foi tanta - e a bebação - que foi ótima - sozinha, depois encontrei amigos e passei a tarde entretida, bebendo muito vinho de vinícolas que eu não conhecia, de muitos lugares próximos, um pouco mais pro norte, um pouco mais pro sul, vinícolas pequenas. Bebi do meio-dia às cinco da tarde e não teve UM vinho que eu provei e não gostei. Estavam todos muito bons, me fixei nos zinfandels, pra não ficar misturando muito, mas tinha de tudo. Foi a estréia desse tipo de festival na cidade, com música, comida e bebida espalhadas por toda a área de downtown. Ouvi Blues e Rock 'n' Roll, comi algumas coisinhas interessante e bebi muito vinho, muito! Agora vou ter quer planejar visitas à essas pequenas vinícolas, algumas aqui vizinhas, em Winters e Dixon.
* as fotos são ampliáveis. mas fiz só alguns cliques quando cheguei, equilibrando comida, taça de vinho e câmera. depois comecei a beber e desisti de fotografar. o sol apareceu, downtown encheu de gente, mas eu não registrei mais nada depois da primeira meia hora... complentamente desculpável e compreensível, né?
Na minha coluna na revista Paradoxo desta semana, receitinhas do tempo do descobrimento do Brasil.
Quando li a Anna contando numa das passagen da sua viagem a Argentina, de como os argentinos colocam barras de chocolate no leite quente, fiquei passada! Como nunca pensei em fazer isso antes? Que idéia genial! Então arregacei as mangas e mandei bala. Sob os olhares desconfiados do Uriel, mergulhei no leite uns quadradinhos super finos de chocolate amargo da Lindt que tenho sempre guardados num vidro. Eles são pra aquele eventual "craving", que raramente acontece. Gosto desses porque são fininhos e têm 70% de cacau. Pois coloquei três deles para cada xícara grande de leite bem quente. Não precisa colocar mais nada. Pro nosso gosto de açúcar ficou perfeito, já que não gostamos de nada doce demais. Mas pra quem é formiguinha, uma colher de mel faz o truque. Bom pra dias frios, ou não tão frios - qualquer dia!
Ingredientes:
1/2 xícara de chá de manteiga
1 xícara de chá de açúcar
2 ovos
1 xícara de chá de banana madura amassada
1/4 de xícara de chá de leite
1/2 colher de sopa de canela em pó
2 xícaras de chá de farinha de trigo
1 colher de chá de essência de baunilha
1 colher de chá de bicarbonato de sódio
1/2 xícara de chá de castanhas-do-pará picadas
Modo de fazer:
Bata na batedeira a manteiga com o açúcar, até formar um creme. Junte os ovos, sempre com a batedeira em movimento. Adicione a banana, o leite, a canela e a farinha de trigo e bata mais um pouco. Desligue a batedeira e acrescente a essência de baunilha, a castanha-do-pará picada e o bicarbonato de sódio e misture.
Coloque a massa numa forma para pão de forma e leve ao forno médio (170º C), pré-aquecido por 50 minutos, ou até que furando o pão com um palito ele saia limpo. Retire o pão do forno e desenforme. Corte o pão em fatias e sirva-o com café.
Irresistível, se você gostar de banana.
P.S.: A foto é ampliável.
Eu perguntei e o Rodrigo não só gentilmente respondeu, como também ofereceu a receita nos micros-detalhes. Fiquei encantada com o preparo desse salmão, que apesar de não ser cozido eu tenho certeza que encaro tranquila. Vou fazer o gravlax no Natal, quando terei a presença da parte norueguesa da família e poderei abafar!
- - - - - - -
A receita do Rodrigo:
O GRAVLAX é um prato nórdico que utiliza a técnica de "temperar para preservar". Além de gostoso, fica lindo se você conseguir fatiar o salmão bem fininho sem perder a crosta de temperos que se forma. Costumo fatiá-lo e montar o prato em forma de girassol... fica lindo.
