Manga e banana são frutas que não têm produção local, então tenho que me contentar com as que vêm de longe. Sempre que vejo as mangas mexicanas expostas nos supermercados, lembro de uma amiga suiça imigrada para o Canadá que rolava os olhos quando eu reclamava daquelas mangas sem gosto, que tinham viajado milhares de quilômetros até chegar nas nossas mesas. Mas tudo mudou depois que ela e o marido fizeram a viagem da vida deles ao México. Passaram meses planejando. fizeram jantares para nos mostrar os mapas, o etinerário, os planos. Depois fizeram outros jantares para mostrar as fotos, contar as histórias e aventuras. Eles voaram até Los Angeles e depois dirigiram pelo México, fazendo visitas à lugares não turísticos, tudo planejado e estudado, com engrenagem e desempenho de um relógio suiço. Num dos jantares depois da viagem ela virou-se pra mim e disse—agora eu entendo o que você queria dizer quando reclamava das mangas sem gosto. pela primeira vez na vida eu provei uma manga de verdade lá no México e realmente, aquelas de lá não tem comparacão com as que compramos aqui! Minha amiga teve uma epifania gastrônomica comendo uma manga no México.
Por isso nunca espero muito das frutas que vêm de outros países, seja porque estão fora de estação ou porque não há producão. Mas quem resiste à uma receita de sorvete de manga, como essa, perpetrada pela Neide? Não quis nem saber se a manga era a mais perfeita ou não. Fui em frente! Modifiquei um pouquinho a receita, só para não perder o hábito.
Bati no liquidficador a polpa de duas mangas, algumas sementes de cardamomo [que esmaguei no pilão primeiro], mais ou menos uma xícara de kefir e adocei com nectar de agave. Coloquei na sorveteira e voilá! Tá dificil parar de comer esse sorvete, tive até uma série de dolorosos brain freezes, tal a minha esganação.
Toda vez que come a minha comida, ela exclama com seu pesadíssimo sotaque de norueguesa—this is GOOD stuff! Ela nasceu no pós-guerra e cresceu num país pobre, onde o treat de Natal era uma maçã. A Noruega não foi rica até a década de 70, quando descobriram que o país tinha óleo e então tudo mudou. Mas no tempo dela as coisas eram diferentes. O pai tinha uma padaria, onde ela aprendeu a fazer contas e administrar orçamentos. Assim ela cresceu, com aquela noção de conservar, juntar, economizar, guardar a água que cozinhou as batatas pra fazer sopa, fazer caldo com os ossos que sobraram do frango assado. Bem diferente de como eu fui criada, com fartura, sem poupança, minha mãe ajudando os pobres invés de guardar dinheiro pra comprar casa na praia, meu pai dizendo mais vale um gosto que um tostão no bolso, num lugar rico em agricultura, com frutas e legumes abundantes, muito solo, muita água, o slogam do país do futuro. Eu nunca pensei em imigrar. Aconteceu. Ela decidiu e imigrou sozinha, ainda bem jovem, em busca do sonho na América. Hoje somos meio família e quando eu cozinho ela comenta bem alto—this is GOOD stuff! Porque realmente é. Ela é quantidade, estoque de lataria na garagem, compras em bulk no Costco. Eu sou qualidade, bons ingredientes escolhidos à dedo para alegrar o paladar. A comida dela é okay, mas a minha—sem falsa modéstia, é realmente GOOD STUFF!
Pelo jeito não fui a única inspirada pelo video da Alice Water no NYT. Na mesma semana tive que fazer uma saladona de legumes com o molho de maionese que aparece no final da video-reportagem, com uma inspiradora trilha sonora de "hmmms" e "ooowws" no background.
A minha salada, que devorei sozinha assistindo filme e sorvendo um vinho espanhol que ganhei de presente, fiz assim:
Num prato grande ajeitei separadamente folhas verdes de salada, um talo de salsão ralado bem fininho, dois tomates cortados em quatro, batatas e cenouras cortadas em cubos e cozidas no vapor, algumas azeitonas pretas, uma latinha de atum espanol preservado no azeite [o melhor que você puder achar–nada desse atum horrorpilântico de 0,99 cents], três ovos cozidos que eu só como a clara, e usei as gemas cozidas para fazer a maionese.
A maionese foi inspirada no aioli da Alice Waters, então abri uma exceção para o alho, mas usei um dente minúsculo, porque não quis arriscar os efeitos colaterais. Num pilão amassei bem o alho com sal marinho grosso e um pouquinho de pimenta do reino moída na hora. Numa vasilha pequena coloquei as gemas, que amassei muito bem com um garfo, suco de limão, uma colherzinha de mostarda dijon, adicionei o alho moído com o sal e pimenta, misturei muito bem com o batedor de arame e fui adicionando um azeite espanol orgânico, batendo vigorosamente, até os elementos se incorporarem e o molho virar um creme. Joguei sobre a salada e devorei, acompanhado por uma fatia de pão fresquinho, que ajuda a coletar e não desperdiçar nenhum pingo do molho. Outstanding!
O dia se dispersou, turvo pelo sofrimento imposto por uma famigerada dor de cabeça. Assim que a hora do jantar se avizinhou, veio o telefonema e a fatídica pergunta—você quer que eu pegue uma sopa lá no Nugget?
NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!
Você já sofreu todas as indignidades e frustações de passar o dia desmilinguida e incapacitada, e merece—digo MERECE, uma refeição decente. Mesmo que você mesma, convalescente, tenha que preparar. Dá licença. Foi assim então que jantamos a sopa de lentilha mais simples que se pode preparar.
1 xícara de lentilha lavada e escorrida - usei a beluga, que parece um caviar
1 litro de caldo de legumes
1 cenoura picada em cubinhos
1 talo de salsão picado em cubinhos
Casca de queijo parmesão cortada em cubinhos - aquela parte dura que não rala mais
Óleo vegetal para refogar
Sal a gosto
Cibouletes picadinhas.
Refogue a cenoura e salsão no óleo. Quando os legumes estiverem molinhos, adicione a lentilha. Refogue uns minutos, adicione o caldo de legumes, deixe cozinhar em fogo médio. No final acrescente os cubinhos de queijo e acerte o sal. Antes de servir jogue as cibouletes. Sirva com pãozinho torrado.
Vou ao banheiro muitas vezes durante o dia. Indo ou voltando, penso na maioria das coisas que escrevo aqui. Vou porque bebo muita água. E faço caretas, espirro, limpo o nariz, cruzo as pernas, suspiro, bocejo e bufo. Isso herdei do meu pai. Quando estou concentrada em algo que não está dando certo, eu bufo. Depois que me toco que tem gente em volta, vendo e ouvindo minhas bufadas. Estou zumbi porque não dormi muito bem. Sonhei, acordei, chorei, fiquei com uma cara de pinguça. Tive uma senhora dor de cabeça. Vesti um macacão jeans e uma blusa branca, porque ouvi alguém dizer que um blues man se vestia assim, todo dia. Eu não sou um blues man, mas gosto de pensar que sou. Estou preocupada, eu sou assim, me preocupo e sofro por antecedência, fico nervosa, estressada, me acabo. Depois tudo dá certo, ou nada acontece e eu fico com aquela cara abestalhada, sorrindo com todos os meus dentões. E choro de alivio, de alegria. Mas sempre choro, disso eu não escapo. E esquento a moringa, me chateio. O dia nublou quando eu fiquei sabendo da morte do cachorro. Nada escapa, nada passa batido. Sou preguiçosa. Queria ter aquele pique de atleta, correr uma maratona, escalar uma montanha, esquiar. E saber fazer analises, me meter a escrever uma tese de doutorado, mas isso não seria uma boa idéia pois às vezes me arrependo ou tenho vergonha do que escrevo. E sou impaciente e imediatista, quero tudo agora, escrever agora, publicar agora, ler agora, fazer agora, chegar agora, acabar agora.
