Sempre que passo pelo dispositivo com toalhinhas desinfetantes que fica na porta de alguns supermercados, meu super-ego dominador e maníaco sente-se completamente vitorioso e realizado. Confesso aqui publicamente que aprovo essa idéia das pessoas poderem desinfetar seus carrinhos e cestinhas.
Anos atrás eu convivi com uma germ fee freak. Ela era obcecada ao ponto do irracional. Para descrevê-la exatamente, eu teria que caricatura-la vestida de super herói com um tubo de toalhinhas e outro de spray desinfetante pendurados um de cada lado do seu cinto de super-utilidades. Ela era a paladina da limpeza, a líder na incansável guerra contra os germes e bactérias. Ela me irritava. Eu sempre pensava—onde vamos chegar com isso? à uma sociedade totalmente esterilizada, todos vestindo roupas anti-germes, luvas, máscaras, espirrando desinfetante em tudo? como vamos sobreviver à uma simples gripe num mundo imaculado como esse?
Apesar disso, eu tenho as minhas neuras. E uma delas é a de lavar as mãos frequentemente. Pode ser um pouco exagerado, mas não é por medo de germes, é simplesmente por nojo. Vocês já pensaram na quantidade de fluído corporal que é espalhado copiosamente a cada segundo nos ambientes de uso público? Maçanetas e puxadores de portas, barras de ferro nos ónibus e metrô, portas de banheiros, bancos de sala de espera, telefones, eteceterá? Eu penso nisso e me previno. Lavo minhas mãos quando posso. E acredito que esse hábito meio exagerado me ajuda a não ficar sempre doente, com gripes e resfriados, como acontece com meio mundo que eu conheço.
Por isso aplaudo silenciosamente a fabulosa idéia de poder limpar o guidão do carrinho ou a cestinha que vou carregar no supermercado. Não aprovo de maneira alguma essa tendência histérica de nos transformar em obcecados, mergulhando tudo o que tocamos em baldes com cloro. Mas putsz grila, você já pensou na imensidade de fluídos corporais alheios, ressecados e praticamente invisíveis, com que convivemos desavisados e insuspeitos todo santo-dia?
Porque estamos surfando outra ondaça de calor, o que faz a minha cozinha ficar bem improdutiva, somado à tonelada de trabalho que empilha-se no meu desktop, decidi convidar todos para um passeio arqueológico pelas catacumbas de ChuKruntkhamun (King Chukrutut). Divirtam-se.
Love me Tender—uma receita querida, como lembrança do Rei Pelvis.
Gadgets Galore—um desfile de utilidades & inutilidades imprescindíveis.
Minhas Madeleines—reminiscências proustianas de uma Guimarães Rosa.
Sopa Cremosa de Cogumelos—a receitinha que encantou o meu irmão.
Pistacho, Pistacho—fotos reveladoras.
Oi!—porque fotos com o Roux sempre alegram o ambiente.
Como não dava pra jantar sorvete de banana, fiz uma salada que chamei de minha salada grega. Folhas verdes, pepino, pimentão vermelho, tomate, abobrinha, berinjela grelhada, cebola roxa e queijo feta.
A cebola eu cortei em fatias finíssimas e deixei uns minutos de molho na água gelada com vinagre. Esse processo alivia um pouco o gosto ríspido da cebola crua. Poderia ter colocado umas azeitonas pretas, mas esqueci. Eu coloco azeitona em tudo, preciso mesmo dar um tempo. O tempero foi o mais básico possível: sal marinho, pimenta do reino moi'ida na hora, vinagre de vinho branco e muito azeite.
Dia quente e cansativo, cheguei em casa decidida: nada de jantar, vou fazer sorvete de banana! Estava com essa idéia fixa de fazer um sorvete com bananas há tempos. Adoro essa fruta e sua cremosidade. Pra mim, banana é comfort food. Dizem que banana é a fruta da alegria, pois ela estimula a produção da seratonina, que ajuda a combater a depressão.
Meu sorvete de banana é a coisa mais simples de fazer. Aliás, preciso testar uma receita mais sofisticada, dessas com base de ovos e tal. Mas por enquanto, essa receita básica está funcionando muito bem.
3 bananas
mel a gosto
1 xícara de leite integral
2 xícaras de creme de leite fresco
Bater tudo no liquidificador e colocar na sorveteira.
Essas cenas são do filme The Wedding Night de 1935, com um dos meus atores favoritos, Gary Cooper. O diretor King Vidor ganhou o Oscar de melhor diretor do ano por esse filme, que tem uma história muito fofa, apesar do final extremamente broxante [o Código, que moralizou Hollywood, já estava em vigor]. Gary Cooper é um escritor novaiorquino passando por uma fase ruim. Ele vai para Connecticut, tentar escrever um livro e fica na casa que herdou no meio dos campos de tabaco. Lá ele conhece a filha de imigrantes poloneses, Anna Sten. Ela leva para ele toda manhã o leite que ela mesma tira da vaca. Acaba fazendo também uns trabalhinhos domésticos pra ele, depois que o serviçal chinês o abandona e volta para New York. Os dois se apaixonam, la-di-dah, mas o problema é que ele é casado e ela está prometida em casamento para um amigo da família. O filme tem muitas cenas com comida, quis comentar todas, mas resolvi me restringir à apenas duas.
Na primeira, Cooper é convidado para jantar com a família polonesa, que incluí também os amigos. Os adultos sentam e comem, liderados pelo patriarca. As mulheres servem e sentam-se à mesa por último. As crianças esperam sentadas num banco duro e sentam-se à mesa para comer as sobras quando os adultos terminam—achei isso o cúmulo da crueldade. Na mesa se vê o pão e o vinho. O prato principal é a sopa de ameixa seca [prune soup]. Cooper leva a primeira colherada à boca com uma certa relutância. Depois declara aliviado—é muito boa!
Na outra cena, Cooper se vê sozinho na casa gelada e tenta acender o fogão para fazer o café da manhã. Reparem no fogão! Anna chega trazendo o leite, acende o fogão pra ele e prepara panquecas e café. Ele devora as panquecas com maple syrup enquanto ela bebe o café com leite às colheradas, enquanto conversam. Um amor de cena!
Fui procurar pela receita de sopa de ameixa seca e só achei essa, que é mais um cozido e de origem alemã. Mas fica aqui, caso alguém queira tentar.
Grandma's Prune Soup
1 quilo de carne para assar
Sal e pimenta a gosto
Caldo de carne
4 batatas descacadas e cortadas em quatro
1 cebola média picada
1 xícara de ameixas secas cortadas em quatro
1 xícara de uvas passas
Vinagre de maçã
Lave a carne e coloque numa panela grande e cubra com água. Adicione o sal e a pimenta. Cozinhe a carne em fogo alto até a água começar a ferver. Abaixe o fogo e tampe a panela. Cozinhe por duas horas até a carne ficar bem macia. Remova a carne do caldo e coloque numa travessa para esfriar. Remova a gordura do caldo. Reserve 1 litro desse caldo. Se não for suficiente, adicione caldo pronto de lata ou caixinha. Corte a carne em pedacinhos. Coloque a carne de volta na panela com as batatas, cebola, ameixas e passas. Adicione o caldo para manter sempre o mesmo nível de liquido na panela. Cubra e cozinhe por uma hora. Ajuste os temperos. Sirva em tigelas com um pão rústico. Use o vinagre como condimento. Experimente com outros vinagres, como o de pêra ou o balsâmico.
O papo sobre o leite cru fez muita gente lembrar da infância e dos biscoitinhos que eram feitos com a nata que era produzida com a fervura do leite. Pra mim esses biscoitinhos eram a epítome da gostosura. Nenhum biscoito industrializado conseguiu substituir esses feitos em casa, porque memória de infância é concorrente imbatível.
Escrevi pra minha mãe perguntando se ela ainda tinha a receita, pois lá se vão quase quarenta anos do tempo em que se coletava as natas que ficavam guardadas no congelador da nossa Frigidaire branca, até virarem biscoitinhos feitos pelas mãos da Cida. Pois minha mãe tem todos os cadernos e fichários de receitas guardados. Ela me enviou a receita que fez a minha infância mais feliz.
1 copo de nata – 1 copo de açúcar – 1 colher de manteiga e araruta o quanto baste. Só isso.
* a araruta seria o polvilho doce?
** até parece receita tirada do livro da dona Benta, mas essa tem licença para ser assim sintetizada, pois é receita dos alfarrábios de família!
Eu não acredito em saci pererê, nem na mula sem cabeça, ou no boto cor-de-rosa, nem na bruxa de oz, e muito menos na dona Benta.