- 1 filé de salmão com a pele
- 1/2 xícara de sal
- 1/2 xícara de açúcar
- 2 colheres de sopa de pimenta do reino em grão
- 1 colher de sopa de conhaque
- 3 colheres de sopa de dill
Pode ser acompanhado por este molho ou por creme azedo (sour cream):
- 3 colheres de sopa de mostarda
- 3 colheres de sopa de vinagre
- 1 colher de sopa de açúcar
- dill picado
- 1 colher de sopa de maionese
Lavar o salmão e com ajuda de uma pinça tirar as espinhas do meio. (Deslizando os dedos, sente-se as espinhas). Furar com um garfo e passar o conhaque. Amassar a pimenta com um rolo. Esfregar o açúcar misturado com o sal sobre toda a superfície do peixe. Esfregar a pimenta e o dill bem picado apertando para aderir. Colocar em um refratário com a pele para cima. Cobrir com papel filme e colocar outro refratário por cima. Colocar um peso sobre o refratário. Deixar marinar na geladeira 3 dias, escorrendo o liquido que se forma, a cada dia. Espalhar bastante dill picado. Cortar em fatias super finas. Servir com pão preto ou blini.
Eu reparo muito nos rótulos dos vinhos. Muitas vezes esse detalhe é o fator decisivo na escolha, depois que eu ponderei variedade, vinícola, preço. O old vine zinfandel Mia foi assim, quem consegue resistir à um rótulo modernex desses? Escolhi também por ter sido prodizido no Russian River Valley, que é uma região vinicultora daqui do norte da Califórnia que está se destacando. O vinho era bom, nada chocante. O Falcon Ridge, um zinfandel de Lodi - que é uma cidade mais pro sul do estado, numa região que produz muita uva para suco - eu sinceramente não me lembro o que me motivou a comprá-lo. Eu gosto muito do zinfandel, tanto o branco [que é na verdade um rosé] quanto o tinto, e esse me surpreendeu muito. Abrimos a garrafa no sábado à noite para acompanhar a pizza, e como eu não tinha nenhuma memória da compra desse vinho, ficamos naquela expectativa. Mas que bela surpresa, um vinho suave e saboroso, foi aprovado.
» Deixando um comentário no blog lindinho da Dani e Márcia sobre a lista de compras da Márcia que incluia Nescau, lembrei dessa história, que é velha e já foi publicada anos atrás no The Chatterbox. Ela fez muita gente sacudir a pança, porque não é todo dia que se pode ler um relato assim, de um autêntico passeio de indio!
update: está todo mundo comentando sobre acampamento, mas gentes, nós não acampamos, ficamos num hotel muito bom, muito confortável, com lareira nos quartos, banheiro limpinho, tudo normal. La Ronge é uma cidade como outra qualquer. aliás um erro muito comum é pensar que as reservas indígenas são acampamentos com tabas, chão de terra, pau a pique, essas coisas. não é nada disso, pelo menos nas reservas da América do Norte. só pra esclarecer...
- - - -
No inverno de 1994, minha irmã foi nos visitar em Saskatoon, Saskatchewan, Canadá. Foi uma delícia para nós - a parte da família que estava isolada lá nas planícies canadenses. Não sei se foi tão delícia pra ela, que escolheu a pior época do ano para um passeio por aquelas bandas. Mas mesmo assim nos divertimos com o que havia pra se divertir por lá durante o inverno: nadar nas piscinas internas da cidade, ir à biblioteca, patinar no gelo, visitar os amigos, ir ao teatro e ao cinema, sair pra comer, pra beber, pra ver shows e dançar. Até que a vida era bem agitada, mas fizemos tudo isso na cidade, não viajamos.
Então num belo dia, o Uriel ficou indignado - "Como? não levamos a Le pra viajar ainda? mas ela tem que viajar, conhecer outros lugares, ver outras paisagens!". Mas viajar pra onde, se tudo lá era tri-longe e não tínhamos tempo, nem dinheiro para planejar uma viagem decente, pras Rocky Mountains, pro extremo oeste [Vancouver] ou pro extremo leste [Montreal ou Toronto]?
"Vamos para La Ronge!" foi a idéia brilhante do Urso, achando que estava abafando e fazendo um super agrado para a cunhada.