No dia 24 de maio de 1976 o inglês Steven Spurrier, um distribuidor internacional de vinhos, organizou uma degustação com olhos vendados de vinhos franceses e californianos. Ele estava muito interessado em conhecer mais os vinhos que estavam sendo produzidos na América e descobrir se eles tinham a mesma qualidade que os melhores do mundo. Os vinhos franceses servidos nesse evento foram os red Bordeaux e os white Burgundies que competiam contra os Cabernet Sauvignons e Chardonnays da Califórnia. Os juizes convocados para esse dia, todos franceses com credenciais profissionais impecáveis, estavam absolutamente certos da superioridade do vinho francês. Enquanto degustavam, faziam comentários jocosos como—esse só pode ser californiano, pois não tem buquê. E faziam elogios rasgados aos vinhos que pensavam ser franceses. Para a surpresa geral, quando o resultado foi revelado, os vinhos criticados como californianos eram franceses e os elogiados como sendo franceses eram californianos. Não só isso, mas os melhores vinhos escolhidos pelos juízes eram os da Califórnia. O resultado provou que os vinhos da Califórnia eram tão bons quanto os da França. Armou-se um forrobodó! Conta-se que os juizes tiveram peripaques histéricos. Mas tarde, um dos vinicultores californianos recebeu cartas iradas de produtores franceses dizendo que o resultado da degustação foi apenas um acaso de sorte, pois "todo mundo sabe que os vinhos franceses são e sempre serão melhores que os californianos". Os jornais Le Figaro e Le Monde publicaram pequenas notas sobre o evento meses depois, declarando que o resultado não poderia ser levado à sério. Defensores dos franceses argumentaram que seus vinhos envelheceriam melhor que os concorrentes e outras degustações com olhos vendados foram feitas ao longo dos anos, sempre com os mesmos resultados, os californianos na frente. O episódio de maio de setenta e seis ficou conhecido como o Julgamento de Paris e mudou a mentalidade da comunidade enóloga, derrubando o grande mito de que o único vinho realmente bom era o produzido em território francês. A Califórnia fez bonito e brilhou, nessa mais que incrível virada, totalmente luxo, poder e cobiça. Essa foi sem dúvida a melhor história que eu li nos últimos tempos.
Estou lendo esse livro há meses. Primeiro decidi que iria emprestar da biblioteca, invés de comprar, como eu sempre faço. Peguei uma cópia da biblioteca da UC Davis e renovei até chegar no meu limite de renovação. Eu leio tudo muitro devagar, pois não tenho tempo pra sentar e matar um livro num ou dois dias. Leio geralmente antes de dormir e gasto muitos meses lendo aos pouquinhos, pulando de um livro para o outro. Por isso eu sempre opto por comprar, assim posso ler com sossego. Mas com The United States of Arugula, eu até que tentei, mas não deu. Quando finalmente tive que devolver o livro, que consegui ler só até a metade, decidi largar mão de ser tonta e fui até a livraria comprar o meu exemplar. A versão em paperback tem uma capa diferente da versão de capa dura. Gostei muito mais dessa com os mitos da culinária norte-americana reproduzindo a cena clássica da Santa Ceia.
O livro é um must have. Estou demorando pra ler também, porque a cada capítulo eu preciso parar e sair procurando por mais informações sobre os nomes que ele cita. E ele cita nomes à beça. Acho que praticamente todo mundo que teve uma mínima infuência no desenvolvimento da cultura gourmet aqui na América tem suas duas linhas de fama. O autor, David Kamp, escreve para revistas como Vanity Fair e GQ e segue um pouco o estilo dessas revistas, revelando fofocas e bafões incríveis. Sexo e drogas nas cozinhas por exemplo. Eu sou uma pessoa super meiga e nunca imaginaria um super hiper famoso chef consumindo toneladas de cocaína durante o preparo do menu. Caí pra trás também com a revelação de que a dupla do famosérrimo sorvete Ben & Jerry's eram dois copiões, que simplesmente chuparam absolutamente tudo que puderam do autor original dos famosos sorvetes que hoje eles levam a fama por terem criado. Altos buxixos, muita informação, delicia total de leitura.
Kamp capricha na história do trio James Beard, Julia Child e Craig Claiborne, que são os ícones maiores da culinária norte-americana. Ele também capricha em detalhes sobre Chez Panisse e todos os frutos e subfrutos da contra-cultura. A Califórnia está sempre no centro de tudo e me passa uma sensação muito grande de familiaridade. The United States of Arugula é o guia para quem quer conhecer a história da culinária nos Estados Unidos e é também a prova contra aquela maricotice de se ficar dizendo que o americano come mal. Come mal quem quer, quem não sabe ou não quer saber que há muitas opções, e oferta, e acesso.
Be Yourself é um filminho de 1930 muito divertido, com a figurete Fanny Brice, que ficou conhecida por gerações mais recentes quando Barbra Streisand a reviveu no teatro e no cinema, com a semi-biografia Funny Girl. Numa cena de Be Yourself a personagem da Fanny prepara o café da manhã para o namorado. Ela faz tudo enquanto canta, com todo amor e dedicação.
Ela prepara bacon, biscuits e oatmeal. Enquanto ela labuta subservientemente entre a cozinha e a sala, ele não move a bunda do sofá, onde senta-se confortavelmente apenas lendo o jornal. No filme, ela é uma artista, uma mulher forte e independente. Mas quando se trata de agarrar o homem—como ela mesma canta, tem que ser pelo estômago. E quando ele finalmente senta-se à mesa pra comer a refeição preparada por ela, ainda tem a cara dura de reclamar do mingau de aveia! E o pior nem é isso. O pior é que apesar de todo o esforço que ela faz, ele no final a troca por uma sirigaita loira, sem carater e interesseira.
A Cobb salad é uma salada tradicional americana que tem toda uma história sobre como e por quem ela foi criada. A versão mais divulgada é a que ela teria sido inventada em 1926 por Bob Cobb, gerente do restaurante The Brown Derby em Los Angeles. Ele abriu a geladeira do restaurante e foi montando a salada com ingredientes e sobras. A mistura agradou tanto que entrou para o menu e para a história. É uma salada que substitui uma refeição e que eu acho que deve funcionar muito bem em picnics, levando molho numa vasilha separada e temperando uns minutos antes. Também é uma salada que permite muitas variações. Na receita original vai agrião, mas como eu não encontrei pra comprar usei somente a alface romana. O peito de frango pode ser substituido por peru.
3 ovos cozidos e picados
2 abacates pequenos cortados em cubos
8 fatias de bacon fritas até ficarem quebradiças e crocantes * eu faço no microondas, que dá o mesmo resultado e não faz aquela sujeirada
1 pé de alface romana cortada em pedacinhos
2 xícaras de agrião picado
3 xicaras de peito de frango cozido cortado em cubinhos * cozinhei com vinho branco, alho, sal, louro e água
Queijo Roquefort em pedaços * não tinha Roquefort, usei Port Salut
Chives/ciblolettes picadinha para decorar
Arrume os ingredientes em fileiras numa saladeira larga. Um pouco antes de servir despeje por cima o seguinte molho:
1/4 xícara de vinagre de vinho tinto
1 colher de chá de molho inglês, Worcestershire
1/2 colher de chá de mostarda Dijon
1 dente de alho amassado *omiti
1/4 colher de chá de sal
1/2 tcolher de chá de pimenta do reino moída
1/3 xícara de azeite
Bata bem todos os ingredientes com um batedor de arame e derrame sobre a salada.
