Enfermeira—você pode ficar para o jantar, se quiser. servimos às 6pm.
Fer—eu realmente não quero desperdiçar a sua comida…
Enfermeira—ha ha ha! mas se quiser, fique à vontade!
Fer—acho que prefiro beber um copo de leite em casa [e sonhar com um curau de milho que deixei na geladeira]
Eu entendo que hospitais em geral aceitam requisição para dietas especiais, kosher, vegetariana, mas nunca ouvi falar que houvesse opção para os naturebas como eu. Portanto já fui consciente de que qualquer rango que me servissem lá iria ser abominável. Felizmente casquei fora a tempo, antes que eles viessem me empurrar o jantar sem sólidos, que prometia ser monstruoso. Não comi realmente nada lá. No dia seguinte o Uriel me serviu de colher um potinho de suco de cranberry e uva e outro com uma gelatina cor de xixi de alienígena. Algumas horas depois já estava tudo devolvido, já que as náuseas me atacaram ferozmente no primeiro dia. No segundo dia me trouxeram um chá preto com açúcar, outro suco de cranberry, outra gelatina fluorescente [passa, passa!], água com gelo, soda limonada horrivelmente doce, um caldo de carne e crackers salgadas. Nada entrou, nada desceu, simplesmente não deu. Pior é que quando me vejo assim frágil, como no caso de uma estadia num hospital, eu fico extremamente franca e portanto não escondi o meu desprezo por aquela comida sem criatividade, sem nada especial.
Se eu fosse a Alice Waters, delirei, teria um grupo de chefs na cozinha do hospital, cozinhando só pra mim—a paciente orgânica. Mas como sou uma simples ninguém, não posso exigir na bandeja um copo de suco de cenoura fresquinho ou gelatina feita com frutas sazonais, ou mesmo umas bolachinhas de farinha de centeio. Isso eu só posso ter em casa. Por isso não via a hora de ser liberada daquelas quatro paredes verdes, onde eu só dormi, dormi, dormi e dormi, alem de apertar o botão dos narcóticos que me faziam vomitar, e dormir mais e mais.
No segundo dia, quando acordei totalmente desgastada e descabelada, depois de uma noite de náuseas e vômitos constantes entre as dormidas impostas pelos narcóticos que me fizeram sonhar sonhos muitos estranhos, a enfermeira veio fazer o exame dos sinais vitais, que são feitos a cada hora, eu presumo. Eram sempre duas, a enfermeira registrada e a assistente. Sempre extremamente gentis, essa em particular olhou o bracelete com meu nome e idade e exclamou—nossa, mas você não aparenta ter quarenta e seis anos! Eu e o Uriel nos entreolhamos com um sorriso sem graça e eu com aquela cara amarfanhada e torturada respondi—nas atuais circunstâncias, ouvir isso é muito lisonjeiro. Acho que essa é uma das profissões mais honoráveis que existem, porque essas mulheres e homens lidam com a miséria humana, histórias tristes passam pelas mãos desses profissionais todos os dias. E muitas vezes eles vão até o final, até a morte do paciente, cuidando, sorrindo, sendo gentis e falando coisas pra te animar e te colocar mais alegre. No meu caso não foi nada dramático, mas ser tratada com carinho e atenção ajudou bastante no processo.
Ainda estou tendo muitas dores e ontem tive uma febre que só baixou de madrugada e que me assustou um pouco. Estou descansando bastante, vendo muitos filmes na tevê e comendo os ranguinhos brejeiros que o Uriel tem trazido dos meus restaurantes favoritos. Estou alimentando esperanças de que meu corpo vai colaborar e ficar bom logo, e fazendo planos de voltar à minha rotina na segunda-feira. Bicicleta, porém, só no final de agosto. Muito, muito, muitíssimo obrigada à todos que deixaram uma palavrinha aqui, desejando boa sorte e boa recuperação. Senti ondas confortantes de extremely good vibrations, que vieram em ótima hora!
A primeira e última vez que dormi num hospital foi quando meu filho nasceu, há vinte e seis anos. Portanto não posso me considerar uma pessoa experiente em estadias hospitalares e nem me sinto muito animada com a perspectiva de tubos, macas, enfermeiros, monitores. But a woman's gotta do what a woman's gotta go, então hoje pela manhã me internarei no hospital para fazer um tratamento chamado EMBOLIZAÇÃO UTERINA.
No ano passado uns exames detectaram entidades invasoras residindo no meu útero. O aparecimento dos famigerados fibromas parece ser uma coisa normal em mulheres de mais de quarenta anos. Eles são considerados tumores benignos e não causam nenhum risco, mas se desenvolvem e se multiplicam, evoluindo rapidamente para um quadro de sintomas realmente duros na queda. Eu já estou hospedando muitos, inúmeros, incontáveis fibromas e eles já estão fazendo a minha vida bem miserável. Na busca por uma solução fui colocada frente a frente com a possibilidade de fazer uma histerectomia, que é o procedimento de remoção do útero. Fiquei muito perturbada com a idéia de remover uma parte do meu corpo e eu e o Uriel fomos atrás de mais informação. Descobrimos que noventa por cento das operações de remoção do útero relacionadas à problemas com fibromas são totalmente desnecessárias e que há tratamentos alternativos. Tive várias consultas com minha ginecologista e, depois que optei pela embolização, também com a radiologista que vai comandar a ação e que me explicou todos os micro-detalhes desse procedimento muito menos traumático e agressivo.
Vou pro hospital em jejum, levando comigo minha malinha com alguns objetos pessoais e meu indefectível e robusto mau humor matinal. Estou ciente de todos os pormenores e de como meu corpo deverá reagir a esse tratamento. Já sei que vou ter que ficar uns dias de molho, sem poder cozinhar ou inventar muita moda. Tirei uma semana de licença saúde, que é o tempo que me disseram que vou precisar para me recuperar. Mas estou na expectativa de estar boa antes disso. Até breve então!
