[agosto] foi um mês quente

em agostoem agostoem agosto
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i can't give you anything but love

junho é quentejunho é quentejunho é quente
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junho é quentejunho é quentejunho é quente
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junho é quentejunho é quentejunho é quente
junho é quentejunho é quentejunho é quente
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we don't speak no mexicano

A novidade saiu até no jornal da cidade—a abertura de uma lojinha de produtos indianos na Main Street de Woodland. Fui correndo conferir, porque geralmente nesses mercadinhos étnicos se acha muita coisa legal. Como eu normalmente vou no mercadinho indiano de Davis, a possibilidade de ter uma opção na cidade onde moro me pareceu perfeito. A loja fica num quadradinho minúsculo num daqueles strip malls que têm varias salas num formado de "U" com um bloco extra no centro. O dono da loja, Um indiano muito bem apessoado, estava lá ouvindo hits indus num equipamento super high tech. Assim que adentrei o micro espaço percebi que estava numa enrascada. Iria ser difícil sair dali sem comprar nada. Mas foi um pouquinho pior.

Em questão de um minuto o moço já estava no meu calcanhar, me mostrando todos os produtos [todos NUMBER ONE!] indianos e alguns chineses [uma coleção de peixe em lata] que ele herdou do proprietário anterior, que era chinês. Pra tudo ele tinha um comentário elogioso, além do fato de tudo que ele oferecia ser NUMBER ONE, melhor qualidade e barato. Me mostrou garrafas de ghee [tomo uma colher por dia!], as variedades de lentilhas [bom pra gente da nossa idade!], os feijões [esse verde é o melhor, você tem que dar pro seu marido todos os dias!] as farinhas de grão de bico [e me deu receita de um pudim] e os temperos [melhor curry! você usa curry?] e os pickles, chutneys, salagadinhos de ervilha, amendoim e pimenta, caixas com misturas para fazer todo tipo de comida indiana, eteceterá. Fui pegando uma coisa aqui, outra lá, nem sabendo se iria mesmo usar, apenas convencida pelo entusiasmo dele.

indiano—você prepara receitas indianas?
eu—na verdade eu não cozinho nada indiano.
indiano—o que você cozinha então? mexicano?
eu—também não. eu sou brasileira.
indiano—ah, brasileira! você fala mexicano então?
eu—não. eu falo português. nem os mexicanos falam mexicano. hahaha!
indiano—ah, e esse português é um dialeto mexicano?
eu—acho que não é! [mas posso estar enganada, né?]
indiano—se você não cozinha mexicano, cozinha o que?
eu—faço muita comida italiana.
indiano—ah, italiano! vem cá então...
[me leva até o freezer e me mostra pacotes com pão Naan congelado]
indiano—olha, muito parecido com comida italiana, igual pizza!
eu—ah, sim, IGUALZINHO [numa outra dimensão]
indiano—obrigado. volte sempre!
eu—com certeza! [não voltarei!]
indiano—e avise seus amigos!
eu—pode deixar! [que não avisarei ninguém!]

choveu em fevereiro [ e...]

em fevereiroem fevereiroem fevereiro
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we drink tea

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[ with our pinkies up! ]

um janeiro bem incomum

um novo janeiroum novo janeiroum novo janeiro
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O assunto onipresente em todas as rodas por aqui neste momento é o clima—como tudo está diferente, incomum, espantosamente quente no pico do inverno, sem chuva alguma, batendo o recorde de todos os tempos. O governador já declarou que a California está em estado de seca, estamos todos confusos vestindo apenas um suéter no mês de janeiro, as árvores brotando, os passarinhos voltando e fazendo ninhos, os gatos com perebas por causa da secura do ar. Só se comenta disso e o que será feito da agricultura aqui no nosso estado, incluindo as hortas e jardins, já que provavelmente não teremos água suficiente para irrigar todas as plantas. E o que calor de 20ºC no meio do inverno vai causar nas lavouras, na preparação para as culturas de primavera e verão. Está tudo muito estranho e é claro que falamos muito em aquecimento global, porque agora não há como negar que algo está errado, as coisas estão mudando, mas segundo o meu marido cientista—vamos fazer ajustamentos. Vou confiar nisso, porque quero continuar esperando por suculentos e saborosos tomates quando o verão chegar.

N Market

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Sábado à tarde no meu supermercado local pagando umas compras:
caixa—hmm, parece que você está planejando fazer uns bolos hoje?
eu—ainda não sei, ainda estou pensando em receitas.
caixa—tá certo!

Domingo pela manhã no meu supermercado local pagando outras compras:
mesma caixa—olá, e como foi sua tarde ontem?
eu—foi boa! mas como você pode perceber estou aqui novamente!
caixa—ah, isso é bom!
eu—eu venho muito aqui, acho que quase todos os dias. hahaha!
caixa— tudo bem, sem problemas!

Em Davis eu era assídua do Co-op, o supermercado natureba do tomatão e em Woodland eu bato ponto no Nugget Market, um supermercado que pertence à uma família da cidade. Parece que eu sou desorganizada, mas eu não sou. Eu faço listas e minhas listas são até high tech, com app do iphone que eu carrego sempre comigo e vou atualizando. Mas como vou prever que um ingrediente que eu achava que tinha na despensa, na verdade está com a validade vencida ou não tem o suficiente pra receita? E as inspirações momentâneas ou as decisões de último minuto de fazer uma receita e precisar justamente de um ingrediente que não pode faltar nem ser substituído? Por isso eu vou tanto ao supermercado, além do meu normal e semanal pão-leite-iogurte-queijo-pra-pizza. Mas o bom é que como o lugar é pequeno, acabo conhecendo todos e todos me conhecem. Sou notável por ser aquela moça da cesta incrivelmente bacana [como me disse outro dia a menina que embala as compras] e da sacola colorida super linda [idem, a mesma]. E também porque nas minhas compras sempre predominam os produtos orgânicos e os ingredientes diferentes—como tubos de 5 umami paste, mostarda com tangerina, azeitonas secas, farinha de grão de bico, misô de cevada, macarrão de quinoa, lentilhas germinadas, eggnog de leite de amendoa, pimenta do reino defumada, eteceterá eteceterá eteceterá eteceterá.

e mais um outro outubro

outro outubrooutro outubrooutro outubro
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Sempre tive uma simpatia particular pelo mês de outubro, não só porque ele é inaugurado com o evento auspicioso e festivo do meu aniversário, mas também porque no hemisfério norte já podemos notar os primeiros sinais do outono. E esse outubro começou especialmente bem com uma visita surpresa e inesperada do meu filho, o que fez o meu dia de ficar mais velha um dia muito mais feliz.

Outubro será o meu último mês circulando pelo campus da Universidade da Califórnia em Davis, porque no inicio de novembro todo o meu grupo mudará para um novo prédio na periferia da cidade. Estou muito animada com essa novidade, embora saiba que vou deixar pra trás um apanhado de coisinhas que a gente só vê e vive num ambiente acadêmico. Mas vou ganhar uma vida social mais intensa, que vai incluir uma área de refeição por onde circularão centenas de pessoas diariamente. Histórias interessantes certamente abundarão.

Nas previsões de outubro—o halloween, as mudanças no trabalho e o aniversário deste blog, que vai completar quantos anos mesmo? Não vou mentir que estou mesmo é pensando nas celebrações de novembro!

alto verão

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Essa é a época do ano em que eu fico super animada com a avalanche de tomates, melões, pêssegos, figos, com os dias longos, quando dá pra fazer tantas coisas até ser finalmente derrotada pelo cansaço e pela luz rosada do cair da noite. Mas por outro lado já vou ficando um pouco exausta com os dias calorentos, desejando uma brisa mais refrescante, uma mudança de direção. Vou aproveitando o que o verão tem de bom e olhando para o horizonte, na expectativa do que vamos ter pela frente.

Ando trabalhando muito, muito mesmo e quase não tenho mais tempo pra nada. Pra adicionar mais trabalho em cima do trabalho, temos hospedes na casa. Além do gato Roux, que passou uns meses andarilho pelas ruas de Woodland e retornou ileso para a nossa imensa alegria, agora temos os gatos Tim e Sequel, que ficarão aqui em casa até fevereiro. Eles são os gatos do Gabriel, o meu filho que está passando alguns meses experienciando a vida brasileira. A adaptação foi mediana—ninguém ficou amigo, mas também ninguém ficou inimigo, o que já é um grande alivio. Roux mudou, de gato espevitado virou um gato zen, quase reservado, alheio ao bafáfa. Tim é o gato velcro, que cola nas pessoas de uma maneira até engraçada. É o pomponzão que agora senta no meu colo quando estou tomando meu café da manhã. Sequel é o gatinho bully, o menorzinho de todos e o mais audacioso. Tem uma micro vozinha e fala comigo pedindo sei lá o que mas não gosta de muita aproximação. Tim e Sequel cresceram juntos e são super amigos, então a situação é de dois contra um—um pouco injusto, eu sei. Como não bastava a casa estar cheia de gatos se estranhando, aportou também por aqui uma cachorra, que vai ficar hospedada em casa por três semanas. Ela é velhinha, gigante e dominadora, tem ciúmes dos gatos e fica colada em mim o tempo todo. E são duas caminhadas por dia, que até que consegui encaixar bem no meu esquema apertado.

Este verão está um pouco diferente, então não vou ficar escrevendo sobre os tomates, os campos de tomate, a colheita do tomate, o festival do tomate, eteceterá. Neste verão eu estou botando mesmo os bofes pra fora com cachorra e com gatos, mas compenso bebendo cocktails, devorando saladas e toneladas de frutas, e me fartando daquele vinagre que tenho oferecido pra todas as minhas visitas. É muito engraçado ver a reação quando eu digo—quer beber um vinagre? E depois ver a cara de surpresa e prazer que todos fazem ao sorver o liquido borbulhante e refrescante. Saúde!

summer breeze makes me feel fine

june is bringing us summerjune is bringing us summerjune is bringing us summer
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beauty is in the eye of the beholder

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Já faz um tempo que estou querendo tocar neste assunto, já que está mais do que claro para os frequentadores desde blog que eu abandonei o uso das firolices fotograficas por aqui. A câmera está num canto, as lentes estão no mesmo canto e tudo o que eu fazia antes com relação à produção de imagens para publicar neste espaço eu não faço mais. O que eu faço agora é o que considero o mais viável para esta fase da minha vida em que o tempo anda escasso. Carrego aquela gadget multi-tasking super-poderosa faz-tudo comigo pra onde vou, o tempo todo. E é com ela que tiro fotos. Neste momento isso incluí absolutamente todas as fotos que aparecem por aqui. Se não fosse essa maravilhosa gadget combinada com o mais funcional aplicativo de manipulação de fotos, este blog já teria morrido à mingua. As fotinhas com filtro do tão criticado instagram foi o que me restou, porque eu simplesmente não tenho mais tempo para fazer mil cliques com câmera, trocar lentes, editar dezenas de imagens, escolher as melhores, eteceterá. Com a dupla iphone-instragram eu posso ser rápida, não perco tempo, a comida não esfria, não pago mico em público, não preciso carregar equipamento, não preciso me antecipar pra nada, porque na hora que a oportunidade aparecer eu estarei pronta para ela. Isso não quer dizer que não preciso ter um minimo de cuidado. Muito pelo contrário, preciso ter um certo timing, ter um olho apurado pra captar a essência da imagem e da mensagem que quero passar e preciso ser bem rápida no gatilho, ter a mão firme e ser decidida, porque muitas vezes só me dou aquela única chance, não fico escolhendo pose, apenas enquadro e clico. Já me senti um pouco culpada por ter adotado esse esquema mais fácil, porque percebo que há uma tendência geral pelas imagens mais profissionalizadas. Mas cada momento é único pra cada caso e pessoa. E o meu momento é esse—me falta tempo e paciência, mas não me falta vontade de criar. Assim então, para satisfação ou desgosto do freguês, continuarei até quando resolver mudar.

how can you have the blues?

maio é floridomaio é floridomaio é florido
maio é floridomaio é floridomaio é florido
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a verdadeira história da foto mais fantástica de todos os tempos

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Estávamos trabalhando, quietos e concentrados, quando o meteorologista entrou na sala todo esbaforido, pegou a câmera que ele sempre carrega na mochila e fez sinal para que o seguíssemos, pois aparentemente ele tinha visto algo absolutamente incrível do lado de fora do prédio.

Explicarei primeiro que tivemos semanas e mais semanas de uma ventania brutal, que arrancou árvores pelas raízes, forrou o chão de galhos, de folhas, de flores, desorientou os motoristas e ciclistas, levantou saias, derrubou pássaros no voo, descabelou penteados, mudou coisas de lugares e deixou as pessoas confusas.

Corremos atrás do moço com a câmera naquele dia de ventania. Ele parou bem em frente ao arbusto de feijoa e numa pose de paparazzi ajustava a lente para captar a imagem incrível daquela bolsa pendurada num dos galhos da planta. Ficamos todos com cara de ué olhando pra ele e pra bolsa, pra bolsa e pra ele, pra ele e pra bolsa, até que eu resolvi me pronunciar—essa é a minha bolsa de lanche que eu pendurei aí hoje pela manhã pra secar, porque vazou molho de salada e eu tive que lavá-la.

Fuén geral. Voltamos cada um pro seu cubo e pro trabalho, mas antes tive que ouvir o meteorologista e fotógrafo de imagens bizarras reclamar—você acabou de estragar a foto com a melhor história de todos os tempos: o vento trouxe a bolsa de longe e ela acabou aqui pendurada neste galho. [ SORRY! ]

[ almoço literário ]

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Sentei no meu banco favorito para almoços no campus e atrás de mim veio um grupo de jovens. Um deles sorriu pra mim e sentou-se na grama à uns poucos palmos de distância dos meus pés. Os outros o seguiram e sentaram-se também, formando um círculo. Junto deles estava a professora, uma moça indiana que falava inglês com sotaque britânico e tinha o lenço mais lindo do mundo enrolado displicentemente no pescoço. Era uma aula de literatura outdoors, bem ali na minha frente. A professora elogiou o dia lindo e frisou como todos estavam com a cara muito mais felizes do lado de fora do prédio. É assim mesmo que todos se sentem quando uma aula é libertada das quatro paredes e toma posse do verde da paisagem externa.

Eu tinha meu guardanapo estendido no colo, onde equilibrava potinhos abertos sobre um prato de bambu. Daquela distância não pude evitar de me tornar uma extensão do grupo e ouvir toda a discussão conduzida pela professora. Eu dava garfadas na minha versão improvisada de uma açorda de camarões e ouvia a opinião dos estudantes sobre os personagens do livro—The Ramayana. A saga de Rama, Sita, Lakshmana, Surpanakha e de como os alunos a percebiam e a interpretavam. Comi a açorda e mergulhei floretes de brócolis e palitos de cenoura cozidos num molhinho de tomate e devorei com cuidado os pedaços de abacaxi assados com açúcar de palmeira. Comi bem devagar, sem fazer barulho ou sujeira, como se estivesse mesmo naquela aula. E depois de ouvir algumas das manifestações dos alunos sobre a grande epopéia Indu, talvez eu precise [ou deva] ler também o livro.

just one of those things

novembernovembernovember
novembernovembernovember
novembernovembernovember
novembernovembernovember
novembernovembernovember
novembernovembernovember
novembernovembernovember
novembernovembernovember

❧ as mudanças do outono ❧

it's fall againit's fall againit's fall again
it's fall againit's fall againit's fall again
it's fall againit's fall againit's fall again
it's fall againit's fall againit's fall again
it's fall againit's fall againit's fall again

Já posso dizer que estamos realmente no outono quando as folhas das magníficas sycamore começam a cair. Elas são as primeiras árvores que se desfolham, mas não são as que fazem da maneira mais bonita. As folhas imensas dessas árvores não ficam amarelas nem vermelhas, nem degradê, elas simplesmente secam e caem. E fazem uma sujeira e tanto. Mas não deixa de ser uma ocorrência bem-vinda depois do cansaço do final do verão. Minha casa é rodeada por umas cinco sycamore bem antigas e imponentes. Todo final de semana é um limpa limpa e as folhas gigantes continuam caindo, e vão cair desordenadamente até não sobrar mais nenhuma.

O Farmers Market de Woodland encerrou suas atividades sazonais. E encerrou com grande estilo, alongando a temporada por três semanas por causa da demanda. Fiz um estoque enorme da maçã mais deliciosa do mundo e me despedi dos meus fazendeiros favoritos com o melhor sorriso desejando revê-los todos em breve. Ganhei alguns produtos extras, colocados na minha cesta como um sinal de agradecimento. E recebi o elogio mais gentil—você foi uma super cliente! Certifiquei que estarei de volta para o próximo ano.

As abóboras abundam e acrescentam cores na peculiaridade da paisagem de outono. Já tivemos dias frios, com chuva e vento. Outros dias de sol virão, intercalados com os de chuva. Este ano está prometendo um inverno bem mais molhado. Quando dirijo para casa voltando do trabalho à tarde já não vejo mais nenhum campo de tomate ou de milho. Só vejo uma imensidão de terra sendo preparada para descansar ou receber alguma cultura alternativa de inverno. Os dias estão mais curtos e eu estou muito ocupada com toneladas de trabalho me soterrando e me consumindo. O lazer nos finais de semana é minha prioridade, com os dias de folga encabeçando a lista de desejos e cobiças. Quando eles chegam eu me comporto de maneira completamente esganada querendo aproveitar cada segundo. Porque são tantas coisas para fazer, ler, ouvir, fotografar, conversar. Além de todas aquelas folhas para varrer.

dog days of summer

São os melhores e os piores dias. Os melhores por causa da abundância de frutas e legumes, os dias longos, o cheiro de feno seco pelas estradas, o entusiasmo pela colheita do tomate, as braçadas refrescantes na piscina [quando ela abre] sob um céu impecavelmente azul, a brisa da noite, os picnics, os almoços e jantares no quintal. Os piores porque estamos tendo um verão bem tórrido e nos dias em que o bafão se instala não acho possível cozinhar. A fome é quase que a mesma, mas o entusiasmo por fazer comida no fogão anda bem pequeno. Por isso cozinhando pouco estou.

dog daysdog days
dog daysdog days

Mas estou feliz com o inicio de agosto, pois julho foi um mês meio amargado de chatices, começando pelo gato que caiu doente logo nos primeiros dias. Fui surpreendida pela informação de que gatos e cachorros são mestres em fingir que está tudo bem e não mostrar que estão doentes. Os cachorros, porque não querem chatear, incomodar e entristecer os donos e os gatos porque são assim mesmo, orgulhosos. Pois foi então que o meu gato desmoronou de repente. Num dia estava normal—dentro do que se pode esperar de um animal com 17 anos, e no outro não conseguia se sustentar nas próprias pernas. Desde então estamos cuidando dele com o máximo de carinho e atenção. São remédios duas vezes por dia, soro um dia sim outro não, comida especial e um limpa limpa que não acaba mais, porque ele tem muitos acidentes de banheiro. Não tenho a ilusão de que ele vai voltar a ser o que era, mas pelo menos não está sofrendo. Descobrimos nesse interim que ele adora abóbora, depois que fomos aconselhados a misturar o purê do legume na comida normal para ajudá-lo com uma desagradável prisão de ventre. Quando chego em casa ele é o primeiro a aparecer, correndo todo capengueta atrás de mim, porque sabe que vou dar comida. O velho Misty Gray de sempre, o nosso gato Highlander.

Tive que parar de frequentar as classes de zumba que eu estava fazendo no YMCA da cidade por causa de uma incompatibilidade de horários e por recomendação de uma moça chamada Dolores fui experimentar uma aula com um outro grupo, que se encontra toda terça e quinta no ginásio de uma escola primária na minha vizinhança. Fiquei absolutamente chocada com a vigorosidade da coisa. Eu suo de pingar água da sobrancelha e empapar a toda a camiseta. A versão do YMCA devia ser para idosos. Já completei o meu segundo mês nessa zumba pra cabra macho e apesar de me esbaforir completamente e ainda ficar totalmente perdida nos movimentos rápidos, estou achando essa experiência super legal. Calculo que mais da metade das mulheres do grupo são hispânicas e então o ti-ti-ti é intenso. Invejo muito as moças que fazem os passos das danças com aquela graciosidade latina, sem ficar parecendo uma barata tonta no meio do salão.

dog daysdog daysdog days
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Tentando estabelecer um esquema para a nossa rotina durante os dias de semana, com o Uriel em Sunnyvale, eu almoçando diáriamente no trabalho, as aulas extenuantes de zumba, a doença do gato, as restrições de um procedimento periodontal, as minhas tentativas de ver mais filmes e ler mais livros, a manutenção da casa, e os passeios e a vida social dos finais de semana—ajustei minhas investidas na cozinha para um modo mais quantitativo. Isto é, as comidas preparadas precisam gerar muitas sobras, para encherem marmitas ou virarem jantares rápidos e improvisados. Com um quilo de tomates ultra maduros fiz um molho que usei na preparação de uma lasanha gigante com camadas de abobrinha. Grelhei vários tipos de legumes e deixei na geladeira prontos para virarem uma salada ou recheio de sanduiche. Nos dias mais frescos cozinhei duas xícaras de quinoa, duas xícaras de arroz integral, uma de feijão, outra de lentilha. Minha desenvoltura fazendo comida crua ou usando a churrasqueira também está ficando notável. Os repetecos de receitas de sopa fria abundam. Bolos não tem acontecido, muito menos tortas ou pizza. E tem dias que a vontade realmente é de só de consumir um copão de sorvete, devidamente afogado em suco de laranja ou refrigerante de limão.