**bacon frito no microondas: forre um prato largo com bastante papel absorvente. coloque as fatias de bacon sobre o papel, uma ao lado da outra, sem sobrepor. cubra com mais papel absorvente, umas quatro camadas. coloque no microondas. eu vou colocando três minutos, mais três minutos, sempre checando. pro bacon ficar bem crocante vai levar umas cinco ou seis vezes os três minutos. fazendo assim e checando não tem perigo de errar e o bacon virar carvão. o bom dessa técnica é que não suja nada. você joga o papel fora e pronto. mas assim não se coleta a gordura do bacon, que muita gente gosta de usar para outras receitas. o processo não é inodoro, mas deixa a cozinha muito menos empestiada que a fritura na frigideira.
A Leticia me passou essa receita e eu achei interessantíssma, apesar das insistentes medidas não-convencionais que são altamente praticadas, mesmo pelos programas de culinária, de onde essa receita saiu. Estaria eu disposta a gastar a minha preciosa goiabada cascão com uma receita que usava como medida copo de requeijão? Ponderei por uns dias e decidi que iria tentar. O resultado foi um bolo muito saboroso, porque goiabada minha gente, não tem jeito, é sempre bom demais e nunca desaponta! Meus ajustes em asteriscos.
Bolo de Fubá Com Goiabada
3 claras
3 gemas
1 copo (tipo requeijão) de açúcar refinado * substituí o copo de requeijão por 1 xícara convencional de 250 ml/8oz
1 copo (tipo requeijão) de leite
1/2 copo (tipo requeijão) de óleo de soja
1 copo (tipo requeijão) de farinha de trigo
1 copo (tipo requeijão) de fubá * usei a masa harina que é o mais próximo do fubá que temos aqui e é muito usada na cozinha mexicana.
1 colher de sopa de fermento em pó
goiabada cascão cortada em cubos
Numa batedeira bata as claras em neve. Continue batendo e adicione as gemas, uma a uma. Incorpore o açúcar, leite, o óleo e aos poucos, junte a farinha de trigo e o fubá. Por último, agregue o fermento. Desligue a batedeira.
Numa forma de pudim, untada com óleo e enfarinhada com uma mistura de canela e açúcar, coloque metade da massa. Salpique os cubos de goiabada, coloque a outra metade da massa e cubra salpicando mais cubos de goiabada.
Leve ao forno a 180º C/350º F por 40 minutos e sirva a seguir.
Descobri abismada que tenho muita coisa em comum com a Alice Waters. Fazemos nossas compras no farmers market da mesma maneira metódica. Eu chego e caminho olhando todas as bancas, esquerda e direita, vou até o final do mercado, analisando o que está na estação, traçando uma estratégia, escolhendo mentalmente o que vou comprar, o que me agrada mais, o que me chama atenção, tentando pensar no que fazer com os ingredientes. Também como a Alice, eu sempre converso com os fazendeiros, comento e pergunto o nome das coisas, e sempre encontro amigos pelo mercado. No caso dela são fãs. Vamos comprando os ingredientes mais frescos da estação ou aquele um que está dando o seu último ar da graça, o último suspiro. Hoje fiz a minha caminhada pelo mercado, observando a chegada das inúmeras variedades de pêras e das romãs, pensando feliz que tenho esse hábito em comum com o mito da culinária californiana. Eu e Alice Waters, quem poderia imaginar uma coisa dessas?
Quando esses adoráveis mini-sabugos de milho coloridos aparecem nos mercados, é sinal que a minha estação favorita chegou. Verão, inverno e primavera—move over! Não tem nenhuma época que ganhe em beleza do outono.
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Fiquei de fora dessa foto e não lembro por que. Esses são os meus irmãos: Lezoca, Paulo E. e Carlos A. Os três chupando balinhas e vestindo chinelinho havaiana com meias. Meus irmãos sempre com as roupas combinando, mas eles não são gêmeos—tem um ano de diferença entre eles. Com certeza eu também tinha um vestido como esse que a minha irmã está usando, tão rendado e tão curto. Vestir filhos de idades diferentes com roupas iguais deve ter sido alguma moda dos anos setenta.
**pensando bem, tenho quase certeza que eu não saí na foto porque estava na cozinha atormentando a Cida. querem apostar quanto?
Porque a colheita não pode esperar, o Uriel chegou e já viajou novamente. Nenhuma novidade nisso. Sozinha outra vez, eu não planejava nada especial para o jantar. Quando o Gabriel me convidou para ir até a IKEA com ele, eu topei já pensando que poderia bater um rango por lá. A IKEA não é um lugar pra se visitar no meio da semana, depois de um dia intenso de trabalho com o final coroado por uma pedalação enlouquecida tentando, sem sucesso, chegar em casa antes da chuva desabar. Mas mesmo assim eu fui, pois convite de filho é difícil de recusar. Ele foi comprar um monte de coisas pra casa dele. Eu não precisava comprar nada, mas quem sou eu pra tentar resistir à um apelo consumista com design escandinavo? Acabei comprando um par de coisas nada necessárias, porque afinal de contas eu preciso ajudar o dono da IKEA—que é o homem mais rico do planeta—a ficar mais rico ainda. No meio das compras sentamos para jantar no restaurante da loja. Tava realmente difícil escolher alguma coisa pra comer ali. Eu já tive experiências um pouco melhores no restaurante da IKEA. Vai ver era o horário. Eles têm aquele sistema de bandeja, pratos frios e sobremesas ajeitados nas prateleiras com tampa de vidro que você abre e pega o que quer, além dos pratos quentes que ficam ali nos chafers não sei por quantas mil horas. Eu não confio nesse tipo de disposição de comida. Aliás, eu não confio em disposição de comida de jeito algum. Caminhei com a bandeja pelo corredor das supostas delicias e fui me apavorando com o visual do rango exposto. Se chamamos a comida que nos desperta desejos e nos faz salivar de porn food, aquilo que eu vi na IKEA era a visão escarrada do horror food. Tudo com cara de que foi preparado na noite anterior. Vai uma torta sueca de maçã ressecada ou um mousse murcho de lingonberry? Arrisca num sanduba suspeito de camarão e ovo? E aquele salmão desbotado com legumes? O Gabriel foi de bolinhas de carne suecas, que vêm acompanhadas de batatas cozidas. Essas meatballs são uma delicia se você fizer em casa ou comprar o pacote delas congeladas na lojinha da IKEA e assar na hora, com batatas cozidas fresquinhas. Mas as que eles estavam servindo lá, sei não... Eu acabei pedindo um pratinho de frango e batatas fritas, que era o que tinha cara de estar mais fresco. Não foi um jantar digno de nota, apesar da agradável companhia do meu filho Gabriel e da nossa amiga Melissa.
Fui até comprar um espremedor de batata, que eu não tinha, pra poder fazer essa receita que a Neide Rigo publicou, depois de ter feito uma aula com a chef Ana Soares. Achei tudo notávelmente singelo, com os fiozinhos de massa no caldo da sopa. Iria ser a primeira refeição completa que eu iria preparar para comer finalmente acompanhada. Um dos problemas mais sérios que eu encontro para seguir receitas é a falta de preparação. Nem sempre temos todos os ingredientes necessários e nem sempre temos tempo para fazer as comprinhas imprescindíveis. Eu jurava que tinha uma caixa de caldo de legumes na despensa, mas quando fui ver percebi muito tardiamente que não tinha. Quase joguei a toalha, mas todo mundo sabe que não sou dessas. Analisei minhas possibilidades e vi que tinha uma quantidade razoável de molho purissimo de tomates da minha horta e resolvi foi fazer a minha versão do passateli, que acabou se transformando em outra coisa—mas não menos apetitosa!