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Essa é a sobremesa do mês na edição de agosto da revista Martha Stewart Living. Adorei tudo nela, a massa de cornmeal com lavanda e, é claro, os pêssegos que estão entrando com tudo na estação. Gostamos imensamente do resultado, que pode ser comparado à um bolo de fubá sofisticado com a lavanda no lugar da erva-doce, e os pêssegos caramelados combinando muito bem com todo o resto. Comentário do crítico enquanto se servia de mais uma fatia—mas essa Martha Stewart é fogo, hein? Nem fala, nem fala, êta sujeita fogueta! Tudo o que ela publica dá certo e fica bom.
peach and cornmeal upside-down cake
170 gr/ 1 tablete e meio de manteiga sem sal amolecida
1 xícara de açúcar
6 pêssegos cortado em fatias grossas
1 xícara de cornmeal ou polenta
3/4 de farinha de trigo
1 colher de chá de fermento em pó
2 colheres de sopa de flores de lavanda secas
1 1/4 colher de chá de sal grosso
3 ovos caipiras grandes
1/2 colher de chá de extrato de baunilha
1/2 xícara de creme de leite fresco
Numa frigideira larga de ferro, ou outro tipo de panela que possa ir ao fogo e ao forno, derreta 56 gr/ 4 colheres de sopa de manteiga e espalhe bem pela superfície. Deixe dourar. Polvilhe 1/4 xícara do açúcar sobre a manteiga e deixe derreter, formando um caramelo. Coloque sobre esse caramelo as fatias de pêssegos formando um circulo em aspiral como numa flor. Deixe cozinhar um fogo baixo por uns 10 minutos, até que os pêssegos fiquem macios. Tire do fogo e reserve.
Numa vasilha misture a farinha, o cornmeal, o fermento, o sal e a lavanda. Reserve, Na batedeira, bata em velocidade média a manteiga restante [113 gr] com o açúcar restante [3/4 xícara] até formar um creme liso. Acrescente os ovos um por um, batendo sempre, Junte a baunilha e o creme de leite. Diminua a velocidade e vá jogando a mistura seca, até tudo ficar bem incorporado. Coloque essa massa sobre os pêssegos caramelizados na frigideira, espalhe bem com uma espátula e coloque em forno pré-aquecido em 350ºF/ 176ºC por 22 minutos, até a massa ficar firme e dourada. Retire do forno, deixe esfriar. Quando estiver frio, passe uma faca pela borda e vire o bolo sobre uma travessa.
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Minha surpresa nesta semana foi encontrar muitos tomates já bem grandes, mas ainda verdes, nos pés de tomate que plantei este ano na minha horta. Surpresa maior foi ver vários tomates cerejas vermelhinhos pendurados num galho. O negócio é que eu não plantei nenhum pé de tomate cereja este ano, pois já vem muitos deles na cesta orgânica e eu sempre acabo com um surplus enorme. Esses nasceram espontaneamente, fruto das sementinhas dos tomatinhos que cairam na terra no final do último verão. Então tá, pelo jeito não tenho escolha, né? Vou ter tomates cerejas abundando na horta e na cozinha mais uma vez!
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Lembro que naquele dia eu acordei com a macaca e com mil idéias na cabeça. Com a câmera fotográfica já preparada, rolos de filmes extras, fui avisando—Gabriel, vamos registrar o seu dia em fotos! E ele, como o menino mais lindo do mundo que ele sempre foi, topou. Quem tem um avô que te fotografa em todas as poses possíveis e uma mãe engraçadona que te pega no flagra quando VOCÊ ESTÄ MEDITANDO NO DÁBLIUCÊ, não estranha quando recebe a proposta de ser modelo da própria vida. Então fomos lá, eu passei o dia atrás dele, clicando. Só não tirei fotos dele tomando banho, porque ele não quis e tive que respeitar. Mas começamos com o acordar, que obviamente na foto está todo encenado, já que a janela está escancarada, o quarto cheio de luz, ele está de óculos e com a boca suja de leite com chocolate, que era o que ele sempre bebia no café da manhã. Depois continuamos com ele estudando, ou melhor, fazendo as tarefas da escola, depois almoçando a comidinha natureba com aquela cara de alegria que ele sempre fazia em frente ao prato cheio de arroz integral e agrião refogado, depois escovando os dentes na frente do espelho—que ficou uma foto criativa, admito. Fizemos o set do cotidiano, que depois eu colei em sequência num pequeno álbum, para guardar para todo o sempre, afinal a gente esquece detalhes com o tempo, e naquele tempo não havia blog nem foto digital, era tudo muito mais dependente da sua memória, boa ou ruim, natural ou ginkobilobada.
fatos da foto:
Estava friozinho, pois ele estava dormindo com o acolchoado de lã de carneiro da minha infância. Minha mãe mandou fazer um pra cada filho, os dos meninos azul, os das meninas vermelho. O Gabriel herdou o meu.
Tinhamos voltado da Bahia fazia pouco tempo, pois o Gabriel está com as fitinhas do Bonfim no pulso e atrás da cama dá pra ver um pedaço do berimbau que ele veio carregando paulistamente no avião.
Filho de peixe. Ele dormia de camiseta, como o pai e a mãe. Somos uma família que nunca teve pijamas. E ele fazia o que eu faço até hoje, dormia com o cabelo molhado e com uma toalha no travesseiro e depois acordava com aquela cabeleira do zezé, com tufos super ondulantes só de um lado da cabeça.
Welcome back from the weekend, as the temperature has cooled and the skies have cleared. It is mid-summer, a grand time for epicures like yourselves. As you can see from your baskets, the amount of tomatoes is steadily increasing each week, painting themselves a brighter red each time. The ambrose cantaloupe are slipping off the vines like butter. Cantaloupe, with origins in Africa and India, was introduced to North America by Christopher Columbus on his second voyage to the New World in 1494. Continue Columbus' voyage with our Recipe of the Week. This week the baskets abound with garlic, onions, collards, kale, chard, cantaloupe, cucumber, summer squash, eggplant, peppers, potatoes, tomatoes, basil, zucchini, plums, and peaches. The figs and nectarines were picked from the bountiful Ecological Garden; please note they are not certified organic.Today's baskets were picked and packed with love by Matt, Ethan, Laurie, Judy, Hai, Toby, Rachel, Raoul, Laura, and Aubrey. Enjoy the week!