[ from my hipstamatic ]

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[ Summer ]

os impertinentes

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não largam do meu pé!

✳✴ super bacana ✴✳

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Preciso deixar registrado aqui meu imenso agradecimento aos criadores do iphone e do instagram que de certa maneira salvaram esse blog da indolência. Porque infelizmente eu não tenho mais tempo nem paciência para tirar fotos com câmera. Um dia começei a achar muito chato carregar um monte de equipamento pra lá e prá cá. E parei de fazer. Com o iphone é tudo muito mais prático e rápido, posso tirar muito mais fotos, nem sempre super perfeitas, mas o registro fica feito. O que anda acontecendo é que às vezes eu tiro fotos das mesmas coisas usando primeiro a dupla iphone/instagram e depois a câmera e acabo gostando mais do resultado dos cliques do celular. É um fenômeno ainda sem explicação e que pode não ser completamente compreeendido por todos, mas conquistou a minha simpatia. A verdade é que essas fotinhas mixurucas de celular deixaram o Chucrute com Salsicha mais colorido. E o mais incrível é que estou muito satisfeita com isso!

fotos [escolhidas] da semana

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neste final de semana

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Em alguns finais de semana eu cozinho mais do que em outros. Neste último até que eu fiz algumas coisas diferentes, o que me deixou bastante feliz, pois no anterior não teve muita novidade. Pode ser por pura preguiça, mas sempre escolho preparar comidas que não tenham muitos passos, nem muitos ingredientes, nos contentamos com uma mesa simples com produtos frescos e da estação—feijões, legumes cozidos ou em saladas, verduras, pão, pasta, sopa, ovos, queijo, sorvete, fruta. Aliás, pra nós fruta é sobremesa.

Eu e minha amiga Roberta conversamos sobre os Fitzgeralds, os Hemingways e os Murphys e de como muitos livros sobre eles foram escritos a partir das centenas de cartas que eles deixaram, correspondência frequente entre amigos, e que serviram como peças de um quebra-cabeças possibilitando que se contasse muitas histórias incríveis. Nós ainda tivemos esse hábito de escrever com caneta no papel, depois através do e-mail, contar nosso dia a dia, os acontecidos da nossa vida para pai, mãe, irmãos, tios, primos, amigos. Hoje parece que estamos substituindo tudo isso por cliques de "like" nas postagens das contas de Facebook ou troca de pequenos diálogos no twitter. Todo aquele registro escrito sobre nossas vidas e cotidiano que fazíamos até pouco tempo está caindo em desuso e eu me pergunto como seria possível recontar a história de alguém sem isso? Teremos muitas fotos tiradas com câmeras digitais e celulares, muitos links e bobagens compatilhados nas redes sociais, mas poucas palavras escritas.

Quando minha irmã veio me visitar em dezembro, enchi geladeira de ingredientes para possíveis receitas. Mas quando se quer aproveitar a companhia das visitas o que menos se faz é cozinhar. Por isso acabei com várias caixas de massa folhada guardadas no congelador. Daquela massa feita somente com farinha e manteiga, que por ser tão boa não pude permitir que houvesse desperdicio. Descongelei uma das caixas e fiz duas tortas. Também fiz bolinhos com um risoto de ervilha torta que sobrou da semana. E comemos mais alcachofras grelhadas, mais saladas de rabanetes, pizza de queijo e aliche, macarrãozinho com alho verde e brócolis, laranjas e damascos frescos, uma torta de morango, chá feito com hortelã dos vasos e o refrescante tinto de verano feito com o que restou do vinho do sábado a noite.

Não fomos à lugar nenhum e não fizemos nada especial neste final de semana. Ficamos no melhor lugar do mundo, que é a nossa casa em Woodland. Fomos às compras, eu cozinhei, fui nadar, li livros e revistas. O Uriel cortou a grama e papeou com a vizinhança. No domingo conversamos com meus pais pelo skype, eu tirei algumas fotos, ouvimos música e descansamos.

receitas sem fotos

Meu velho iMac não está conectando na internet. Justamente esse, que é o computador onde eu desovo e processo todas as fotos para o blog porque a tela é maior e melhor. Hoje fiz uma investigação e um interrogatório, me aproveitando da sapiência e gentileza de dois colegas, um programador e outro meterorologista. Chegamos à conclusão que: 1. o airport precisa ser atualizado. 2. o airport tá bichado e precisa ser trocado. Enquanto isso faço o que posso do laptop que fica na cozinha. A combinação desse pequeno probleminha com a correria de trabalho e outras coisas, está me deixando meio desanimada. Até tenho uns assuntos e receitas para publicar, mas simplesmente não estou conseguindo. Se eu pudesse dormir menos horas, essa condição de falta de tempo se resolveria facilmente. Sem falar que ainda entramos no nosso daylight saving time e por isso voltamos a acordar no escuro e não está sendo fácil tentar dormir menos.

Outro dia estava pensando que sou uma pessoa mais de imagens do que de palavra. Será? Porque às vezes fico frustradíssima quando vejo algo super legal e não consigo fotografar. Faço mil pataquadas, tropeço e caio no meio da rua, fico pra trás do grupo, aguentando filho e marido revirando os olhos, só porque eu preciso captar uma imagem. Depois de escolher entre trocentas fotinhos, cortar uma por uma [minto, uso um sistema], sempre gosto de montar as imagens numa galeria com a intencão de dizer algo, contar uma história. Can you dig it?

E as minhas histórias neste momento giram em torno da minha vidinha pacata—a casa, os gatos, os vizinhos, as plantas, as flores, as frutas, os legumes, a garrafa de vinho, detalhes da paisagem que está mudando.

Num domingo fiz um almoço pro meu filho e minha nora. Mas como ainda estava me recuperando de uma gripe morfelenta que me deixou um bagaço por duas semanas, resolvi que iria tentar simplificar ao máximo, fazendo um peixe na churrasqueira. Preparei uma posta grande de atum, que só temperei com sal, pimenta, raspas e suco de laranja. Foi pra grelha embrulhado em papel alumínio sobre uma cama de rodelas de laranja—aquelas da minha bondosa vizinha. O peixe assou rápido e ficou super úmido e tenro. Todos gostaram. Acompanhou salada de batata com vagens e salada verde de folhas. Num outro domingo fiz peixe de novo, desta vez bacalhau fresco do Pacífico, pescado em Half Moon Bay. Cozinhei as postas num molho de tomate [aquele em lata orgânico], depois de fazer um refogado com alho poró. E temperei com curry vermelho tailandês e coentro fresco.

Toda segunda-feira tenho precisado praticamente colocar um post-it na testa para lembrar, mesmo depois de ja ser avisada duas vezes pelo meu calendário no iPhone, que é dia de pegar a cesta orgânica. Já passei reto pela fazenda duas vezes. Da primeira vez eu voltei—estava no meio do caminho quando caiu a ficha. Da segunda vez eu entrei em casa e chorei. Depois me recompus e mandei um texto pra pra minha ex-nora, pedindo pra ela ir pegar a cesta pra mim. Essa amnésia recorrente tem acontecido por causa da minha imensa ânsia de voltar pra casa no final do dia de trabalho.

O que me deixa feliz é que a primavera já está bem presente até na minha cozinha, com a chegada de alguns tímidos aspargos. Está finalmente chovendo tudo o que não choveu quando deveria ter chovido. Tenho deixado os gatos sairem no quintal [com supervisão] durante o final de semana. Vamos mandar repintar a casa inteira por fora. E consertar uma goteira. Essa será a minha primeira primavera em Woodland.

what a day, what a week

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Meus dias de semana estão corridos e muito ocupados, tudo feito com hora marcada, às vezes não dá ânimo nem de cozinhar quando chego em casa à noite, e ainda preciso fazer ginástica, quero ler um livro, meus gatos precisam de atenção. Mas nos finais de semana eu realmente uso e gasto a minha cozinha, faço muitos rangos cujas sobras viram marmitinhas pra mim e pro Uriel durante a semana. Ainda estou colhendo muitas camélias no jardim, que vou colocando em vasos e jarrinhas. Vou ao Farmers Market em Davis um sábado sim, outro não [ou dois não]. Num deles comprei um radichio que parecia uma flor gigante e negra. Com ele fiz um risoto, daqueles super simples, usei caldo de frango feito em casa e vinho tinto. E o lindo broccoli rabe eu fiz refogado com alho no macarrão. Encontrei umas árvores de laranjinhas kinkãs pertinho do meu prédio na universidade e colhi um montão. Fiz uma marmalade que ficou [inesperadamente] ótima. E a surpresa do último final de semana foi a alcachofra 'beijada pela geada", que a deixou com uma cara de atropelada, com manchas amarronzadas nas folhas externas. Mas depois de cozidas as manchas somem e ficamos apenas com uma alcachofra deliciosa. Servi acompanhada de um vinagrete de limão meyer e tomate seco ao sol, que eu pulverizo no mini-processador e junto nos molhos de salada. E os azeites são californianos.

Os finais de semana em casa são tão bons que nem quero sair pra lugar nenhum. Pela manhã o Uriel gasta horas lendo o jornal de cabo a rabo, depois vai me contando as histórias que ele acha que vão me interessar ou separa os artigos pra eu mesma ler. Neste final de semana ele me contou que agora tem um salão para os viajantes praticarem ioga no aeroporto de San Francisco e que o Facebook comprou um campus em Menlo Park e que lá os funcionários podem fazer ginástica enquanto trabalham em cubículos de vidro. Separou uma matéria sobre o edible schoolyard da Alice Waters vindo para Sacramento. Bebemos chá de gengibre com limão e sentamos pra conversar na sala que adoramos e que é chamada muito apropriadamente de "sunroom". Quando saímos pela manhã vamos às compras e passamos pelos campos sendo preparados para os tomates e girassóis ou pelos nogueirais nus. Quando saímos à noite vamos à algumas das [poucas] pizzarias que gostamos na região. Daí eu bebo uma taça de vinho, ouvimos jazz na rádio dos anos 40 no carro e na volta quando entramos na nossa vizinhança já chegando em casa, o meu coração se enche do mais puro amor.

days of wine & roses

dois diasdois dias
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Eu não carrego comigo mais nenhuma câmera fotográfica, nem das grandes, nem das compactas. Carrego apenas o meu iPhone, que [lordhavemercy!] virou praticamente uma extensão do meus dedos. Faço tudo com ele, não vou a lugar nenhum, nem mesmo ao banheiro, sem ele. Meio desconcertante, né? Mas vou explicar que nele tenho relógio, despertador, biblioteca de livros [pra ler no carro, na fila, no dábliucê], discoteca de música, rádio, lista de compras, termômetro, conversor, tradutor, mapas, eteceterá, eteceterá, além de telefone e câmera de fotografar e filmar. Por causa da minha surpreendente dependência desta super útil gadget, não é de se estranhar que eu acabe fotografando tudo ao meu redor com muito mais assiduidade do que faria com uma câmera. Sem falar que não preciso fazer download de nada, pois as fotos vão automaticamente pro Instagram, Twitter e Facebook. Não vou mentir, nem vou negar que tenho curtido muito essa fotografação e quero aproveitar todos os cliques. Por isso tenho feito essas compilações aqui, como numa galeria, geralmente registrando meu cotidiano e meus finais de semana, onde estive, o que fiz, o que comi ou cozinhei, o que vi e tals. Mais uma das minhas manias, que pode ter vida longa ou curta. Isso não posso prever, mas enquanto durar, aproveitem!

muitos poucos livros

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2011 deve ter sido o ano em que eu menos comprei livros. Primeiro foi por causa do choque da mudança, com o empacotamento de uma casa inteira, dez anos de acúmulo, e perceber que eu tinha cacareco pra caramba! Muitas doações e reciclagens depois, ainda continuei com muito cacareco. Dei um fim em anos de coleção de revistas, doei muitos livros, fiz o possível e mesmo assim precisamos de dois caminhões gigantes pra carregar tudo de uma casa para a outra. Embora tudo isso não tenha sido exclusiva culpa dos livros, confesso que dei uma brecada de leve. Sem falar que fiquei entretida com outras mil coisas—além da arrumação, as pequenas reformas, troca de piso, instalação de fogão, descobrimento e desbravamento da cidade, eteceterá, eteceterá. Não adquiri tantos livros também porque me peguei meio que no flagra folheando alguns deles sem o menor entusiasmo. É muito livro, muitos lindos, inspiradores, divertidos, mas nem todos realmente úteis. Tomei uma canseira das revistas também, principalmente quando percebi que não estava dando conta de manter o ritmo de leitura das publicações que chegavam mês após mês, não me dando oportunidade nem de tomar um fôlego. Cancelei várias assinaturas e algumas eu troquei pela versão eletrônica, pra ler no iPad. Essa troca funcionou muito bem pra mim e espero poder eventualmente fazer isso com todas as revistas que assino. Quanto aos livros, vou indo no passinho do elefantinho. Quem sabe em 2012 meu ânimo de leitura retorne. Sempre lembrando que agora eu tenho um porão enorme e uma garagem que já virou depósito, o que significa espaço à beça pra poder encher de mais coisarada.

os dias estão dourados

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Tivemos dias de neblina pesada, dias de chuva, dias de ventania e com isso muitas das árvores já perderam quase todas as folhas. É tão lindo de ver, mas também tão efêmero, como tudo na vida. Os dias voam e eu não consigo fazer tudo o que quero. No primeiro dia de dezembro ganhei um limoeiro, que será plantado num lugarzinho que já escolhi lá no quintal. No segundo dia de dezembro minha casa participou do display das luminárias que acontece todo ano nesta área antiga da cidade. Tenho feito tudo com muito entusiasmo, pois agora sou uma das orgulhosas donas de uma daquelas casinhas vintage que todo mundo gosta de olhar. Minha vizinhança e vizinhos são muito bacanas. Fomos beber vinho e bater papo convidados pelos proprietários da linda casa construída em 1912. Tem dias que eu acho que meus gatos estão muito mais felizes aqui. E de uma certa maneira nós também estamos. Este outono está sendo um pouco diferente e eu não tenho do que reclamar.

para a noite de domingo

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chá de gengibre & torta de pera

✴le week-end✴

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Imagens valem por mil palavras, mas essas merecem uma legenda. Neste final de semana choveu e fizemos muitas coisas, comemos BBQ no Ludy's, eu fui ao Farmers Market de Davis e fiz compras no Co-op, recebemos visitas e garimpamos por coisas legais em várias lojas de antiguidades, bebemos vinho orgânico, não comemos pizza pois jantamos num mexicano e eu finalmente voltei a cozinhar com fogo, no meu novo fogão a gás. Hooray!

my new lunch spot

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Desde que me mudei para Woodland e que acabou a mamata de ir almoçar em casa, tenho feito picnics diários numa área com árvores e bancos que fica bem atrás do meu prédio. Não pensei muito sobre esse evento, apenas trago meus ranguinhos brejeiros embalados em potes com tampas, as saladas com o molho no fundo para ser misturada apenas na hora de comer, sopas frias [enquanto está calor], frutas frescas, coisinhas simples que não precise de muita firula pra comer. Uso meus talheres de bambu, guardanapos de pano para forrar o colo e evitar acidentes na roupa. Raramente trago bebidas, pois não acho necessário. Carrego tudo numa sacola colorida, sento no banco, me divirto com as aparições dos esquilos pidões. Mas outro dia comecei a ficar deveras incomodada quando percebi que aquela área com bancos vive cheia de fumantes, que nem sempre são delicados e gentis jogando os cigarros na lixeira própria para tal. Quando comecei a ver que estava dividindo o meu almoço com brumas de fumacê de alguém pitando no outro banco, resolvi olhar pro outro lado da rua. E vi esse lugarzinho. Com um banco com encosto, lixeira bem do lado, uma árvore gigante fazendo sombra, bem em frente de um pessegueiro onde os esquilos fazem a festa devorando as frutinhas—e não vêm me incomodar pedindo comida. Sem falar na vista que tenho de uma das ruas principais do campus, que me proporciona um almoço cheio de movimento. Felizmente ainda não tive que dividir esse espacinho com ninguém, porque durante o verão o campus fica bem vazio. Na próxima semana começa o ano letivo e vai quadriplicar o número de estudantes circulando pela universidade. Espero que ninguém cobice esse espacinho, porque dá licença, ele é só meu!

o〔♥〕da casa

A cozinha, é claro! Ela foi um dos motivos que nos fez decidir comprar uma casa de sessenta e três anos com muitos probleminhas e estranhezas arquitetônicas, em detrimento de outras ultra modernas e funcionais que estavam disponível no mercado pela mesma faixa de preço.

Foi enquanto conversava com o nosso corretor e o Gabriel em pé no meio da cozinha, que tive certeza de que era ali mesmo o meu lugar. Uma cozinha perfeita para uma Julia Child wanna be como eu!

A cozinha foi modernizada, mas apenas em termos. Os armários são originais, feitos com madeira de verdade, coisas dos tempos antigos construidos para durar pra sempre. Os espaços são menores—o do fogão e da máquina de lavar louça, por exemplo e não há conexão pra água atrás da geladeira [e portanto adeus água filtrada e gelinho]. Os armários não são tão grandes como os da outra casa, em Davis. E tudo é bem mais baixo, incluindo a bancada e a altura dos armários. Por isso a batedeira teve que ficar sobre outro móvel. Mas todos esses detalhes foram completamente contornáveis.

O que eu mais gostei nessa cozinha foi a parede toda de janelas e a ausência de espaço pra colocar cacareco. Minha coleção de galinhas se aposentou pra dentro de um armário e não tenho mais jarras e sopeiras à vista. Não há parede pra pendurar enfeites e minha coleção de pratos antigos ainda está encaixotada. De uma certa maneira isso deixou o ambiente muito mais clean e agradável. E eu gostei. O lustre de mosaico que veio com a casa ia ser trocado, mas acabou ficando. A ilha de trabalho em frente da pia tem sido um salva-vidas, já que a bancada é um pouco baixa pra minha altura. Quis tirar o lixo do armário embaixo da pia e estou gostando de ter uma lata com tampa ao lado da bancada. E o tapete é de plástico!

Mudei algumas coisas no visual da minha cozinha e estou realmente contente. Ainda falta instalar a conexão de gás e trocar o fogão. Mas vamos aos pouquinhos. Umas coisas engraçadas nessa cozinha são um pequeno armário para colocar condimentos, que eu achei completamente estranho, pois fica do outro lado bem longe do fogão. E a despensa, que foi improvisada num espaço onde passa os encanamentos do aquecedor e ar condicionado da casa. E também tem o basement, que não é uma coisa muito comum nas casas aqui da Califórnia. Mas eu tenho um, onde está uma geladeira extra e muitas prateleiras lotadas com todas as coisas que não acharam espaço disponível dentro da cozinha.

No dia em que resolvi tirar as fotos da cozinha pra publicar aqui, não arrumei nada, nem fiz preparativos especiais. Depois fiquei com muita raiva de mim mesma e da minha displicência, pois pude ver que tinha louça suja na pia, um monte de coisas fora do lugar, incluindo a escadinha vermelha que o Uriel tinha acabado de usar pra trocar uma das lâmpadas do teto que estava piscando. Mas depois pensei, é isso mesmo! Minha cozinha é assim na vida real. Não é cenário, nem material pra revista de decoração, mas é o lugar onde eu passo um bocado de tempo e é certamente o coração da casa.

[*super obrigada a todos que deixaram comentários nas fotos da minha cozinha-caverna!]

no meu caminho

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campos de girassóis

um fogão elétrico

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O fogão veio com a casa e, ao contrário da máquina de lavar louça, está em ótimo estado. Pelas condições do forno dá pra concluir que ele é quase novo. Mas é um fogão elétrico. Desde os meus anos canadenses que eu não colocava uma panela sobre o queimador de um fogão elétrico. E digo mais, nunca senti saudades de fazer isso. E digo mais ainda, detesto fazer isso. Quando vi o fogão elétrico na cozinha da casa nova já fui avisando—vamos trocar por um a gás! Infelizmente não vai ser tão simples assim, pois não há conexão pro gás atrás do espaço do fogão e vamos ter primeiro que chamar um encanador, furar parede, puxar cano, eteceterá-eteceterá. Já vi até o tipo de fogão que quero comprar, mas ainda não comprei.