La Ronge é uma reserva indígena, mais para o norte de onde estávamos. Deixa eu explicar - mais norte do que onde estávamos, era exatamente a fronteira entre o mundo semi-normal e o desconhecido inabitável. Mas não conseguimos argumentar com o Urso e como minha irmã concordou, nos aboletamos no carro com o imprescíndivel kit de inverno [cobertores, chocolates, velas, isqueiros] e fomos para La Ronge.
Passamos por Prince Albert, uma cidadezinha a uma hora e meia de Saskatoon, ouvindo Bob Dylan no tape do carro, comendo snacks e conversando alegremente. Ainda não tínhamos saído da normalidade. De Prince Albert até La Ronge foram três horas de estrada deserta, ladeada de pinheiros e tudo mais coberto de neve. Nosso entusiasmo de desbravadores começou a arrefecer. Eu, que me transformo num monstro em viagens, já fui ficando calada e de mau humor.
Chegamos em La Ronge [que agora já chamávamos de Lá Longe] mortos de fome. Deixamos as malas no hotelzinho e fomos tentar achar um restaurante na rua principal da cidade, que parecia ser a única e era onde ficava tudo, o hotel, o posto de gasolina, o restaurante. Quando chegamos já estava escuro. E estava tremendamente frio.... Não vou lembrar quão frio, mas foi o suficiente pra assustar a minha irmã, que nunca imaginou que pudesse ter um frio mais frio do que aquele que ela enfrentou em Saskatoon.
Alguém nos disse que havia um restaurante do outro lado da rua. Ficamos animados. Mas atravessar a rua em La Ronge foi mais difícil que andar trinta quarteirões em San Francisco com vontade de fazer xixi. Parecía que estávamos atravessando um verdadeiro deserto de gelo..... e eram apenas alguns metros. E o restaurante estava fechado!! Voltamos, nos agarrando um nos outros, xingando, chorando, isso não é justo, que absurdo, minha retina está congelando, quem inventou essa merda de viagem imbecil?
Usamos o telefone do hotel e descobrimos que um Kentuck Fried Chicken estava aberto na esquina da mesma rua. Fomos novamente, heróica e bravamente, caminhando até lá. Devoramos uns pedaços de frango frito morno e batatas fritas murchas num restaurante cheio de índios. Eles chegavam dirigindo ski-doos, vestidos em roupas de astronautas, que tiravam no meio do corredor, transformando-se novamente em seres humanos normais, com suas calças jeans, botas de cowboy e camisas de flanela xadrez. Nós, os quatro brasileiros comendo o menu requentado do almoço, éramos verdadeiros ETs ali.... Nunca me senti tão estrangeira, tão peixe fora d'água.
Voltamos pro Hotel, onde dormimos como pedras. No dia seguinte, eu e a minha irmã tivemos um desentendimento no breakfast. Olhando o menu do restaurante, com ovos, bacon e um monte de ítens que ela nem conhecia e nem queria conhecer, minha irmã reclamou e disse que só queria um café normal, será que era tão díficil arrumar um simples copo de leite com Nescau pra beber no café da manhã naquele país? Estávamos numa reserva indígena, no norte do nada, e ela queria um copo de leite com Nescau! Saímos do restaurante de cara virada, ficamos emburradas e choramos dentro do carro, enquanto o Gabriel dormia no banco de tras e o Uriel dirigia pra lá e pra cá, num passeio bucólico pela linda cidade de La Ronge.
"Olha que paisagem linda!"
[tudo branco, cheio de neve, um índio cruzando o lago congelado num ski-doo]
"Grmpfg"
Resolvemos voltar pra Saskatoon mais cedo, quatro horas numa viagem em total silêncio, secretamente felizes por estarmos voltando à civilização. Só podia ser coisa de Urso, inventar um passeio de índio desses.......
No livro Recipes from Old Virginia, publicado em 1946, procurei um bolo e achei que esse com sour cream iria ficar interessante. E ficou mesmo. Meu marido não consegue parar de comer!