Recipe of the Week
Cantaloupe Bread - Pão de Melão
1 3/4 xícara de farinha de trigo
1/4 colher de chá de bicarbonato de sódio
2 colheres de chá de fermento em pó
1/4 colher de chá de sal
2/3 xícara de açúcar
2 ovos
1/2 xícara de pecans picadas
1/5 xícara de manteiga derretida
1 xícara de polpa amassada de um melão cantaloupe
Misture todos ios ingredientes secos, adicione os ovos, a manteiga e a polpa do melão. Incorpore as pecans picadas. Coloque a massa numa forma de pão bem untada. Asse em 350ºF/ 176ºC por mais ou menos 50 minutos.
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Depois de fazer o Ajo Blanco, quis fazer também o Gazpacho. Dei uma olhadela no 1080 Recipes, onde me inspirei para fazer a minha versão.
Bati no liquidificador 4 tomates orgânicos maduríssimos, 1 pimentão vermelho pequeno, uma cebola bem pequena, 4 azeitonas pretas, um punhado de salsinha fresca picada e duas fatias de pão francês de ontem amolecidas em água gelada. Bati bem, acrescentei uma xícara de água gelada, pimenta do reino moída, flor de sal a gosto e bastante azeite de oliva. Coloquei tudo numa jarra e deixei gelar. Servi com croutons simples, feitos com fatias finas de pão francês cortadas em cubinhos e tostados na frigideira de ferro, e regados com um fio de azeite.
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Uma deliciosa sopa fria típica da Andalucia, na Espanha. Usei esta receita, dando umas adaptadas aqui e ali. Achamos o resultado bem interessante, um prato ideal para dias super tórridos, quando não se pode ou quer usar o fogão.
1 xícara de amêndoas sem pele
4 fatias de pão branco sem a casca imersas em água gelada
3 dentes de alho em fatias
5 colheres de sopa de azeite de oliva
2 1/2 xícaras de água gelada
2 colheres de sopa de Jerez, vinagre de sherry
Sal a gosto
Uvas brancas sem sementes
Salsinha picadinha para decorar
Numa panela coloque as amêndoas e o alho, cubra com água e dê uma fervida. Coe e coloque no processador com o pão molhado. Bata bem, vá adicionando o azeite aos poucos. Adicione a água gelada e o vinagre. Processe até a mistura ficar bem cremosa. Adicione sal a gosto. Coloque a sopa numa vasilha e leve à geladeira para gelar. Sirva com as uvas, decorado com a salsinha picada e algumas fatias de amêndoas tostadas se quiser. A adição das uvas brancas realmente faz uma diferença e adiciona um plus nesta versão branquela do gaspacho.
A internet é um espelho virtual da nossa sociedade real, cheia de gente de bem, trabalhadora, gente legal, honesta, construtiva, criativa, mas também superpopulada com a bandidagem, os trambiqueiros, gente que não tem o menor escrúpulo, que acha que está numa terra de ninguém vestindo um traje invisível.
Não sei onde foi parar as regras da Netiqueta, que se usava no inicio da internet e hoje parece ter sido enterrada a sete palmos, ninguém quer saber, nem se importa mais com nada. Vê-se de tudo por ai. É um mar de boçalidade e cretinice aterrador.
Fiquei realmente chocada em descobrir receitas e fotos de pessoas idôneas que eu conheco sendo repassadas de mão em mão, ou melhor, de e-mail em e-mail, como se elas não fossem de ninguém, não tivessem saído de uma cozinha, onde uma pessoa se empenhou em inventar ou adaptar a receita, teve o trabalho de deixar tudo bonito e tirou fotos para colocar online. Os gatunos oportunistas apenas passam agarrando o que vêem pela frente, como num saqueamento virtual, pra depois repassar para outros repassarem e depois esses repassarem mais uma vez, e assim sucessivamente até não se saber mais de onde veio aquilo, porque para eles nada parece mesmo ter dono. Eu testemunhei esse passa-passa meio sem querer, quando aportei por acaso numa lista de culinária aberta, onde entravam todos os dias várias receitas e fotos de muitos amigos blogueiros, sem nenhuma menção de crédito.
E agora me avisaram que uma criatura está colocando MINHAS FOTOS e MEUS TEXTOS num grupo de culinária no Flickr, como se fossem dela, sem link, sem crédito, sem nada! O que essa gente está pensando da vida? Me choca profundamente perceber a maneira desrespeitosa com que o trabalho do outro é tratado. Se está na internet, é livre, pode pegar! Eu estou imensamente desanimada, pois realmente me dedico ao que faço, capricho nas minhas fotos, me empenho escrevendo meus textos, que refletem a minha personalidade e a minha vida, para depois ver o fruto desse trabalho acabar tristemente em bocas de Matildes....
O restaurante Julia's Kitchen fica no Copia, na cidade do Napa e foi batizado em homenagem à Julia Child, uma das idealizadoras, financiadoras e patronas do The American Center for Wine, Food and the Arts.
M.F.K. FISHER — o melhor texto de gastronomia em língua inglesa, produzido por uma mulher linda demais e que escrevia bem demais, as melhores histórias, todo blogueiro que gosta de escrever quer, insolentemente ou discretamente, ser um pouquinho como ela, viajada, sabida, charmosa, glamourosa, não nasceu na Califórnia, mas se considerava uma californiana, assim como eu.