Enquanto isso, vou ter que ir me virando com esse fogão mesmo. E estou fazendo com muito cuidado, porque fogões elétricos são o instrumento perfeito para se queimar comida e encrustar panelas. Como tive muitas esperiências deprimentes no passado, estou praticamente pisando em ovos. No primeiro dia na casa tostei umas fatias de pão de azeitona numa frigideira vintage que tenho e que foi a única que achei no meio das 9854 caixas fechadas. Preciso dizer que tive que usar a esponja de aço pra limpá-la. E imediatamente acendeu a luz vermelha de alerta! Depois assei cenouras, fiz uma quinoa com camarão frito, preparei risoto e sopa de lentilhas, assei frango com gengibre e cebola e até cozinhei macarrão. Com o cuidado que estou tomando foi tudo bem até agora, só ainda não assei nenhum bolo e confesso que ainda estou um pouco receosa de fazê-lo. Espero que a conexão do gás seja uma das próximas da lista dos serviços por fazer na casa, porque neste quesito eu sou bastante conservadora—gosto de cozinhar com fogo. De outro jeito simplesmente não me parece natural.

I'm a Woodlander!

Im a Woodlander!Im a Woodlander
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Choveu no dia da mudança e eu acho que isso significará muita sorte para nós. Mas mudar foi uma trabalheira. A empresa que contratamos chegou às 8:30 da manhã com quatro funcionários, que botaram pra quebrar. Não antes de soltarem uns palavrões quando viram a quantidade de coisas pra carregar e ainda para encaixotar. Os gatos ficaram estressadíssimos e passaram o dia dentro do quarto vazio na casa velha. Só vieram para a casa nova à noite, quando tivemos a grande surpresa de ver o Misty se ajustar em menos de uma hora e o Roux quase ter um treco de tanto medo. Levou um tempinho, mas agora ele já esta novamente se sentindo em casa.

A nossa adaptação foi ainda mais fácil. Eu estava muito dividida, achando que iria sentir muito a minha saida de Davis. Quando chegamos na casa nova eu fiquei direcionando os moços descarregando as caixas e móveis na calçada da frente, bem embaixo de uma árvore. Depois da chuvarada que caiu pela manhã, o sol apareceu e estava uma brisa fresca. Foi exatamente ali que eu caí na real de como essa minha nova casa é simplesmente deliciosa. Não sei se a vizinhança toda arborizada e tranquila também contribui, mas me senti imensamente tranquila. Me senti feliz.

No dia seguinte voltei pra Davis pra pegar algumas coisinhas que ficaram pra trás, me despedi da casa, agradeci os anos tão bacanas que vivi lá, enxuguei um borbulhão de lágrimas e rumei apressadamente de volta para Woodland, onde uma desordem fenomenal me aguardava. Na primeira manhã na casa nova, não se via nem o chão nem o teto da cozinha, que abrigava sei-lá-quantas mil caixas. Como vamos colocar madeira em dois cômodos da parte de baixo, todos os móveis e outras coisaradas estão empilhados num terceiro. A única parte da casa onde dava pra caminhar razoavelmente eram os quartos e banheiro no andar de cima.

Cinco dias de trabalho duro, levantamento de peso, subindo e descendo escadas, dor nas batatas das pernas e no lombo, posso dizer que tudo já está tomando uma cara mais normal. A cozinha já está usável, apesar do fogão elétrico ainda não ter sido substituído por um a gás—mas estou prestando atenção e tomando cuidado. Já preparei algumas boas refeições. Alías, comemos em casa todos os dias, com exceção do dia da mudança, quando fomos forçados a comer fora. Não pedi pizza, não peguei take out. Minha primeira refeição na minha cozinha ainda lotada de caixas, foi uma salada de tomates com queijo e manjericão fresco e pão torrado na frigideira.

A casa é antiga e aos poucos vamos percebendo certos detalhes que antes nem pensávamos à respeito, como ter ou não ter fio terra nas tomadas. Aqui a maioria não tem. Tivemos que comprar uns adaptadores e vamos ter que chamar um eletricista pra fazer o serviço. A maioria das casas modernas tem espaços padrões pra geladeira, fogão, máquina de lavar e secar. Mas numa cozinha antiga reformada foi um suor instalar a máquina de lavar louça modernosa num espaço adaptado do tempo da onça. Mas tudo isso são detalhes que não interferem com a alegria de viver aqui—estou adorando os assoalhos rangendo quando caminhamos pela casa, a paisagem verde vista de todas as janelas, o cheiro de madeira antiga, o barulhinho do vento nas folhas das árvores, os passarinhos e o silêncio, ah, o silêncio!

»no primeiro dia bateram na porta e era a minha vizinha me recepcionando com um pratinho de cookies ainda quentinhos. ela me disse que mora aqui há 30 anos e que conheceu o dono original, que construiu a nossa casa, que morreu com 98 anos! »no sábado fui conhecer e fazer compras no Farmers Market de Woodland, que é bem modesto. mas lá comprei os morangos e as cerejas mais doces desse inicio de temporada. »nesses dias de folga nem pensei em trabalho, mas amanhã recomeço minha rotina, que não incluirá mais ir pro campus de bicicleta nem almoçar em casa. »um super feliz e comovido obrigada à todos que deixaram comentários sobre a casa!

a casa da rua Pendegast

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Não estava nos nossos planos mudar de cidade. Mas começamos a olhar casas pra comprar em Davis e ficávamos abatidos e desanimados à cada uma que visitávamos—todas muito caras, outras muito pequenas ou muito estranhas ou muito estragadas. Daí decidimos olhar na cidade vizinha e a primeira casa que vimos foi essa. Olhamos pelo website da imobiliária e eu tinha absoluta certeza de que iriamos ter mais uma decepção. Quando entramos na casa fomos arrebatados. Uma semana depois já estavamos fazendo a oferta. O que aconteceu? Não sei. Optei por dizer que a casa nos enfeitiçou, pois toda vez que íamos lá, ficávamos com umas caras de tchongos olhando um pro outro e repetindo—que casa mais bacana! Uma casa com aquela atmosfera reconfortante de lar. E nem tenho como explicar o que isso significa exatamente.

Compramos a casa da rua Pendegast, que fica numa área central da cidade de Woodland. Ela foi construida em 1948 e renovada em 2006, quando ganhou uma plaqueta de herança histórica. É uma casa antiga que ainda ostenta muitas partes originais, como as quinze janelas do tempo do Elvis jovem e magro que terão que ser trocadas por outras mais modernas e eficientes. Mas é uma casa cheia de charme, rodeada de árvores enormes, localizada numa vizinhança com muitas outras casinhas [e algumas casonas] antigas, cujos moradores são realmente orgulhosos das suas encantadoras residências.

Desde que tomamos a decisão de mudar que tenho feito tudo na casa velha imaginando que estou fazendo os mesmos passos na casa nova. Vou certamente sentir falta de algumas coisas da minha vida e da casa de Davis. Mas estou muito entusiasmada com a mudança de panorama e com as inúmeras possibilidades da nova cidade e da nova casa. Nos últimos dois meses tenho andado mentalmente pelos corredores da Pendegast, olhando através das janelas, subindo e descendo as escadas, observando as plantas sentada no banquinho de concreto no quintal, lendo o jornal com a luz do sol iluminando a mesa da cozinha, decidindo as cores das paredes, onde pendurar quadros, onde colocar a estante. E a partir de amanhã vou poder fazer tudo isso de verdade, na prática, lá na minha nova casinha velha.

couscous israeli com ervilhas

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Tive um dia atribulado, daqueles em que à medida que as noticias vão chegando, você só sente vontade de sentar [ou deitar] e chorar. No meio da manhã bradei bem alto, assustando minhas duas chefes que trabalhavam concentradas—VAMOS TER QUE ASSALTAR UM BANCO! Porque é tanto quiprocó burocrático e gastação ridícula de dinheiro no processo de vender uma casa e comprar outra que nem sei. Gostaria de estar tendo tempo para fazer um diário e registrar todos os passos, todos os afazeres, os corre pra lá e corre pra cá que envolvem uma mudança. Sem falar na montanha russa emocional, que está realmente desgastante. A tristeza de deixar a casa antiga, com a excitação das novidades da casa nova. Tem dias que me pego falando alto e sozinha, no mais completo transe de mulher endoidecida.

Neste dia particular, em que todas as notícias de quanto iríamos gastar nas reformas e consertos foram chegando de solavanco, fui almoçar em casa e [bah] constatei chocada que não tinha absolutamente nada pronto para comer na minha cozinha. Nem mesmo um pão com queijo. Na verdade até tinha pão, mas não tinha queijo. Fiquei uns minutos zanzando pela cozinha, até decidir colocar uma panelinha com água e sal no fogo. Qualquer massa funcionaria bem. E as ervilhas congeladas foram a segunda opção. Decidi pelo couscous israeli que cozinha rápido. Então foi só cozinhar a massinha na água com sal fervendo e no final juntar um tanto de ervilhas congeladas. Escorrer tudo, temperar com sal, pimenta do reino moída e um fio de azeite extra-virgem, misturar e servir bem quente. Deu um almocinho bem reconfortante que me ajudou a enfrentar o resto do dia. Ready for second round!

PF

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[ arroz com salsinha, feijão com beef jerky, farofa ]

um dia, dois dias, três dias

mais autenticidade, seria bom, né? sozinha, comi sanduíche de salada de batata com ovo. e vinho. minto, não estava sozinha. o gato Misty estava na cadeira ao lado. e a salada de batata com ovo era CÍTRICA. trilha sonora by Boswell sisters—the devil and the deep blue sea. peguei um monte de apps do Lonely Planet, mesmo não estando indo viajar pra lugar nenhum, só porque estavam dando de graça. sou unha de fome? vestindo uma camisa azul marinho tamanho extra large do meu marido—the same old me. meus planos: cancelar todas as assinaturas de revistas assim que comprar meu iPad. assinar todas as revistas novamente, versão eletrônica para o iPad. Peter, Paul & Mary. mãos geladas e aquecedor da casa ligado. casaco, botas, guarda-chuva. it rained on me. sempre percebo o erro ortográfico ou gramatical quando já é tarde demais. casquei fora do picnic de indio dos funcionários da universidade. sem muitas delongas, disse apenas, it's not my cup of tea. sou uma lesma lerda mesmo: como que eu nunca participei de nenhuma cooking class no Co-op? e falando nelas, encontramos LESMAS ENORMES alojadas dentro de um repolhão meio oco que chegou com a cesta orgânica. A Place in The Sun [1951] obra prima do George Stevens. Elizabeth Taylor linda de cair o queixo aos 17 anos e Montgomery Clift, nem tenho palavras. Montgomery Clift é, pra mim, uma figura trágica. fico absurdamente comovida quando vejo filmes dele depois do acidente que o transfigurou. porque ele era lindo, lindo, lindo! muito mais que o fedorentinho James Dean e o mal humoradinho Marlon Brando. warning—isso tudo é um déjà-vu.

[quase famosos]

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—como é trabalhar com o Sr. José Firelli?
—desculpa, mas é Zefirelli.
—ah, para a senhora, que é íntima!

[narrado nas crônicas de Paulo Francis] hahaha!

A vida é realmente um sitcom. Meu chefe uma vez me contou uma história surreal que aconteceu com ele e que ele chamou de The Water Nazi—relativo ao The Soup Nazi do Seinfeld. O cara chegou na máquina de refil de água do supermercado com 17 galões vazios e ocupou as 4 torneiras. Meu chefe pediu pra usar apenas uma, pra encher apenas um galão e o cara respondeu mal humorado que NÃO. E acabou com a água da máquina.

Também tenho uma história similar—The Salad Bowl Nazi. Estava na thrift store num sábado, como é muito meu costume, garimpando coisinhas de cozinha. Achei uns potinhos, uma bandeja e numa pilha de coisas em cima do balcão, descobri uma saladeira bem bonita por $3. Peguei e segui em frente. Regra de thrift store é achou, gostou, segurou firme! Porque tá solto é de qualquer um. Bom, estava na fila pra pagar quando uma mulher se aproximou e arrancou a saladeira da minha mão com a maior violência. Fiquei atônita, como ficaram também todos os outros que estavam na fila comigo. A mulher, numa voz alterada, bradou—isso É MEU, eu já paguei! Pagou e largou em cima do balcão. Merecia perder os três mangos, pra aprender uma lição. Mulher grossa e ralé. Nem todo mundo que frequenta lojas de segunda mão é assim, pelo menos não na que eu frequento.

Uriel comentando uma edição da revista Martha Stewart Living, com ela na capa disse—usaram uma foto dela de 30 anos atrás, né? Incrível, mas a mulher, além de rica, linda e poderosa, ainda parece imortal. Preservada no formol. Muito ódio dessa específica edição de setembro da revista—com ela super xóvem na capa, mostrando a organização da cozinha dela. Isso não se faz! Mostrar aquilo pra nós, pobres e mortais, gente que envelhece e que não tem uma super cozinha organizada por uma equipe. Sem falar que a malandra se apossa de todo e qualquer objeto antigo e vintage disponível no planeta. Não sobra talheres de baquelite nem vasilhas de argila vitrificada pra mais ninguém.

adoro as manhãs de domingo

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Tenho a impressão de que os coaches do masters onde eu nado me desprezam profundamente, porque eu não estou interessada nos treinos, nas competições, em quebrar recordes ou ganhar medalhas. Eles me ignoram solenemente, mas pra mim tá muito bom assim. Eu sempre nadei contra a corrente ou sozinha numa raia sem me enturmar. Sou assim desde sempre, não consigo fazer parte de grupos, partidos, andar em turma, fazer o que os outros fazem, me vestir na moda, seguir regras, participar de eventos coletivos, jogar joguinhos, passar correntes pra frente, fazer parte de um time, me integrar na onda do momento. Sou a que corre por fora, do meu jeito, com as minhas regras e etiquetas que me orientam e determinam o meu caminho.

Acordamos com o gato faminto espancando a porta do quarto. Eu levantei e desci para dar comida ao desesperado. A relação do Misty com os humanos é completamente baseada em comida. É uma coisa que me incomoda, pois parece não existir outro elo de ligação. Li outro dia que gatos são muito mais leais aos humanos do que os cachorros, só que eles fazem a conexão de uma maneira diferente e muito mais rigorosa. Eles se conectam com apenas um humano, à quem vão ser leais para sempre. Se acontecer dele ser abandonado, o gato nunca mais vai se conectar à humano algum e todos os relacionamentos dali em diante serão baseados em comida. E esse é exatamente o caso do meu gato velhinho, o Misty.

Domingo de manhã, quatro graus, névoa baixa e frio, vejo pela janela da cozinha muitos passantes indo caminhar pelo Arboretum. E daqui a pouco eu tô indo nadar.

a casa da tia

Durante a minha infância, o melhor passeio que existia era visitar a casa das minhas tias. Cada qual com seu jeito diferente, todas me encantavam com suas casas e seus estilos de vida diferentes. Numa delas era o lugar da farra, das brincadeiras impensáveis de se fazer na minha casa, na liberdade total, na comida caseira, nos bolinhos da tarde. Na outra era a sofisticação e fartura intelectual, livros, discos, quadros nas paredes, arte espalhada pela casa, mil histórias sendo contadas, discussões inteligentes, comida sofisticada. Noutra era o estilo, a modernidade, as dicas de estética e beleza, as piadas que me faziam chorar de rir. Cada uma das minhas tias tinham certas qualidades que me atraiam.

Agora ouço os meus irmãos dizerem que meus sobrinhos amam a minha casa e adoram vir me visitar. Eu me sinto tão feliz com isso, pois sei o quanto é mesmo gostoso ficar hospedado na casa da tia. Nem que seja pra ficar fazendo nada, só vendo tevê, lendo revista e ouvindo o convercê dos adultos.

nossa rotina da primavera

Abre as janelas, liga o ventilador de teto, põe um vestido, calça sapatilha sem meia, pega o guarda-chuva, veste um casaco leve, bebe cinco xícaras de chá quente, compra morangos, veste meias, desliga o ventilador de teto, coloca um casaco mais quente, enrola uma echarpe no pescoço, tira a meia, fecha a janela, guarda o guarda-chuva, liga o aquecedor, bebe quatro xícaras de chá quente, coloca a bota, tira a echarpe, pega o guarda-chuva, compra cerejas, abre as janelas, veste um vestido, coloca uma jaqueta leve, liga o ventilador de teto, põe gelo na bebida, faz o almoço na churrasqueira, guarda o casaco e a bota, tira a meia, veste a meia, desliga o ventilador do teto, fecha a janela, troca de casaco, carrega o guarda-chuva, se enrola na echarpe, come damascos, cerejas e morangos, espera pelos tomates, espera pelos tomates, espera pelos tomates, veste o sapatinho sem meia, veste saia esvoaçante, bebe várias xícaras de chá quente, assa um bolo, veste o casaco, veste a bota, pega o guarda-chuva, abre a janela, desliga o ventilador de teto, tira a meia, veste o casaco leve, se enrola na echarpe, bebe mais chá, assa mais um bolo, faz sorvete de morangos, fecha a janela, abre a janela, espera pelo verão.

sem título [enquanto espero]

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Acontece sempre comigo nas mudanças de estação. Vou ficando exausta do ritmo, das horas, do movimento, da luz ou falta de luz, das roupas, das comidas. Me encho de expectativas para as novidades que virão, pode ser apenas um ventinho mais gelado ou um raiozinho de sol mais potente. E este ano fiquei assim, bem cansada, do nosso inverno molhado. Enchi os piquás prá lá de metro das verduras, tantas folhas, overdose de clorofila. Estava esperando os dias mais secos, mais amenos, sem vendaval, ventania, chuva de granizo, como mais legumes do que verduras e poder usar um vestido com casaquinho, uma echarpe esvoaçante, sapatilhas sem meia. Nem estou pedindo para já começar a receber tomates, muito menos morangos. Mas que pelo menos pare de chover e abra o sol nos finais de semana, quando eu dou minhas braçadas e pernadas na piscina. E que o tempo fique firme pra gente poder almoçar na mesa do quintal.

Esta primavera está sendo uma das mais incomuns. Irritantemente fria e chuvosa, cansativa. Guardei toda roupa de inverno e tive que resgatar algumas peças na emergência. Cansei de vestir meias, de sair de botas. Me visto obrigatóriamente em camadas, mas muitas vezes preciso me agasalhar mais no meio do dia. Numa dessas tardes caiu um temporal com trovoadas. Muito peculiar, já que por aqui raramente troveja. Não plantei tomates na horta ainda, porque eles detestam frio. E eu também estou começando a detestar, porque tudo o que é demais dá nos nervos, exacerba.

Pelo menos já começamos a devorar toneladas de aspargos, alcachofras, ervilhas—as novidades que chegam no inicio da primavera. Apesar que nenhuma fruta nova apareceu no horizonte, ainda. Mas todo dia, quando passo pedalando pela árvore de damascos que fica no meio da minha vila e que não pertence à ninguém, observo o progresso da natureza e já vi que a árvore tem frutinhos bem grandinhos. É isso mesmo, os damascos chegam primeiro que as outras frutas de caroço e me deixam enlouquecida pois a temporada é curtíssima. Mas por enquanto o jeito é ter paciência. Olho a previsão meteorológica todo santo dia, na verdade várias vezes por dia e apesar da manhã ter sido escura e ter chovido canivetes, o sol apareceu discreto no meio da tarde e promete ficar num esconde esconde ente nós e as nuvens por alguns dias. Como as temperaturas máximas ficarão em torno de 20ºC, já renovei meus ânimos, pois muitas mudanças boas irão chegar.

migalhas dormidas do teu pão

Tenho perfeito conhecimento da existência de pessoas meio etéreas, que possuem um talento quase mágico e para quem assar um bolão ou um pão fofinho, fazer umas dezenas de cookies ou uma suculenta torta, é a coisa mais simples e corriqueira deste mundo. E elas são capazes de fazer tudo isso sem receita, tricotando, se equilibrando em cima de patins, praticando truques de malabarista com bolas coloridas, dançando um frevo e podem até colocar uma venda nos olhos ou amarrar as mãs nas costas, o resultado será sempre divinomaravilhoso. Pois bem minha gentê, tenho um anúncio muito sério pra fazer: eu não sou uma dessas pessoas. Nem de perto. Nem de longe.

E ando me sentindo imensamente frustrada por não fazer parte dessa turma. Me arrasa não ter receitas e fotos de comidas lindas, perfeitas e deliciosas pra colocar aqui, porque ultimamente parece que tenho feito tudo com duas mãos esquerdas, dois olhos caolhos e uma cabeça nebulada. Minhas reclamações parecem ampliar e multiplicar os desastres, já começo tudo prevenida e fico esperando pelo pior. Me transformei numa velhota rasmungona e ranzinza, que bota fogo no pano de prato, espanta os gatos com o barulho das coisas caindo e quebrando, xinga palavrões e puxa os cabelos de raiva quando é forçada a jogar bons ingredientes na lata do lixo.

Outro dia mesmo conclui que ando acumulando mais histórias de desastre do que de sucesso e que já estou bem cheia disso. Não tem mais graça contar que deu tudo errado. Estou precisando contar vantagens, dizer que tudo ficou uma delícia, que os comensais lamberam os beiços, provocar uma salivação coletiva com fotos realmente hard core, mostrar que não estou aqui para brincadeiras, encontrar o antídoto para essa praga rogada pela minha fada madrinha má.

Mas enquanto não descubro a palavra mágica que vai me dar acesso à porta dos fundos para o clube das cozinheiras de sucesso, me restam duas alternativas: não escrever nada ou escrever as minhas desventuras.