Como vou acreditar numa mulher que não existe? Que dá seu nome para um livro sem autores. Que é também marca de farinha. E avó de personagem de ficção. Faz-me o favor, hein?
Eu tenho o livro da dona Benta e já fiz algumas receitas, mas se vocês forem parar pra analisar aquilo é uma compilação de receitas de domínio público, sem muito detalhe, porque sem autor, não se pode dar bandeira.
Quis fazer um bolo [outro] de milho pra gastar a milharada que se empilha de maneira crescente na gaveta da geladeira. Quando vi essa receita pensei imediatamente—tá pra mim! Bate tudo no liquidificador e assar. Iuuru!
Mas quando comecei a misturar os ingredientes, fiquei procurando a farinha. Não ia farinha. Tudo bem. Mas só com ovo, leite e creme de milho não ia dar consistência de bolo. E não deu.
Outra coisa irritante no livrão da dona Benta é a displicência das receitas. Nenhuma tem temperatura de forno, nem tempo de forno. É assim, põe lá e assa. Coisa pra gente batuta, não pra cozinheiras descabeladas como eu.
O bolo virou um belo pudim. Não ficou nem um pouco ruim e eu recomendo que se coma frio e no dia seguinte. Paciência é tudo nessa vida.
Usei o melhor ovo, o melhor leite, o melhor milho, a melhor manteiga, o melhor açúcar. E assei sem saber por quanto tempo num forno médio. Sabe assim, nem muito quente, nem muito morno. Tudo muito etéreo, como o universo encantado da dona Benta.
Foi num arrebatamento inesperado que fui até onde estava encostada a máquina de fazer macarrão e abri a caixa. Ela estava guardada desde o dia que eu a trouxe da loja, há quase dois anos. Finalmente suas partes metálicas viram a luz do dia e da cozinha. Atarrachei na mesa e fiz a massa com 100g de farinha de trigo para cada ovo. Uma pitada de sal. Usei farinha orgânica e ovo caipira, de galinha fecundada pelo galo.
Me atrapalhei um pouco, claro. Não fazia macarrão em casa há anos. A última vez que fiz, e foram poucas vezes, nós ainda moravamos no Brasil e o Gabriel era um gurizinho magricela usando óculos de aro azul. Foi no século passado, durante uma das minhas fracassadas tentativas de ser a líder das tradições culinárias da minha família. Joguei a toalha e desisti há muito tempo. Quem faz isso hoje com muito sucesso é o meu irmão Carlos Augusto—o autor de um macarrão tão bom quanto o da minha mãe.
Hoje recuperei um pouco meu brio, fazendo um macarrãozinho bem decente. E já até sei onde fiz meus erros. Deixei a massa ficar muito fina, fui até o numero sete, e não enfarinhei com firmeza. Mas os fiozinhos de massa cozinharam bem e foram temperados com o molho ao sugo que fiz outro dia. Agora é só não desanimar e continuar praticando rumo ao aprimoramento.
De vez em quando eu dou uma ajeitada geral no blog, uma faxina bem feita na cozinha. E aproveito para rearranjar e reorganizar coisas, colocar um item aqui, outro ali. Pode ser que ninguém tenha reparado, mas reorganizei os links dos arquivos, agora por ano invés de mensalmente, para otimizar o espaço. Outra coisa que acrescentei foi um link para um trequinho que eu achei muito legal chamado Twitter. Não tinha tido tempo de escarafunçar pra ver o que era, pra que era, mas quando finalmente fui olhar achei que iria ser muito útil pra mim. Eu passo oito horas por dia no trabalho, mais umas quatro horas em casa conectada na internet. Eu leio muito, leio de tudo e estou sempre achando textos e links interessantes, as vezes quero comentar uma coisa ou outra e não dá pra transformar num artigo de blog. Mas no Twitter vou poder gravar esses pequenos comentários—pequenos mesmo, pois só terei 140 caracteres pra cada mini-post. Vou comentar muita coisa sobre comida, que é um dos assuntos que mais leio. Então quem quiser acompanhar o meu dia e minhas leituras, é só me seguir ali pela caixinha "the cooking twitter" ou diretamente na fonte.
Toda vez que eu ia ao Co-op ou ao Nugget comprar meu leitinho orgânico, via na prateleira as garrafinhas do raw milk–leite cru. O Gabriel já tinha me contado que um casal amigo dele só comprava esse leite, mas eu não fiquei muito interessada, pois estava bem claro que se eu comprasse esse leite, teria que fervê-lo. Mas quando eu li a reportagem do New York Times [Should This Milk Be Legal? infelizmente já fechada], comentando o frenesi do leite cru aqui nos EUA, fiquei com as minhocas de experimentá-lo. A reportagem do jornal explica que esse leite, não pausterizado, é proibido de ser vendido em quase todos os estados do país. A Califórnia é uma das exceções. Mas o pessoal dos estados onde a venda desse leite é proíbida, fazem das tripas coraçào para conseguir o leite clandestinamente, direto de alguma fazenda, sem comprar, mas fazendo trocas, para não infringir as leis. O debate é até onde vale a pena o risco de contrair salmonela, e.coli ou listeria, ficar doente e morrer ou ficar com gravíssimas sequelas, só pelo prazer de beber um leite mais saboroso, que contém umas enzimas a mais que o leite pausterizado.
Quando eu cheguei do supermercado com a garrafa de raw milk na cesta, o Uriel despirocou. Entrou correndo na internet e achou um pdf do USDA [Departamento de Agrícultura dos EUA] e me mandou ler o artigo com título em letras garrafais: The Dangers of Raw Milk. Eu até que tinha pensado em dar um golinho no leite, só pra ver se era assim tão mais saboroso. Mas com todo aquele escândalo perpetrado pelo meu marido, amarelei e FERVI o leite.
O leite que eu fervi, com uma nata grossona boiando na superfície, me lembrou a minha infância, quando o leiteiro entregava o leite em casa, vindo numa carroça e colocando o leite do galão de metal na jarra. Todo santo dia se fervia o leite e guardava-se as natas para depois fazer biscoitinho com ela. Eu não guardei a nata, pois não sei se vou me tornar freguesa desse leite que precisa ferver.
Já estava escuro, mas ainda estávamos sentados na grama bebericando vinho e conversando. Foi quando ela chegou e me contou a história mais bonita, de como andava fazendo pães—um por dia, todos os dias. Ela descreveu o processo, de como começava com os primeiros passos logo pela manhã. Misturar os ingredientes, sovar, sovar, sovar, sovar, deixar crescer, assar, o perfume impregnando a casa e o final, com o melhor pão de todos, o mais simples. A receita: água, farinha, fermento e sal. Com gestos e sorrisos ela explicou como fazer pão traz satisfação, restaura as energias, complementa e dá prazer. Sempre que converso sobre a arte de fazer pão, me lembro da epifania que tive lendo Thoreau. Nunca mais me esqueci da sensação envolvente de calor e conforto que aqueles parágrafos de Walden me proporcionaram. Uma impressão que ficou para sempre e que volta e meia é despertada como um grande bafejo de inspiração.
Foi basicamente um dia punk e terminou com péssimas e tristes notícias. Preparei a berinjela que ele gosta tanto, mas comi sozinha. O bom é que esse tipo de prato continua bom no dia seguinte. Tirei a receita daqui. É muito simples de fazer. Como a tarde estava horrivelmente baforenta, fiz na churrasqueira, para não produzir calor dentro da casa. Minha conta de eletricidade agradece.
Cortei duas berinjelas em fatias grossas e deixei de molho na água e sal por uns minutos. Sequei bem e temperei com sal marinho grosso, ervas provençais e azeite de oliva. Assei na churrasqueira. A receita original manda fritar no azeite. Depois montei o prato com as fatias de berinjela assadas, polvilhei com paprica e um tantinho de pimenta cayene em flocos, salpiquei com feta e coloquei no broiler por cinco minutos. Essa parte nem é realmente necessária, mas eu fiz. Na hora de servir salpiquei com salsinha fresca picada.
Tive uma certa inveja de uma pessoa que conheci anos atrás. Não me lembro exatamente porque, mas ela tinha perdido o olfato. Quando fiquei sabendo disso, imaginei as possibilidades de uma existência sem precisar e poder sentir cheiros. A idéia me conquistou.
Só pra ilustrar, eu tenho uma cara de Ana Magnani que incluí aquele nariz dramático caracteristico. Eu acho que a napa influí bastante na minha habilidade de cheirar, pois muitas vezes tamanho é documento. O nariz não é feio e combina comigo, pois não sou num tipo mignon. Mas o problema é que somado ao narigão, eu tenho um olfato super-hiper sensível e sinto o cheiro de absolutamente tudo.