3 ovos
1 1/2 xícara de açúcar
1/2 colher de chá de sal
1 1/2 colher de chá de fermento em pó
1 colher de chá de bicarbonato de sódio
1 1/2 xícara de sour cream
2 1/2 xícaras de farinha de trigo
Bata os ovos muito bem. Acrescente o açúcar e continue batendo até ficar bem misturado. Acrescente o sour cream, bata até ficar incorporado. Separadamente peneire os ingredientes secos numa vasilha. Peneire mais uma vez os ingredientes secos já misturados na mistura de ovos, açúcar e sour cream. Bata bem. Coloque a massa numa forma redonda de 20cm e asse em forno pré-aquecido em 350ºF/176ºC. Asse por uns 20 minutos até ficar dourado. Deixe esfriar e desenforme.
Para acompanhar o bolo eu resolvi usar umas pêras que já estavam virando o Cabo da Boa Esperança. Fiz um caramelo com 1/2 xícara de açúcar mascavo. Tirei do fogo e acrescentei 1/2 xícara de leite, mexi bem, acrescentei duas pêras cortadas em cubinhos [sem a semente, mas deixei a casca] e recoloquei a panela no fogo. Deixei engrossar um pouco, acrescentei uma dose de Frangelico, licor de avelãs, tampei e deixei cozinhar mais uns minutos. Ficou um ótimo acompanhamento para o bolo branco. Hoje usei esse molho de pêras para adoçar o iogurte. É bem versátil.
A Verena me perguntou se havia um substituto para o sour cream, que não é encontrado muito fácilmente no Brasil. Eu achei duas receitas para sour cream caseiro. Não sei se os ingredientes substitutos também são fáceis de encontrar, mas são duas alternativas:
1.
2 colheres de sopa de leite desnatado
1 colher de sopa de suco de limão
1 xícara de queijo cottage low fat
Coloque todos os ingredientes no liquidificador e bata em velocidade média até ficar bem crfemoso.
2.
2 xícaras de creme de leite fresco
5 colheres de chá de buttermilk
Misture tudo numa jarra e misture vigorosamente. Deixe em temperatura ambiente por 24 horas. Guarde na geladeira e deixe descansar por mais 24 horas antes de usar. Essa receita é bem parecida com uma de crème fraîche que eu vi na revista Martha Stewart Living. Então deve ficar um tipo de sour cream mais "rich".
Fazia tempo que eu não fazia um peixe - desde o último churrasco de salmão. Procurei um peixe diferente e decidi comprar um red snapper - wild, que foi pescado e não o farmed, que nasceu no cativeiro. Procurei uma receita simples, e achei essa que adaptei um pouquinho. Servi o peixe com arroz branco e uma salada de rúcula e outra de batatas*. Na hora de comer - surpresa - esqueci de adicionar sal. Mas isso é tão comum, que ninguém nem estranha. Por isso tenho um salerinho de mesa.
Red Snapper Vera Cruz
2 filés de red snapper [selvagem]
Suco de um limão - usei o verde
1 colher de chá de chipotle pepper em pó
1 shallot ralado em fatias finíssimas
1 pimenta~so vermelho pequeno cortado em fatias finas
1 tomate pequeno cortado em fatias finas
Sal a gosto
Tempere o peixe com o suco de limão misturado com a pimenta em pó e o sal. Deixe macerar por 10 minutos, vire os filés nesse interim. Coloque a cebola, pimentão e tomate por cima do peixe, cubra com papel alumínio e asse por 30 minutos em forno pré-aquecido em 350ºF/176ºC. Descubra e deixe assar mais uns minutos. Salpique com coentro fresco picado e sirva com arroz.
* eu variei a salada de batatas desta vez temperando com suco de meio limão, sal, pimenta do reino, um fio de azeite e duas colheres de sopa de crème fraîche. ficou um um delicioso sabor amanteigado. as batatas cozidas, pequenas de casca marrom e polpa amarela, eram do Farmers Market, orgânicas.
Sexta-feira à tarde dei uma outra passadinha por lá. São três corredores imensos, na seção TX, só com livros de culinária. Livros novos, antigos, em várias linguas. Eu fico atordoada, não sei o que pegar. Olhei esse livro lindo de receitas das festas da Frida Kahlo, cheio de fotos históricas e das comidas interessantíssimas, narração dos eventos, além das receitas. Trouxe o livro pra casa, sem nem reparar que ele estava em espanhol. Eu leio, sim, mas me dá uma preguiça.. Preferiria que fosse m inglês. Mas em inglês eram os outros: Recipes from Old Virginia, Pepys at Table - receitas do século dezessete adaptadas para a coziinha moderna, e West Coast Cookbook, da Helen Evans Brown, uma americana que promoveu mudanças na cozinha da costa oeste. Tenho duas semanas pra dar uma geral nesses livros e voltar à biblioteca. O cardádio de lá é variadíssimo e farto!