Inventei de fazer um pão, porque estava folheando um livrão que tenho só com receitas com os citros e dei de cara com uma foto maravilhosas—pão com limão e macadâmia. O mundo parou pra mim naquele momento e a única coisa que pensei dalí em diante foi fazer o tal pão. Não vou aborrecê-los com detalhes chatos, de como me atrapalhei com o primeiro procedimento e usei um fermento morto, mas no primeiro dia o pão não deu certo. Joguei fora todos os ingredientes, entre eles cinco xícaras da melhor farinha que tem no mercado, a mais cara, além do ovo caipira, leite e manteiga orgânica e tals. No dia seguinte, me recuperei da derrota, sacudi a poeira e comecei tudo de novo. Agora estava mais preparada, tinha entendido o tal procedimento da esponja, tinha comprado fermento vivinho e novinho e tinha lido e relido meticulosamnte por mil vezes as instruções. Mãos à massa.

Não dá pra explicar com palavras o meu estado de desânimo quando vi que a massa não ficou macia, muito menos elástica e não cresceu depois de uma hora e meia descansando num ambiente escuro e morno. O Uriel tentou me ajudar, analisando todas as instruções do livro milimétricamente, lendo, relendo, comparando as medidas, tentando em vão encontrar um erro que pudesse justificar meus dois fracassos seguidos. Enquanto isso eu arrastei ferros pela cozinha, lamentei, lamentei um pouco mais, me dei auto-chicotadas imaginárias, praguejei até não poder mais e até chorei. Finalmente respirei fundo, engoli o orgulho e decretei—esse pão sai de qualquer jeito! mesmo que não cresça e vire uma pedra. eu faço torradas!

Coloquei o pão já na forma forrada e untada no segundo processo de descanso, já com as macadâmias e as rapinhas de limão incluídas, coloquei no forno, cobri, dei uma bela banana pra tudo, virei minhas costas pro fogão e subi pra tomar banho.

Quando voltei, uma hora depois, o pão tinha duplicado de tamanho. Com ar blasé liguei o forno e coloquei o tal pra assar. Voltei pra desligar o forno e desenformar o pão e apesar dele ter ficado enorme e até meio bonito, não consegui celebrar a vitória. Estava com muita raiva do livro dos citros, da receita, de mim mesma e de todos os padeiros profissionais ou amadores que um dia assaram seus pães com facilidade e sucesso.

No outro dia, enquanto comíamos fatias grossas do pão com limão e macadâmia que ficou bem gostoso, o Uriel comentou animadamente:
—no final o pão deu certo, hein?
—é [grawww] deu!

[tomando um fôlego]

Aterrisamos em Sacramento às dez da noite do domingo, depois de cinco horas confinados num avião e um final de semana realmente emotivo, visitando família, pessoas queridas que não víamos há anos. Avançamos e depois retrocedemos três horas de fuso, além da coincidência de sair do nosso horário de verão justamente neste final de semana, o que só contribuiu para nos deixar ainda mais cansados e atrapalhados. Na segunda-feira regressamos à vida normal, acordando às seis da manhã, enfrentando muito trabalho acumulado, alguns pepinos espinhudos e todos os quetals. Em casa o cenário desolador mostrava uma geladeira vazia e dois os gatos confusos com a mudança súbita de rotina.

Antes da viagem eu já não tinha cozinhado muito, pois passei o final de semana fazendo compras e me dividindo entre a maratona normal da semana e a arrumação de malas. Só fiz rangos rápidos e brejeiros, nada digno de menção. Depois da viagem não tive tempo de pensar no que fazer e pra completar nem tenho muito com o que improvisar. Faz-se urgente uma visita ao supermercado. Estou me sentindo como se estivesse há meses sem fazer nada legal, sem testar receitas bacanas, sem sentir aquele entusiasmo tão bom de preparar algo diferente na cozinha.

Fui enrolando como podia, colocando umas flores bonitas na janela, contando um daqueles meus causos engraçadinhos, desencalhando receitas que estavam empoeiradas e esquecidas lá no fundo da gaveta—só faltou colocar uma foto do gato, que é sempre um ótimo recurso para encheção de linguiça. Ainda teve a singela festinha de aniversário, que confesso já estava engatilhada, tudo devidamente preparado com antecedência. Nessa altura a melhor e mais rápida explicação pra falta de assunto e, principalmente, de receitas, é que me distraí. Daqui a pouco tudo voltará ao normal. Assim espero.

tem dias que, nem sei viu

Não bastava ser uma segundona, eu ter acordado com a escuridão ainda presente, o Uriel estar viajando e eu ter esquecido de comprar pão. O Misty precisou vomitar toda a comida de salmão que ele devorou no breakfast pelo corredor, pelos tapetes e carpete. E eu ainda precisei pisar sem querer no vômito e carimbar outras partes do carpete e tapetes com a meleca. Também não foi suficiente o mau humor usual, mas eu tive que subestimar a chuva e pensar que dava pra pedalar segurando o guarda-chuva. E não deu. Gastei minutos preciosos correndo pelo quarto, trocando de roupa freneticamente como eu sempre faço e saí atrasada, enfrentando a chuva e o percurso até o trabalho à pé, correndo contra o tempo, treinando disfarçar a cara de bunda de quem chega depois da hora.

Não bastava ser uma segundona e todo o resto que aconteceu, mas eu tinha que cometer um erro de escolha na hora de me vestir e assim me auto infligir o miserê de passar o resto do dia com um visual fug. Sem brincadeira, se eu vier trabalhar enrolada num saco vazio de arroz basmati tailandês, ninguém no meu circulo diário vai dar um suspiro, quanto menos se importar. Mas eu me debato com o maldito dilema fashion todo santo dia. Me visto visando o conforto, já que vou ficar sentada por oito horas, com algumas levantadas e caminhadas necessárias. Não preciso me vestir de maneira específica, meu trabalho não impõe nenhum código de vestimenta, não preciso usar terninho, nem sapato social, posso ir trabalhar vestida de camiseta, bermuda e chinelo de dedo e talvez seja isso que me estimule a fazer tanta besteira. Por exemplo, ninguém dever ter entendido o que eu estava fazendo de vestido longo estampado no dia que a tempestade do tufão japonês nos castigou. Já para essa fatídica segundona escolhi uma tunica fofa de florezinhas verdes e manga comprida com camiseta cinza por baixo, colete beige por cima, acharpe longa marrom, bermuda levemente balonê de veludo cotelê verde. Até aqui tudo estava bem. Entornei o caldo quando decidi vestir uma meia beige até o joelho e tênis de alpinista. Parece até que eu não tenho espelho em casa. E de castigo, passei o dia achando que todo mundo com quem eu cruzava estava rindo de mim. Se existisse um what i wore today—the clown version, eu poderia certamente participar com sucesso.

Vestida assim, passei o dia camelando e segurando o guarda-chuva, pra lá e pra cá. Resolvi pegar uns livros na biblioteca. Fui e voltei, fui e voltei, porque da primeira vez esqueci minha carteirinha da universidade. Voltei carregando livrões pesados sob a chove chuva. Me atrasei na volta para casa no final do expediente e segunda, vocês sabem, é dia de buscar a cesta orgânica. Na correria pra mandar uma mensagem pra Marianne avisando que estava atrasada, esqueci de trancar a porta da frente da casa e saí pela garagem. Só notei que minha casa ficou aberta, quando fui abrir a porta pra Marianne. As verduras e legumes chegaram mais imundos que o normal, por causa da chuva. Felizmente consegui convencer a Marianne a levar a mega acelga, pois eu ainda tenho uma inteira na geladeira. Lava lava, lava lava, gatos impedindo o meu livre trânsito na cozinha, lembrei que ainda tinha que trocar a roupa de cama e banho e limpar o vômito do Misty no andar de cima, que nessa altura já estava uma crosta ressecada.

Minha maratona dessa segundona chuvosa merecia um prêmio. Quando tenho dias complicados, quero comer algo que me deixe absolutamente feliz. E esse algo é sempre macarrão alho e óleo. Fiz a minha receita básica, usando um espaguete de farro italiano, bastante alho micro picadinho, três filezinhos de aliche bem picadinho refogados em bastante azeite e MUITA, MUITA, MUITA salsinha fresca picada. Pimenta moída na hora, bastante queijo parmesão ralado bem fininho na hora de servir, uma taça de vinho e uma salada de tomate para acompanhar, voilá! Comi bastante e fiquei feliz. Fiz ainda muitas outras coisas depois do meu jantar solitário e fui deitar me sentindo absurdamente cansada. Ninguém duvida que qualquer dia corrido cansa, mas um dia assim, como essa segundona, cansa muito mais.

no meu Co-op

Peguei uma ricota fresca na prateleira dos queijos especiais, mas não consegui achar nenhuma referência ao preço, nem em plaquinhas, nem em etiquetas. Resolvi levar assim mesmo. Ricota artesanal e tal. Passando no caixa, ele não conseguia achar o preço nem o código. Já cogitei deixar a ricota pra trás, porque no meu Co-op não tem aqueles funcionários que correm pelo supermercado vestindo patins pra verificar preço, lá é tudo muito mais simples. O caixa olha meio frustrado pra ricota, olha pra mim com cara de help me, mas eu disse que sentia muito, também não tinha conseguido achar o preço.

—você acha que $3,99 é um preço justo?
—certamente!!
—plin-tchin, três e noventa e nove.

No páteo do supermercado um pessoal abordava os clientes com alguma petição pedindo assinaturas. Eu sempre assino quando acho o motivo relevante. Um deles se aproximou de mim com prancha e caneta.

—oi, você curte marijuana?
—ahn, tô meio apressada hoje, desculpa...

Era uma coleta de assinaturas para a campanha de legalização da maconha.

esse bolinho vai dar história

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No final de tarde tórrido me plantei em frente da geladeira, determinada a dar cabo das sobras—especialmente uma, de um salmão selvagem que eu tinha assado na churrasqueira. Assei um pedaço maior com o fortuito propósito de ter algumas sobras e por consequência poder fazer alguma coisa com elas. Sobras de salmão sempre resultam em pratos novos interessantes.

Vejam bem, eu não compro salmão sempre. Só compro quando acho o selvagem, pescado no Pacífico, que não come ração com antibiótico nem com adição de tinta. O salmão selvagem não desbota depois de assado, como salmão de fazenda. É lindo de ver, delícia de comer e, esse sim, saudável. Custa maia caro e não aparece sempre, porque ele tem a pesca controlada. Mas vale a pena esperar pela oportunidade de ter um filé para assar e as sobras para inventar.

Por todos os motivos relatados no parágrafo acima, essas sobras de salmão eram preciosas!

Resolvi fazer uns bolinhos e assá-los na churrasqueira. Coloquei as sobras do peixe assado numa vasilha, juntei alcaparras, ciboulettes picadinhas, umas fatias finas de abobrinha picadinhas, um dente de alho micro-picado, colheradas de creme fraiche e farinha de pão [rosca] até dar o ponto de fazer os bolinhos. Coloquei tudo na minha nova frigideira, acendi a churrasqueira e lá ficaram os bolinhos, assando.

Fui fazer uma salada, dar snack pros gatos, ligar pro Uriel, arrumar a mesa, eteceterá e quando voltei pra checar os bolinhos, surpresa: aparentemente o gás da churrasqueira tinha acabado. Liguei pro Uriel por favor vir trocar o botijão e me estiquei no sofá me sentindo exausta, também porque até ele chegar, o troço iria demorar. E a fome já estava incomodando. Fome me dá um baita mau humor e paciência de esperar não é realmente o meu forte, apesar das minhas eventuais práticas zen.

Deitada no sofá fiquei relembrando que enquanto fazia os bolinhos refletindo sobre a qualidade do salmão e dos outros ingredientes, um diabinho sussurava no meu ouvido—e se essa invencionice der errada? Já tinha começado mal, com a churrasqueira me deixando na mão, mas o que mais poderia acontecer? O que mais poderia dar errado, além do risco natural de usar uma receita inventada, sem medidas e tals? Quando você pensa que algo tem tudo para dar errado, com certeza vai dar.

O Uriel chegou, trocou o botijão, acendeu novamente a churrasqueira no fogo alto e fomos conversar. Não deu nem dez minutos, saí para checar o andamento do cozimento da comida e voltei chorando—não temos mais jantar, esturricou tudo! Lágrimotas de frustração, tristeza, e cansaço quase pingavam na salada de tomate. O Uriel correu para analisar a catástrofe e veio com o prognóstico de que nem tudo estava perdido. Trouxe os bolinhos, meio esturricados apenas de um lado, ajeitados cuidadosamente numa travessa.

Olha—ele mostrou a travessa tentando me animar—não está tão ruim, queimou só um pouco na parte de baixo!

Comemos então somente a parte de cima, carvucando a massa saborosa e removendo a casca preta. Apesar dos maus agouros e dos pequenos tropicões e sustos durante os procedimentos, o salmão virou bolinho, o bolinho virou jantar, e depois tudo virou história.

não é por falta de espelho

Não tem sempre um dia em que você se veste pela manhã e tudo que escolheu pra usar combina, está lindo e garboso? E então você saí feliz da vida, garantida, se achando super criativa, bem vestida, sempre com um certo charme especial. Mas de repente, lá pelo meio do dia, acontece uma transmutação e a sujeita elegante e rock 'n' roll de horas atrás se transforma numa verdadeira palhaça, com sapatos enormes, roupas de cores berrantes descombinando, parecendo um saco de batatas psicodélico. E daí é aquele sofrimento atroz—passar o resto do dia se vendo refletida em toda porta ou janela de vidro pela qual você é obrigada a passar incontáveis vezes. Todo mundo tem um dia assim, não tem? Um dia bozó.

nota dez

São pequenos momentos rechedos de acontecimentos, que de imediato se fazem passar por trivial e sem muita importância. O valor real de tais momentos só será atribuído mais tarde, baseado no nível de bem estar e sorrisos que a lembrança deles evocar.

Como aquela correria pela estrada numa tarde tórrida de verão, com as janelas do carro abertas, cabelão esvoaçante, George Harrison tocando no rádio, minúsculas sementes pipocando pelo asfalto e rechicoteando na lataria e no vidro. E no final uma alegria imensa de rever alguém que estivera ausente.

Ou o caminho iluminado por uma gigantesca lua cheia, depois de degustar uma salada de tomate e dois copos de vinho branco, dirigindo cuidadosamente, com vontade de rir pela estrada escura, o ar condicionado ligado, Fred Astaire cantando youlikepotatoandilikepotahto no cd player. E no final uma alegria imensa de rever alguém que estivera ausente.

[comida carinho cuidado aconchego]

Fui uma criança super ativa e saudável. Tirando as várias camadas de casca de feridas sempre infeccionadas no joelho, de ter que levar inúmeras injeções anti-rábicas depois de agarrar os gatos de rua e aqueles acidentes com chicletes grudado no cabelo, eu não tenho muitas lembranças de ficar realmente doente. Tive algumas gripes, uma reação alergica depois de devorar sozinha uma dúzia de mangas, a indefectível caxumba e algumas dores de ouvidos, por causa da água acumulada vinda da piscina ou dos rios, onde eu costumeiramente nadava. Ficar na cama, com febre ou sem, já era punição suficiente pra mim, que precisava estar sempre fazendo mil coisas, arriscando o pescoço subindo nos telhados, mergulhando do alto da pedra na beira do rio ou descendo a ladeira com a bicicleta sem breque e de olhos fechados.

Por isso minhas poucas lembranças de ficar doente não são boas. E é por isso que não curto as comidas clássicas oferecidas à pessoas adoentadas. ODEIO canja de galinha com todo o poder e força que esse sentimento pode gerar. Quando minha mãe vinha com o prato de canja, eu queria morrer—ou melhor, sarar rapidinho. Também não sou nada fã da maçã, a única fruta que eu associo com doença. Das poucas vezes que fui derrubada por um febrão, nos meus delirios eu implorava por um copão de Guaraná borbulhante e gelado. Esse era o néctar dos deuses que ajudava a levantar meu corpo e minha moral e me colocar de novo caçando besouros na rua ou pulando como uma cabrita e bebendo a água da chuva das tempestades de verão.

Até hoje sou dura na queda. Fico pouquissimo doente, comparado com o resto da população que está sempre batalhando um resfriado ou uma gripe. Os malditos vírus só me pegam em situações extremas. Mas quando eu fico doente só quero comer uma coisa: batata frita. Afasta de mim essa canja! Quero mesmo as deliciosas e reconfortantes french fries, especialmente se forem compradas com amor e atenção pelo meu marido.

Anos atrás minha mãe estava aqui me visitando e fomos juntas para Los Angeles, participar das comemorações do aniversário das minhas sobrinhas. Lá eu peguei um vírus miserável que uma delas, beijoqueira e abraçadeira tão querida, tinha pegado na escola. Voltei podre. Eu podre aqui e minha sobrinha podre lá. Foi punk. Acho que fiquei dois dias dormindo, sem conseguir comer. No terceiro dia, minha mãe preparou a comida mais deliciosa do mundo, que me fez sair da cama, sentar na mesa da cozinha e devorar tudo com o maior ânimo e prazer. O menu preparado pela minha mãe naquele dia consistia de bife a milanesa com purê de batata. Uma das melhores refeições que já comi em toda a minha vida.

meu animal exterior

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[os postes—misty & roux]

Durante uma caminhada cruzei com uma mulher pequena acompanhada do seu cachorro pequeno, para os quais eu sorri e depois abaixei a cabeça, imersa no pensamento de que é verdade que os animais se parecem com seus donos ou vice-versa. No meu caso, gosto sempre de supor orgulhosa que o animal perfeito para me retratar seria o cavalo. Me identifico fisicamente com esse animal grande que carrega seres humanos nas costas. Só que não posso ter um cavalo. Então me resigno e aceito o fato incontestável de que meus dois gatos malucos, dorminhocos e cheios de manias me representam muito bem.

vida social

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Uma das coisas mais chatas da vida social é conhecer gente nova em festa. Eu frequento poucas festas, mas as que vou eventualmente estão sempre apinhadas de pessoal acadêmico, os cabeções da ciência, gente que faz coisas interessantissimas, doutorados, pos-doutorados e pesquisas inovadoras, desbravadoras e revolucionárias, Costumo enfrentar essas socializações como se estivesse num trabalho de parto, que se desenvolve sempre em etapas, uma mais difícil que a outra. Raramento eu me aproxego de alguém e já vou sacando um questionário da bolsa. Geralmente eu sou a vítima, a presa encurralada e cercada de perguntas. Acho que as pessoas me vêem e logo pensam: preciso conhecer aquela nariguda falando com aquele sotaque interessante, vestida com aquelas roupas exóticas e que—opis—acabou de tropeçar [ou quebrar um copo, ou derrubar vinho na anfitriã, ou falar uma gafe]. Dai sou abordada, primeiramente com as gentilezas de oi meu nome é fulano ou fulana, dai eu digo o meu nome e eles repetem, eu explico que é FernandAAAA, por favor, não me faça passar pelo vexame de ser chamada de homem, algumas risadas tolas, um papinho furado de alguns minutos e logo vem a primeira pergunta decepadora de cabeças: o que você faz?

Responder o que eu faço pode levar horas e necessitar de muitos copos de vinho intercalados de copos de água. Então essa pergunta fica sempre mal respondida, mal entendida e gera muita frustração. Eu gostaria muito de me livrar da pergunta e da conversa nessas horas, então penso no que poderia responder quando a tal frase fatal fosse finalmente verbalizada: o que você faz?

—eu vendo Amway [ou Mary Kay]. essa resposta é garantia de conseguir afastar todo e qualquer ser racional da sua pessoa e assim poder passar o resto da noite comendo, bebendo e lendo revistas na festa.

—sou dublê de corpo em slash movies.

—sou treinadora do time de gamão dos cidadões de terceira idade de Roseville.

—crio minhocas.

—sou a nova gerente do Bates Motel.

—sou manéquin de luvas.

—o que eu faço? como assim o que eu faço? que tipo de pergunta é essa? you talking to me? YOU TALKING TOOOOO MEEEEE?????

Depois que você fica com a boca seca de explicar o que você faz, vem a próxima pergunta: você tem filhos? Dai eu entro na segunda etapa do parto de conhecer gente nova em festa. Assim que eu digo que, sim, tenho um filho e preciso dizer que ele é um adulto, um baita homão por sinal, meu interlocutor fica com aqueles olhos esbugalhados, quase saltando da cara como nos desenhos animados. O quê? Um filho adulto? A situação fica completamente constrangedora nesse ponto, pois no olhar incrédulo do alegre inquisitor, a jovial pessoa interessante e excêntrica com quem ele estava conversando e interrogando se transforma de repente numa anciã decrépita e desdentada. E não há o que fazer. Sou mãe de um homem. Só posso ser uma múmia ou uma extra-terrestre.