JULIA CHILD — danem-se as receitas francesas! eu gosto mesmo é do jeitão bonachão dessa mulher gigante em muitos sentidos, desengonçada, grandona de corpo e com uma voz pequenininha, que nunca pareceu se incomodar por não ser um padrão de beleza, desabrochou tarde, teve uma vida plena, uma californiana que conquistou o mundo, sem planejar, nem se afobar, apenas sendo o que ela sempre foi, insistente e perfeccionista, sem nunca se furtar de admitir que derrubou sim o pernil no chão da cozinha.
ALICE WATERS — ingenua e romanticamente inspirada, um gênio obcecado, iniciou uma revolução, que hoje é parte da história do resgate do simples e do natural, e todo mundo deveria pretender ser um pouco como ela, correndo atrás do que acredita, fazendo sonhos virarem realidade.
JUDITH JONES — antenada, trabalhando sempre quietinha e nos bastidores para nos dar acesso à criaturas fascinantes e criativas, cujos livros hoje enchem nossas estantes e enriquecem a nossa vida cotidiana, com tantas mil histórias, cardápios e receitas, sem o trabalho dela, muitos outros não teriam sido revelados.
Não sei como é no resto do mundo, mas aqui os distribuídores de amostra de comida e bebida estão por todos os cantos. Acho que deve fazer parte da cultura essa satisfação de poder provar, sem precisar pagar, antes de decidir se vai ou não comprar. E eu acho isso ótimo, muito justo, nada mais prático, afinal não tem nada pior do que se decepcionar com aquele produto pelo qual você pagou uma baba. Mas eu nunca me senti à vontade com esse hábito. Vou ao Farmers Market e tem amostra de tudo, das frutas, dos pães, dos queijos, do azeite. E alguns até oferecem seus produtos de uma maneira um pouco agressiva, como na barraca de bolanis onde os moçoilos bonitos e simpáticos do Afeganistão usam aquelas manjadas técnicas machistas para conquistar as clientes do sexo feminino. E em qualquer supermercado estão lá as senhorazinhas sorridentes, e até as não muito sorridentes, te oferecendo pedaços de linguica frita, bolachinhas com patê, quiches e tortas, cremes, queijos, sorvetes, sucos, leites, refrigerantes, gororobas variadas, numa lista interminável de produtos novos ou já conhecidos, tentando te convencer a comprar, ali mesmo ou num futuro bem próximo.
Eu vejo a aglomeração de pessoas e carrinhos e passo reto, às vezes dou até uma desviada. Obrigada, não quero. Não consegui ainda adquirir esse hábito de pegar pedacinhos disso ou daquilo em publico e comer equilibrando o copinho e o garfinho ao mesmo tempo que empurro o carrinho de compras. Não gosto de comer assim, andando, beliscando, comida oferecida com o único propósito de te convencer a comprar o produto.
Alguns eventos servem comida e bebida de graça. Eu curto beber uma taça de vinho ou mesmo provar algo comestível, desde que não tenha que enfrentar uma muvuca, me acotovelar pra pegar um pedaço de queijo, driblar a malta para agarrar uma lasca de pão e depois passar o resto do tempo preocupada se não fiquei uma semente de gergelim no meio dos dentes, ou com aquela sensação de dedos engordurados sem opção de poder lavá-los.
Além dos entusiasmadinhos e famintos de sempre, quem realmente curte esses eventos distribuidores de comida são as crianças. No Copia, a voluntária dando amostras de um sorvete sabor morango fazia um sucesso incrível com a gurizada. Sem nem um segundo sequer de descanso, ela só conseguia suspirar, respirar fundo e continuar firme. No copinho ou na casquinha? Na casquinha, of course!
Fiz novamente o famoso sorvete da pamonha, que pra mim é uma das coisas mais deliciosas desse mundo. Eu perco a pose de moça fina, pois não consigo parar de comer essa gostosura com sabor de roça! Já estou com uma abundância de espigas na geladeira e estou feliz, pois este ano a fazenda plantou da variedade amarela, que é a que mais gosto. Esse milho é de uma doçura ímpar. A receita é quase a mesma, só substituí o buttermilk por creme de leite fresco e o açúcar demerara por néctar de agave.
Essa foi a primeira receita que marquei no The Taste of Country Cooking da Edna Lewis. É uma receita de primavera, quando a abundância de grama fresca significava um lote extra de leite, creme de leite e manteiga. Nessa estação do ano fazia-se muitas receitas com esses ingredientes, uma delas o Blanc Mange.
1 xícara de amêndoas sem pele
1 1/3 xícara de água gelada
1/2 xícara de leite
1/2 xícara de creme de leite fresco [heavy cream]
2/3 xícara de açúcar
1 colher de chá de gelatina em pó sem sabor
1/4 xícara de água gelada
1 colher de chá de extrato de amêndoas
1 colher de chá de extrato de baunilha
2 colheres de chá de rum
Coloque as amêndoas no processador ou liquidificador e pulse até elas ficarem moídas. Acrescente 1 1/3 xícara de água gelada e continue moendo, até virar um purê bem liso. Misture o leite, o creme de leite e o açúcar e bata tudo mais uma vez. Aqui Edna recomenda coar a mistura por uma peneira, mas eu não fiz. Coloque a mistura numa panela. Dissolva a gelatina em 1/4 xícara de água e adicione ao creme na panela. Coloque em fogo médio e, mexendo sempre, deixe escaldar mas não deixe ferver. Desligue o fogo, adicione os extratos e o rum. Coloque numa forma e deixe esfriar. Leve à geladeira até ficar firme. Remova da forma e sirva com frutas frescas ou em molho. Eu servi com um molho de framboesa e laranja. Também servi com figos assados na churrasqueira. De todas as maneiras esse doce foi um sucesso.
Quando Judith Jones, editora da Knopf de New York que publicava os livros de Julia Child, conheceu Edna Lewis na década de 70, ficou completamente encantada e quis publicar um livro com suas memórias e receitas. Elas trabalharam juntas, com Judith ajudando Edna a se expressar da maneira mais natural e autêntica possível. O resultado dessa parceria se transformou num livro maravilhoso—The Taste of Country Cooking. Estou carregando esse livro comigo desde o inicio da primavera e agora entendo muito bem por que Judith Jones se encantou com Edna Lewis. Eu também estou encantada!