Muitas vezes estou reclamando de um fedor qualquer e o Uriel está olhando pra mim com aquela cara de patzo, como que não está entendendo o motivo de tanta algazarra. Ele não sente os mesmos cheiros que eu sinto.
E o mundo é um povoado extremamente fedorento. Tem dias que eu penso na mulher sem olfato e desejo ardentemente ser como ela. Assim eu não precisaria cheirar tanto cheiro repugnante. Eu sinto o ar empestiado de bosta de vaca quando o vento sopra de um determinado jeito e traz pro meu lado a caatinga dos estábulos da UC Davis. E é tanto chulé, sovaqueira, bafão. Já passei pelo amargura de trabalhar com alguém que retocava o perfume de gardênia a cada meia hora. E com outro alguém que não depilava o sovaco e não usava desodorante por questão religiosa ou cultural e conviveu dois longos verões comigo. Cheiro de xixi de gato, de cocô de gente, de bodum, de lixo, de comida podre, de naftalina, de gente que cheira estranho—pois não tem gente que cheira estranho? E cheiro de mofo, de revista velha, de garage sale, cheiro de pum, cheiro de cachorro molhado, cheiro de carpete de restaurante, de sabonete vagabundo, de foto velha, de casaco guardado no armário.
Meu olfato é tão aguçado que eu sinto o cheiro das máquinas, dos pistachos, dos computadores, dos laboratórios nas roupas do Uriel. Muitas vezes é tudo tão insuportável, que eu arriscaria perder a capacidade de sentir o cheiro da brisa, da chuva, da terra, do sol, do pão assando e das frutas, flores e plantas, só pra viver confortavelmente na ignorância do quanto esse nosso mundo é fétido!
*este texto foi escrito em 2001 para o The Chatterbox e reciclado para ser publicado aqui.
**disclaimer: eu gosto de escrever e quando tenho uma idéia que acho legal desenvolvo e transformo num texto. acho que dá pra perceber que um texto é apenas um texto, não? eu não quero perder o olfato, nem intenciono fazer uma operação pra isso. tenho muita compaixão pelos que sofrem de alguma incapacidade física, mas isso é um texto, apenas um texto.
A presença de um maço de chinese long beans [vagens] na cesta orgânica e a temperatura de 37ºC no final da tarde me fizeram optar por preparar uma salada que eu considero uma das receitas mais versáteis e robustas que habitam o reino das comidas frias. A salada Niçoise pode ser preparada de inúmeras maneiras, variando os ingredientes conforme a criatividade e a disponibilidade. Ela é um prato que vira e mexe acaba na minha mesa, dominando solitária, pois a Niçoise nem precisa de acompanhamentos. Para dias quentes ela é perfeita, pois alimenta sem pesar. Uma das suas variações já esteve por aqui. Nesta, já mudei alguns ingredientes. Usei:
Batatas cozidas;
Ovos cozidos,
Vagens chinesas cozidas no vapor;
Atum da melhor qualidade temperado com azeite, limão e ervas provençais;
Tomate cortado ao meio, sem semente, frito ligeiramente em azeite;
Pimentão vermelho cortado em tirinhas bem finas e temperado com azeite e vinagre xerez—jerez ou sherry vinegar;
Azeitonas pretas;
Figos secos cortados ao meio;
Salpiquei ervas provençais no tomate frito e reguei a salada com uma vinagrete de limão verde. Salpiquei flor de sal. Fiz duas fatias de pão tostado pra acompanhar, mas nem precisava. Só a salada seria suficiente.
Nessa época do ano eu chego a ficar desacorçoada, de tanto tomate que preciso usar rapidinho. Chegam tomates na cesta orgânica, geralmente naquela fronteira entre o maduro e o quase estourando pras bandas do podre. Não dá tempo de ficar pensando. Minha horta também está naquela produção desenfreada. Se eu fico um dia sem me esbaforir colhendo os ditos, já tem uns podres caídos no chão e comidos por habitantes das profundezas. O negócio é ser rápido no gatilho e nas idéias, pois como vocês já sabem, porque eu já repeti isso aqui zilhões de vezes—tomate não deve ser guardado NUNCA na geladeira!
Nessa época do ano eu como muitas diferentes variações de salada de tomate. Mas quanta salada de tomate um ser humano consegue comer até chegar no limite da insanidade? Faço também tortas e as vezes seco os ditos no forno, faço pasta com eles cortados em quatro e aromatizados com manjericão, ou uma bela sopa e até arraso nuns recheados provençal. Mas tem aquele dia que a única opção viável é cozinhá-los e fazer um bom e velho molho de tomate, daquele que congela muito bem.
Cozinhar os tomates cobertos com água. Quando esfriar, bater tudo no liquidificador e passar por uma peneira. Com esse purê pode-se fazer muitas variações do molho, com carne, bacon, linguiça, ou sem nada. Refogar cebola em bastante azeite e jogar o purê de tomates. Acrescentar um pouco de vinho, jogar folhas de manjericão, sal, pimenta do reino. Minha mãe usa o cheiro verde—salsinha, cebolinha, manjericão e põe na panela também uma cabeça inteira de allho, que vai cozinhar no molho e depois pode-se comer com pão. Se tiver sobras de carne ou linguiça, pode acrescentar. Cozinhar em fogo baixo por bastante tempo, ate o molho ficar bem grosso. Pode usar a panela de pressão, pra ganhar tempo. O molho tem que ficar bem grosso e manchar a panela, os pratos, o guardanapo, a roupa—cuidado, use um avental quando for manuseá-lo!
Vi uma cena que achei que nunca veria: um rapaz pedalando uma bicicleta pelo campus e almoçando ao mesmo tempo—prato numa mão, garfo na outra, pés pedalando, pedalando, boca mastigando, mastigando.
Posso considerar isso uma evolução no campo da fast food e um aperfeiçoamento nas habilidades dos praticantes do prato ambulante. Antes só precisava ser capaz de caminhar com um certo equilibrio para manter o prato e o garfo em posição e seguir em frente, e isso até eu faço. Mas comer em cima de uma bicicleta em movimento exige um talento notável, coisa pra profissionais do circo.
A idéia era fazer um risotto com cogumelos frescos que eu tinha comprado na semana anterior no Farmers Market. Mas quando abri o saquinho de papel que estava na geladeira, vi horrorizada uns pobres monstrengos ressecados e com manchas amarelas—eee-e-ca!
Refiz meus planos sem os cogumelos e com queijos para substituí-los. Mas eles acabaram entrando na receita de qualquer maneira, pois usei como liquido um caldo de cogumelos que eu uso às vezes no lugar do caldo de legumes. Não tem receita, eu compro pronto, orgânico.
Uso sempre uma receita básica para fazer o risotto, que pede 4 xícaras de liquido para cada xícara de arroz. Numa panela, refogue um picadinho de 1/4 de cebola em 2 colheres de sopa de manteiga. Quando a cebola estiver molinha acrescente o arroz e refogue mais um pouco. Jogue 1 xícara de liquido—a primeira xícara é sempre de vinho branco. Deixe secar, mexendo de vez em quando. Então vá acrescentando as outras 3 xícaras de liquido quente, uma de cada vez, e mexendo e deixando secar. Usei o caldo de cogumelos. Quando a última xícara estiver secando, acrescente o queijo. Eu usei três tipos de queijo forte, cortados em cubinhos. Deixe o queijo derreter e desligue o fogo. Veja se precisa de mais sal para o seu gosto e jogue um punhadinho de ciboulettes picadinhas. Sirva com mais queijo ralado. Eu usei o sap sago suiço,
Uma das grandes buscas da minha vida culinária é a do Santo Graal das pizzas. Estou nessa procura incessante pela receita perfeita, que seria definitivamente adotada como a receita oficial para massa de pizza da Fer Guimarães Rosa. Digo-vos, que já usei muitas receitas. E digo-vos mais ainda, que eu faço muita trambicagem também, usando massas prontas ou semi-prontas. Infelizmente nada me satisfaz plenamente.
Eu andava comprando uma massa pronta de pizza no Co-op, que achei muito, muito boa e que comprei porque não pude resistir à novidade. A massa era feita de Spelt [Farro], o grão ancestral, cultivado desde as eras remotas e citado até no velho testamento da biblia. Já tinha comido o grão, cozido como se faz com o trigo ou a cevada. Mas a farinha realmente superou minhas expectativas.