A receita da chef Soares, publicada pela Neide:
Passateli ao perfume de limão siciliano
200 g de pão francês seco, ralado
200 g de parmesão ralado
Raspas de limão siciliano a gosto (ou outro, se preferir)
3 ovos inteiros
Gemas até dar o ponto
30 g de manteiga amolecida
Sal e pimenta-do-reino a gosto
Noz moscada ralada a gosto
1,5 litro de caldo de carne
Legumes picados a brunoise
Numa tigela grande, misture a farinha de pão, o queijo parmesão e as raspas. À parte, bata os ovos com a manteiga e despeje na tigela, mexendo bem. Vá juntando gemas até conseguir uma mistura cremosa e firme (que possa passar no espremedor de batatas). Cubra e deixe na geladeira por 15 minutos. Aqueça o caldo de carne desengordurado, coloque a massa dentro do espremedor de batatas e vá apertando, deixando cair sobre o caldo fervente os fiozinhos de massa. Junte os legumes (cenoura, salsão e abobrinha em cubinhos mínimos) e cozinhe por mais dois minutos.
A minha versão:
Passateli ao perfume de limão siciliano
200 g de pão rústico seco, ralado
200 g de parmesão ralado
Raspas de limão siciliano a gosto (ou outro, se preferir)
3 ovos inteiros
30 g de manteiga amolecida
1,5 litro de molho de tomate
1/2 cebola
óleo, azeite, sal
Numa tigela grande, misturei a farinha de pão, o queijo parmesão e as raspas de limão. À parte, bati os ovos com a manteiga e despejei na tigela, mexendo bem. Decidi não acrescentar mais gemas e ver no que dava. Cobri a tigela com um pano e deixei na geladeira por 15 minutos. Refoguei meia cebola picadinha numa colher de óleo vegetal e um fio de azeite. Acrescentei o molho de tomate, sal a gosto e uma pitada de açúcar. Deixei engrossar um pouco. Passei a massinha pelo espremedor de batata direto no molho. Deixei cozinhar uns minutos, desliguei o fogo e tampei a panela. Ficou uma sopa bem grossa. Não ficaram fiozinhos como imaginei na sopa da chef Soares. Avalio que o molho encorpado de tomate, o pão mais grosso e a ausência de algumas gemas foi o que fez a diferença.
A receita tinha absolutamente tudo para dar errado, começando com um acidente ensanguentado logo no início da preparação, quando ralei a tampa do dedão no super ralador e tive que interromper todo o processo até conseguir controlar o sangue e a dor. Com um band-aid porcamente colado na ponta do polegar e xingando a bruta falta de sorte de ter que fazer o resto do jantar com o dedão da mão direita empinado, continuei firme. Quando vi o resultado, com aquele visual encorpadão da sopa e sem nenhum fiozinho charmoso se revelando, tive vontade de chorar—mais um jantar arruinado! Mas quando servi e começamos a comer, que deliciosa surpresa! Ficou uma sopa de tomate bem substanciosa e saborosa, com um hint do limão que fez toda a diferença. Acho que reinventei a receita acidentalmente, mas ainda vou tentar novamente fazer a original.
O Uriel fez o seu indefectível comentário de finais de jantares bem sucedidos: ficou muito boa essa sua invenção!. Retruquei rapidamente que não era invenção, que eu tinha seguido uma receita, mas nem eu mesma fiquei convencida dos meus fracos argumentos.
Pelo jeito o milho está em tudo mesmo por aqui. Mas neste caso é bem bacana você saber que pode comprar sua salada orgânica já lavada e pronta pra ser servida, ajeitada numa embalagem ecológica, que não vai ficar milhões de anos poluindo o meio ambiente. Ah-Lê-Lu-Ya!
Passei a manhã fora, pondo em dia minhas consultas médicas. Quando cheguei no trabalho à tarde fui avisada por um dos meu colegas, em tom pesaroso, que talvez eu me chocasse com os acontecimentos mais recentes. O que foi, por acaso roubaram os computadores de novo? A resposta foi afirmativa. Quer dizer, desta vez roubaram só o meu computador no nosso prédio e outros trinta num prédio próximo. Pelo menos agora a polícia mexeu a bunda e tirou impressões digitais do local. Meu desk ficou uma nojeira, até a minha caneca de beber água estava cinza do pó que eles usam pra coletar as evidências. Eu não testemunhei o forrobodó e quando cheguei já tinham montado um esquema provisório com um laptop e um monitor e até o meu computador novo já tinha sido encomendado. Vou ganhar o novíssimo IMac, mas desta vez nem estou festejando, pois parece que os criminosos estão atrás mesmo é desses Macs super condensados, fáceis de carregar, sem torre e com um bom valor de mercado. Santa sacanagem! Fiquei praticamente a tarde toda arrumando zilhões de coisas que ficaram zoneadas, sem falar que dessa vez perdi trabalho de dois dias. O trabalho eu refaço, mas não consigo me conformar com a facilidade com que essa gente entra e rouba coisas numa universidade dessa magnitude. O segundo roubo em pouco mais de um mês. Somos uns iludidos. Melhor todo mundo começar a acordar, pois não vivemos em Pleasantville—local que na verdade nunca existiu.
A Elise organizou a nossa visita ao The Hidden Kitchen comandados pelo casal Dennis e Mary Kercher. Eu estava muito entusiasmada para participar desse evento, que agrupou doze foodies, entre food bloggers, criticos e profissionais da gastronomia. Eu disse doze, mas minha irritante modéstia insiste em baixar esse número para onze. Não consigo ainda me considerar uma foodie e quando estou com o grupo de Sacramento, que queira ou não eu faço parte pois moro aqui e mantenho um blog, sempre fico me sentindo a prima estrangeira que chegou ontem do Cafundoquistão.
Me esforcei à beça pra chegar no horário marcado e não confirmar aquele boato absurdo e falso divulgado à torto e à direito por bocas de matildes de que brasileiro chega sempre atrasado. Estacionei meu carro na frente da charmosa casa num bairro tradicional de Sacramento, daqueles com casinhas de filmes antigos e ruas e quintais completamente tomados por árvores ancestrais. Fui recepcionada alegremente pelo casal que cozinha e recebe os amigos para um jantar caprichado. Conheci a cozinha toda equipada do Dennis e da Mary, a simpática cachorrinha Baci e recebi uma taça com um refrescante espumante rosado. Nós ficamos no pateo da casa, com um jardim lindo ao fundo e todo decorado com velas. Conversamos muito durante o jantar. É muito difícil o papo ficar chato num um grupo de doze pessoas com o mesmo interesse. Nem preciso dizer que o tema de todas as conversar da noite foi apenas um: COMIDA.
O Dennis e a Mary serviam os pratos e explicavam os detalhes. Estava tudo muito gostoso e a atmosfera estava divina. Nós levamos o vinho, que foi dividido entre todos. O vinho que abriu o jantar foi o português tinto que eu levei e que todos gostaram. Eu bebi muito moderadamente, pois sabia que teria que dirigir de volta para Davis. Mesmo assim não deixei de beber um vinho de uma vinícola biodinâmica, que estava extremamente saboroso. Durante o jantar a Elise jogava na mesa perguntas como qual a sua lembrança mais antiga de comida ou qual a iguaria mais estranha que você adora comer, mas tem vergonha de confessar. Eu, que detesto esses tipos de joguinhos grupais e tenho horror de falar para uma aglomeração de mais de três pessoas, fico um pouco tensa. Prefiro a relaxada conversa tête-à-tête com os convivas sentados ao meu lado ou na minha frente, mas mesmo essa parte não muito divertida do jantar pra mim acabou sendo interessante, pois cada um falou da sua experiência e eu falei da minha também.