The Taste of Country Cooking é dividido por estações do ano. Eu li a primavera durante a primavera e agora acabei de ler a parte do verão. Vou ter mais duas estações para poder terminar de ler o livro. Esse esquema pode não fazer sentido nenhum para quem está de fora, mas se você pegar esse livro nas mãos, vai entender porque eu estou lendo com esse ritual sazonal.
Edna nasceu em Virginia em 1916, num vilarejo construído por ex-escravos libertados pela emancipação de 1865, batizado de Freetown. Ali ela cresceu numa família de fazendeiros, que plantavam, criavam animais, tinham uma economia própria, auto-sustentável. As histórias de Edna são do seus anos como criança e são uma delicia de ler. Ela conta com riqueza de detalhes o dia-a-dia da família, com as crianças indo pra escola e ajudando nos trabalhos domésticos e da fazenda, e como eles comiam de acordo com as estações. No capítulo da primavera ela descreve a excitação das crianças pelas novidades aparecendo nos estábulos, no pomar e na horta, e consequentemente na mesa da família.
No livro, Edna Lewis fornece as receitas exatamente como elas eram preparadas pela sua mãe, com ingredientes que hoje necessitam um pouco de adaptação. São receitas simples, mas preparadas com ingredientes fresquinhos, e que eram realmente apreciadas. As memórias de Edna revelam como as crianças comiam de tudo e como o mais simples prato era aguardado e recebido com alegria e entusiasmo.
O capítulo do verão é colorido como a estação, com as crianças em férias e participando mais intensamente do cotidiano da fazenda. Os menus dessa estação são fabulosos. O mais bacana é o do Sunday Revival Dinner, uma celebração da comunidade de Freetown, que segundo Edna era um tipo de Thanksgiving, com muita comida, incluindo todas as famílias do povoado, quando se comemorava a emancipação dos escravos. As receitas desse menu são fabulosas, mas mais fabuloso é o fato de que a mãe de Edna preparava tudo praticamente sozinha, durante a madrugada, enquanto as crianças dormiam. No dia seguinte o excitamento era geral, com a mesa da sala abarrotada de comidas saborosas, todos vestiam seus trajes novos, também costurados pela mãe—a super-mulher, e apesar do desconforto de terem que vestir sapatos novamente desde o inicio das férias, iam todos felizes para a igreja, onde a festa aconteceria. Depois chegava a mãe na caminhonete do pai, com a comida: presunto assado, uns seis frangos fritos, pudim de milho, cozido de batata-doce, vagens temperadas com pedacinhos crocantes de porco frito, pãezinhos quentinhos, picles de melancia, beterraba, pepino e pêssegos com especiarias, umas doze tortas de maçã e batata-doce, bolo de camadas recheado com caramelo e geléia, e uma jarrona de limonada.
Estou com o livro parado, ansiosa para recomeçar a ler quando o outono chegar e poder acompanhar, junto com a Edna Lewis, as delicias da próxima estação.
Gelatina de fruta é uma sobremesa tão fácil de fazer e fica sempre tão gostosa, refrescante para os dias quentes, com mil variações e possibilidades. Não sei por que eu não faço gelatina mais frequentemente. Essa receita saiu da revista Everyday Food e levava apenas framboesas, mas eu fiz com uma mistura de framboesas, morangos e murtilos. Achei o resultado um pouco doce pro meu gosto. Se refizer, vou omitir o açúcar e colocar um pouco mais de mel.
2 envelopes de 8 gr—1/4 ounces de gelatina em pó sem sabor
1 1/2 xícara de frutas frescas
ou 1 pacote de 350 g—12 ounces de frutas congelada
1/2 xícara de açúcar
1 pitada de sal
1/4 xícara de mel
Salpique a gelatina em 1/4 xícara de água gelada e deixe dissolver, por mais ou menos 10 minutos. Enquanto isso cozinhe as frutas numa panela com o açúcar [se gostar de coisas doces], 2 xícaras de água e uma pitada de sal. Cozinhe por mais ou menos 5 minutos, até as frutas amaciarem e dissolverem, Retire do fogo, acrescente a gelatina dissolvida e o mel e misture bem. Passe a mistura por uma peneira fina ou food mill. Meça 4 copos de liquido, se precisar acrescente mais água. Divida em seis potinhos, deixe esfriar, cubra com plástico e leve a geladeira até ficar firme.
Sandy Besser, uma colecionadora de arte de Santa Fé, juntou em três anos mais de cem peças artesanais e funcionais de cerâmica, todas feitas por artistas norte-americanos. As peças, contemporâneas e ecléticas, mostram uma ampla variedade de técnicas, materiais e processamentos e estão em exposição no THE AMERICAN CENTER FOR WINE, FOOD AND THE ARTS—COPIA. Eu fotografei algumas das que mais gostei e que me lembraram o trabalho da Mariângela e do Rui Gassen, de Porto Alegre. Infelizmente não anotei o autor de cada uma dessas lindas cerâmicas, mas a minha favorita é sem dúvida a sopeira decorada com desenhos de insetos.
Acho que nunca bebi tanta água na minha vida, nem nos meus tempos de nadadora assídua. Com esse calor seco, reidratar é imprescindível e eu acordo e durmo bebendo água. Durante minhas horas de labuta isso irrita um pouco, pois provoca mais idas ao wanderley. Hoje, além dos quarenta e um graus celsius, está um fumacê horrível provocado pelos incêndios que, como todos já devem ter visto nos noticiários, estão castigando o norte da Califórnia. Nós estamos sentindo a calamidade pela névoa amarela e ardida que envolveu o nosso céu. É um cheiro tão forte de madeira queimada, que me faz ter vontade de chorar.