Buscando pela massa novamente no sábado à tarde, dei com os burros n' água. Mas olhando a seção de bulk das farinhas, vi a farinha de spelt e resolvi que eu mesma iria fazer a massa pra pizza daquela noite. Tenho umas receiitas coringas que vira e mexe voltam a ser usadas, uma delas é essa receita de massa de pizza da Marthinha Heleninha. É uma massa que sempre dá certo, mas que tem que crescer, não dá pra fazer dez minutos antes, como seria a massa de pizza ideal pra mim. Fiz essa receita substituindo a farinha de trigo pela de spelt. A massa com o spelt não cresce tanto quanto a feita com o trigo, mas, ohdear, o cheiro e o sabor dessa massa é algo inigualável. Não é ainda com certeza a massa perfeita, mas está quase lá.
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Os Sequeira, os Sousa, os Freitas, os Ramos, os Silva, os Gomes, os Nunes, os Pacheco, os Carvalho. Famílias portuguesas imigradas para o centro norta da Califórnia e que se estabeleceram na área agrícola. Os portugueses estão espalhados pelo estado, mas percebe-se que já são segunda, terceira e quarta geração, sempre carregando as tradições e o orgulho do seus antepassados.
Passamos pelas fazendas dos descendentes, rumo ao nosso destino final—a Festa Portuguesa que acontecia no The Old Sugar Mill em Clarksburg. O lugar é uma antiga usina de açúcar de beterraba, que foi comprada por John Carvalho na década de 90 e restaurada para abrigar algumas vinícolas e um centro de eventos.
A festa estava bem simples, com o vinho e a música concentrando as atenções. A comida deixou muito à desejar. Eu reclamei à beça da carne e frango cozidos em muito vinho, do feijão adocicado misturado com linguiça e da salada de saco acompanhada de molho de vidro. Aquele rango não tinha nada de português ao meu ver, mas o pessoal que sentou-se à enorme mesa redonda com a gente, estava achando tudo uma delícia. Meus standards são realmente altos e eu sei que a comida portuguesa é o fino da bossa e muito melhor que aquilo. Bom, ao menos o bolinho frito, filhós, e os tremoços, tremos, estavam muito bons. E o vinho, é claro! Como eles não estavam vendendo apenas o copo, para bebedoras solitárias como eu, compramos a garrafa mesmo, que eu fui bebendo durante o passeio. Adoro fazer isso, caminhar pelo lugar com a taça de vinho na mão! O vinho, da vinícola Carvalho, estava supimpa!
A música também estava animando a festa, com a banda liderada por uma filha de portugueses que só na adolescência foi resgatar a cultura e a língua dos pais. Ela começou o show com uma música brasileira, de Vinicius de Morais. Mas depois tocou vários números tradicionais portugueses, com fados e até cantou uma música em inglês que dizia Amália, you are the queen!
Depois que visitamos as vinícolas, almoçamos o rango português pra inglês ver, ouvimos o fado e a bossa nova, encaroçamos pela lojinha de antiguidades e xeretamos dentro e fora da parte da usina que faz a produção do vinho, fomos caminhar pelo lado de fora, olhar uma casa que parecia abrigar os escritórios da usina. Lá encontramos um senhor de boné e fumando um cachimbo que veio puxar papo. Ele nos contou toda a história da usina, onde ele trabalhou por quinze anos. Nos disse que da década de 30 até a década de 70, toda aquela região onde hoje se planta uva, era coberta por beterrabas para fazer o açúcar. A concorrência e o corte de subsídios do governo decretou o fim da indústria. Ele contou que a sede foi trazida de Idaho em pedaços e remontada aqui na Califónia na década de 30, e nunca foi reformada. Olhamos através dos vidros da janela e ficamos encantados. Estávamos encantados também com aquele simpático senhor, que eu achei muito parecido com o meu pai, que se apresentou como Joe Sousa, um filho de portugueses da Ilha de Madeira. Ele contou histórias das viagens dele pela marinha durante a segunda grande guerra, que foi quando conheceu asiáticos e africanos que falavam português. Foi uma conversa muito interessante. Eu poderia ficar ali papeando com o Joe Sousa a tarde inteira, mas acabamos por nos despedir, ele—have a great life! e nós—you too!
Acontece frequentemente comigo, porque eu estou sempre obcecada por algum assunto. Ninguém precisa realmente ficar sabendo qualé o babado. Mas essa é outra caracteristica do tipo bitolado: não conseguir ficar calado quando se trata do seu assunto favorito. Anos atrás eu falava sobre blogs para uma platéia paralisada com aquele sorriso amarelo na cara e um ponto de interrogação na testa. Dava pra perceber que estavam todos pensando sériamente, já em estado de pânico, em fugir correndo pra bem longe daquela pessoa que com certeza falava sobre alguma doença infecciosa e contagiosa—blog? coisa boa que não pode ser.
Me dediquei com afinco à fazer um sorvete de baunilha. Não qualquer baunilha, mas a baunilha fresquinha do Taiti, que eu cortei ao meio e raspei, esquentei por uns minutos no melhor creme de leite fresco e orgânico que pude encontrar e deixei em infusão na geladeira até o dia seguinte. Preparei o melhor sorvete de baunilha que pude preparar para levar ao chá de bebê de uma pessoa muito fofa, que vai ter sua filhinha no meio de setembro. Todo mundo levou uma coisinha, comprada ou feita em casa, nem tudo from scratch, mas tudo preparado com amor e carinho. Eu cheguei carregando um cooler com duas variedades de sorvete de baunilha. Não qualquer baunilha, mas aquela baunilha fresquinha do Taiti. Fiz um mais doce, outro menos doce e com a adição de uma colherzinha de chá de pasta de baunilha.
O problema não é o que eu preparo, mas a minha total obsessão por tudo o que eu faço, o que inclui o tal blog de culinária. Estou ficando seriamente tapada. Vejam só, eu só falo sobre COMIDA. Em qualquer encontro ou evento social, lá estou eu falando sobre comida. Eu falo sobre comida até com o meu marido, que não sabe fritar um ovo, mas sorri gentilmente e até dá palpites. Com ele tudo bem, estou em casa. Mas em outros lugares, preciso ir com cuidado, porque eu acabo entediando as pessoas, especialmente as que não cozinham e não estão nem aí pro assunto de comida.
Fui ao chá de bebê e já cheguei explicando que tinha feito um sorvete de baunilha, mas que não era com qualquer baunilha, mas sim a baunilha fresquinha do Taiti. E pra quem fez cara que não entendeu, eu entrei em detalhes: não tinha usado o extrato liquido, mas sim a fava, fresquinha, do Taiti. Depois tive obviamente que frisar que era tudo orgânico e que a receita era do David Lebovitz. As caras que me olhavam enquanto eu descrevia os detalhes sorriam educadamente, mas demostravam sinais visíveis de que o meu assunto não estava fazendo muito sucesso.
Se eu tiver a oportunidade, vou falar abusivamente sobre comida, com detalhes dos ingredientes, dizer que é tudo orgânico—essa parte é imprescindível, e se sobrar tempo vou dizer que a receita está no meu BLOG, um blog de culinária, preciso sempre sublinhar. Se alguém morde a isca e pergunta onde, eu já disparo rapidinha a frase apoteótica—DÁBLIU-DÁBLIU-DÁBLIU CHUCRUTE COM SALSICHA [TUDO JUNTO] PONTO COM.
Desde a semana passada que o servidor que hospeda todas as minhas webpages está apresentando um problema aqui outro ali. Eles não são qualquer zémanés, sempre foram excelentes, mas ultimamente estão me causando um bocado de estresse.
Outro dia eles "quebraram" o mysql, que é a base de dados e os comentários e mecânismo de busca foram pro buraco. Consertaram, okay. Nessa semana outros trelélés. Num deles todas as páginas ficaram fora do ar por quase três horas. Consertaram, okay. E lá veio mais problemas, com lentidão geral nas páginas, impossibilidade de checar ou enviar e-mail. Tá dando nos nervos...
Mas é isso, só uma satisfação pelas cousas estranhas que andam acontecendo por aqui. Vamos torcer pra ser só um trânsito ruim de Mercúrio que vai passar logo....