Logo em seguida, se o ser aproxegante ainda tiver interesse no conversê dele comigo, acontece um outro diálogo que eu odeio e que é iniciado com a fatal pergunta: o que te trouxe aqui pra Davis? Nessas horas quero afundar rapidamente numa areia movediça e desaparecer enquanto dou um tchauzinho com cara de sinto muito. Mas a educação me obriga a responder. Vim com o meu maridooo... O quê? fala mais alto. Vim com O MEU MARIDOOOOOO! Dai sou bombardeada de perguntas sobre o que ele faz nos micro-hiper-super detalhes. Me sinto a perfeita songa la monga, que veio pra Davis seguindo e dois passos atrás do marido gênio. Marido, marido, marido, mas será o benedito que esse pessoal não tem outro assunto?

espelho meu

Se acabassemos numa ilha deserta, eu e ele, sem nenhuma superfície refletiva onde eu pudesse me olhar, acho que eu seria a mulher mais pimpona e me achando a tal do planeta. Acordo com aquela cabeleira selvagem, look corte-de-navalha-a-seco feito pelo cabeleireiro pombo, parecendo uma louca fugida do hospício e vou reclamar pra ele—olha só que horroror! E ele diz—mas seu cabelo está lindo, super sexy! E fala com tanta sinceridade que me dá vontade de chorar. Eu preciso começar a acreditar nele.

o trem das oito e meia já passou

Tenho fases em que só quero pensar, escrever e matracar sobre cinema e sobre comida. Outro dia encontrei um professor no campus e no meio do nosso conversê puxei um exemplo de filme para ilustrar o assunto de que falavamos—sabe como, igual acontece naquele filme tal? Ele fez uma cara de ué. Claro que não sabia. Eu assumo que todo mundo viu os filmes que eu vi, portanto posso incluí-los nos exemplos e nas conversas. Vai, minha filha, vai ser Seymour na vida...

Fui comprar uns ingredientes na lojinha internacional e uma senhorazinha que parecia saída de um livro ou de um filme puxou assunto comigo. Ela queria saber o que eu iria fazer com o xarope de romã e perguntou se eu frequentava a International House, se eu conhecia a fulana e a beltrana e eu respondi que sim, claro que conhecia. Ficamos conversando por um tempo, eu toda de preto e curvada, ela bem petit e vestida de azul clarinho, sorrindo. Saí da loja tão feliz, como se tivesse reencontrado uma amiga dos velhos tempos.

Eu adoro ir ao Farmers Market no sábado pela manhã, comprar tudo o que eu gosto e voltar carregada com sacolas de frutas, flores, um sacão de pipoca e chupando um picolé de limão com abacate.

domingo—perde o cachimbo

Abri meus olhos de madrugada e naquela sonolência sonâmbula percebi que não tinha ligado o alarme. Estiquei o braço, puxei a alavanquinha, a luzinha vermelha apareceu, virei e voltei a dormir.

Às seis e trinta da manhã o alarme tocou e eu levantei pensando nos meus projetos no trabalho, o que tinha na agenda pra fazer naquela segunda-feira. Desci, dei comida pros gatos, preparei meu café com leite ainda não totalmente acordada e me sentindo incrívelmente confusa. Como esse final de semana passou rápido, pensei. O que foi mesmo que fiz de almoço no domingo, me perguntei. O sentimento de confusão só aumentava e de repente o interior da névoa que obscurecia o meu pensamento foi clareando. Subi para o quarto, cutuquei o Uriel que ainda dormia e perguntei, hoje é domingo? Ele abriu os olhos e respondeu, sim hoje é domingo!

Me senti uma besta quadrada por acordar em horário de dia de semana num domingo e ainda ter pensado em trabalho e iniciado minha rotina de dia de semana num DOMINGO!

Segui acordada, pois acordada já estava mesmo e decidi aproveitar o tempo extra pra fazer coisas pela casa e na cozinha. Já estava com idéias para o almoço e fui em frente com meus planos. Zanzei pra lá e pra cá a manhã toda e fiz uma receita de galantine de legumes da minha mãe, que era um negócio que eu adorava, mas queria tentar fazer usando a agar agar. Decidi preparar uns espetinhos com um franguinho orgânico, daquele criado e abatido sem crueldade, que descongelei dois peitos, cortei em cubinhos e temperei com iogurte e pimenta. Também decidi que iria fazer aquele quilo de favas frescas—as últimas da temporada—grelhadas. Fiz espetinhos com o frango e uma cebola roxa. Levei tudo para a churrasqueira.

A mesa já estava arrumada no quintal para o almoço, quando fui checar as favas e os espetinhos e reparei que tinha algo errado ali. Por algum motivo até agora desconhecido, o fogo na churrasqueira estava soltando um pretume estranho, que estava colando na comida. Fui correndo chamar o Uriel e enquanto ele tentava ver o que estava errado, fui virar a galantine de legumes numa bandeija e o resultado foi um enorme PLOFT! Tudo mole, não solidificou o suficiente pra desenformar. Enquanto isso no quintal, o corre-corre era geral. Estava na cara que a comida tinha sido contaminada pelo pretume e estava imprópria para consumo. Eu ainda tentava desesperadamente salvar algumas favas, quando o Uriel me segurou pelos ombros e disse, Fer DESISTE, vamos sair pra comer fora.

Subi pra tomar um banho, enquanto ele jogava todo o nosso ex-futuro almoço no lixo e lavava a sujeirada. Fomos almoçar num restaurante japonês bem fraquinho, passeamos um pouco e depois voltamos pra casa onde comemos a sobremesa: a única comida que não foi pro lixo, pois tinha sido feita no sábado.

a fashionable bad day

Pois então. Cheguei atrasada no trabalho, de tanto que troquei de roupa antes de sair de casa. E mesmo assim não estou contente com o que estou vestindo—na verdade estou descontentíssima. Ainda tenho a chance de tentar consertar o estrago na hora do almoço, mas me sinto realmente uma fútil trocando de roupa no meio do dia, somente por que encasquetei. Pois realmente não faz diferença alguma. Se eu estiver vestindo um saco de estopa, sapato de sola de pneu de trator e chapéu de palha de dois mirréis, ainda vou ser a mais elegante e moderna da parada, pois a maioria do pessoal que trabalha comigo não compra uma peça de roupa nova desde a década de oitenta. Ou compra na loja de usados, vintage da década de oitenta. Ou simplesmente herdou tudo de um primo/prima que morreu na década de oitenta. Mas eu, perfeccionista e vaidosa, não estou contente com o meu visual de hoje, que pra completar incluí uma cabeleira que resolver armar—eu disse ARMAR, tão ligados? Cabelo armado é razão suficiente para "call in sick" e se esconder, até a kanekalon resolver finalmente se comportar.

põe a mesa

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Para o almoço

Salada simples de tomate e salada simples de batata. O requinte está no fato dos tomates e batatas serem locais, orgânicos e sazonais. Não tem nada melhor, nada mais saboroso, nada mais sofisticado que isso. O tempero também é simples, uma vinagrete de azeite e vinagre ou azeite e limão, mais ervas da horta e flor de sal. Os tomates ganharam manjericão e as batatas ciboulettes. Essas saladas ficam sempre tão boas que nunca sobram pra contar a história. Desta vez elas foram acompanhamento para uns bifes com tomilho fresco que fizemos na churrasqueira.

lah-dih-dah

Assim que abri a porta do meu pequeno armário de despensa, uma lata de atum tombou do alto da terceira prateleira e precipitou-se em queda livre, colidindo com outras latas e pacotes, para logo em seguida dar um duplo mortal—primeiro soqueando com força o topo da minha cabeça e depois aterrando na bancada da pia, justamente em cima de um pires antigo que fazia dupla com uma linda redoma de vidro que eu usava como manteigueira. Usava. O pratinho quebrou-se ao meio e entre a dor do recém-adquirido galo na cachola e a tristeza de perder uma peça de porcelana tão linda, constatei mais uma vez que a cozinha é, para mim, o lugar mais perigoso da casa.

São tantas e tão variadas histórias, que eu já nem impressiono mais os ouvintes, que se limitam a me olhar com aquela cara de bocejo espremido: ah é, você se machucou na cozinha [outra vez]? Posso afirmar que me corto com a faca pelo menos uma vez por semana. E se você sentiu aquele cheiro característico de galinha sendo depenada, pode apostar que era eu tentando pegar alguma coisa entre as panelas no fogão e queimei os pêlos do braço. Fritar, cortar, ralar, escaldar, furar, bater, amassar, espremer, são verbos que eu conjugo muito bem e que não estão nem um pouco relacionados com nenhuma instrução de preparo de receitas.

Minha mão direita é frankensteiniana, exibindo um dedo costurado que não tem mais sentimentos. O corte, que fiz quando lavava um prato de cerâmica que se quebrou, pegou um nervo e transformou para sempre o polegar num sujeito insensível. Mais para o lado vê-se uma mancha notável, que nem o óleo da roseira milagrosa que esfreguei lá por anos ajudou a dissimular. Ela é a lembrança estampada daquela minha tropeçada no tapete, numa noite em que resolvi fazer um pudim de leite, daqueles que precisam ter a forma caramelizada.

Meu marido, que é professor e muitas vezes convoca alguns dos seus alunos para ajudá-lo com peças de maquinaria pesada na sua oficina, tem uma palavra de ordem, reiterada inúmeras vezes para assegurar a integridade física de seus pupilos—concentração! Você precisa se concentrar no que está fazendo, ele diz. Mas comigo esse negocio não funciona. A cozinha é o lugar onde eu relaxo, ouço música, checo e-mails, leio livros, converso com os gatos, descasco batatas dando risada de alguma coisa engraçada que me aconteceu, mexo a sopa no fogo refletindo sobre as notícias do mundo, às vezes até choro ou danço, e mesmo assim não entendo por que estou sempre protagonizando mais um acidente.

A evangelização segundo MP

Enquanto procurava por um itém da minha lista de compras pelas prateleiras de um dos corredores do Co-op, vi uma menina analisando uma dessas caixas tetrapak de leite de aveia ou arroz com grande concentração. Passei por ela e ainda na busca do que queria comprar, ouvi ela perguntar para um cara mais velho, que eu assumi ser o pai dela:

[garota]: o que você acha deste aqui?
[pai]: você não sabe que não devemos comprar nada que tenha componentes que você não entende o que é e nem consegue pronunciar na lista de ingredientes de um produto?
[garota]: mas eu conheço esses ingredientes e consigo pronunciar todos!
[pai]: bom, compre então só pra você, que eu não vou consumir isso.
[garota]: não parece nada mal.
[pai]: você não sabe que não deve comprar produtos que a sua avó não reconheceria como comida?
[garota]: mas minha avó com certeza reconheceria isso!
[pai]: você que sabe...

Não pude prolongar mais a minha parada ali com o ouvido esticadão. Segui em frente a contragosto e não vi o final da história—se a menina levou ou não o leite de caixinha que o pai criticava. Reconheci o discurso do pai, que não citou nenhuma fonte, mas que certamente saiu da leitura dos livros do Michael Pollan.

o final de dia [calorento]

Fui caminhar durante os últimos minutos do entardecer, quando a luz já estava serena, depois do sol ter baixado daquela linha que fica bem direto com os nossos olhos e provoca uma luminosidade dolorida. O dia foi relativamente quente para essa época do ano. Fez trinta e seis graus celsius, uma onda baforenta fora de hora, que sempre nos tira dos eixos e do percurso natural das coisas. Fui caminhar mais tarde porque fiquei contando uns causos pro Uriel, enquando comia triângulos cortados de uma laranja dulcíssima e ele lavava as panelas e as travessas do nosso jantar. Quando pisei no arboretum, que é cortado nas suas três milhas de extensão por um riacho, senti na hora a umidade vinda da água, vaporizada no ar pelo calor. Caminhei meus rotineiros quarenta minutos sentindo todo tipo de cheiro. Eu tenho um olfato bem calibrado que adora perceber todos os aromas e fedores deste mundo. E ele aspirou, ora entusiasmado, ora repugnado, odores secos e molhados dos mais diversos. Cheiro de mato, de paina, de flores, de musgo, de terra, de pena de pato, de poeirão de esquilo, de casca de árvore, de chinelo de dedo, de suvaco de corredor, de bosta de cavalo, de galho quebrado, de folhas boiando na água, de brotos de cereja, de madeira vermelha, de óleo de pinho, de pavimento esfriando. O dia ferveu e o arboretum mudou seus cheiros, que foram registrados em pormenores pelo meu poderoso nariz.

a straight line exists between me and the good things

O advento da primavera traz mudanças caracteristicas na paisagem do Arboretum, não apenas pelo colorido clássico do aparecimento das novas flores e verdes, mas também pelo nascimento de centenas de patinhos. Caminhando pelo percurso de três milhas que acompanha um riacho, observo a agitação ruidosa provocada pelos novos fofoletes habitantes do local. Vejo muitas famílias com crianças parando para olhar as famílias de patolinos com seus adoráveis patolinozinhos. Vejo também muita gente carregando suas câmeras DSLR com lentes bacanudas, clicando, além das simpáticas trupes patolinescas, as plantas florindo, os horizontes e mil reflexos fotogênicos providenciados pelo riacho. Tenho muita sorte de morar ao lado desse Arboretum, que é um espaço ecológico belíssimo e apinhado de cenários super ultra fotografáveis em qualquer estação do ano.

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Estou tentando ajustar algumas horas de caminhadas no meu dia-a-dia, geralmente nos finais de tarde. Só não rola nada nas segundas, pois todos já sabem que neste dia tenho que pegar a cesta orgânica, dividir tudo com a Marianne, lavar e ensacar os legumes e verduras que serão usados durante a semana. Outros dias podem ser diferentes, com pequenas mudanças necessárias. Como naquele dia em que eu corri até supermercado para comprar pão e frutas, porque ando comendo muitas frutas, além da banana diária, e aproveitando a época dos citrus, que eu adoro. Depois tirei a louça limpa da máquina de lavar e guardei tudo nos armários, enquanto os gatos me cercavam na cozinha, o Roux falando comigo daquele jeito dele, dando pulinhos e fazendo uma cara engraçada. Esses gatos me fazem um cerco acirrado no final da tarde, tudo em função dos biscoitinhos crocantinhos que damos pra eles. É tanto dramalhão, miação, olhares pidões, corre pra lá e pra cá me seguindo, que parece que a bicharada está esfomeada, morrendo à mingua. Eu geralmente faço eles esperarem até às 6pm. Dai satisfaço as lombrigas felinas e eles finalmente sossegam e me deixam circular livremente pelo espaço da cozinha. Mas nesse dia diferente eu não fui caminhar nem cozinhei, porque fomos jantar no Ciocolat com nossos amigos. Depois voltamos pra casa, eu subi pra tomar banho e deitar no ritual de encerramento do dia e o Uriel voltou pro trabalho, como ele sempre faz.

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Esse foi uma noite atípica, porque normalmente eu preparo o jantar e se fizer algo diferente, legal ou criativo, fotografo para o blog. Se não, eu apenas ligo pro Uriel, ele chega, jantamos, depois limpamos a cozinha juntos, embora não sobre muita coisa pra limpar já que eu sou uma cozinheira obcecada em ir limpando tudo enquanto cozinha. E encerro o expediente quando eu subo pro quarto com o Roux atrás de mim, dando bote nas minhas pernas e querendo conversar. Meu dia termina na cama, lendo, com a tevê ligada, chorando com a cena de algum filme, me sentindo cansada, cansada, até desabar e Zzzz...

Iniciei um novo dia com o pé direito, depois de uma noite inteirinha de sono ininterrupto, o que é uma preciosidade pra mim. Fechei os olhos às 10pm e só reabri às 6:20am, como se a noite não tivesse existido e acordando de um sonho super ternura, onde eu estava bebendo chá com minha melhor amiga, Michelle [Obama].

uma horta conceitual

Minha vizinhança é quase homogênea em termos de status profissional dos proprietários das trinta casas coloridas que formam o círculo batizado de Aggie Village. A maioria dos meus vizinhos são professores da UC Davis. A real ocupação de um deles—o da casa do nosso lado da calçada, na esquina que desemboca para o Arboretum—foi no inicio uma incógnita. Nós víamos a mulher sair pela manhã, provavelmente para ir trabalhar, mas o marido ficava por lá, cavando uns buracos, arrancando uns matos e carregando umas pedras que ele amontoava aqui e ali. Concluímos pela aparência da coisa que a mulher devia ser professora e que o cara devia estar desempregado e por isso fazia penitência da vida ociosa trabalhando em reformas necessárias na casa. A varanda desses vizinhos estava sempre cheia de cacarecos, cadeiras, vasos, pedras, bicicletas e até uns quadrados de feno. A cerca tinha sido derrubada, deixando à mostra uma paisagem desolada, sem grama, sem flores, só um imenso terreno desnudo.

Não demorou muito para descobrirmos que o nosso vizinho carregador de pedras e fazedor de buracos não estava desempregado, muito pelo contrário. Estava muito bem empregado como professor do departamento de artes da Universidade da Califórnia.

Descobrimos também que a casa dele não estava passando por nenhuma reforma. Ela é na verdade o palco para uma constante e dinâmica instalação de arte conceitual, que eu ainda não pesquei o significado, apesar de ter certeza absoluta de que há um, ou vários.

Com o passar dos anos pude perceber claramente que meu vizinho é obcecado por pedras. Há centenas delas, empilhadas ou espalhadas, ao redor da casa. No último verão ele fez uma pilha em formato triangular debaixo de uma árvore, que me fazia pensar naqueles altares que se vê em estradas, para relembrar as pessoas que foram atropeladas. Mas as instalações com pedras não permanecem, pois logo as pedras somem, são relocadas e reaparecem em outra forma, num outro canto.

Embora tudo na casa do meu vizinho seja interessante, o mais peculiar é realmente o seu trabalho de jardinagem. O quintal não tem cerca, então quando caminho pela calçada ao lado posso ver claramente o imenso poeirão, com estradinhas desenhadas com pedras [claro!] e às vezes uns panos brancos imensos pendurados em arames estendidos e cruzados pelo espaço do terrão. Uma vez vi cadeiras num arranjo íntimo, para logo em seguida presenciar o vizinho com a esposa e um amigo bebendo chá, sentados no meio do jardim árido de terra e pedras. No quintal não tem nenhuma planta. Mas ao redor da casa, numa espécie de barranco, o vizinho planta uma horta. E espande a plantação para uma área comum, que separa a nossa vila do caminho das bicicletas do Arboretum. Ali, num espaço de uns 10 X 200 metros, o vizinho planta flores—california poppies e girassóis—e legumes e verduras—milho, abóbora, pimentões, berinjelas, tomates.

Todo ano o jardim que ele planta, no barranco que circunda a casa e no canteiro separatório, vira um horrível matagal. As plantas crescem alucinadamente e se espalham pela calçada. Muitas vezes no final do verão, já não é possível caminhar por ali e temos que dar uma volta para evitar ter que desbravar a selva. Nunca entendi muito bem o propósito daquilo, até que o Uriel ficou sabendo pelo próprio vizinho, que a horta que ele planta anualmente é comunitária, para qualquer um pegar o que quiser. Pelo jeito ele não divulgou muito bem a mensagem, pois nunca vi ninguém pegando nada. O que acontece todo ano é um grande e escandaloso exercício de desperdício.

Noutro dia emergi no morro, vinda de uma caminhada pelo Arboretum, para uma visão do vizinho numa reinterpretação californiana do guru indiano dos Beatles. Vestido numa túnica longa e calças cor-de-rosa, ostentando óculos escuros, com o cabelo desgrenhado e grisalho preso num rabo de cavalo e a barba branca longuíssima apontando em direção ao sol poente, ele regava caprichosamente o vasto canteiro, que já tinha sido limpo, redecorado com pedras [claro!] e a terra preparada para o plantio. O caso é que só vamos saber o que o vizinho decidiu plantar daqui a alguns meses. Se bem que ele avisou, no dia que contou que a horta era self-service, que também aceita pedidos e plantaria o que você quisesse colher: pepinos, batatas, melancias, beterraba, morangos? Arriscaríamos, pois então, pedindo, quem sabe, se fosse possível ele plantar umas mandiocas, uns chuchus e um pé de maracujá?

back to my sweet home

Carro, avião, avião, trem, carro, ônibus, trem, trem, taxi, carro, trem, taxi, avião, carro, taxi, trem, barco, barco, carro, trem, ônibus, avião, taxi, taxi, avião, avião, carro.

Acho que nunca fiz uma viagem que envolveu tantos meios de transportes diferentes. Desta vez só faltou andar de bonde, de carroça e no lombo do camelo. Pra quem detesta ficar confinada em ambientes fechados, foi um festival de lamúrias. Mas em duas semanas visitamos dois países lindos e conhecemos sete cidades. Adorei a Espanha e preciso voltar à Itália, por onde passeamos meio desorganizadamente. O roteiro na Itália foi na verdade uma excursão pessoal do meu marido, buscando pelo ponto de partida, o local de origem da sua família.

O jet lag me derruba sempre na volta, quando regressamos nas horas. E ainda peguei uma gripe, com certeza dentro de um dos aviões que me carregou de lá pra acolá. Hoje estou na bolha, mas amanhã recomeça a minha rotinazinha, com a adição de que fui convocada para servir como jurada na Superior Court of California do meu condado.