Ontem, jantando sozinha na mesa da sala, olhei para o quintal e vi através da porta de vidro a criaturinha delicada ali perto dos arbustos de lavanda. As perninhas finas, como as do Pernalonga, as orelhonas pontudas esticadas, os olhinhos meigos e o focinho mexendo pra lá e pra cá. O gato Roux já começou a bufar com a visão da lebrezinha, que permaneceu impávida, sem perceber que uma humana e um felino a observavam com diferentes intenções. O Roux mudou até de posição, depois de janela, para poder ver melhor. Eu parei de comer, parei de ler a revista que estava me acompanhando na saladinha de pepino com queijo feta e fiquei olhando com uma cara de parva sorridente apatetada até a lebrezinha dar um pulinho e desaparecer da minha vista tão rápidamente que nem vi pra onde.
Com esse calor miserável, senti muita pena da lebre pernalonga e orelhuda lá fora. Parei tudo que estava fazendo e fui até o quintal onde arrumei uma vasilha bem no meio do piso de tijolinhos e enchi de água fresca. O bichinho vai desidratar, ele precisa de água!
Mais tarde, contando o episódio pro Uriel, ele me disse que esses animais se viram muito bem e que chupam a água dos matinhos e plantinhas. De sede eles não morrem. Especialmente naquela selva que é o meu quintal.
As romãs vão estar maduras para serem usadas, em deliciosos pratos salgados ou doces. Essas estão no edible gardens, a magnífica horta—pomar do COPIA.
Esse frogurt foi feito no improviso, porque o cabeção descascou e picou um bocado de pêssegos maduríssimos, colocou tudo no congelador para ficar somente por alguns minutos e só foi lembrar de tirar muitos dias depois. Pensei imediatamente no incrível sorbet de morango da Charlene e achei que daria pra fazer um igual, de pêssego. Coloquei no liquidificados os pêssegos congelados, mel a gosto, um punhado de folhinhas de menta fresca e uma dose de licor Cointreau. Logo vi que minha intenção de sorbet não iria ficar igual ao sorbet da minha amiga e tasquei na mistura uma xícara de iogurte natural integral e a partir dali tudo correu tranquilo. Sorveteira e nhac-nhoc-nhac. Esse frogurt foi devorado em tempo recorde.
O Israeli couscous, também conhecido por maftoul ou pearl couscous, é bem diferente do couscous marroquino. O Israeli é feito de bolotas largas e precisa ser cozido, não apenas reidratado como o marroquino. Ele fica ótimo em saladas, como esta com lentilha e hortelã que eu fiz um tempo atrás. Desta vez me baseei numa receita da revista Martha Stewart Living.
Toste 1 xícara de Israeli couscous numa panela até os grãozinhos ficarem dourados. Enquanto isso tenha uma chaleira preparada com água fervendo. Quando o cuscous estiver douradinho despeje bastante água fervendo até cobrir todo os grãos, acrescente sal a gosto e deixe cozinhar até os grãos ficarem bem macios. Escorra bem e reserve. Você pode fazer com tomates crus, como a MS ensina, mas eu estava usando a churrasqueira pra fazer outras coisas e resolvi aproveitar o calor e assei os tomates pequenos cortados ao meio e embrulhados numa folha de papel alumínio. Você pode também fazer no forno. Quando eles estiverem cozidos, remova da churrasqueira, abra o pacote e deixe esfriar um pouco. Misture os tomates assados—com o caldinho que soltou e tudo, no couscous cozido. Tempere com molhinho feito com vinagre balsâmico, suco de limão, azeite, óleo de nozes e flor de sal. Misture bem, jogue bastante folhinhas de manjericão frescas rasgadas com as mãos, e então sirva.
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Cria-se o hábito. No carro eu mantenho uma cesta redonda grande, duas sacolas de pano, duas de lona plastificada e uma térmica. Não tem mais erro, nunca esqueço de levá-las comigo quando vou às compras. Sacoletas de plástico NO MORE! Mas o negócio era a comprinha informal, que não era aquela compra de supermercado, quando se dá apenas uma passadinha na farmácia ou de repente se vê algo legal e decide comprar. Lá vem a sacolonstra. Mas um dia, no passado, eu fui até a bookstore da UC Davis ver uns earphone novos para usar no meu computador durante o trabalho e vi essas sacoletas. Comprei várias para dar de presente e guardei uma pra mim. Ela é perfeita para se carregar na bolsa e para ser sacada nos momentos cruciais—eu não preciso de nenhuma sacola, pois tenho a minha própria. Tcharannn! Alegria, alegria! Ela é bem pequena, cabe na palma da mão e quando aberta fica enorme, carrega muita coisa. Além de ser feita de um material resistente e lavável, ainda é lindona. A Andrea do bacanérrimo blog Superziper tem uma igual e a mesma opinião que a minha.
Pedalando minha bicicleta pelo campus da UC Davis às cinco da tarde me senti dentro de um forno natural. O ar estava seco e amarelado e os meus olhos ardiam com o calor que estava no pico, marcando 43ºC / 109ºF. Nesses dias extremamente quentes, o departamento de saúde pede para as pessoas evitarem ficar na rua, fazer exercícios, levar crianças à piscina, pois o ar fica insalubre. Felizmente, essas ondas de calor duram no máximo três dias, embora elas aconteçam várias vezes durante o verão. Felizmente também temos uma excelente infra-estrutura e só se sente o calor na rua. Minha casa tem ar condicionado central, como a maioria das casas e locais públicos ou de trabalho. Eu fecho as janelas pela manhã para não deixar o bafão entrar e quando chego em casa, o a/c já ligou automaticamente para manter a temperatura da casa nos agradáveis 25ºC / 77ºF. Por isso eu não uso o fogão nesses dias tórridos, porque não faz sentido ter uma temperatura controlada e esquentar deliberadamente uma parte da casa. E como esquenta! Em dias secos e quentes como esse, até a chama do fogão produz calor demais. Então o jeito é cozinhar na churrasqueira, onde eu já adquiri maestria, ou fazer receitas que não precisam cozimento. Nesse dia baforento optei mais uma vez pela panzanella. Essa salada é uma refeição completa e não precisa usar o fogão para prepará-la. Nessa variação usei abobrinha. Mas já fiz várias vezes a receita clássica e a versão com aspargos.