Eu gostei de quase tudo que foi servido. Até o atum semi-cru, que eu temia, estava bem gostoso, pois a porção estava micro. Só não consegui comer o ratatouille, porque ele tinha um molho e uma textura que me deu um engasgo e foi servido bem na hora que todos falavam das coisas horrorendas que não conseguem comer. Eu ouvia as declarações mais bizarras e pensava em mais coisas bizarras ao mesmo tempo que visualizava o carneiro ensanguentado nos pratos de absolutamente todos os convivas—menos no meu, pois eu implorei por bem passado. Com tudo isso rolando, o ratatouille simplesmente me deu um bleargh, mas foi a única coisa.
*seared ahi sliders with sweet potato frites and mango ketchup
os canapés de ahi tuna estavam muito gostosos, porque vieram numa porção pequena. a batata-doce estava deliciosa, nem precisou do ketchup de manga.
*gorgonzola grape galette with watercress & arugula
a salada de rúcula e agrião foi temperada com meyer lemon da árvore do jardim. estava perfeita! e da maravilhosa galette não sobrou uma farofa.
*gnocchi verdi with garden fresh pesto genovese
o gnocchi foi feito com espinafre e ricotta, sem batata. estava levíssimo. comentei com a crítica de gastronomia que esse prato deu de mil no muito semelhante que eu comi num dos restaurantes italianos mais famosos e caros daqui da região e que foi uma decepção, pesado e oleoso. o do Dennis estava perfeito, com o pesto clássico feito com manjericão da horta dele.
*rosemary rack of lamb, ratatouille ala grille, corn cakes
carneiro é aquela coisa: ou você gosta, ou você não gosta. eu acho uma carne difícil, que nem sempre fica boa, eu acho muito forte e pesada. mas gostei dessa preparada pelo Dennis com alho, alecrim, confit de limão e grelhada na churrasqueira. os bolinhos de milho estavam uma delicia e o Dennis confessou que usou um pouco de gordura de pato na massa. veio acompanhado de um dos mais delicados tapenades que eu já provei.
*grappa brown sugar panna cotta with grape gelée
muito difícil uma panna cotta ficar ruim. essa, não quebrou a regra. a geléia de fruta que acompanhou o creme me lembrou alguma coisa da minha infância.
No final fomos servidos de café e licores feitos em casa—limão, morango e café. Eu já tinha provado o de limão na casa da Elise e escolhi o de morango. A essa altura eu já estava horrivelmente exausta, não só pelo dia atrapalhadíssimo que eu tive, que se iniciou cedíssimo e que teve despedidas de amigos no aeroporto, mas também pela comilança toda. Cheguei em casa tarde da noite e ainda trouxe comigo apple butter feita pela Elise e mais favas de baunilhas que o Garrett colocou furtivamente na minha bolsa. Foi uma noite memorável, com um grupo muito bacana e uma comida excepcional.
Diz o ditado que quem procura acha e eu vivo achando gratas surpresas nas minhas procuras por coisinhas bonitas nas lojas de segunda mão. Tenho um monte de histórias de achados. Os mais recentes, umas cumbuquinhas de madeira super lindas, com aquela cara de que foram muito usadas na cozinha de alguma senhora muito prendada. E uma assadeira redonda e funda de cerâmica esmaltada, que me pareceu ter produzido muito suflê bem-sucedido em alguma cozinha bem equipada.
Nas minhas garimpagens, eu não vou comprando qualquer coisa. Aprendi algumas regras básicas com a sogra do meu filho que é uma antique dealer. Olho muitas coisas no achado, mas a primeira coisa que eu faço é virar e olhar a base. Ali pode estar toda a informação que você precisa. Se estiver escrito made in china eu descarto imediatamente, mesmo se a coisa for linda prá lá de metro. Procuro por porcelanas inglesas ou japonesas, que são as melhores. Cerâmicas francesas ou italianas. Muitas vezes acho utilitários escandinávos, muito populares por aqui, ou alemães. E tem os produtos made in USA, que são quase sempre bacanérrimos. É só ter paciência, muita paciência e um bocado de determinação.
Quando vi a palavra Munising engravada na base das cumbuquinhas de madeira, o final quase ilegível pelo desgaste do tempo, tive a intuíção de que ali estava um achado. Faço uma pesquisa descubro a Munising Wood Products, em Michigan, que produziu utilitários lindos de madeira entre 1911 e 1955. Dá pra calcular mais ou menos a idade das minhas cumbuquinhas. Vou chutar 1930, pois é a minha década favorita.
A assadeira vitrificada mostrava o nome Guernsey no fundo e quando fui atrás de informação, descobri com grande surpresa que ela foi feita por uma cerâmica chamada Guernsey Earthenware Company, que produziu peças utilitáras de mesa e cozinha em Cambridge, Ohio, entre os anos de 1909 e 1924. Posso dizer com certeza que essa peça que eu comprei na loja de segunda mão por duas patacas de dólar tem entre 80 e 90 anos. Como aqui na América qualquer coisa com mais de cinquenta anos já pode ser considerada antiguidade, esses foram grandes achados, sem dúvida alguma!
[ice-cream romance]
Tava lá um pedaço de goiabada cascão dando sopa e aquele mascarpone que sobrou de outra receita, o que imediamente propiciou que me cutucassem as lombrigas cheias de determinação: sorvete, sorvete, sorvete! Fiz então o sorvete de goiabada com queijo, que ficou puro deleite.
Meio bloco de goiabada cascão cortada em cubos e derretida com um pouco de água, 1 xícara de mascarpone, que pode ser substituido por qualquer queijo cremoso, 1 xícara de creme de leite fresco, 1 xícara de leite. Misturar os ingredientes até eles ficarem bem incorporados. O creme de goiabada deve estar frio. Deixe essa mistura gelar por algumas horas, se quiser. Coloque na sorveteira ou faça manualmente, congelar, bater, congelar, bater, congelar, bater. Minha goiabada não derreteu cem por cento e o sorvete ficou salpicado de micro-pedacinhos do doce. Hmmm!
O restaurante Chez Panisse em Berkeley, Califórnia, serviu o seu primeiro jantar inaugural em 28 de agosto de 1971. O menu único teve pâté en croûte como entrada, canard aux olives e uma salada como prato principal, uma torta de ameixas de sobremesa e café. O preço, também fixo, era de $3.95. Alice Waters ainda estava martelando um tapete na escada quando os primeiros comensais começaram a chegar. Eram na maioria amigos e ela os recepcionou naquele dia usando um vestido antigo de renda beije. Um enorme vaso com flores decorava a entrada. Cinco garçons passaram a noite trombando entre si, enquanto tentavam servir os clientes jantando no pequeno salão, com poucas mesas arranjadas com toalhas xadrez de vermelho e branco, louça e talheres de segunda-mão descombinados. Os vinhos servidos naquela noite foram Mondavi Fumé Blanc, Mondavi Gamay e um Sauternes, Château Suduiraut, vendido por copo. A caótica cozinha foi comandada pela chef Victoria Kroyer. Antes de ser contratada por Alice, Victoria fazia pós-graduação em filosofia na UC Berkeley e nunca tinha trabalhado num restaurante. Sua única experiencia com culinária era os jantares que ela preparava na sua própria cozinha. No final da noite, 120 refeições foram servidas, nem todas foram pagas. Clientes aguardavam na calçada, quando Alice avisou—desculpem, mas não temos mais comida, voltem amanhã. Faltou talheres e no dia seguinte Alice percorreu todos os flea markets da cidade, buscando por mais talheres antigos e o número de garçons baixou para três, o que tornou o serviço mais eficiente. O nome Chez Panisse foi uma homenagem ao personagem Honoré Panisse da trilogia Marius, Fanny, and César do diretor francês Marcel Pagnol, de quem Alice era fanzoca.