Ainda tenho muitas fotos e histórias da viagem. Mas logo voltaremos à programação normal.

todo ouvidos

Ainda existem pessoas que escutam programas de rádio. Meu marido é um. Ele ouve uma rádio AM enquanto toma o café da manhã e lê o jornal tradicional de papel. Ele escuta um talk show sobre esportes, mas que aborda outros assuntinhos. Como eu tenho um mau humor horrorendo pela manhã, me irrito com aquele falatório. Mas é muito raro um encontro nosso na mesa do café, já que ele tem horários ecléticos e dorme mais tarde e acorda em horas diferentes da minha.

Mas eu também sou ouvinte de rádio. Escuto rádios do ITunes, em casa e no trabalho. E escuto rádio FM no carro. Escuto também a NPR no carro ou pelo website deles. Gosto de ouvir os programas que tem temas com música. As noticias me aborrecem um pouco. Na verdade peguei um certo horror de notícias durante o período de trevas que foi os últimos oito anos, quando escutar notícias me dava um certo desespero. Mas felizmente tudo mudou.

Na terça-feira saí do trabalho e fui ao Co-op, pois em casa faltava leite, pão, suco e frutas. Fui e voltei ouvindo a NPR e quando cheguei em casa liguei a rádio pela internet. Eu queria preparar um rango para o jantar, mas também queria ouvir o discurso do presidente Barack Obama. Fiz as duas coisas. Me senti uma pessoa realmente antiga, ouvindo um evento ser transmitido pelas ondas do rádio. Enquanto escutava os comentaristas, cozinhei um espaguete num panelão com bastante água e sal. Escorri quando a massa ficou al dente. Nisso eu já tinha picado dois dentes de alho bem miudinho e cortado uma boa quantidade de cogumelo shitake em fatias grossas. Refoguei o alho em bastante azeite, juntei sal grosso, pimenta do reino moída, joguei os cogumelos, que fritaram rapidamente. Desliguei o fogo e juntei o espaguete cozido e bastante salsinha picadinha.

O Uriel já tinha avisado que chegaria tarde, pois estava numa função de laboratório com os alunos. Ralei bastante queijo parmesão sobre o macarrão já no prato e jantei sozinha, ouvindo o discurso do presidente pela NPR. Comer sozinha não é nenhuma novidade, mas escutar discurso politico no rádio durante o jantar é um fato realmente inédito—for the times they are a-changin!

tarde molhada com leite quente

Tem chovido muito por aqui nos últimos dias, fato que foi considerado a salvação da lavoura, pois já tinha sido anunciado que estávamos passando por uma das piores secas da história deste estado. Chuva é bom pra agricultura e também pras estações de esqui, que precisam dessa água, que lá cai modificada em forma de neve.

Eu reclamo um pouco quando chove, pois meu meio de locomoção diário é a bicicleta. Fico na expectativa de que não esteja chovendo quando vou pedalar—de manhã cedo, na hora do almoço ida e volta e à tardezinha. Mas nem sempre dou sorte. Se a chuva não estiver muito densa, enfrento os respingos somente com o casacão impermeável e a touca de couro. Mas quando a chuva fica mais pesada, aprendi a segurar o meu guarda-chuvão bem próximo à cabeça e vou pedalando numa esforçada concentração, pois equilibrio não é meu ponto forte. Uma mão segurando o guarda-chuva imenso e a outra o guidão, pedalando devagar e com cuidado, até que vou bem e me safo da chuva sem precisar camelar.

Mas outro dia eu subestimei os respingos, que no meio do caminho se transformaram rapidamente num aguaceiro, e mesmo com o super casacão e o hiper guarda-chuvão, cheguei no trabalho com as duas pernas da calça ensopadas, de pingar. Achei que o dia estava perdido, que teria que tirar a tarde de folga e voltar para casa pra poder me esquentar no chuveiro, depois debaixo das cobertas. Mas ando realmente atolada de coisas pra fazer e não posso me dar ao luxo de perder uma tarde de trabalho só por causa de uma chuva. Justamente naquele dia, sabe-se lá bem porque, resolvi desencavar uma pequena garrafa térmica vermelha do fundo do armário e enche-la de leite quente adoçado com maple syrup, que acabou salvando a minha tarde. Uma das secretárias me emprestou um aquecedor portátil, que me secou em menos de quinze minutos, e enquanto bebia o leite quentinho fiquei me sentindo agasalhada por um cobertor de conforto.

era uma vez um bom japa

Era nosso restaurante japonês favorito aqui em Davis. E como tem restaurante japonês aqui em Davis! Mas esse era caprichado, um lugarzinho pequeno, dois sushi men, um cozinheiro mal humorado, a gerente e as mocinhas garçonetes, todas asiáticas, todas vestidas de cor-de-rosa, todas chamando a gente de 'guys' e fazendo os salamaleques na entrada e na saída. O serviço era meio desorganizado, talvez devido ao mau humor do cozinheiro e à imaturidade das meninas garçonetes, então às vezes a entrada chegava depois do prato principal, mas tudo bem, a gente nem ligava e pedia sempre a mesma coisa—o Uriel um prato com peixe e eu um sushi de camarão com lagosta, mais a sopa de missô, a salada de pepino e o tofu frito, que dividíamos.

Mas num fatídico dia o Uriel resolveu pedir sushi. E vocês não sabem dessa praga carmica, mas coisas estranhas se materializam no prato dele, sempre no dele—pelo de animal, cabelão afro ou loiro, cascas, insetos, objetos alienígenas de todos os tamanhos, cores e aspectos. Dá até raiva. Ele faz aquela cara e você já sabe, ele achou algo. E nesse dia ele fez uma cara torta de quem mastigou algo estranho, daí cuspiu discretamente os mastigados do sushi no cantinho do prato e eu já revirei os olhos pensando lá vem coisa, e era uma pedra. Uma pedra dentro do sushi.

Chamamos a gerente e mostramos a pedra. A reação dela foi o que mais nos surpreendeu, muito mais do que achar a pedra dentro do sushi. Ela disse—ah, desculpa, é uma pedra, é do arroz, desculpa às vezes acontece. se tivessemos visto, teríamos tirado, desculpa mas acontece, às vezes acontece de ter uma pedra no arroz.

ACONTECE? Às vezes ACONTECE?

O nosso japa favorito virou história. Depois de tantos anos frequentando o lugar assíduamente não poderemos voltar mais lá, infelizmente, porque se acontece de ter pedra no arroz, não dá mais pra confiar, né?

Aprende-se, sempre

O que eu realmente gosto no meu cotidiano culinário é saber que há sempre algo novo para se conhecer. Sabores, texturas, ingredientes, maneiras de preparar, misturas, técnicas. Os horizontes estão abertos à novas tendências, experimentos e criatividade. Posso confirmar que estou sempre aprendendo e acho isso tri-bacana, pois a culinária não é nem nunca vai ser uma caixa fechada, com tradicionalismos inalteraveis, idéias impassíveis, verdades fixas e absolutas.

Por isso ainda não perdi totalmente o entusiasmo com as minhas desventuras na cozinha e adoro quando tenho algo novo para colocar em prática. E a novidade desta semana foi o caldo com a fibra e sementes da abóbora, que aprendi com a mestra Deborah Madison. Ela ensina a usar o interior da abóbora, aquela parte fibrosa, e as sementes—que eu sinceramente não tenho a menor paciência de torrar e aproveitar.

Abri uma abóbora red kuri ao meio, as fibras e sementes foram para uma panela, junto com algumas folhas de verdura verde, uns dentes de allho, pimenta preta e juniper e bastante água. Virou um caldo, que depois de ferver, ferver, foi coado e usado numa sopinha singela com macarrãozinho orzo.

E a abóbora foi pro forno cortada em cubinhos e depois de assada foi temperada com suco de limão, sal rosa do Himalaia, bastante azeite prensado com limão e salpicada com folhinhas frescas e aromáticas de manjericão, que estão crescendo na estufa da fazenda e foi nosso treat na cesta orgânica da semana. Essa foi a melhor salada de abóbora que já comi em muitos ano. Foi servida morna no jantar e o restinho que sobrou foi o meu almoço frio no dia seguinte.

dia feijão com arroz

Não quero de jeito nenhum ficar só reclamando das segundas-feiras, porque não é justo. Mas que nesses dias eu me sinto mais desgastada, isso é verdade. Faz tempo que o Uriel vem sugerindo que eu arrume uma pessoa pra dividir a cesta orgânica, mas eu sempre respondo exaltada—mas QUEM?QUEM?QUEM? Não tenho muita paciência de sair por aí perguntando e buscando por alguém. Mas uma cesta inteira por semana para uma família de dois está se tornando um estresse. Neste momento, além das abundantes folhas verdes, muitas cenouras tomaram conta das gavetas da geladeira. E eu vivendo essa fase desânimo.

Como ainda estamos em janeiro, muitas resoluções de ano novo ainda estão na roda, sendo planejadas, administradas e colocadas em prática. Portanto, quase que meio sem querer, arrumei uma partner para dividir comigo a opulenta cesta de verduras e legumes. A Marianne chegou logo depois das cinco e meia da tarde daquela segundona, empunhando uma sacolinha de pano. Discutimos sobre algumas idéias, eu fiquei feliz pois ela aceitou levar um maço de chard e metade do brócoli romanesco, que pra mim não é apenas um legume esdrúxulo de outro planeta, mas um troço realmente dos infernos, que não sei como fazer e não gosto de comer.

—leva essas cenouras coloridas... elas são bem doces...
—okay.
—e o brócoli?
—sim, posso levar tudo.
—e esse lindo legume fractual [o monstro romanesco]?
—tem gosto do quê?
— uma mistura de brócolis com couve-flor.
—detesto couve-flor.
—okay, mas o sabor mais evidente é de brócolis.
—okay.
—e aquele repolho gigante?
—odeio repolho!
—okay.

Ficamos um tempo conversando sobre receitas, ela tentando me dar idéias de como detonar o repolhão, levou bastante coisa e combinamos de fazer um teste. Ela decidiu que precisa se alimentar melhor, embora não tenha muita paciência com cozinha. E eu preciso desesperadamente dar vazão para a imensa quantidade de legumes e verduras superdesenvolvidas que recebo toda semana. It's a done deal.

Feliz da vida, lavei apenas metade das verduras e legumes que costumo lavar sempre. Será que esse nosso acordo vai vingar? Tomara! E mesmo sendo uma segunda-feira, precisei pensar no que fazer pro jantar. O feijão já estava cozido, só precisei temperar. Fiz um arroz vapt-vupt. Refoguei folhas de chard no azeite e depois espremi um limão por cima e salpiquei com flor de sal. Esse foi o nosso jantar, que o Gabriel também acabou levando pra casa dele—arroz, feijão e verdura, cuidadosamente ajeitados numa marmitinha de vidro.

peixe era

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Foi o Gabriel quem arrumou a mesa deste modo minimalista para o jantar no sábado. Não sei quem fotografou. Achei as fotos na câmera. O menu foi bacalhau fresco assado em pacotinhos individuais.

sai dessa cozinha que não te pertence!

No inicio parecia que aquele cheiro chato e insistente na cozinha era resquício da fritura dos filés de frango. Mas depois de fumegar por horas um panelão cheio de cascas de laranja, cascas de mexerica, paus de canela, cravos e estrelas de anis, achando que tivesse dado cabo da fedentina, percebi que nada tinha mudado. Veio o pessoal da limpeza e mesmo podendo sentir um cheirinho deliciosamente bom pela casa, na cozinha eu ainda podia identificar claramente, camuflado sobre a nuvem de desinfetante de lavanda, aquele cheiro horrível de sei lá o que.

E todos os dias, quando eu descia as escadas em direção à cozinha e cheirava aquele cheiro, me angustiava pensando em como foi que eu tinha conseguido deixar minha cozinha assim tão fedorenta. E procurei por eventuais restos de cebola caidos acidentalmente em algum canto obscuro, ou um pé de couve por ventura podre dentro da geladeira, ou outra coisa qualquer fora de lugar. Como não achava nada, fui ficando frustrada, frustrada, frustrada....

Até que caiu a ficha e resolvi cheirar a travessa de alho que mantenho sempre em cima da pia, ao lado da geladeira. Na mesma semana que eu fiz o frango frito, chegou um alhão roxo gigante na cesta orgânica. O culpado só poderia ser o alho, veterano de outros delitos olfativos e atentados contra os odores de boa índole. Funguei, funguei e como não pude ter certeza, decidi fazer um teste. Removi a travessa de alho para a lavanderia. E o cheiro estranho na cozinha SUMIU completamente. Ou melhor, mudou de lugar. Fedia agora o outro espaço.

O responsável pelo futum misterioso era mesmo o alhão roxo e orgânico, minha gente. Agora entendi muito bem porque alho espanta até vampiro!

o último suspiro [do atum]

Ando cansada de dizer que ando cansada, mas realmente o que eu tenho sentido não é bem um cansaço, mas uma exaustão. E tem dias que ela ataca forte, me deixando mal humorada e sem muita destreza física e mental. Depois das festas, meu maior objetivo é conseguir limpar e esvaziar a geladeira de ingredientes que sobraram das grandes comilanças. Como tive visitas durante e depois das comemorações, precisei dobrar a quantidade de ingredientes e sempre sobra um pouco aqui, outro ali.

Durante um desses meus ataques de exaustão, resolvi fazer aquela mais do que batida e super flexível e variável salada niçoice. Usei floretes de brocolis cozidos no vapor e palitinhos de cenouras coloridas, que fez os olhinhos da minha sobrinha brilharem. Cobri tudo com aquela maionese de alho que faço com gema cozida, e dessa vez usei as raspas e suco do limão cravo, que é o meu favorito e que colho na árvore de ninguém. Cozinhei uns ovos e abri duas latas de um atum italiano conservado no azeite, que temperei com salsinha picada e reguei com o mais fabuloso azeite prensado com limas da Pérsia. Esse foi o nosso jantar, acompanhado de pão de azeitonas, amêndoas frescas, vinho tinto e água com gás.

Revelou-se que duas latas de atum para quatro pessoas foi um exagero. Guardei as sobras na geladeira, esperando pela primeira oportunidade para poder gasta-la. E ela apareceu numa outra noite, em que atacada novamente pela exaustão, abri e fechei as portas da geladeira e da despensa 8754 vezes sem conseguir pensar em absolutamente nada fazível ou comível para aquele jantar. Resolvi finalmente por um macarrão, que cozinhei num potão de água com sal. Piquei um punhado de tomates secos, outro punhado de azeitonas pretas, três talos de cebolinha e separei a sobra do atum. Quando o macarrão ficou cozido al dente, escorri, voltei tudo pra panela e acrescentei os outros ingredientes, regando tudo com uma boa quantidade de azeite extra virgem. Daí foi só ralar um bocado de queijo em cima e devorar, com um ânimo que só a fome consegue dar à uma criatura tão cansada como eu tenho estado.

mãozinhas extras [na cozinha]

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Que delicia que foi ter a Patricia e a Livia me ajudando com a cesta orgânica nesta segunda-feira! A Pat lavou, secou e ensacou TODAS as folhas verdes, com a ajuda da Livia, que também descascou umas cenouras fresquinhas pra gente depois cortar em palitinhos e comer com um molho rancho improvisado, que ficou ótimo. Se eu pudesse ter mais mãozinhas assim na lavação toda semana. Fazer o jantar nesse dia foi uma tranquilidade...

almoçinho rápido

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sopa de batata
empanada de frango
suco de cenoura

na onda verde

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Eu e a Leila fomos bater pernas nos shoppings finos da bossa de Roseville e paramos no supermercado Whole Foods para um ranguinho rápido. Esse é o supermercado verde que foi criticado pelo Michael Pollan no O Dilema do Onívoro, por corromper a filosofia dos orgânicos, dobrando-se aos moldes das grandes corporações. Eu não faço compras no Whole Food, pois o mais próximo de mim ainda fica muito longe. Sem falar que tenho a sorte de ter o melhor Co-op do planeta a poucos blocos da minha casa, além do Nugget, um supermercado local bacanérrimo de propriedade de uma família de Woodland. Não sinto nenhuma falta de ter um Whole Foods por perto, mas tenho que admitir que a estrutura deles é bem bacana. Para o nosso almoço nos servimos das comidas dos buffets, que você escolhe dentro uma variedade quase infinita de estilos. Fiquei um pouco confusa na hora de escolher, pois escolher não é uma atividade que eu faço com leveza e precisão. Mas no meio da muvuca que estava a área de comida pronta daquele supermercado, tentamos decidir entre sanduíches feitos na hora, fatias de pizza saidas do forno, pães, queijos, saladas de todos os tipos com inúmeros molhos e toppings, comida indiana, mexicana, soul e comfort food, rangos tipicos de thanksgiving, cozinha libanesa, chinesa, japonesa, italiana, tailandesa, muitos tipos de sopas, eteceterá. Escolhi falafel com humus picante e mini pita breads com uma salada de pepino. A Leila comeu um rango indiano. Ainda tivemos que nos concentrar noutro esforço de decisão para escolher uma bebida, entre milhares de opções interessantes.

O Co-op e o Nugget de Davis também oferecem tudo isso, apenas numa escala menor. Eu adoro o olive bar do Co-op e no Nugget piro o cabeção com os pães da padaria deles e os queijos maravilhosos que eles oferecem. Todos esses supermercados têm outro detalhe em comum, além de servir comida pronta numa variedade incrível e com opcões para todos os gostos, culturas e dietas. Eles são supermercados verdes, as embalagens e pratos são feitos com papel reciclado e recicláveis, e há a opção de usar seu próprio container ou vasilhas de cerâmica, eles não oferecem copos de plástico e os talheres são biodegradáveis. Todos surfando macio na onda verde, que é sem dúvida uma onda muito auspiciosa.

o cheiro dos brownies

Fui fazer xixi e me deparei com uma comoção de crianças descabeladas e gritonas comandadas por um adulto, que parecia ser a professora tentando com todas as suas palavras disciplinadoras manter a ordem. Entrei no banheiro e de lá ouvia o burburinho no corredor do prédio, que abriga vários departamentos de biologia e ciências das plantas invasivas e até o de agricultura sustentável. O evento fanfarrento era um vernissage, um opening da exposição que eu vejo todo ano, com obras de arte feitas com lápis de cor. As crianças desenham uma certa planta—não tive a chance de chegar perto pra ver qual. A professora enquadra desenho por desenho, pendura todos na parede e promove um evento. Pelo que eu entendi, eles iriam dali visitar um laboratório no segundo andar. E ouvi a professora gritando—no eating at all in the lab, no brownies, no brownies in the lab! Quando saí do banheiro, empurrando a porta com cuidado e movimentando alguns pais que estavam ali encostados com câmeras penduradas no pescoço, vi uma mesa longa repleta de pratinhos com diversos tipos de gostosuras. E a criançada na maior excitação, mastigando e engolindo rapidamente o que quer que fosse e correndo em direção às escadas na expectativa do que as esperava no tal laboratório. O alvoroço era grande e não consegui ver exatamente o que eles estavam comendo, mas percebi pelo cheiro adocicado que infestava o ar do corredor que a gostosura mais popular era brownies de chocolate.

*uma receita ótima de brownie é esta do meu amigo Lau, que colaborou brevemente aqui no Chucrute anos atrás com algumas receitas infalíveis!

esse vai-e-vem que nunca enjoa

Todo ano eu faço uma caminhada pelo Arboretum para fotografar a beleza do outono. Todo ano eu publico essas fotos do outono nos meus blogs. Quem me acompanha há um certo tempo já notou, e eu fico pensando em dúvida se alguém ainda quer ver fotos de folhas? Folhas de outono de novo? Mas não parece que foi ontem que publiquei fotos idênticas? Será o benedito que todo ano vou fazer sempre igual?

Com toda sinceridade, me agrada muito esses ciclos que regulam as nossas vidas, mesmo que isso signifique que vou escrever sobre os mesmos assuntos e registrar as mesmas imagens, entra ano, sai ano. Quantas fotos de tomates, flores, pêssegos, abóboras e folhas de outono já publiquei nesses últimos anos? Quantos verões, quantos outonos, invernos e primaveras? Algumas viagens, novos amigos, mudanças de hábitos ou de rotina. Felizmente está tudo documentado, para se lembrar e relembrar. Como se estivessemos folheando um álbum de fotos de família, com as mesmas caras habituais, um pouco mais velhas, com cortes de cabelo e roupas diferentes, alguns acréscimos, outras subtrações, mas todos sempre presentes nas mesmas celebrações, os aniversários, as viagens de férias, os natais.