Assim jantamos no primeiro dia da ondaça, que ainda vai nos castigar por mais dois dias. E a previsão pra hoje—lord have mercy—é de 44ºC / 112ºF.
Salada de batatas de casca vermelha, cozidas e descascadas, temperadas com um molho de creme fraiche, suco de limão, mostarda dijon, flor de sal e óleo de nozes torradas e salpicadas com ciblulettes/chives.
Salmão selvagem assado na churrasqueira sobre uma cama de cebolas, salpicado com sal defumado e pimenta do reino.
Purê de ervilhas e edamame com menta e iogurte.
Carpaccio de abobrinha verde e amarela, temperada com uma mistura de suco de limão, óleo de abacate, flor de sal e salpicada com folhas frescas de estragão e fatias finíssimas de queijo manchego
Pão de centeio integral. Manteiga orgânica sem sal.
Água fresca e vinho verde.
No COPIA—The American Center for Wine, Food and the Arts, fiz um wine tasting bem diferente, usando um cartão e um monte de máquinas. Tive que testar essa inovação. Você compra a quantia que quiser, mínimo de dez dólares, depois passeia pelas diversas máquinas, cada uma contendo três tipos de vinho. Os tastings custam de um a cinco dólares, dependendo da qualidade do vinho. Eu testei três Cabernet Sauvignon da Califórnia e um Pinot Noir da Nova Zelândia. Bem legal!
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O primo "sangue azul" do Roux e do Misty. Ele é um gato magérrimo, sofisticado e elegante, e não se relaciona com a plebe, que incluí eu o resto do mundo. Ele é lindo e esta é a primeira vez que cuido dele, quando meu filho viaja, e que ele vem conversar comigo. Eu ter conseguido tirar fotos dele foi uma façanha.
Um monte de amoras, uma xícara de iogurte integral orgânico, 1/2 xícara de leite integral orgânico, mel a gosto. Bater tudo no liquidificador. Colocar na sorveteira. Eu gosto de manter as sementes no creme, mas quem não gosta pode bater as amoras no leite e passar por uma peneira ou food mill. Achei que a câmera não conseguiu captar cem por cento a magnifica cor natural desse sorvete.
Foi um dia de temperatura amena que até nos permitiu um almoço na mesa do quintal. O rango não ficou uma maravilha, mas deu pra comer. Quase deixei torrar a sobremesa e exclamei irritada que devo estar com uma praga rogada, porque não é possível o tanto que eu me atrapalho.
Notícias fresquinhas e felizes do Brasil. A horta está bonita, com alguns tomates verdes pendurados nos pés. O manjericão está radiante. Estou de olhão nos pêssegos e nectarinas. Preciso investir muito tempo e trabalho no meu quintal. Farei.
Fizemos muitas coisas em casa. Tive um papo longo e interessante pelo telefone. Pizza de queijo. Já estava anoitecendo quando fomos dar comida, água e atenção para o Tim e o Sequel, os gatos do Gabriel e da Marianne. Eles não são como os nossos gatos, que se aprochegam de qualquer um e que até incomodam, como o Roux que sobe em cima mesmo das pessoas que não gostam dele. Os gatos do Gabriel são anti-sociais e desconfiados. Um deles parece um lord inglês, comprido, magro e sempre com uma cara de empáfia. Ele nunca chegou perto de mim, mas nesses dias tem tido um comportamento incomum, chegando em nós ronronando alto. Aos poucos conquistaremos a amizade desses dois felinos.
Estávamos voltando pra casa, quando vimos os fogos de artificio pipocando no painel gigante do céu cor de azul marinho. Imaginamos o parque lotado de gente, os ohs e ahs da multidão, esticamos o nosso pescoço para ver as luzes. Já em casa ouvimos o retumbante estouro do encerramento dos fogos. Na tevê, 1776, um musical histórico sobre a declaração da independência. Enfim, era o quatro de julho.
Fiz essa sopa numa porção individual, com sobra para o dia seguinte. Quis replicar mais ou menos a sopa tailandesa que eu adoro. Resolvi usar milho fresco. Fiz uma versão simplificada, que ficou exatamente como eu queria. Uma das coisas que eu gosto na cozinha tailandesa é que eles usam tomate em muitas receitas.
Grãos raspados de uma espiga de milho - mais ou menos 1 xícara
6 tomatinhos orgânicos e maduros
1/4 de uma cebola picada
Um pedacinho de gengibre fresco
Sal a gosto
1 folha de louro
Pimenta vermelha - usei a chipotle em pó e a cayenne em flocos
1/2 xícara de caldo de legumes - usei de cogumelos
1/2 xícara de leite de coco
Suco e raspas de um limão - usei o amarelo
Muitas folhas de manjericão fresco
Refogue a cebola e o gengibre ralado fininho no azeite. Quando a cebola estiver molinha, acrescente o milho. Deixe refogar uns minutos. Junte os tomates cortados em quatro. Coloque o caldo de legume, a folha de louro e deixe ferver. Acrescente a pimenta, o leite de coco, as raspas e suco de limão, salgue a gosto, deixe cozinhar um minuto, desligue o fogo e acrescente então as folhas frescas de manjericão. Sirva.
[* relato de uma festa mexicana que fui, num dia de verão no século passado.]
Tive um sábado diferente, porque o Uriel está viajando e fui convidada por uma amiga para uma festa hawaiiana de aniversário mexicano. Fui, porque recebi o convite feito com tanta alegria e entusiasmo que não pude dizer não. Além do mais minha outra opção de lazer era boiar na piscina, de novo, e então optei pela novidade.