Anos atrás eu peguei a mania de olhar pratinhos para colocar o wasabi e o shoyo no serviço de sushi. Eles são realmente umas fofuras, redondos, quadrados, retangulares, em formato de flores, frutas, legumes, decorados com desenhos ou apenas coloridos. Comprei alguns, mas não fui pra frente com a coleção, o que é uma coisa pra se repensar. Hoje olhei pra eles e me encantei mais uma vez com a delicadeza e com a beleza de cada um deles. Foi uma visão confortante, para um dia onde o meu corpo vai estar se locomovendo por Davis, fazendo o que é necessário fazer, mas meu pensamento e meu coração vai estar co o Uriel e com a família dele em Campinas. Uma pequena contribuição simbólica, mas com todo o meu amor.
Meu jantar custou três patacas e oitenta centavos e consistiu de uma porção de batata frita, uma pequena salada que pedi sem aqueles molhos enjoativos e temperei em casa, e uma lata de limonata Sanpellegrino. Era o que eu precisava, com exceção da salada, que pedi já sabendo que iria ser uma experiência frustrante, como quase toda salada de restaurante. Não estou cozinhando muito, porque simplesmente não sei como cozinhar em porções para uma pessoa e não quero acabar com um monte de sobras na geladeira. O lado bom é que estou detonando um estoque de veggie burgers que eu acumulei no congelador—nem me perguntem por que eu comprei tantos deles, de sabores diferentes, porque eu não me lembro. Também tenho usado os tomates. Esse é basicamente o panorama desses últimos dias: pão, queijo, tomate, e batata frita de restaurante, quando preciso compensar por um dia não muito bom.
Cheguei em casa com uma hora e meia para preparar um rango legal para levar no picnic. Já tinha decidido que iria fazer umas tortinhas de tomate e iria usar umas massas de pãezinhos quebra-galhos que eu tinha na geladeira. Nem preciso dizer que os planos afundaram, pois as massinhas estavam com a validade vencida. Acabei fazendo uma salada pseudo-grega, sem queijo feta, porque não tinha. Mas daí inventei que iria fazer um bolo de milho—outro bolo de milho. Estou com um estoque de espigas considerável dentro da geladeira e algumas já estão com um cheiro de fermento, tanto que fiquei receiosa de usá-las. Mas decidida estava eu que esse bolo iria sair de qualquer jeito. Procurei por receitas em websites brasileiros, que infelizmente ainda publicam os ingredientes com medidas genéricas como uma lata de milho, um pacote de coco ralado e nenhuma dica de temperatura de forno ou tempo de cozimento. Adaptei como pude e coloquei o bolo pra assar, torcendo para dar tempo de levá-lo para o picnic. Obviamente que não deu e eu desliguei o forno com o bolo ainda com uma cara empalidecida lá dentro. Quando eu e o Gabriel chegamos do picnic às nove da noite, cortamos o bolo, devoramos muitas fatias e ele levou outras mais para casa. Ele achou que o bolo não ficou doce o suficiente, mas eu achei perfeito. Pra quem quiser mais doçura, sugiro acrescentar uma boa dose de mel na hora de servir.
500 gr de milho fresco ralado
1 lata de leite condensado
1 lata do leite condensado cheia de leite
2 ovos
2 1/2 xicaras de farinha de trigo
1 xícara de coco ralado
1 1/2 colher de sopa de fermento em pó - químico
Bater o milho, o leite condensado e os ovos no liquidificador. Colocar essa mistura numa vasilha grande e acrescentar a farinha de trigo e o coco ralado. Misturar bem com um batedor de arame. Por último acrescentar o fermento em pó. Colocar a mistura numa forma untada com manteiga e farinha e assar por uns 40 minutos em forno pré-aquecido em 365F/ 185C.
"This summer has been a tough one for us in the pest department... and not just arthropods and diseases! We continue chasing off wild turkeys (that have decimated our second melon planting and have turned their eyes on our cucumbers!) and setting out have-a-heart traps for the jackrabbits that keep sneaking in under our fence. Aside from these crop-munchers, there is always the odd crow or ground squirrel that decides to chew a hole in our irrigation lines. Alas, this is life on an organic farm, and as a CSA subscriber you can feel good about what both you *and* those little critters are putting in your bodies!"
| perus selvagens, uma das pragas que atacam a horta da minha amiga Alison |
A cartinha da cesta orgânica desta semana me fez sorrir nervosamente, pois agora eu sei que as pestes na agricultura abrangem muito mais espécies do que eu podia imaginar. Pra falar a verdade, antes de eu ter uma horta eu nem pensava em pestes ou se pensava era uma concepção tão remota, só de ouvir falar, naquele papo dos horríveis agrotóxicos. Mas eu lembro de sempre dizer com muita determinação e empáfia que eu preferia as minhas verduras com furos ou presença física de bichos [escrotos] do que pulverizada por quimicos e venenos. Mas na verdade eu nunca tinha tido muito contato com as pragas e outros miserês agrícolas até então. Claro que os bichos que chegavam com os legumes e verduras da cesta assustavam, mas não me davam raiva. Ter uma praga destruindo a sua horta dá raiva e dá vontade de aniquilar tudo sem dó, rápido e de qualquer jeito—com spray desintegrante, veneno cancerigeno, pó fumegante, bomba de gás, maçarico flamejante, energia nuclear. Foi isso que eu senti quando vi o meu quintal todo esburacado por um gopher no final de um inverno. Fui atrás de uma solução e fui instruída por experts a comprar umas bombas de gás e enterrá-las acesas dentro dos túneis cavocados pelos gophers. Comprei os tubinhos mortíferos movida pelo ódio, mas não tive coragem de implementar o plano assassino. Não sei que fim teve o gopher de olhinhos sapecas. Se ele morreu, foi por qualquer outro motivo alheio à minha vontade. Praga de pensamento cármico, talvez, mas minhas mãos não se sujaram com sangue inocente e minha consciência está tranquila.
Meu trabalho no IPM também contribuiu muito para me abrir os olhos, não só para a quantidade quase incomensurável de pragas nojentas dos mais diversos tipos, mas também para as pragas fofinhas. Não são somente vermes, insetos, ácaros, cracas, doenças, pulgões, lesmas, ratazanas, aracnídeos, répteis rastejantes e ervas daninhas de diferentes procedências, que atacam como uma invasão enlouquecida de entidades devoradoras as nossas frutas, legumes e verduras. Há também o esquadrão das pragas bonitinhas. A descoberta de que coelhinhos, passarinhos, esquilinhos, veadinhos e outros bichinhos fofos podem ser realmente do mal foi um grande choque.
Ainda é muito duro pra mim encarar esses bichos realmente bonitos como inimigos. Mas já estou me acostumando a olhar aquela fauna de filme da Disney com olhos mais suspeitos e tenho certeza absoluta que não quero a visita de um esquilo ou de um coelhinho no meu quintal.