Muita gente ainda não sabe, mas eu sou uma asídua frequentadora das notáveis thrift stores, as lojas de segunda mão. Já discorri sobre minhas garimpagens AQUI e AQUI. Sempre que posso dou uma passadinha na lojinha dos bichinhos—que é como eu chamo a thrift store da Sociedade Protetora dos Animais. Adoro ir lá. O lugar é uma casinha de esquina totalmente apinhada de cacareco de todos os tipos, onde os vendedores jovenzinhos de visual punk-rebelde nos atendem hora com uma cara simpática, hora com uma atitude completamente blasé. Eu curto ficar ouvindo todo tipo de rock 'n' roll que eles tocam num IPod ou num CD ou K7 player, enquanto faço um rolê pela loja. Vou garimpando por partes—a prateleira das louças brancas, a dos motivos orientais, a do design italiano, do estilo latino, as louças em geral, as panelas, os copos, os talheres, as cerâmicas. Os tesouros que se acha por lá são inacreditáveis. Estou sempre tentando entender qual é o critério que eles usam para colocar os itens à venda e definir os preços. Chego à conclusão que eles devem usar a técnica da roleta russa ou fazem um uni-duni-tê, porque nada faz sentido. Muitas vezes eu vejo peças novas, ainda com a etiqueta da loja colada. Como tudo o que é vendido na lojinha dos bichinhos é doação, imagino o quanto as pessoas são despreendidas, ou fúteis. Estamos num estado rico, mas mesmo assim eu me surpreendo. E volto sempre, que eu não sou boba nem nada. E ainda fico feliz por estar ajudando os animaizinhos.
Uma máteria do New York Times sobre a procura do consumidor por ovos caipira me deixou realmente satisfeita. Não só o consumidor comum decidiu optar pelos ovos das galinhas não-confinadas, não-torturadas, não-turbinadas e intoxicadas, como também os restaurantes das universidades, das redes de hoteis, de companhias como o Google ou dos sorveteiros Ben and Jerry’s. A rede de supermercados Whole Foods, por exemplo, já nem vende mais os ovos das galinhas robotizadas! Iurru! Depois de ler O Dilema do Onívoro, eu não tenho ilusões de que a galinha cage-free leva uma vida exatamente livre, mas qualquer passo em direção ao retorno do curso natural das coisas já é uma vantagem. E no meu modo de pensar tudo funciona de maneira bem simples: nós, consumidores, é que decidimos e direcionamos o mercado. Se ninguém mais comprar certos produtos e começar a comprar uma coisa diferente, o mercado vai ter que se adaptar e mudar. Exatamente o que está acontecendo com os ovos. Eu não me importo de pagar um pouco mais. E ainda prefiro comprar ovos de produtores locais. Escrevo aqui sobre o que acredito e também pratico, o que é o mais importante.
Eu traduzo como "ovo caipira" todos esses termos que defininem os ovos das galinhas não torturadas, à venda aqui nos EUA. Mas há detalhes mais específicos sobre cada um deles. Normalmente eu compro os "free range", "fertile", "certified humane". Definições técnicas para cada tipo de ovo, incluindo o mais conhecido "cage-free", estão listadas neste glossário.
U—exageraram no fertilizante desse tomatão orgânico, hein?
F—esse tomatão não tem fertilizante nenhum, ele é da minha horta.
U—da sua horta? pôoooxaaaa! parabéns!!
Essa receita do pimentão recheado da Tia Dirce, faz parte do arquivo dos primordiios deste blog e é um clássico na minha família. Minha mãe preparou o prato numa das vezes que esteve aqui me visitando. Desde então eu tento replicar, mas apesar de ficar muito bom, nunca consegui fazer os pimentões recheados com o mesmo sabor e textura do original. Mas eu continuo tentando. Minha tia e minha mãe usam o miolo do pão francês. Nessa receita eu usei pão integral. E normalmente os pimentões ficam inteiros, só remove a tampinha. Mas eu fiz aberto, porque esqueci os legumes na última gaveta da geladeira e eles estavam com partes machucadas do armazenamento, então tive que cortá-los.
—I hate Mondays!
—Today's Tuesday..
(((((( happy face )))))))
—I must have overslept.
Pode ser que tenha sido apenas mais uma segunda-feira [treze]. Tudo foi um cansaço, uma dificuldade. Corri pra lá e pra cá no final do dia e quando terminei de lavar e guardar os legumes e verduras da semana, me senti esgotada. Perambulei pela cozinha como uma barata dedetizada por quase uma hora, abrindo armários, geladeira, livros. Procurei receitas, pensei em receitas, me irritei de tanto conjecturar o que vou fazer para o jantar?
Precisava usar muitas espigas de milho, muitas abobrinhas, algumas frutas, alguns queijos. Nenhuma idéia pintava, nenhuma receita agradava. Fui tomada por um imenso vazio existencial culinário e senti vontade de sentar no chão da cozinha e chorar. Leve-se em conta o cansaço do dia, os percalços do trabalho, a perspectiva do inicio da semana, algumas preocupações na cachola, a falta de apetite para comida comprada ou de restaurante, e teremos o exato panorama do entardecer da minha segunda-feira.
Resolvi que iria fazer algo, nem sabia exatamente o que. Mas fui em frente. Descasquei e piquei dois dentes de alho. Refoguei no azeite. Piquei duas abobrinhas e raspei os grãos de dois sabugos de milho. Refoguei com o alho. Salguei. Piquei um mini-pedaço de uma pimenta jalapeño, que foi a atração especial da semana na cesta orgânica. Juntei ao refogado. Desliguei o fogo. Piquei uma xícara de presunto cozido e juntei ao refogado. Piquei um queijo cambozola que tinha na geladeira [ou qualquer outro queijo forte] e incorporei ao refogado. Piquei um punhadinho de ciboulettes e joguei no refogado. Separadamente fiz uma mistura de 2 ovos, 2/3 xícara de leite integral e 1/2 xícara de farinha de trigo. Coloquei o refogado num refratário e joguei a mistura de leite. Assei em forno médio por uns 40 minutos. Servi com uma salada de folhas verdes.
Enquanto o prato de sei-lá-o-que assava, resolvi batizá-lo de I hate mondays quiche. Um nome bem apropriado, pois eu realmente detestoooo esse infame dia da semana.
Me dá um desespero quando vejo qualquer alimento se estragando. Infelizmente isso sempre acaba acontecendo, pois nem sempre conseguimos fazer todas as receitas e usar todos os ingredientes. A situação emergencial desta semana incluia algumas ameixas. Metade delas foram para o lixo, pois já estavam podres ou ressecadas. Outra metade virou uma sobremesa, inspirada nessa receita de Clafoutis do Garrett. Aaah, me senti uma verdadeira heroína, salvando as roxinhas de um destino trágico.
6 ameixas sem a semente e cortadas em quatro
3 ovos
1/3 xícara de açúcar comum ou de baunilha
1 xícara de leite ou de creme de leite [ou uma mistura. usei só leite]
2 colheres de chá de extrato de baunilha
1 pitada de sal
1/2 xícara de farinha de trigo
Açúcar de confeiteiro para polvilhar
Pré-aqueça o forno a 350ºF/ 180ºC. Unte um refratário com manteiga. Eu usei forminhas pequenas. Distribua as ameixas na forma/ forminhas. Jogue um pouco do açúcar por cima das frutas.
Numa vasilha separada bata bem os ovos com o açúcar. Adicione o leite, o extrato e o sal e bata bem. Adicione a farinha peneirada e bata ate ficar bem incorporado. Coloque o liquido na forma/forminhas com as ameixas. Asse por mais ou menos 40 minutos. Como eu fiz nas forminhas, assou mais rápido. Polvilhe com o açúcar de confeiteiro. Sirva morna ou fria.
De agora em diante ela vai tomar conta das galinhetes que habitam a minha cozinha. Uma fofa, adorei o vestidinho. E já falaram—olha, ela até parece com voce!
Fomos até San Francisco para encontrar a nossa amiga Patricia, que morou aqui em Davis no ano passado e está agora nos EUA a trabalho. Além de rever uma pessoa tão querida, passamos uma tarde super agradável na cidade. Almoçamos no Samovar Tea Lounge, que era um lugar que estava na minha lista de places to go in San Francisco. O dia estava lindo, o que significa que não precisamos de cachecol, apenas um casaquinho de veludo deu pra segurar o vento. Eu teria optado por ficar no pátio, mas o Uriel e a Patricia preferiram ficar protegidos dentro do restaurante. O lugar é bem pequeno, no terraço no Yerba Buena Gardens. Nós sentamos numa mesa com banco cheio de almofadas e fizemos nosso pedido. Eu estava desembaraçada tirando fotos, o que é bem incomum. Eu tenho uma timidez um tanto irritante, que me limita pacas nesse negócio de tirar fotos em público. Mas eu estava felizona no click-click-click, quando o manager veio gentilmente me avisar que não era permitido tirar fotos no local. Fiquei espantada! E mais quando chegou o chazinho na bandeijinha de madeira e finalmente a comida, numa entrada triunfal. Estava tudo tão incrivelmente lindo, que num gesto de descarada ousadia eu chamei o manager e praticamente implorei pra ele me deixar tirar uma foto. Meu plá não colou e tive que me resignar e deixar a câmera dentro da bolsa. O rapaz foi extremamente gentil e me explicou que eles preferem que as pessoas não vejam fotos da comida, pois querem que a experiência no Samovar seja de surpresa. Realmente, ficamos com umas caras abobalhadas quando a comida chegou à mesa, pois tudo estava visualmente lindo, além de saboroso.