Eu tinha copiado a receita daquele livro inglês para gourmets de 1931 que ia mais ou menos assim: use uma massa, frite muitas cebolas no azeite, cubra a massa com essa cebola, coloque azeitonas pretas e fatias de aliche, asse. E até tinha decidido tentar fazer a especialidade de Provence assim mesmo, no tapão, afinal o que poderia dar errado? Mas coincidentemente naquela nesma noite, chegou no correio mais um exemplar de inúmeras revistas de culinária que eu recebo como sample, e nunca assino. Essa era a Cook's Illustrated e nela vinha uma receita super hiper micro detalhada da pissaladière. Então eu fiz. A massa ficou incrivelmente boa - fácil de fazer, de manusear, fininha e crocante depois de assada, e acho até que vou adotá-la para as minhas pizzas. O recheio pedia quase um quilo de cebolas e eu só usei 2 grandes, então da próxima sei que precisa mais. Usei só uns ticos de aliche, pois apesar de gostar desse peixe, acho o sabor um tantinho "overwhelming". Devorei duas fatias com uma taça de vinho branco e foi a melhor refeição desta semana.
Pissaladière
Massa:
2 xícaras de farinha de trigo
1 colher de chá de fermento Fleischmann para pão, o de grão, seco
1 colher de chá de sal
1 colher de sopa de azeite
1 xícara de água morna.
No food processor com a lâmina de plástico, coloque a farinha, o sal e o fermento e pulse por 5 segundos para misturar. Ligue na velocidade normal e pelo tubo adicione devagar o azeite e a água, até formar uma passa compacta - uns 15 segundos. Retire a massa do processador e amasse de leve numa superfície enfarinhada. Forme uma bola e coloque numa vasilha pequena untada com azeite. Cubra com plástico bem apertado e deixe crescer por 1 hora e meia.
Recheio:
1 quilo de cebola cortada em fatias
2 colheres de sopa de azeite
1/2 colher de chá de sal
1 colher de chá de açúcar mascavo.
Frite a cebola no azeite, acrescente sal e açúcar e refogue em fogo alto por 10 minutos. Abaixe o fogo e refogue por mais 20 minutos até a cebola ficar caramelizada.
Abra a massa. A receita diz pra fazer duas, mas eu fiz uma só. Segure a massa pela ponta e vá puxando, ela vai esticando e tomando forma. Pode pôr em cima de uma folha de papel manteiga e ir puxando. Coloque numa forma. O forno deve estar pré-aquecido em 500ºF/260ºC. Cubra a massa com a cebola caramelizada. Salpique com azeitonas pretas, aliche. Se quiser pode pôr tomilho fresco, ou fennel seeds, que foi o que eu usei. Asse por 15 minutos. Sirva imediatamente.
» a exposição do mês de setembro no Copia - Counter Culture - The American Diner.
Me lembro, ainda criança assistindo filmes na Sessão da Tarde nas férias, de ir até a cozinha e encher uma xícara de café tirado de uma garrafa térmica que ficava sempre num canto da cozinha, para satisfazer os inúmeros cafezinhos que o meu pai bebia diáriamente. Eu fazia isso porque via os personagens nos filmes americanos bebendo café e ficava impressionada e motivada com o gosto com que eles faziam aquilo. O charme era o fato deles não usarem as xícarazinhas, como o meu pai fazia, mas umas xícarazonas de chá cheias do liquido negro. O que eu não sabia é que o café dos filmes era realmente esse café fraco, que hoje eu conheco muito bem, e não o nosso café forte, próprio para ser bebido nas xícarazinhas. Eu devia ficar totalmente turbinada, mas era legal demais tentar imitar o pessoal dos filmes!