Estou literalmente atolada neles novamente, como acontece todo verão. Ganhei um saco de tomates fresquinhos da horta do meu amigo e estou animadíssima, pensando como vou usá-los. O negócio é que estarei almoçando e jantando sozinha por um tempo, pois o Uriel está no Brasil. Minha horta, por outro lado, está numa entresafra. Um dos pés de tomate parece estar com alguma doença. Mas isso não quer dizer que a colheita se encerrou. Ainda escreverei bastante sobre as amadas frutinhas!
* os tomatinhos réplicas de pitangas gigantes fizeram parte do menu do meu jantar de ontem e preciso dizer—foram os melhores que já comi neste verão.
Morar numa cidade universitária me traz grandes vantagens, como poder conhecer muita gente legal de vários cantos do mundo que vêm aqui para estudar ou trabalhar. Mas por outro lado tem a desvantagem que é ter que, de vez em quando, superar a melancolia que acompanha as despedidas. Chegou a hora de dizer good bye para uma amiga muito querida, que vai fazer muita falta no meu círculo de relacionamentos. Como todos os nossos rituais de despedida incluem comida, quis fazer um almoço para ela. Eu já tinha combinado com um amigo italiano que adora cozinhar, que iríamos fazer uma macarronada. Eu estava muito curiosa para observar as técnicas dele no preparo da massa e do molho. Colocamos os nossos planos em prática.
Usamos ovos fresquíssimos, farinha de trigo orgânica, semolina e toneladas de tomates orgânicos maduríssimos. Cozinhei os tomates um dia antes e passei pela peneira para obter alguns litros de purê. No dia seguinte começamos a função cedo. Eu e a Charlene trabalhamos duro como assistentes dedicadas do comandante da cozinha, o chef Luigi. Fizemos macarrão e três tipos de molho para dezoito comensais. Aprendi muita coisa legal com esse romano, que é do nosso time de apreciadores da comida simples, feita com capricho e com ingredientes da melhor qualidade. Ele fez o macarrão bem grosso. Passou a massa umas dez vezes pela expressura um, e depois cortou em tiras de fettucini. Nunca tinha comido o macarrão grosso assim e achei muito bom. Os molhos foram feitos de uma maneira incrívelmente simples. Eu perguntava pra ele—vai pôr isso? vai pôr aquilo? E a resposta era sempre—não, o molho de tomate italiano é muito simples. Perguntei sobre o majericão e fui aconselhada a adicionar no final do cozimento do molho, mas aconteceu que na correria das arrumações de mesa e detalhes finais das preparações, o manjericão não entrou na dança. E pra falar a verdade, nem fez falta.
Ficamos conversando em volta da mesa até as seis da tarde. Só não ficamos mais tempo porque era domingo e a segunda-feira nos aguardava impaciente e exacerbada. Foi um almoço delicioso, tanto pela comida e bebida, quanto pela companhia. Uma despedida à altura da nossa convidada especial, a amiga que vai deixar saudade.
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** fotos extras AQUI
Molho ao Sugo
Refogar duas cenouras cortadas em cubos e uma cebola picadinha num pouquinho de óleo vegetal. Pode pôr um pingo de azeite. Uma coisa que eu sempre soube sobre cebola e alho é que quando se usa a cebola, não se usa o alho e vice-versa. O Luigi só reafirmou esse ponto. Quando a cenoura estiver molinha, vai acrescentando o purê de tomate, que eu fiz fresco, usando quilos de tomates. Mas o Luigi deu a dica de misturar metade de purê de tomates frescos com metade de tomates em lata. Refogar essa mistura até o molho reduzir em 1/3 e ficar bem grosso. Acrescentar um pouco de sal grosso. Pode pôr manjericão no final, mas nós esquecemos de colocar e ninguém reparou. No final, eu acrescentei um tomate grande inteiro, picado. Segundo o Luigi, a casca do tomate dá um sabor especial ao molho. Esse molho é daqueles que não pode ser desperdiçado e exige fartura de pedaços de pão, para limpar os pratos e as panelas.
Molho de Tomate com Aliche
Nessa versão do molho de tomate, faz tudo igual ao molho ao sugo e acrescenta-se filés de aliche/achovas durante o cozimento. Como eu não tinha mais nenhuma latinha de aliche, usei uma pasta de aliche que eu às vezes uso para pôr em molho de saladas. Esse molho foi o meu favorito!
Molho de Manteiga com Sálvia
Esse molho é ridiculamente fácil. Derreta a melhor manteiga que você puder comprar numa frigideira e coloque folhas de sálvia fresca. Deixe pegar o gosto. Desligue o fogo rápido, pra manteiga não queimar. Ela deve ficar clara. Não precisa sal, pimenta, nada.
Não consigo resistir à essa tomatada toda. Onde quer que eu vá, lá estão eles—lindos, suculentos, reluzentes, perfumados, em todos formatos e nos mais variados tons de vermelho e amarelo. É a alta estação dos tomates. O pico da colheita. Fico completamente encantada e acabo levando pra casa o que acho interessante, como esses heirlooms especiais, um rajado de laranja e vermelho e outro em formato de pitanga.
Adorei a idéia dessa torta, que me conquistou por causa dessa mistura bem interessante de ingredientes—polenta, tomilho, limão e pessêgo. Resolvi fazer para um almoço que tivemos em casa no domingo. Ficou bem diferente e não decepcionou. Foi a primeira vez que usei tomilho numa receita doce e agora fiquei realmente entusiasmada.
Peach and Thyme Polenta Tart
massa:
1 xícara de farinha de trigo
1/2 xícara de polenta/cornmeal
1/4 xícara de açúcar
1/4 colher chá de sal
2/3 xícara de manteiga (11 colheres de sopa), gelada e cortada em cubinhos
1 ovo batido
recheio:
1 xícara de creme de leite fresco
10 raminhos de tomilho fresco [usei o tomilho limão]
1 limão amarelo
3 gemas de ovos
1/4 xícara de açúcar
Uma pitada de sal
5 pêssegos bem firmes cortados em fatias bem finas
farofa:
5 framos de tomilho fresco
2 colheres de sopa de polenta/cornmeal
1 colher de sopa de açúcar
Misture a farinha, polenta, sal e açúcar. Usandoi os dedos ou um processador, vá acrescentando a manteiga à mistura, até conseguir uma mistura grossa. Misture o ovo e forme uma bola. Embrulhe em plástico e deixe na geladeira por pelo menos 45 minutos.
Com um descascador de legumes, remova a casca amarela do limão, tomando cuidado para não descascar a parte branca. Coloque o creme de leite numa panela e leve ao fogo. Deixe chegar ao ponto de fervura e desligue o fogo. Acrescente as cascas do limão e os dez ramos de tomilho. Tampe e deixe em infusão por pelo menos 30 minutos.
Pré-aqueça o forno em 400ºF/205ºC. Quando a massa estiver bem gelada, abra e forre uma forma redonda de fundo removível com ela. Deixe descansar por uns minutos e então leve ao forno por uns 8 minutos, até que ela fique levemente dourada. Retire do forno e deixe esfriar. Abaixe a temperatura do forno para 325ºF/162ºC.
Passe o creme de leite por uma peneira para remover as cascas do limão e os ramos de tomilho. Numa vasilha bata bem as gemas, o açúcar e a pitada de sal. Acrescente o creme de leite e bata bem.
Prepare a farofa, misturando as folhinhas de tomilho [remova dos galhos delicadamente com os dedos], a polenta e o açúcar. Misture bem e acrescente pingos de água com cuidado, vá mexendo com os dedos ou um garfo, até formar uma farofa.