O Uriel pediu uma sea food bento box e um chá delicadíssimo de gengibre com laranja. A Patricia pediu o Russian tea service, que veio com panqueca [blinni] de truta defumada, russian tea egg com caviar, bergamot bread pudding, frutas frescas e lapsang souchong chocolate trufle, acompanhado de chá russo que ela mesma encheu a xícara no samovar prateado [*foto]. Eu pedi o Moorish tea service, que veio com chá de hortelã, grilled halloumi kebabs, mini mint salad, dolmas e azeitonas pretas secas, e tâmaras medjool recheadas com queijo de cabra.
Depois do almoço passeamos um pouco à pé pela cidade, e depois fomos ao Ferry Building Marketplace, que é sem dúvida um dos meus pontos favoritos em San Francisco. Fizemos comprinhas e nos deleitamos com os delicados macarons parisienses feitos à moda californiana, com ingredientes orgânicos e locais.
Para estrear o The Perfect Scoop do David Lebovitz que ganhei da querida Bri, decidi fazer a receita do sorvete de damasco seco com pistacho. Adoro esses dois ingredientes e acho que eles casam muito bem. Como o Lebovitz relata, os damascos secos da Califórnia são imbatíveis e foi o que usei. Também os pistachos são californianos. Aliás, o assunto aqui em casa agora é pistacho, já que o Uriel já está passando dias lá na fazenda dos dito cujos, preparando a maquinaria que vai ser testada durante a colheita. O sorvete ficou divino pro meu gosto, com a acidez adocicada da fruta misturada com a crocância dos verdinhos. Mas não foi sucesso absoluto de público e crítica, pois alguém não gostou e não comeu. Azar o dele, sobrou mais pra mim!
Dried Apricot-Pistachio Ice Cream
140 g/ 5 ounces de damascos secos cortados em quatro
[use os da California, se for possível]
3/4 xícara / 180 ml de vinho branco, seco ou doce
1/2 xícara / 70 g de pistacho sem a casca
2/3 xícara / 130 g de açúcar
2 xícaras / 500 ml de half-and-half *creme de leite diluído
Algumas gotas de suco de limão fresco, espremido na hora
Numa panela coloque os damascos picados e o vinho. Deixe cozinhar por 5 minutos, desligue o fogo, tampe a panela e deixe descansar por mais ou menos uma hora. Pique os pistachos com uma faca.
Bata os damascos no liquidificador com o açúcar, half-and-half e suco de limão. Deixe a mistura gelar um pouco e então coloque na sorveteira. Quando o sorvete já estiver cremoso, adicione os pistachos picados.
Peguei essa receita de mousse de chocolate no jornal Folha de São Paulo. Gostei dessa versão, que eles chamam de "light", por não conter as gemas, mas sim as claras de ovos. Resolvi experimentar. É um doce que vai agradar muito aos chocólatras e que de light só tem o nome. Achei bem forte e não consegui comer nem um potinho inteiro. Tem que ser servido com frutas frescas, pra contrabalançar a robustês do chocolate. Usei uma barra de Lindt 85% cacau e não coloquei as raspas de laranja, pois elas estavam na lista de ingredientes, mas não apareceram no modo de fazer, portanto eu deixei passar. Mas acho que as raspas adicionariam um toque elegante extra. Como fiquei com medo de misturar o chocolate nas claras muito vigorosamente, o mousse ficou com brancos do suspiro visíveis. Mas não comprometeu em nada o sabor, só o visual que ficou funky.
Mousse de chocolate
Tempo de preparo: 20 minutos, mais 2 horas para resfriar
Rendimento: 4 porções
100 g de chocolate escuro [com, pelo menos, 70% de cacau] quebrado em pedaços
3 claras de ovos
1/2 colher de chá de vinagre de framboesa ou de maçã
100 g de açúcar de confeiteiro
raspa da casca de 1 laranja
morangos ou framboesas, para decorar
Ponha o chocolate em uma vasilha refratária, sobre uma panela de água fervente. Aqueça-o até que derreta, mexendo de vez em quando.* pode derreter no microondas também.
Misture as claras de ovos, o vinagre e o açúcar em uma vasilha refratária, colocada sobre uma panela com água começando a ferver. Bata a mistura com uma batedeira elétrica de mão, por 5-8 minutos, até que fique firme. * não deixe a água ferver, nem a vasilha encostar na água—esse processo vai cozinhar as claras, o que é muito importante [lembrem-se da odiosa salmonela!]
Tire as claras em neve do fogo, depois misture com cuidado o chocolate derretido, até que fique homogêneo. Coloque em 4 forminhas. Deixe esfriar, depois refrigere por, pelo menos, 2 horas. Decore com os morangos e sirva.
O bacalhau salgado é uma iguaria cara e não muito comum por aqui. Mas o bacalhau fresco é abundante. Então decidi fazer uma bacalhoada fresca. Não fica a mesma coisa, mas quebra um galho e ajuda a amansa as lombregas, que já ouviam um fado e bebericavam vinho verde por antecipação da comilança.
Fiz no fogo. Numa panela de ferro coloquei uma camada de cebola em fatias finas, uma camada de batata em fatias finas, dois filés de bacalhau [Rock cod] temperados com sal marinho e pimenta do reino moída, por cima do peixe mais uma camada de cebola, outra de batata, uma camada de pimentão verde em fatias finas e azeitonas pretas. Salpiquei um pouco de sal e pimenta e reguei com bastante azeite. A panela tampada ficou em fogo médio por uns 15 minutos.
Quando me dá aquela vontade de comer algo gostoso lá pelas três da tarde, eu caminho até a Coffee House da UC Davis e invisto $1.25 numa fatia de bolo. Não é qualquer fatia de bolo, mas um bolo, aquele bolo, o bolo especial, que pra mim é bem parecido com o bolo feito em casa—feito por alguém com mão boa pra fazer bolo. Eles não têm nada de especial, são branco, com poppy seeds, ou com limão, com purê de maçã, de chocolate, receita especial da tia de alguém, sempre com uma cobertura de açúcar e manteiga, que eu cuidadosamente romovo com o garfo antes de comer. Eu adoro esses bolos, porque eles são feitos from scratch pelos estudantes que trabalham na Coffee House, com ingredientes locais e fresquinhos. Pra mim é sem dúvida o melhor bolo da cidade! A Coffee House tem um profile bem interessante, pois é administrada por estudantes, que fazem de tudo, desde organizar o cardápio, fazer a comida e vendê-la diáriamente para os milhares de outros estudantes que passam por lá. A CH consome toneladas de ingredientes fresquinhos adquiridos de business locais. A fazenda da UC Davis, onde eu pego meus legumes e verduras orgânicos semanalmente, é um dos fornecedores.
A hora do bolo é uma hora auspiciosa. Caminho até a Coffee House, escolho o bolo, volto caminhando, removendo a cobertura e devorando o bolo fofinho e macio, no mais popular estilo dos pratos ambulantes. Quando chego no meu prédio, com o prato vazio, apenas o garfo e o creme da cobertura amassarocado num canto, estou feliz, extremamente feliz!
Foi uma recepção matinal muito mais simpática, com o meu novo IMac me esperando. Ele é um pouco maior que o meu velho-surrupiado, portanto vou poder me espalhar mais. O porém é que apesar de todos os files terem sido restaurados, algumas preferências se perderam e passei a manhã colocando tudo no lugar. Tive que trocar alguns passwords e foi mais trabalhinho chato. Eu sou daquele tipo acomodado, que deixa tudo salvo pra nãoo precisar me preocupar. Bom, hoje tive que rebolar um pouquinho. Felizmente tenho ajuda de uma técnica e de um programador, e aos poucos voltarei à rotinazinha de sempre.