Me arrumei rapidinho, sem requintes, com um vestido longo preto nesse meu jeitão minimalista, embora tenha colocado uns brincos antigos que tenho, e esperei pela minha amiga, que chegou toda colorida e sexy de sarongue curto e tamancos de Carmem Miranda.
Ela foi dirigindo até Winters—uma das cidades-gueto dos mexicanos, onde a festa iria acontecer. Lá nos encontramos com três irmãs dela, nos aboletamos numa van bacanosa e fomos, matracando e rindo, para 'la fiesta'. Eu de preto e as irmãs Rosalba, San Joana, Irene e Mari todas coloridas, de colares, anéis, pulseiras de ouro, maquilagem caprichada e 'tacones altos' brancos.
Fomos os arrozes da festa. Chegamos e a anfitriã ainda estava passando aspirador no carpete azul turquesa dos cômodos da casa. Ajudamos um pouquinho, papeamos um pouquinho e ficamos encantadas com a decoração no quintal, com tendas e mesinhas ao lado da piscina, tudo super bonitinho, com enfeites hawaianescos por todos os cantos. Logo apareceu um D.J. de bigodinho, que colocou o som pra rolar na caixa—'suave, suave, besa me suave'—cantava a sensação latina do momento, um rapazola porto-riquenho chamado Elvis Crespo. Devoramos nachos com salsa 'picantíssima' e tomamos refrescos e margaritas geladíssimas!
Bem mais tarde chegou a aniversariante, Bertha, que fazia 40 anos. Todos se amarfanharam na garagem pra gritar 'sorpresa!!'. Foi tudo muito bem planejado. A Bertha ficou chocada, chorou, abraçou todo mundo, emocionou-se. Até eu fiquei com lágrimas nos olhos, de tão comovente que foi a surpresa. E fiquei parada lá, sem saber nem mesmo o que dizer, porque não conhecia a Bertha, nem absolutamente ninguém, além das irmãs Muñoz. Eu era a mais perfeita 'bicona', além de ser a única não vestida em trajes hawaiianos.
Com a Bertha recuperada da emoção, fizemos a fila pra comida. Muita comida. Diversas saladas, vários tipos de arroz, uns frangões e carnonas assada. Pão pra acompanhar. E mais salsa picante. Comemos, comemos, bebemos, bebemos, conversamos muito e até recebi elogios ao meu portunhol. Eita gente simpática!
Os mexicanos são todos uma grande família. É meio assim como a gente. Todos se conhecem, são comadres, cunhados, primos, amigos de infância. Eles imigram e trazem o avoilo e a avoila, as tias e tios, os vizinhos, daí se agrupam e vivem felizes no estrangeiro sem sentirem-se estrangeiros. Uma façanha cultural.
Depois de muito comer e 'chismear', rimos com a farra da piñata, aplaudimos a Bertha abrir os 'regalos', cantamos 'feliz cumpleaños', comemos 'pastel' com flan, nos despedimos de todos com muitos abraços e dizeres de 'muchas gracias!' e fomos embora, comentando de tudo e todos. Eu ri muito, prestei muita atenção nas conversas e tive um dia muito bom, riquíssimo e suavissimo, gracias, gracias, besos, besos!
Essa é a cornucópia de verão. Porém as cerejas já estão se despedindo, assim como os damascos. Mas os pêssegos e as nectarinas—e os figos, os FIGOS—já estão na roda. Dessas frutas, duas viraram sorvete. É uma boa maneira de usá-las rapidamente, já que eu não guardo fruta na geladeira.
Foi mais ou menos como decidir alegremente pregar um prego na parede para pendurar um lindo quadro e de repente ver que a parede tinha furos e precisava de massa pra remendar aqui e ali, e depois perceber que precisava de pintura e logo em seguida sacar que a situação estava muito pior do que se imaginava, que seria necessário realmente derrubar paredes, trocar os canos, o teto, e os fios elétricos, e no final das contas ver que a situação era realmente dramática e que iria precisar mesmo derrubar a casa toda e construir tudo novo, do zero.
Desde 2001 que eu uso nos meus blogs o publicador Movable Type, do qual sempre gostei muito e como sou fiel, nunca nem cogitei trocá-lo pelo programa mais usado do momento, o Wordpress. Só que a minha versão do MT estava completamente obsoleta. Eu realmente precisava fazer uma atualização, mas nem pensava muito no assunto, pois afinal de contas estava tudo funcionando muito bem. A única questão que me importunava era a da segurança. As versões atualizadas de qualquer programa lidam melhor com problemas e ninguém quer arriscar ter um furacão destruindo a casa. Melhor construir uma boa estrutura e de quebra ainda fazer um bom seguro, né?
Com a ajuda do meu filho, que é um excelente programador, finalmente atualizei minha versão do MT. Só que a mudança foi profunda e mexeu com toda a estrutura de todos os meus blogs. De repente, oito anos de escrevinhações ficaram ilegíveis. Gabriel colocou suas habilidades em ação, e eu e ele ficamos todos esses dias tentando consertar os mil furos, até eu sacar que vou ter mesmo é que reajustar e refazer aos poucos todos os códigos de todos os blogs. Os comentários ficaram inacessíveis e agora já funcionam, mas não abrem mais na caixinha. Não entendi ainda se é o esquema dessa versão do MT [como é no Wordpress], ou se eu ainda não pesquei como é que a caixinha funciona. Nesse meio tempo o Uriel viajou, naquele esquema descabelado, correndo com a roupa amarfanhada e com papéis voando pra fora da pasta, uma visão de desenho animado que descreve exatamente como tudo acontece com ele. O Gabriel também viajou. E amigos viajaram, mas antes ficaram hospedados comigo. Além daquelas coisas da vida normal que urgem, reclamam e correm—trabalhar, dormir, comer. Comer comida? Mas que comida? Tenho devorado toneladas de frutas e feito alguns rangos improvisados. Receitas seguirão.