Por aqui todo ano começa a esfriar e as folhas das árvores ficam amarelas, vermelhas, douradas e caem, coloco meias nos pés, acendemos a lareira, um gato quase queima os bigodes, alguém assa um peru que dividimos com a família no dia de agradecer, ficamos com dor no lombo varrendo e empilhando folhas no quintal, começa a chover, tiro fotos dos enfeites de Natal que ajeito pela casa de véspera, publico um cartão e desejo tudo de bom para todos, depois de tantas celebrações fico aliviada quando o ano se inicia, como nove sementes de romã, reclamo que não pára de chover, reciclo, recrio, me animo com a chegada da primavera, encho o saco da humanidade com as minhas fotos de flores e, principalmente, das rosas. O jasmim abre e o cheiro das suas flores perfumadas impregna o ar, capino a horta, planto tomates, as pestes chegam devagarzinho. O Gabe faz aniversário, faço o meu próprio breakfast no dia das mães, reclamo que está ficando muito quente, ando descalça, arranco mais mato da horta, detono algumas pestes e colho tomates, o Uriel viaja, viaja, viaja e eu reclamo mais um pouco de estar sozinha e do calor, as aulas e o ano recomeçam na UC Davis, eu aguardo ansiosamente uma brisa de outono, faço compras, combino uma social com os amigos, vou dançar o Blues, reflito sobre o envelhecimento quando meu aniversário aponta na esquina, comemoro mais um ano de vida, e mais um ano de blogagens, compro doces pras crianças, começa a esfriar, troco as roupas leves pelas quentes no armário, coloco meias nos pés, fecho as janelas, vejo as folhas amarelas entupindo as calhas da casa, lembro que preciso ir fotografar o outono no Arboretum, vou caminhar e encontro os limões cravo, publico as fotos das folhas, mais uma vez, mais um ano, mais um outono.

multitasking
[i'm only human]

Cheguei em casa com o pacote do Adobe Creative Suite e queria pular da tarefa de fazer o jantar e ir direto para a tarefa de fazer a instalação dos programas no meu computador. menos_bagunca_4S.jpg Eu me dei de presente de aniversário um iMac novo, já que o velho estava quase aposentado e fazia uns três anos que eu praticamente só usava o laptop. Mas o computador novo veio praticamente pelado de programas úteis e os que eu tenho em versões mais antigas não rodam bem no sistema novo. Então aproveitei o meu desconto educacional e comprei na livraria da universidade esse pacotão por um preço bem razoável.

Mas jantar era preciso, então me apressei. No interim chegou revistas, DVD e livros, tinha uns tapetes de molho na máquina de lavar, umas toalhas de banho e lençóis esperando um segundo ciclo na máquina de secar e tive que enfrentar a desorganização básica de sempre na cozinha. Mas dessa vez me surpreendi, pois nunca estive tão afinada numa coreografia de fazer o jantar coordenado com outras atividades domésticas. Fiz uma sopa de lentilha vermelha, que era a que eu tinha na despensa.

Numa panela refoguei alho picadinho num fio de azeite. Adicionei a lentilha lavada e maçãzinhas lady cortadas em pequenos cubinhos. Refoguei, refoguei, juntei água suficiente para cobrir tudo, cozinhei, cozinhei até a lentilha quase derreter. Usei o mixer de mão para transformar tudo num creme espesso, adicionei sal a gosto e umas pitadas bem cautelosas de curry. Deixei ferver e desliguei o fogo.

Corri abrir dois peitos de frango caipira com a faca, deixando-os bem largos e finos. Fiz a mesma receita do frango recheado com espinafre e queijo brie, só que dessa vez usei folhas frescas de espinafre. Coloquei os dois peitos recheados para assar em forno médio e subi correndo para fazer o que tinha que fazer no meu novo iMac.

Demorou a beça pra instalar o Suite e durante a espera tive tempo de arrumar o meu semi-abandonado e hiper-bagunçado escritório, que agora está frequentável novamente.

Foi uma noite proveitosa. A sopa ficou uma delicia, o frango ficou super saboroso e macio, os programas foram instalados com sucesso, e ainda consegui dobrar e guardar as toalhas e lençóis lavados, folhear os livros novos e terminar de ver um filme!

dias de ventania
[descabelante]

Perdi hora pela manhã, o alarme não tocou. Isso acontece raramente, mas quando acontece desestrutura todo o meu dia. Acordar devagar, abrir os olhos com calma, espreguiçar, pensar na morte da bezerra antes de colocar os pés no chão, me desejar um bom dia, tudo isso faz parte da minha rotina matinal, que foi interrompida porque o alarme não tocou ou tocou e eu não ouvi. Me virei ainda semi-imersa num sonho para olhar o relógio e os números que vi me fizeram pular da cama num sobressalto assustado—sete e cinco!

Felizmente deu pra beber minha xícara de café, remoendo a perda dos preciosos minutos. Cara amarrada. Já saindo para a fazenda ele me perguntou—dormiu bem? A resposta era sim, dormi, mas não pude dizer que sim, já que estava amargurada pelo atraso. Mais ou menos, foi a minha resposta mal humorada.

O menu do jantar foi sopa de lentilha verde com alho e ervas. Colocar a receita aqui é chover no molhado, mas eu queria registrar. Começou a ventar horrivelmente. Uma pessoa que conheço, nascida em Upstate New York, sempre bradava num tom apocalíptico que na Califórnia quando chovia, chovia, chovia, chovia, e quando ventava, ventava, ventava, ventava. Eu nunca entendi muito bem essa reclamação exacerbada, mas é verdade que quando venta, realmente venta e venta enlouquecidamente e descabelantemente por vários dias.

Dormi com o barulho dos galhos da árvore chicoteando o telhado da casa. O cachorro do vizinho latia sem parar, chorando. Vento, vento, vento, vento. A manhã chegou gelada e eu perdi hora, perdida no sonho, sonhando com algo que nem mais lembro.

vinte e quatro horas

Jantei um cachorro-quente e meio, algumas batatas chips naturebas e meia taça de um Sauvignon Blanc neozelandês. Li feliz a cartinha da Jean e o e-mail do Moa, arrumei a cozinha, coloquei meus keds fedorentos de molho na máquina de lavar, coloquei a roupa lavada para secar. Subi, liguei a tevê e chorei muito vendo o filme da Lassie enquanto dobrava roupas de cama lavadas. Tomei banho, terminei de ver Mata Hari com a Greta Garbo, revi Meet John Doe do Frank Capra pela enésima vez enquanto comprava meu novo IMac na loja da Apple da UC Davis. Comecei a ler Simca’s Cuisine, o Uriel ligou e disse que terminaram os testes na fazenda. Tomei remédio para dor de cabeça, comecei a ver Shall We Dance e enquanto Fred Astaire sapateava e cantava sorrindo, virei de costas e dormi.

Acordei, tomei café com leite com bolo de milho, li feliz muitos e-mails, tomei banho, vesti uma blusa que eu adoro e uma saia longa jeans que me dá sorte, arrumei a lancheira e fui pedalando devagar com medo da saia enroscar na corrente da bike. Cheguei no trabalho, disse bom-dia para a jornalista, meu chefe veio conversar comigo e falamos sobre envelhecer e sobre politica. Li feliz mais e-mails, trabalhei, bebi água, ouvi música, comi sementes de romã, fui ao banheiro com o celular no bolso da saia. Trabalhei mais um pouco, meus pais ligaram no celular, falamos sobre envelhecer e sobre politica. Trabalhei ainda mais um pouco, deixei o computador ligado para a técnica instalar o Panther e fui pra casa pedalando devagar com medo da saia enroscar na corrente da bike. Liguei pro Mustard Seed e fiz reserva para uma party of four, fui a pé até o Fuzio onde pedi um sanduíche com salada sem molho para levar para casa, enquanto esperei olhei as roupas na loja da GAP ao lado. Voltei pra casa, o Gabriel ligou. Não gostei muito do sanduíche, mas comi toda a salada. Fiz cortes em cruz e coloquei as castanhas portuguesas para cozinhar numa panela com água, fiz uma receita da panna cotta clássica da Alice Waters. Arrumei a cozinha, subi para ler e ver filmes. Vi dois filmes da década de 30 com a Anne Harding. Tomei comprimidos pra dor de cabeça. Li feliz mais um tanto de e-mails e comi castanhas. O Misty veio me fazer companhia. Minha amiga ligou. Meu irmão ligou, dai desligou e religou no Skype. Minha irmã ligou e ficamos, eu, meu irmão no Skype e minha irmã no telefone. Meu irmão quase dormiu de tédio com o nosso papo. Me despedi, tomei banho, coloquei meu colar super funky, liguei pro Uriel e ouvi o telefone tocando na cozinha—ele já estava em casa. Ele tomou banho. O Gabriel e a Marianne chegaram, fomos à pé ao Mustard Seed. Bebemos vinho, água com gás e suco de uva Pinot Noir. Eu e o Gabriel comemos um hallibut com crosta de macadâmia, o Uriel pediu steak e a Marianne comeu pato. Pedimos entradas, mas não pedimos sobremesa. Comemos e conversamos muito. Voltamos para casa, onde devoramos as panna cottas, conversamos mais um tanto, nos despedimos. Subi, desliguei o laptop que estava em cima da cama, tomei outro banho, liguei a tevê, deitei, começou a passar King Kong de 1933 com a Fay Wray, um clássico que já vi muitas vezes. Pisquei, pisquei, virei de costas e dormi.

o hóspede & o peixe

Aquele ditado popular um bocado rude que diz que "visita é como peixe: depois de três dias começa a feder", sempre me intrigou, porque nunca tive a experiência de um peixe ou de um hóspede chegando nesses termos. Pois no sábado passado, mesmo estando sozinha, fiz o favor de comprar dois filezões de peixe no peixeiro do Farmers Market. Como naquele dia eu já tinha um almoço engatilhado, coloquei os filés num canto da geladeira e me comprometi mentalmente a prepará-los no domingo. Separei até uma receita. Mas no domingo fiquei pra lá e pra cá por causa da torta de figos e não o fiz peixe nenhum. Aliás, nem lembro o que comi no domingo. Dificuldade com a memória está se tornando um problema. Segunda chegou e com ela chegou também o Uriel. Depois veio a terça quando corri comprar uns bifões no Co-op que fiz de maneira simples na churrasqueira. A definição do jantar da quarta-feira permanecia em estado nebuloso, envolvida na escuridão da falta de idéias, quando fui ler o post da Neide sobre a moqueca caiçara feita com postas pequenas de peixe e temperada com ervas. PEIXE?? PEIXE!! Pois então lembrei que os filés de peixe do sábado ainda estavam no cantinho da geladeira. Não deu outra, foi tudo pro lixo. Chicotadas imaginárias na alma! Felizmente nunca tive o desprazer de sentir o fedor provocado por um hóspede, mas agora sei que o do peixe é deveras incômodo. O menu do jantar foi polenta.

jantamos bem tarde

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Foi realmente bom ter novamente companhia para o jantar, depois de tantos dias sozinha. Voltar foi uma maratona pra ele, que ficou praticamente dois dias em trânsito, contando com o as dificuldades normais de voar nos dias de hoje, e ainda fazer isso num final de semana, completando com a passagem de um furacão e terminando com essa lonjura onde vivemos. Mas finalmente ele colocou as malas no corredor e fomos jantar juntos no quintal, num entardecer agradável de final de verão. Ficamos conversando, comendo sobremesa e olhando fotos até a noite escura chegar e o frio nos empurrar pra dentro de casa. No menu do jantar uma substanciosa sopa de lentilhas [espanholas, por pura coincidência], salada de tomates cereja com majericão fresco, azeitonas verdes temperadas com um molho picante de laranja vermelha e torradinhas de pão francês que comemos com manteiga. Pra beber, água.

sopa de lentilhas com abóbora

Numa panela, refogue tiras de um bom bacon* cortadas em cubinhos [*eu uso os produtos de super qualidade do Niman Ranch, onde os animais são criados e abatidos com humanidade] Quando o bacon estiver fritinho, junte dois dentes de alho picados e refogue por uns minutos. Junte a lentilha lavada e escorrida. Eu usei a variedade Spanish Pardina, que cozinha rapidinho, ótima para fazer sopa. Refogue a lentilha um minutinho e junte cubinhos de abóbora assados. Eu asso a abóbora com antecedência e guardo na geladeira. Junte um litro de caldo de legumes, baixe o fogo e com a panela semi-tampada, cozinhe até a lentilha ficar molinha. Adicione sal e pimenta do reino moída a gosto, junte um punhado de orégano fresco ou outra ervinha fresca disponível e sirva.

the olive trip

Ainda estava no trabalho quando recebi um telefonema do meu marido, que tinha acabado de jantar um bacalhau com batatas em Évora. Hoje ele já deve ter saido bem cedinho em direção à Sevilha, onde vai encontrar um professor espanhol que trabalhou com ele aqui em Davis e que vai levá-lo para um tour das oliveiras. Depois eles vão para Córdoba, para mais encontros e mais eventos com azeitonas. Em seguida ele volta para Évora, onde professores de vários cantos do mundo estarão atendendo uma conferência sobre colheita de azeitonas e participando de um teste de campo com uma máquina argentina que está inovando. Ele me pergunta o que eu quero que ele me traga de lá. Azeite, é a minha resposta ligeira. E se der, azeitonas também, é claro!

e vai se empilhando

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Mais ou menos quatro vezes por ano me dá o ziriguidum da arrumação e eu tento organizar papeladas, armários, gavetas. Desta vez não foi a movimentação sazonal, mas sim uma necessidade derivada do acúmulo exagerado de utilitários de cozinha. Meus armários já não dão mais. Fiz uma avaliação do espaço e concluí que a única e última solução seria rearranjar tudo e adicionar umas prateleiras extras. Mas como ainda não fiz esse reajuste e devidas instalações, um remendo se fazia extremamente necessário e mais que urgente!

Isso se deu quando percebi que tinha até esquecido que louças eu tinha lá no fundo dos armários por falta de visão e acesso. Se você não vê ou não consegue acessar, não pode usar. Estava tudo muito amontoado e desorganizado. Não que tenha ficado perfeito, mas pelo menos agora consigo ver melhor as milhares de tralhas que tenho. E fiz uma boa limpa, separando muita coisa para doação e outras para reciclagem. Reorganizei todos os armários da casa que guardam coisas de cozinha. É uma infinidade de prato, pratão, pratinho, pote, potão, potinho, jarra, vasilha, copo, xícara, pires, cumbuca, bandeja, panela, panelão, panelinha, frigideira, refratário, travessa, chaleira, sopeira, talheres, taça, forma, saladeira, assadeira, coisas, coisonas e coisinhas que não acabam mais.

anoitecer de verão

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Lendo o jornal e jogando conversa fora...

um dia em fotos

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Lembro que naquele dia eu acordei com a macaca e com mil idéias na cabeça. Com a câmera fotográfica já preparada, rolos de filmes extras, fui avisando—Gabriel, vamos registrar o seu dia em fotos! E ele, como o menino mais lindo do mundo que ele sempre foi, topou. Quem tem um avô que te fotografa em todas as poses possíveis e uma mãe engraçadona que te pega no flagra quando VOCÊ ESTÄ MEDITANDO NO DÁBLIUCÊ, não estranha quando recebe a proposta de ser modelo da própria vida. Então fomos lá, eu passei o dia atrás dele, clicando. Só não tirei fotos dele tomando banho, porque ele não quis e tive que respeitar. Mas começamos com o acordar, que obviamente na foto está todo encenado, já que a janela está escancarada, o quarto cheio de luz, ele está de óculos e com a boca suja de leite com chocolate, que era o que ele sempre bebia no café da manhã. Depois continuamos com ele estudando, ou melhor, fazendo as tarefas da escola, depois almoçando a comidinha natureba com aquela cara de alegria que ele sempre fazia em frente ao prato cheio de arroz integral e agrião refogado, depois escovando os dentes na frente do espelho—que ficou uma foto criativa, admito. Fizemos o set do cotidiano, que depois eu colei em sequência num pequeno álbum, para guardar para todo o sempre, afinal a gente esquece detalhes com o tempo, e naquele tempo não havia blog nem foto digital, era tudo muito mais dependente da sua memória, boa ou ruim, natural ou ginkobilobada.

fatos da foto:
Estava friozinho, pois ele estava dormindo com o acolchoado de lã de carneiro da minha infância. Minha mãe mandou fazer um pra cada filho, os dos meninos azul, os das meninas vermelho. O Gabriel herdou o meu.

Tinhamos voltado da Bahia fazia pouco tempo, pois o Gabriel está com as fitinhas do Bonfim no pulso e atrás da cama dá pra ver um pedaço do berimbau que ele veio carregando paulistamente no avião.

Filho de peixe. Ele dormia de camiseta, como o pai e a mãe. Somos uma família que nunca teve pijamas. E ele fazia o que eu faço até hoje, dormia com o cabelo molhado e com uma toalha no travesseiro e depois acordava com aquela cabeleira do zezé, com tufos super ondulantes só de um lado da cabeça.

prove aqui o novo sabor

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Não sei como é no resto do mundo, mas aqui os distribuídores de amostra de comida e bebida estão por todos os cantos. Acho que deve fazer parte da cultura essa satisfação de poder provar, sem precisar pagar, antes de decidir se vai ou não comprar. E eu acho isso ótimo, muito justo, nada mais prático, afinal não tem nada pior do que se decepcionar com aquele produto pelo qual você pagou uma baba. Mas eu nunca me senti à vontade com esse hábito. Vou ao Farmers Market e tem amostra de tudo, das frutas, dos pães, dos queijos, do azeite. E alguns até oferecem seus produtos de uma maneira um pouco agressiva, como na barraca de bolanis onde os moçoilos bonitos e simpáticos do Afeganistão usam aquelas manjadas técnicas machistas para conquistar as clientes do sexo feminino. E em qualquer supermercado estão lá as senhorazinhas sorridentes, e até as não muito sorridentes, te oferecendo pedaços de linguica frita, bolachinhas com patê, quiches e tortas, cremes, queijos, sorvetes, sucos, leites, refrigerantes, gororobas variadas, numa lista interminável de produtos novos ou já conhecidos, tentando te convencer a comprar, ali mesmo ou num futuro bem próximo.

Eu vejo a aglomeração de pessoas e carrinhos e passo reto, às vezes dou até uma desviada. Obrigada, não quero. Não consegui ainda adquirir esse hábito de pegar pedacinhos disso ou daquilo em publico e comer equilibrando o copinho e o garfinho ao mesmo tempo que empurro o carrinho de compras. Não gosto de comer assim, andando, beliscando, comida oferecida com o único propósito de te convencer a comprar o produto.

Alguns eventos servem comida e bebida de graça. Eu curto beber uma taça de vinho ou mesmo provar algo comestível, desde que não tenha que enfrentar uma muvuca, me acotovelar pra pegar um pedaço de queijo, driblar a malta para agarrar uma lasca de pão e depois passar o resto do tempo preocupada se não fiquei uma semente de gergelim no meio dos dentes, ou com aquela sensação de dedos engordurados sem opção de poder lavá-los.

Além dos entusiasmadinhos e famintos de sempre, quem realmente curte esses eventos distribuidores de comida são as crianças. No Copia, a voluntária dando amostras de um sorvete sabor morango fazia um sucesso incrível com a gurizada. Sem nem um segundo sequer de descanso, ela só conseguia suspirar, respirar fundo e continuar firme. No copinho ou na casquinha? Na casquinha, of course!

litros, litros e mais litros

Acho que nunca bebi tanta água na minha vida, nem nos meus tempos de nadadora assídua. Com esse calor seco, reidratar é imprescindível e eu acordo e durmo bebendo água. Durante minhas horas de labuta isso irrita um pouco, pois provoca mais idas ao wanderley. Hoje, além dos quarenta e um graus celsius, está um fumacê horrível provocado pelos incêndios que, como todos já devem ter visto nos noticiários, estão castigando o norte da Califórnia. Nós estamos sentindo a calamidade pela névoa amarela e ardida que envolveu o nosso céu. É um cheiro tão forte de madeira queimada, que me faz ter vontade de chorar.

Ontem, jantando sozinha na mesa da sala, olhei para o quintal e vi através da porta de vidro a criaturinha delicada ali perto dos arbustos de lavanda. As perninhas finas, como as do Pernalonga, as orelhonas pontudas esticadas, os olhinhos meigos e o focinho mexendo pra lá e pra cá. O gato Roux já começou a bufar com a visão da lebrezinha, que permaneceu impávida, sem perceber que uma humana e um felino a observavam com diferentes intenções. O Roux mudou até de posição, depois de janela, para poder ver melhor. Eu parei de comer, parei de ler a revista que estava me acompanhando na saladinha de pepino com queijo feta e fiquei olhando com uma cara de parva sorridente apatetada até a lebrezinha dar um pulinho e desaparecer da minha vista tão rápidamente que nem vi pra onde.

Com esse calor miserável, senti muita pena da lebre pernalonga e orelhuda lá fora. Parei tudo que estava fazendo e fui até o quintal onde arrumei uma vasilha bem no meio do piso de tijolinhos e enchi de água fresca. O bichinho vai desidratar, ele precisa de água!

Mais tarde, contando o episódio pro Uriel, ele me disse que esses animais se viram muito bem e que chupam a água dos matinhos e plantinhas. De sede eles não morrem. Especialmente naquela selva que é o meu quintal.

uma bolsa para a bolsa

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Cria-se o hábito. No carro eu mantenho uma cesta redonda grande, duas sacolas de pano, duas de lona plastificada e uma térmica. Não tem mais erro, nunca esqueço de levá-las comigo quando vou às compras. Sacoletas de plástico NO MORE! Mas o negócio era a comprinha informal, que não era aquela compra de supermercado, quando se dá apenas uma passadinha na farmácia ou de repente se vê algo legal e decide comprar. Lá vem a sacolonstra. Mas um dia, no passado, eu fui até a bookstore da UC Davis ver uns earphone novos para usar no meu computador durante o trabalho e vi essas sacoletas. Comprei várias para dar de presente e guardei uma pra mim. Ela é perfeita para se carregar na bolsa e para ser sacada nos momentos cruciais—eu não preciso de nenhuma sacola, pois tenho a minha própria. Tcharannn! Alegria, alegria! Ela é bem pequena, cabe na palma da mão e quando aberta fica enorme, carrega muita coisa. Além de ser feita de um material resistente e lavável, ainda é lindona. A Andrea do bacanérrimo blog Superziper tem uma igual e a mesma opinião que a minha.

if you believed they put a man on the moon

Foi um dia de temperatura amena que até nos permitiu um almoço na mesa do quintal. O rango não ficou uma maravilha, mas deu pra comer. Quase deixei torrar a sobremesa e exclamei irritada que devo estar com uma praga rogada, porque não é possível o tanto que eu me atrapalho.