Fomos ao restaurante italiano com os dois casais de professores espanhóis. Foi interessante ouvir os comentários deles sobre a comida. Sem empáfia nenhuma, somente com aquele conhecimento de quem viaja muito, por ter mais facilidade para viajar. Nós, habitantes do vasto continente americano, ficamos embasbacados com a possibilidade de dirigir por algumas horas e mudar de país. Aqui levamos o mesmo tempo para cruzar um estado. Os espanhóis podem facilmente comer comida italiana na Itália, o que é bem diferente de comer comida italiana aqui. Mas eles gostaram, overall. Eu sugeri um vinho zinfandel para acompanhar as massas, somente porque é uma variedade muito comum na Califórniai. Na hora da sobremesa, invés de pedir aqueles doces meia-boca de sempre, resolvemos pegar doces caprichados do Ciocolat e degustá-los em casa, acompanhado de alguma bebida. No meu esquemão, já fui sugerindo um café, um chá? As caras não disfarçaram um muxoxo. Ah, mas vamos tomar um Porto. As faces alegraram-se. Bebericaram Porto , Amarula e Pinga de Banana. Eu fui de Pastis e o Uriel de Ginger Beer [ele não bebe mais álcool]. Um encontro assim animado, no meio da semana, não é muito comum. Conversamos muito, o Roux tentou fazer amizade com todos, até com quem disse na bucha que não gostava de gatos [taí a prova de que ele é uma criatura não muito inteligente]. Falamos até de política. O casal mais velho chegou em Davis pra fazer seu doutorado durante o Summer of Love—quarenta anos atrás. Ele nos contou algumas coisas engraçadas. Depois confessou que tinha três detalhes no seu currículo acadêmico dos quais ele não se orgulhava muito.
—meu diploma de graduação assinado por Francisco Franco; meu diploma de mestrado assinado também pelo Francisco Franco; e meu diploma de doutorado assinado pelo Ronaldo Regan!
—Ha Ha Ha Ha!
—Salud! Tin-tin! Cheers!
Cheguei no trabalho às oito da manhã e a policia já estava no prédio. Criminosos adentraram o recinto e levaram o meu computador, o da jornalista e o do estagiário—os três IMacs sem torre e portanto fáceis de carregar. Tudo meu lá dentro, trabalho e pessoal. Eu já tinha sido avisada que iria ganhar um computador novo, com monitor maior e mais memória, mas nao seria hoje. O roubo só apressou o processo. Estou usando um MacBook, onde não tenho nada e ainda estou completamente perdida. Até a tarde tudo estará resolvido, mas o gosto amargo de ter sido roubada permanecerá por um tempo. A Universidade da Califórnia está revendo e implementando medidas de segurança mais rígidas, porque esse tipo de roubo tem acontecido com certa frequência.
* amanhã cedo já terei meu computador novo, com tudo o que tinha e que preciso dentro. felizmente, os meliantes praticaram o furto depois do back up semanal do sistema, então tudo vai ser facilmente recuperado. senão eu teria perdido parte do trabalho que fiz nesta semana. isso sim iria ser um pêoherreerreêh.
** o mundo está se brutalizando e trancar virou imposição.
Foi um montão de blueberries, raspas de limão, Limoncello, o licor de limão italiano, açúcar demerara e creme de leite diluído, o half-and-half. Mesmo assim não empolgou. Por quê? Não sei. Pra mim pode ter sido as blueberries, porque não acho que elas são o fino da bossa, muito pelo contrário. Acho essas frutinhas muito das sem graça. Também pode ter sido o half-and-half, que não ajudou a dar corpo ao sorvete. Deu pra comer—como diz o meu marido, mas não nos arrebatou em entusiasmo, não nos fez murmurar hmmms e owhhhs. Houve um momento de silênco, mas foi de constrangimento: devo confessar que não gostei? Mas a cor ficou linda, uma coisa toda violeta, bem ornamental.
De posse das receitas do David Lebovitz, agora ninguém me seguuuuura!
Super obrigada, querida Brisa! êba, êba, ôba!!
Inspirada por um dos meus sabores favoritos do Aisu Pop—abacate com limão, meti as caras em mais uma aventura na terra da fruta congelada. Pois primeiro preciso dizer que tive um momento Alton Ego quando dei a primeira mordida naquele sorvete verde, naquele sábado ensolarado, enquanto caminhava pelo Farmers Market. O creme de abacate com leite ou limão é um dos sabores da minha infância. Virava e mexia, tínhamos o creminho de sobremesa. Eu gostava mais da versão com limão e mais tarde descobri que eu poderia misturar os dois. A cremosidade do leite com o azedinho do limão. E foi isso que fiz, bati um creme bem grosso com dos abatates da variedade Hass, leite integral, açúcar demerara e suco de um limão. Depois foi só colocar na sorveteira. Ficou ri-di-cu-la-men-te BOM. Desta vez ninguém reclamou nem botou defeito em nada. Apreciamos a sobremesa em total silêncio. Colheradas e mais colheradas de sorvete de abacate, até as lambidas finais. The End.
Assumo o fato de que estou ficando monótona e daqui a pouco vai ter gente rindo de mim lá no Rio de Janeiro. Mas tudo bem, estou mesmo aficionada por essa geringonça de fazer gelados. Tenham paciência, daqui a pouco começa a esfriar, eu compro outro badulaque, desvio a minha atenção e mudo finalmente de assunto. Por hora, firme na prancha, que tem mais ondas de sabores chegando!
Reunir é bom, aproxima mais os colegas de trabalho, especialmente porque estamos divididos em dois grupos e sitiados em locais diferentes. No meio do campus fica o pessoal da web, onde eu me incluo. E no que chamamos de fazenda, fica o pessoal da publicação, os escritores técnicos, que preparam todo o material que sustenta o website. Por isso temos uma reunião bimestral, que eu estou incumbida de organizar, quando podemos nos sentar para discutir os pequenos enroscos dessa transição do papel para a web. O negócio é que eu peguei uma total antipatia desse evento. Fico tremendamente exausta com os debates extra-super-micro-hiper minuciosos sobre coisas muitas vezes óbvio ululantes pro grupo da web, mas que pro pessoal da publicação é um bicho de sete cabeças. Uma das escritoras é especialmente chata. Ela me causa temor, porque é sempre a do contra, a que acha entrave nas situações já resolvidas e tem as dúvidas mais non sense. A reunião for desmarcada duas vezes por causa dela. Quando finalmente nos sentamos em volta da mesa da sala de conferências, ela já foi avisando que detestava esses encontros matinais e por ter madrugado, desculpava-se, mas teria que tomar seu café ali mesmo na nossa frente. Eu já fiquei de cabelo em pé—ela vai comer durante a reunião? Essa é uma atitude muito comum nos ambientes de trabalho aqui na norte América, mas eu não consigo tolerar nada mais que xícaras de chá, garrafas de água ou latinhas de diet Pepsi. Por ser uma estressadinha, já fui acumulando uma irritação extra, pela iminência dos sluuuurppp, sleeeerrp, crackcrokcrunck e shurrrllffppff durante as discussões infinitas. Meu ânimo, já sóbrio, submergiu num crescente e desgostoso pesar.
Acho que ninguém realmente reparou. Só mesmo eu, porque estava de olhão em cada movimento, me preparando para o pior. Ela tirou uma garrafa térmica enorme de dentro de uma bolsa que estava no chão e encheu uma caneca também térmica com café num movimento quase tão gracioso como o de um balé. Não se ouviu um "chi". Depois, num movimento ainda mais discreto, que nem eu que estava olhando vi, uma vasilha de plástico apareceu sobre a mesa. Nela, uma boa quantidade do que eu concluí ser iogurte natural misturado com pedaços enormes do que me pareceu ser pêssego—eu tentava não encarar muito. Uma colher saiu de não sei onde e ela fez seu desjejum durante a reunião, sem chamar a atenção, sem fazer barulho, sem se lambuzar, sem sujar nem respingar nada, nem falar com a boca cheia de comida, nem mesmo o batom cor de chocolate perdeu o brilho. Tudo muito impecável, com muita classe e finesse, num comportamento exemplar de comer em público.
*Se outros pudessem seguir esse bom exemplo....
Usei um pedaço de skirt steak, que não é a carne mais adequada para esse tipo de cozimento, pois ela é muito dura. Mas foi e pronto. Não ficou incomível, mas com uma carne mais macia teria ficado muito melhor. Mas o principio é esse—a carne temperada com sal grosso e pimenta, um fio de mostarda amarela, fatias do melhor bacon, rodelas de cebola, bananas cortadas ao meio, folhas de manjericão. Enrola, amarra, frita dos dois lados na panela de ferro, joga vinho tinto e um pouco de molho inglês, põe em forno médio com a panela tampada. Depois de uns 30 minutos, destampa e assa por mais uns 40 minutos, ate o molho ficar bem reduzido e a carne bem tostada. Servir acompanhada de arroz branco.