Arrange os pessêgos na forma sobre a massa, começando pelo centro e formando uma flor, as fatias se sobrepondo. Coloque o molho por cima dos pessêgos, salpique com a farofa e lewve ao forno por mais ou menos 40 minutos, até os pessêgos ficarewm macios e o creme ficar firme. Retire do forno, deixe esfriar e desenforme. Espere mais ou menos uma hora para servir. Eu servi no dia seguinte.
Oridoko—uma variedade japonesa de tomate incrívelmente doce, que eu recheei com queijo mascarpone e queijo de cabra com ciboulettes e assei. Servi com um couscous de queijo que é muito simples. Foi feito com 1 xícara de couscous, 1 1/2 de água fervendo, um fio generoso de azeite e sal marinho a gosto. Quando o couscous tiver absorvido toda a água, misture 1/2 xícara de queijo parmesão ralado e afofe com o garfo. É isso.
Meus gatos são indoors, isto é, eles não saem na rua. Nem mesmo no quintal. Os motivos são basicamente segurança e saúde. Gatos indoors são mais limpos e mais saudáveis, vivem mais anos. O Misty não pode sair também porque ele é um gato indefeso—ele foi "declawed", teve suas garras removidas cirurgicamente pelo seu primeiro dono. Essa prática, considerada cruel na maior parte do mundo, ainda é feita aqui com a maior naturalidade. O Roux não pode sair porque ele é uma criatura esbaforida e não é muito inteligente. Ele é imaturo e meio bobo, um amoreco total, mas tem suas limitações. Quando eu o adotei, tive que prometer que não iria deixá-lo sair. Estou cumprindo como posso. Mas ele é um gato e é curioso. Se der mole, ele casca fora.
Sexta-feira é dia de faxina na minha casa. O pessoal da limpeza já foi avisado desde o primeiro dia, que os gatos não podem sair. Mas ontem algo aconteceu. Cheguei em casa às 5 pm e fui primeiro checar a limpeza, pois eu sou bem chatonilda e olho tudo nos micro-detalhes. Liguei a máquina de lavar roupa, falei olá pro Misty, que sempre vem me recepcionar e só depois de uns quinze minutos que parei em frente a porta de vidro que dá para o quintal e vi um gato familiar trancado do lado de fora, todo assustado, encolhido, com os pelos sujos de folhagem. Era o Roux!
Alguém deixou ele sair. Com certeza foram varrer o quintal e deixaram a porta aberta e ele, enxerido que só, escapuliu. Foi muita sorte ele não ter saído pra rua, pois atrás da minha casa tem um shopping center super movimentado. E também foi sorte ele não ter pulado a cerca, pois meus dois vizinhos têm cachorros. Baita susto! Esse Roux....
Para um jantar ultra-rápido e ultra-simples, fiz o pesto de sementes de abóbora da Ana. Usei macarrão integral. Ficou um bocado mais leve que a maioria dos pestos que já provei.
1 xícara (chá) de sementes de abóbora (das verdes)
1 maço de coentro (só as folhas)
1 xícara (chá) de queijo parmesão ralado na hora
1 colher (sopa) de suco de limão [*esqueci de usar]
2 dentes de alho [*não usei]
Sal a gosto
Pimenta-do-reino a gosto [*não usei]
Azeite de oliva a gosto
Torre as sementes de abóbora em uma frigideira. Mexa constantemente até ficarem meio douradinhas, cerca de 3 ou 4 minutos. Coloque no processador com os outros ingredientes. Pulse até triturar bem (algumas pessoas preferem com mais textura, menos triturado) e acrescente azeite de oliva pelo bocal até atingir a consistência desejada, mais espesso ou mais ralo. Misture ao macarrão bem quente e sirva com queijo ralado.
Tenho falado como uma matraca emperrada para todos que tenham a disposição de me ouvir, que eu percebo claramente um movimento muito forte de retorno à maneira tradicional e normal de se produzir e consumir alimentos. Já bati na tecla dos ovos orgânicos e fertilizados, que os produtores não conseguem suprir a procura e também na do leite cru, que está mais cotado que whiskey não falsificado em tempo de Lei Seca.
Raising poultry the new-old way— o artigo do San Francisco Chronicle comenta a demanda por frango criado da maneira antiga, solto no terreiro, ciscando. A matéria se concentra na fazenda Soul Food, que cria pastured chickens aqui pertinho, em Pleasant Valley. Um dos clientes dessa fazenda é o restaurante Chez Panisse, em Berkeley. Alice Waters, co-fundadora do Chez Panisse, foi a precursora desse movimento dos alimentos frescos, locais, naturais e orgânicos aqui nos EUA.
Mas o frango não basta ser certificado orgânico, tem que ter nascido e crescido normalmente, ciscado e rolado na poeira. Muitas fazendas orgânicas seguem as regulamentações, mas os frangos nunca viram a luz do sol. Eu acredito que as fazendas sustentáveis são o futuro. O artigo do SFC admite que o frango caipira ainda custa mais caro, mas se o consumidor pudesse ver como ele é criado, nem iria pensar em preço. Pois como escreveu a minha musa M.F.K. Fisher em How to Cook a Wolf—prefiro comer apenas uma pequena porção de um ingrediente de qualidade, do que me empanturrar de um montão de porcaria.
Finalmente tive a oportunidade de fazer uma perna de carneiro e acompanhá-la com os flageolets que estavam aguardando a vez de roubarem a cena. Comprei uma perna de carneiro desossada [butterflied] e temperei com sal marinho grosso, pimenta do reino, alho fatiado, ramos de alecrim e bastante vinho tinto e deixe marinando na geladeira durante a noite. Os feijões eu cozinhei com água numa terracota no fogo baixíssimo por algumas horas. No dia seguinte escorri os feijões, que apenas esquentei rapidamente com umas colheradas de manteiga [usei a crua] e salpiquei com flor de sal antes de servir. A perna de carneiro foi para a churrasqueira, em fogo médio. Como eu não sou a maior fanzoca das carnitas em geral, me concentrei muito mais nos feijões, que dominaram o meu prato. Já a Marianne, que ama um filé de qualquer coisa sangrando e não gosta da textura dos feijões, comeu muito bem o carneiro e depois levou as sobras embora—pro meu alívio!
Terça-feira com cara de segunda, por causa do feriado de Labor Day, que pra mim passou em branco. Na expectativa de uma semana melhor. Pelo menos o calorão vai dar um tempo. Ufa!
Dei um pulo no Trader Joe's e no Corti Brothers para fazer aquelas comprinhas supérfluas extremamente necessárias. Fui no Corti Bros especialmente para comprar o bacalhau salgado. Eles têm o peixe inteiro, da Noruega e do Canadá. Mas como um peixão inteiro é um pouco demais, resolvi comprar esses saquinhos de meio quilo cada, sem espinhas, do bacalhau Gonsalves. Quero fazer uma receita diferente desta vez. Mas tanto no Trader Joe's, quanto no Corti Bros eu sempre acabo comprando muito mais do que inicialmente planejado. É muito difícil passar batido pelas coisas diferentes e apetitosas que eu encontro nesses dois lugares. No Corti Bros o que me impede de pegar tudo o que eu vejo nas prateleiras é basicamente o preço. Um vidrinho de azeite de oliva por $150.00 é um pouco proíbitivo. Mas no Trader Joe's, que é famoso pelos seus produtos de qualidade e precinhos ridículos, eu faço a festa. Comemos esses flatbreads noruegueses enrolados com fatias de frios. A Marianne me disse que costumava comê-los com manteiga, açúcar e canela.