Uma prima do Uriel, que também mora aqui nos EUA, uma vez me contou da primeira impressão de uma das irmãs dela, quando chegou em New York para visitá-la. Ela estava inconformada e perguntava insistentemente onde estava aquela comida maravilhosa e deliciosa que ela passou a vida assistindo aos personagens comerem lambendo os beiços nos filmes? Onde estão os donuts, as pizzas, o café - esse é o mais enganador, os hot-dogs, aquelas coisas que pareciam uma estupenda delicia, mas - SURPRISE - não são!! Enganação de Hollywood? Ilusão coletiva?
Eu observo muito a comida nos filmes. Como os atores comem ou não comem. Nos filmes antigos, todo mundo sentava-se à mesa, mas se prestarmos bem atenção vamos notar que ninguém realmente comia. Hoje os filmes são mais realistas. Eu deito cedo e fico lendo, fazendo coisas no computador e vendo filmes na tevê - tudo ao mesmo tempo agora! Outro dia enquanto pagava minhas contas online, passava o filme Moonstruck, com a Cher e o Nicolas Cage. É um filminho fofo, que eu não me incomodo de rever mil vezes. Muitas cenas se passam na cozinha da casa da famiglia Castorini. Eu adoro aquele tipo de cozinha, com muito espaço, uma mesa no centro. Numa das cenas, Olympia Dukakis prepara sunshine toasts - aquele ovo frito enclausurado num buraco no centro de um pão tostado, que se faz tudo junto, na frigideira ou no forno. Eu sempre quis fazer essas toasts, mas cmo não curto ovo e só faço breakfast quando tenho visitas, nunca tive a oportunidade de testar essa receita interessante. No filme, o ovo vasa por baixo e dá pra perceber que vai ficar uma bela droga quando a senhora Castorini vira a toast na frigideira. A filha cheira o prato antes de enchê-lo de sal e mesmo assim não come - vejam o filme e reparem!
Outra cena na cozinha é a final, quando a mãe prepara um mingau para todos - sogro, marido, filha, pretendente da filha e casal de amigos. Todo mundo come o mingau enquanto os nós da trama são desfeitos. Pra mim essas cenas dos filmes são preciosas e quase sempre inesquecíveis. Mas agora cresci e amadureci [um pouco] e desta vez não corri pra minha cozinha pra fazer um mingau!
Finalmente arrumei ânimo para sair do 'feijão-com-arroz' de sempre e tentei uma receita nova. Usei esta receita do blog 101 Cookbooks como base e a partir dela fui modificando uma coisa aqui, outra ali. Eu queria fazer algo com quinoa. Fiz uma pesquisazinha e aprendi algumas coisas úteis: primeiro deixar a quinoa de molho por uma meia hora, depois lavá-la bem pra tirar qualquer resquícito da cobertura de saponin dos grãos que dá à quinoa um sabor amargo, e por último uma dica que eu achei muito importante, que é guardar a quinoa sempre na geladeira, pois ela se deteriora facilmente mesmo não estando cozida - bem diferente de outros grãos que dá pra guardar por anos no armário.
Fiz então a minha salada de quinoa. Deixei 1 xícara de molho por meia hora. Lavei bem, enxaguei, enxaguei, peneirei. Coloquei a quinoa numa panela de ferro com 2 xíicaras de água. Quando ferveu, abaixei o fogo e deixei cozinhar com a panela tampada por uns 15 minutos. Mexi com o garfo pra misturar, coloquei numa vasilha e deixei esfriar.
Numa vasilha maior preparei o molho. Misturei 1 colher de chá de tahini com raspas e suco de um limão verde. Coloquei bastante azeite, sal e pimenta do reino moída a gosto e um punhado de coentro picadinho. Misturei bem com o batedor de arame. Piquei três tomates sem sementes em cubinhos pequenos. Misturei ao molho. Na hora de servir, adicionei a quinoa cozida e deixei macerar por uns minutos.