No verão passado eles me prepararam um banquete no forno solar. Neste ano combinamos um chá da tarde, para eu poder provar um delicioso nectarine cobbler assado no calor do sol. Os fornos solares estão ficando muito populares e são incrivelmente eficientes. Eu tinha planejado comprar um, mas me resignei quando percebi que meu quintal tem muita sombra das árvores e que eu precisaria de uma persistência de maratonista para conseguir cozinhar nele. Mas meus amigos moram num sítio e têm espaço ensolarado abundante, o que propicia um prolifico uso dessa engenhoca genial. O forno atige a temperatura de 400ºF/205ºC e cozinha mesmo! Com os verões tórridos que temos por aqui, é legal poder aproveitar esse calor natural e economizar gás e eletricidade. O cobbler ficou delicioso. Devoramos acompanhado de um sorvete de nectarinas que eu levei e uma caneca de chá.
Tive a idéia fazendo o almoço e concretizei o experimento no jantar. Eu tinha certeza que ele iria detestar. Ao som de rufos de tambores imaginários ele pegou um naco com a pontinha da colher, degustou e deu o veredito:
—dá pra comer!
E pegou outro naco, um pouco maior, que colocou no potinho e comeu sem muito entusiasmo. Já eu não conseguia parar de devorar o meu saboroso sorvete de milho verde. Quisera ter usado o milho amarelo, mas com o branco também ficou bom. Era exatamente o que eu queria e esperava. Comi um tanto a mais do que a boa educação à mesa manda e ainda lambi a colher.
Sorvete da pamonha
2 sabugos de milho verde
1 xícara de buttermilk
1/2 xícara de leite integral
3 colheres de sopa de açúcar demerara
1 pitada de canela moída
Cozinhe e milho na água, escorra e remova os grãos com uma faca. Bata os grãos cozidos no liquidificador com os outros ingredientes. Coe tudo por uma peneira fina e coloque o liquido na sorveteira. Eu não usei muito açúcar pois o milho daqui já é bem doce, mas isso fica a critério do freguês. Pra mim esse sorvete ficou perfeito. E pra ele deu pra comer!
Cozinhei nectarinas com açúcar demerara e uma fava de baunilha em fogo baixo. Servi assim, com uma bolota de creme fraiche. Monsieur U. Ego disse que ficou bom, muito bom!
Que tal uma salada cujas sobras podem virar um antepasto? Corte uma berinjela em fatias grossas, tempere com azeite e sal grosso e asse na churrasqueira, forno ou na grelha. Essa parte pode ser feita um dia antes, como eu fiz, aproveitando o espaço na churrasqueira enquanto fazia uma carne para o jantar. No dia seguinte, ou depois que esfriar, corte as fatias da berinjela assada em tiras e coloque numa saladeira. Corte fatias finas de uma abobrinha amarela pequena e meio pimentão vermelho. Misture bem, jogue umas azeitonas pretas, tempere com sal grosso, pimenta do reino, azeite e vinagre de cidra ou de vinho. Jogue um punhado de salsinha fresca picada e misture. Sirva. As sobras vão pra geladeira e no dia seguinte, você já sabe.
1 xícara de creme de leite fresco
1/2 xícara de leite integral
2/3 xícara de açúcar
misture bem com o batedor de arame. Acrescente:
1 colher de sopa de raspas de laranja
1 colher de sopa de licor Grand Marnier
1 xícara de framboesa * usei as frescas
Misture bem e coloque na sorveteira. Neste caso eu quis inovar e coloquei as frutas inteiras. O sorvete ficou extremamente pedaçudo e you-know-who não curtiu muito. A opção é bater a framboesa e o leite no liquidificador e coar, para livrar-se das sementes.
Colhi três bacias dessas cheias de nectarinas. Agora a árvore está pelada e vai precisar ser podada. As frutas foram distribuidas e as que sobraram virarão doce, sorvete, torta. Teremos mais no ano que vem.
Querido diário,
Ontem foi um dia estranho. Aliás anteontem também foi um dia estranho, ou melhor, muito mais estranho. Estive muito ocupada no trabalho e no meio da tarde uma dor de cabeça que estava me rondando me pegou de jeito. Tive que sair mais cedo e ir pra casa descansar no quarto escuro. Depois fui cortar e pintar o cabelo, pois eu já estava com aquela cara de mulher louca do saco e era preciso tomar providências urgentes. Minha beleleira é um amoreco. Ela é dois anos mais nova que eu e já é avó, foi padeira, masca chicrete, tem um corte de cabelo super funky, me chama de "honey" e me dá abraços na hora de ir embora. Além do que ela sempre faz o que eu peço—e somente o que eu peço. Me fez massagem na cabeça e usou aqueles produtos aromaterápicos da Aveda. Até melhorei um pouco da dor de cachola. Depois fui buscar o Uriel no trabalho e enquanto ele me contava as novidades do dia e o desenvolvimento das notícias que tivemos nesta semana, eu dirigi como barata tonta por downtown, passando várias vezes pelo mesmo lugar e perguntando—onde você quer comer? Detesto quando ele faz o empurra-empurra respondendo—você que escolhe. Eu não tenho estrutura astrologica pra escolher nada! Parei por acaso em frente a um restaurante tailandês. Davis tem uma abundância de restaurantes asiáticos. Só de tailandeses tem uns seis. Então esse tipo de comida não é especial, nem excitante pra mim. Já passei de fase de achar bacana, agora só acho normal. Carne-de-vaca, como eu diria pro Moa poder rolar de tanto rir. Pedimos uns wontons fritos, que vieram com uma salada de pepino com um molho vermelho cheio de alho cru—todos aqui já sabem da minha ojeriza por alho cru. Resolvi pedir um especial do dia, que era um curry de abóbora com camarão. Eu raramente peço curry no tailandês, mas dessa vez resolvi arriscar e não me arrependi. O curry era vermelho, com leite de coco, camarões, pedaços de abóbora que foram incorporados no molho, abobrinha, cenoura e manjericão. Acompanhou um arroz jasmine. Nós sempre comentamos esse detalhe rindo, pois o arroz vem numa sopeira prateada cheia de rococós com a colher também prateada combinando, e olhando de longe dá aquela impressão de coisa linda e fina. Mas quando a sopeira chega na sua mesa, a decepção é aparente na cara de todos—ela é feita de plástico! O Uriel pediu camarão com gengibre e deve ter gostado, pois comeu tudo. Sobrou metade do meu curry, que o garçon empacotou e vou comer hoje no almoço. Não pedimos sobremesa. Eu não consegui beber todo o meu thai iced tea. Fomos pra casa, onde os gatos nos esperavam na cozinha. O Uriel voltou pro trabalho, como ele sempre faz. Eu tomei mais 800 mg de ibuprofen, um banho e fui pra cama. Um filme antigo, dança, sapateado, vestidos esvoaçantes, dou risada das piadas, viro de lado de costa pra tevê, fecho os olhos..."beautiful music...dangerous rhythm, you kiss while you're dancing, it's continental, ooh, it's continental, you sing while you're dancing, your voice is gentle and so sentimental.." ZzZZzzzzz.
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Fotos da maravilhosa fotógrafa norte-americana Berenice Abbott, que eu peguei num blog sobre cinema da era pré-código [antes de 1934] que eu adoro. Os detalhes dessas fotos é o que mais me fascina. Me encanta olhar o cotidiano do passado através da comida, dos hábitos alimentares, dos preços, dos ingredientes, pormenores que fazem uma grande diferença, pois muitos deles não existem mais, nem são mais praticados. Eu assisto muito filme antigo—mind you, estou ali na fronteira da obsessão, quase em território freak, e tenho o costume de observar as minúcias das roupas, cabelos, sapatos, mobília, ruas, lojas, restaurantes e o que as pessoas estão comendo em cenas de comida. Fico tão compenetrada nessa esmiuçação que muitas vezes deixo de prestar atenção nos diálogos. Num filme de 1933 chamado Double Harness, que eu já revi 567889 vezes, os protagonistas William Powell e Ann Harding estão num restaurante num dos piers do Porto de San Francisco e estão tomando um clam chowder, que é uma sopa de mariscos muito típica e que até hoje se pode tomar na cidade. Fiquei tentando reconhecer o lugar, mas convenhamos que setenta anos passados é muito, muito tempo...