Desde março que temos uma Ikea a dez minutos da minha casa, em West Sacramento. Então de vez em quando dou uma passadinha por lá, pois adoro as coisas de cozinha que eles vendem. Desta vez fui mesmo para comprar uma poltrona, dessas super confortáveis para sentar e afundar para ler livros e revistas, e acabei comprando uma mesinha pra sala, pois eu não gostava muito da que eu tinha e me apaixonei por uma que abre, encaixa uma parte extra para estender o comprimento e ainda tem um espação para storage. Além da poltrona, da mesinha de sala, ainda comprei um monte de outras coisinhas. Entre elas essa gadget simplesmente o máximo, útilissima, perfeita para a minha pia e para as minhas lavagens semanais de legumes, verduras e frutas. É uma cesta tipo coador, com uma base para ser mantida em pé e dois aros que abrem e fecham, que permitem que voce encaixe direitinho no tamanho da sua pia. Adorei esse treco e tenho usado direto desde que comprei. Gosto quando compro gadgets úteis assim, por que das inúteis os meus armários e gavetas já estão cheios.
Um picnic combinado às pressas. Catei um vinho branco que estava na geladeira - eu sempre tenho um ou dois gelando - e preparei uma caixinha com dolmathakias, os rolos gregos de arroz em folhas de uva, tomates secos e coração de alcachofras. Temperei com um pouco de sal e azeite e me mandei pro parque. Foi uma excelente idéia.
Ainda não sei o que vou fazer com essa pêra - talvez apenas fatiar e comer pura. Comprei na barraquinha das pêras fantásticas no Farmers Market. É um produtor estrangeiro, de algum país do oriente médio. O pai, um sujeito bonitão sempre usando um chapéu de palha quadrado, uma vez me perguntou se eu era do oriente médio também. Eu sempre ouço essa pergunta, quando não escuto palavras numa lingua estranha sendo dirigidas à mim, com uma saudação típica. Culpa da minha cara de Samira Magnani... Mas voltando à pêra, ela é realmente enooooooorme!!
Meu filho não visita o Brasil desde 1997. Novembro ele estará chegando em São Paulo com a namorada Marianne. Meu irmão irá buscá-los no aeroporto para levá-los para Campinas, onde a família com certeza estará aguardando com bandinha de música, bandeirinhas flamulantes, bexigas e serpentinas coloridas. Combinando com o tio os detalhes da chegada ele falou:
—quero que você pare na primeira pizzaria que passarmos pela frente, antes mesmo de chegar na casa do vovô.
—pizzaria, Gabriel?
—sim, quero comer uma pizza portuguesa, aquela com cebola, presunto, ovo cozido.
Ouvi esse diálogo e fiquei rindo com a boca aberta, mostrando todos os meus dentões. Pizza portuguesa, Gabriel?? Isso é um oximoro!
Muito obrigada à todos que deixaram recadinhos por aqui! Abri e li cada um com a alegria de quem abre um pequeno presente especial! Fiquei muito feliz!
Hoje, de idade nova, me sinto uma mulher cada vez mais realizada. Meu marido sempre vem com aquela pergunta de quem não sabe comprar presente - o que você quer de aniversário? E eu sempre respondo que não sei, porque eu tenho tudo o que eu quero. Não tenho wish list. Ele tem que se rebolar pra fazer coisas criativas. Neste ano acho que vou ganhar uma massagem/banho de lama em Calistoga. Não riam, eu até que achei legal a idéia dele.
Nossas comemorações de aniversários sempre envolvem um almoço ou um jantar num restaurante da preferência do aniversariante, e um bolo pós-rango. Minha escolha pra ontem seria uma bodega espanhola, mas eles não servem almoço no domingo, então fomos à um desses de cozinha californiana. Comemos muito bem, eu pedi uma salada niçoise de salmão e um flat bread com queijo, acompanhado de vinho branco. O pão nunca pode faltar!
Viemos pra casa, onde um bolinho que eu encomendei no Ciocolat nos aguardava. Bebemos chá, pois o tempo mudou radicalmente ontem, e entramos definitivamente no outono. Depois recebi visitas, que lembraram do meu dia e vieram tomar um vinho comigo. Falei com todos da minha família no Brasil, foi um aniversário típico. Eu pensei por muitos meses que deveria fazer uma festona, muita gente, muita comida, mas isso realmente não é o meu estilo. Eu não cozinho no meu aniversário, não lavo nem um copo, não faço nada, só aproveito o meu dia!