Notícias fresquinhas e felizes do Brasil. A horta está bonita, com alguns tomates verdes pendurados nos pés. O manjericão está radiante. Estou de olhão nos pêssegos e nectarinas. Preciso investir muito tempo e trabalho no meu quintal. Farei.

Fizemos muitas coisas em casa. Tive um papo longo e interessante pelo telefone. Pizza de queijo. Já estava anoitecendo quando fomos dar comida, água e atenção para o Tim e o Sequel, os gatos do Gabriel e da Marianne. Eles não são como os nossos gatos, que se aprochegam de qualquer um e que até incomodam, como o Roux que sobe em cima mesmo das pessoas que não gostam dele. Os gatos do Gabriel são anti-sociais e desconfiados. Um deles parece um lord inglês, comprido, magro e sempre com uma cara de empáfia. Ele nunca chegou perto de mim, mas nesses dias tem tido um comportamento incomum, chegando em nós ronronando alto. Aos poucos conquistaremos a amizade desses dois felinos.

Estávamos voltando pra casa, quando vimos os fogos de artificio pipocando no painel gigante do céu cor de azul marinho. Imaginamos o parque lotado de gente, os ohs e ahs da multidão, esticamos o nosso pescoço para ver as luzes. Já em casa ouvimos o retumbante estouro do encerramento dos fogos. Na tevê, 1776, um musical histórico sobre a declaração da independência. Enfim, era o quatro de julho.

sorry for the inconvenience

Foi mais ou menos como decidir alegremente pregar um prego na parede para pendurar um lindo quadro e de repente ver que a parede tinha furos e precisava de massa pra remendar aqui e ali, e depois perceber que precisava de pintura e logo em seguida sacar que a situação estava muito pior do que se imaginava, que seria necessário realmente derrubar paredes, trocar os canos, o teto, e os fios elétricos, e no final das contas ver que a situação era realmente dramática e que iria precisar mesmo derrubar a casa toda e construir tudo novo, do zero.

Desde 2001 que eu uso nos meus blogs o publicador Movable Type, do qual sempre gostei muito e como sou fiel, nunca nem cogitei trocá-lo pelo programa mais usado do momento, o Wordpress. Só que a minha versão do MT estava completamente obsoleta. Eu realmente precisava fazer uma atualização, mas nem pensava muito no assunto, pois afinal de contas estava tudo funcionando muito bem. A única questão que me importunava era a da segurança. As versões atualizadas de qualquer programa lidam melhor com problemas e ninguém quer arriscar ter um furacão destruindo a casa. Melhor construir uma boa estrutura e de quebra ainda fazer um bom seguro, né?

Com a ajuda do meu filho, que é um excelente programador, finalmente atualizei minha versão do MT. Só que a mudança foi profunda e mexeu com toda a estrutura de todos os meus blogs. De repente, oito anos de escrevinhações ficaram ilegíveis. Gabriel colocou suas habilidades em ação, e eu e ele ficamos todos esses dias tentando consertar os mil furos, até eu sacar que vou ter mesmo é que reajustar e refazer aos poucos todos os códigos de todos os blogs. Os comentários ficaram inacessíveis e agora já funcionam, mas não abrem mais na caixinha. Não entendi ainda se é o esquema dessa versão do MT [como é no Wordpress], ou se eu ainda não pesquei como é que a caixinha funciona. Nesse meio tempo o Uriel viajou, naquele esquema descabelado, correndo com a roupa amarfanhada e com papéis voando pra fora da pasta, uma visão de desenho animado que descreve exatamente como tudo acontece com ele. O Gabriel também viajou. E amigos viajaram, mas antes ficaram hospedados comigo. Além daquelas coisas da vida normal que urgem, reclamam e correm—trabalhar, dormir, comer. Comer comida? Mas que comida? Tenho devorado toneladas de frutas e feito alguns rangos improvisados. Receitas seguirão.

esse papo já tá qualquer coisa

Minha rotina depois do jantar é subir pro meu quarto, ligar a tevê sempre no mesmo canal e clicar no guia pra ver o que está passando ou o que vai passar e assim poder planejar se vou assistir algo no canal ou colocar um dvd. Depois entrar no banheiro, sempre acompanhada por um dos gatos—se for o Misty eu tenho que abrir a água de uma das pias, se for o Roux vou ter que ficar conversando um pouco com ele, que vai miar com uma voz esganiçada que nos faz dobrar em riso. Tomo o meu banho, faço toda a rotina de escovação de dentões e hidratação de corpão, volto para o quarto e vou ler meus livros e ver meus filmes. Ontem já tinha decidido que não iria ver o filme que estava passando no TCM, o meu canal vitalício—The Joy Luck Club. Eu já vi e revi esse filme, inteiro ou em partes, inúmeras vezes. E todas as vezes eu me debulho em lágrimas. Não tem jeito, o filme é um clássico tearjerker pra desopilar o fígado e lavar a alma. Então quando saí do banho, já pensando qual seria o dvd que iria escolher pra assistir e de olho no livro que estou lendo, sentei na cama ajeitando as costas nas muitas almofadas e pow—não consegui mais descravar o olho do filme, que já estava pra lá da metade. E lá fui eu outra vez, chorar de dar bafão, de assustar os gatos, daqueles choros com gemidos, dolorido, que parece que os dentes vão cair e a cara vai estourar, que me deixou esbugalhada, cansada, fungando e de olhos ardendo. Quando o filme terminou com o encontro das irmãs, meimei! meimei!, eu já estava um farrapo humano, suspirando com uma cara aparvalhada. Fui dormir.

O resultado do chororô da noite foi uma cara matinal de pinguça, agravada por uma dor de cabeça que veio galopante e me deu um baita de um coice no crânio. Estou acordada há quase quatro horas e ainda sinto as sequelas da miserável. Somente o Blues poderá salvar este famigerado dia. Escrever também ajuda.

Estou pensando no futuro, no que vou fazer amanhã e em novembro. O dia vai ser quente, mas está nublado e esfumaçado, um ar pesado e poluído devido aos incêndios que se alastram pelo norte do estado. Isso tudo desanima, até de cozinhar e comer. Tenho me dedicado às receitas simples, rápidas e fáceis. Minha cozinha está cheia de produtos fresquinhos de verão, mas eu não ando entusiasmada. Os deliciosos tomates maduríssimos viram uma simples salada ou são combinados com alho e manjericão numa panela de pasta de rodelinha. Chegou um maço tão gigante de manjericão na cesta orgânica, que fui obrigada a fazer um pesto. Usei uma mistura de nozes e pecans, que era o que eu tinha, Torrei as nozes e as pecans e fiz como manda a receita clássica. Usei um pouco da água do cozimento da pasta pra diluir o pesto, dica da Marcella Hazan que já adotei. No outro dia fui às compras e fiz couscous com cranberries secas e pinoles. Mais um rango simples, servido com salada, porque não ando muito insoirada. E há muitas batatas. Batatas amarelas, brancas e roxas, que chegam toda semana, junto com as folhas verdes, que eu decidi impôr férias, então retiro da cesta lá mesmo na fazenda e coloco numa cesta onde acredito as pessoas doam o que não querem pra uma tal de Kara. A cesta de verão é realmente colorida, com muitos tipos de abobrinha, tomates e algumas frutas. Nesta semana chegaram figos, roxos e verdes, que foram devorados em minutos.

O website da UC Davis traz uma reportagem bacana sobre sustentabilidade e nela vocês poderão ver um pouquinho da fazenda orgânica dos estudantes, de onde vem a minha cesta semanal. Em Planting the Seeds of Change, clique no audio slideshow da direita, Student Farm lessons.

necas de pitibiriba

Eu cheguei, mas ainda não estou realmente aqui.

O negócio é que ando sem a menor vontade de cozinhar. Durante a semana tenho feito um rangabofe simples, porque precisamos comer e gastar os produtos frescos que já se aboletam nas gavetas da geladeira. Mas pra falar a verdade, ando sem inspiração e sem ânimo. Olho as receitas nas revistas do mês que se empilharam durante a minha ausência e tenho ganas de jogar tudo pra cima, depois pisotear as folhas coloridas e impressas com fotos bacanas bem pisoteadas e sair correndo pela rua, braços estendidos em direção à qualquer restaurante ou birosca que venda batata frita. Esse é o meu estado de espírito atual. Não tenho nenhuma pretensão de me explicar, só quero registrar esse fato singular de que não ando querendo cozinhar.

Tenho planejado tentar replicar alguns dos rangos bacanas que experienciei em Portugal. Naquele dia da semana passada fiz numa piscada de olho a sopa de tomate alentejana que tanto encanta a minha irmã e que me deixou realmente abismada pela sua simplicidade. Cebola, tomates pelados e picados, azeite e um ovo pochê acomodado no caldo, ajeitado numa cumbuca forrada por uma fatia de pão rústico. Naquele dia eu jantei sozinha às 5:30 da tarde, porque não consegui esperar pelo Uriel, tamanha era a minha fome e o meu sono. Quando a sopa ficou pronta eu pensei em tirar fotos e esse pensamento me fez curvar de tanto cansaço. Simplesmente não consegui tirar foto nenhuma, só consegui comer, comer e pronto.

Não estou querendo cozinhar, não ando querendo tirar fotos das minhas comidas, por isso vou sentar e esperar essa vontade de fazer nada na cozinha passar. Porque vai passar, eu tenho certeza que vai.

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** O tempo que tenho economizado não cozinhando está sendo usado pra fazer outras mil coisas, como capinar novamente a horta que foi tomada por um matagal durante a minha ausência. Finalmente plantei meus pés de tomate. Desta vez apenas quatro, pois quero experimentar dar bastante espaço para os arbustos. Plantei vários tipos de manjericão e orégano, mais cibouletes, sálvia e lemon verbena, pra fazer par com o lemon balm [melissa] que está crescendo lindamente. Replantei também as ervas dos vasos. No interim tomei conhecimento de um novo morador no meu quintal—um esquilo, que se divide entre a minha casa e a do vizinho. No ano passado foi um filhote de lebre muito fofinho que detonou com metade das minhas ervas. Neste ano é o senhor esquilo, que está prestes a fazer um belo estrago, talvez nas frutinhas de pêssego e nectarina.

*** Também aproveitei para fazer um remanejamento das roupas no closet, armários e gavetas. Saí de cena artigos de lã, veludo, mangas compridas, casacos, cachecóis. A previsão do tempo para esta semana está arrepiante. Ainda estamos em meio de maio e já teremos uma ondaça de calor temporã. Quinta-feira, mínima de 16ºC, máxima de 38ºC. ARGH!!!

duetos

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Uma das coisas mais gostosas da vida é dividir a cozinha com alguém que você ama, fazer o rango juntos, ou apenas colaborar. Meu marido não cozinha, mas esse pequeno detalhe não impede que dancemos juntos um Blues culinário. Normalmente a tarefa fica dividida entre eu cozinhar e ele limpar. Quando terminamos de jantar, ele coloca a louça na máquina de lavar, esfrega as panelas e outros objetos que eu não gosto que coloque na máquina. Quando estou exausta, depois de um dia de trabalho, bicicletagem, cozinhação e comilança, só pensando em subir para o meu quarto, tomar um banho e me enfiar na cama, a visão dele na frente da pia todo compenetrado e deixando tudo arrumadinho me dá uma grande sensação de conforto. Quando temos festa é a mesma coisa, os preparos ficam todos por minha conta, a limpeza é toda dele. Essa é a nossa colaboração, já que ele não é nem de longe um cozinheiro. Essa minha relação na cozinha com o Uriel me faz pensar no Paul e na Julia Child, quando ela começou o seu programa na tevê pública com um orçamento mísero, e ele lavava a sujeirada que ela fazia durante a gravação numa bacia improvisada, agachado no chão. Amor maior que esse não há!

Coloquei umas batatas gigantes pra assar e quando o Uriel chegou dizendo que iria jantar e voltar pro trabalho, avisei que o rango iria demorar. Admito que sou meio possessiva e territorial quando estou na minha cozinha. Quero controlar tudo, fazer tudo, e tudo tem que estar do meu jeito, que é o jeito que eu gosto. Ele sempre oferece ajuda e eu sempre recuso, argumentando que a melhor ajuda que ele poderia me dar é sair da frente e tentar não atrapalhar. Mas como a situação estava meio caótica, sugeri que ele lavasse a alface que já estava de molho na água. Enquanto eu desmembrava a couve-flor em raminhos, cortava a cenoura e os aspargos para cozinhar tudo em etapas no vapor e fazer uma salada, ele começou o processo de lavar a alface. Foi realmente um processo, pois ele desinfetou folha por folha, esfregando cada uma como se estivesse lavando uma peça de roupa. Removeu cuidadosamente duas lesmas e também lavou os ramos de alho verde, as cebolinhas, o alho poró e um macinho de espinafre. No final do processo de lavação, a salada já estava pronta, a batata ainda não estava assada e a pia da cozinha estava uma catástrofe, além de água respingada pelo chão e tapetes. Eu reclamei, mas não muito, pois valorizo cada minuto dessas poucas horas que passamos juntos, colaborando na cozinha, esperando nossa batata assar, conversando sobre o dia, sobre as pequenas e grandes coisas das nossas vidas.

e foi assim que fiz mais um jantar

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A semana começou no sábado e já num ritmo de ziriguidum. Vou confessar que tenho estado sempre exausta e que muitas vezes sinto um enorme vazio, na cabeça e no estômago. Fico extremamente feliz e realizada quando descolo uma receita antecipadamente, ou quando me dá aquela idéia brilhante no meio da tarde, e festejo quando abro a geladeira e está tudo ali na minha frente, só preciso juntar os ingredientes de uma maneira mais ou menos metódica—picar, juntar, misturar, refogar ou assar, e prontíssimo, o jantar está servido.

Mas tem dias que nem com a vaca tossindo o menu do jantar se concretiza. Eu até que tinha uma vaga idéia de um rango improvisado: iria ser um macarrão com brócolis. Mas tive que dar um pulo no supermercado e lá o tal macarrão com brócolis entrou num processo de metamorfose. Primeiro vi no olive bar uns pimentões vermelhos assados. Pensei, uhm, vou colocar tiras desse pimentão no macarrão com brócolis, estou ficando audáciosa! Virando no primeiro corredor, peguei vários pães, um de queijo asiago da padaria mais fofa de Davis, a Village Bakery. Na outra esquina do supermercado vi umas irresistíveis linguiças recheadas com erva-doce. Bom, vou ter que tomar uma decisão radical, saí o brócolis, excuse moi, entra a linguiça. Vamos ter então um macarrão com linguiça e pimentões assados, o menu estava ficando mais interessante. Mas foi daí que eu vi o grão-de-bico.....

Jantar da noite, chegamos num momento decisivo, é vai ou racha, o macarrão foi definitivamente eliminado. O menu será um refogado com linguiça, pimentão, grão-de-bico, mais um bulbo de erva-doce que lembrei ter na geladeira, temperado com a salsinha e cebolinha que colhi da horta ontem e um queijo feta grego que comprei outro dia e que é simplesmente o mais chic dos fetas, envelhecido em barril. Servirei acompanhado do pão de queijo asiago. Ale-luiah!!

Chegando em casa foi so get my mojo working e em menos de trinta minutos e jantar estava servido. Para evoluir da idéia de macarrão com brócolis para a concretização de um saboroso cozido de grão-de-bico com linguiça, só precisou de uma caminhada arejada de inspiração no supermercado mais próximo.

11:39 - hora de encher linguiça

Mergulho num estado de estagnação por um momento, olhando para a tela, mente vazia, nenhuma idéia, nenhum pensamento, nada. Quando então começo a pensar no almoço, no que irei comer. Não são pensamentos sofisticados, pois meu rango é sempre composto de restos requentados ou algo feito rápidamente no improviso. Mas quando chega perto do meio dia meu estômago ronca e eu começo a fazer uma avaliação mental do que tenho na geladeira, decidindo o menu du jour, porque é no almoço que eu sinto mais fome. A caixinha do calendário pula, avisando que está quase na hora de montar na bicicleta e atravessar o campus impregnado pelo cheiro de carne assada, sopa e frango frito. Passo pela horda que carrega pratinhos e caixinhas com comida, pedalo rápido pois estou com fome e os restos de ontem me esperam—delícia de rangabofe, que fica melhor ainda porque é devorado no conforto e na tranquilidade da minha casa.

party of three

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Finais de semana são preciosos pra mim. Se eles forem prolongados, com um feriado na segunda então, eu aproveito cada minuto. Na segunda, feriado do dia do presidente que nas atuais circunstâncias poderia ser equiparado com o dia de finados, foi um dia ensolarado e tranquilo. Convidamos o Gabriel pra almoçar e ele veio feliz bater um ranguinho da mamãe. A Marianne estava visitando o pai em San Luis OBispo, então ele veio sozinho. Colheu uns dez limões do limoeiro e com o seu muque de quebrador zen de tábuas de taekendo espremeu todos eles com a maior naturalidade, sem nem se curvar ou suar. Fizemos uma super limonada, adoçada com nectar de agave, que eu acho que é um adoçante que fica bem suave em limonadas. Eu adoro olhar o prato que meu filho faz quando almoça aqui em casa. É uma coisa impressionante. Fico feliz pensando que ele gosta da minha comida, mas também penso o quanto ele gasta de energia e o quanto precisa repor. Meu filho come como um estivador das docas! Nesse feriado comemos, conversamos, bebemos limonada e vinho, não teve sobremesa mas ninguém se importou. Um almoçinho em família num final de semana prolongado é uma das melhores coisas dessa vida.

* comprei uma linda toalha de plástico florida para colocar na mesa do quintal e acabei usando na mesa da cozinha. achei que ficou vistosa e festiva, e deu uma atmosfera quase primaveril ao ambiente.

um dia na vida de...

Eu acordo e ele já está de plantão na porta do quarto, deitado ou sentado, dormindo ou acordado, ele está lá sempre, infalível, inevitável, exato. Eu desço as escadas e ele desce junto, correndo pra passar na minha frente, porque ele sempre faz isso e eu nunca entendi muito bem o motivo. Em alguns minutos eu vou estar enchendo o prato dele com comida e então terei um tempo sozinha, bebericando o meu café, lendo, pensando na vida e na morte da bezerra. Mas quando eu me levantar pra ir tomar o meu banho matinal, ele já vai estar novamente ao meu lado, correndo na minha frente, pra chegar primeiro, enquanto eu subo as escadas em direção ao quarto e depois ao banheiro. Quando eu chego no banheiro ele já está lá, no plantão número dois do dia, sempre em cima da pia, porque agora a obsessão dele é beber água ali. A bacia da pia do Uriel fica cheia de água pra ele, mas só deixar a água lá não basta, ele quer que você participe, interaja, atue. Eu abro a torneira e ele olha pra água. Entro no chuveiro e começa ali o processo de encaração. Ele fica como uma estátua gorda a altiva, às vezes olhando para o infinito—Marlon Brando tem muitos discípulos, ou simplesmente me encarando. E ele encara com firmeza, mesmo quando o vidro do chuveiro embaça e respinga e eu viro apenas uma confusa silhueta. Eu limpo o vidro com as mãos e me deparo com o carão. Saio do chuveiro e o carão continua ali, me olhando de uma forma desconfortavelmente fixa e blasé, como se estivesse tentando dizer—está precisando se depilar, hein querida?

E assim continuamos o nosso dia, eu desco, ele desce, eu subo, ele sobe. Na hora do almoço, quando eu chego esbaforida com a bicicleta, ele é a primeira visão que eu tenho, quando abro a porta. Ele vai primeiro bater um ranguinho rápido, depois vem se posicionar para o plantão número três do dia, que consiste em apenas ficar dando sopa por ali, olhando o movimento do meu almocinho improvisado ou requentado, sempre na esperança que algo aconteça. Acontecimento seria ele ganhar comida—fato que resume absolutamente TODO o sentido da vida. Eu subo para escovar os dentes e ele sobe também, correndo para passar na minha frente, quando eu chego lá no banheiro, ele já está à postos para o plantão número quatro do dia. Enquanto eu escovo os dentes, ele olha pra água que contínua na bacia da pia, olha pra mim, deita entre as bacias, onde estão algumas coisas que eu uso, então eu preciso mover um rabo peludo do lugar pra pegar algo e praticamente me dobrar em cima do ser balofo pra alcançar outra coisa. Eu faço xixi e ele me encara, eu desço e ele desce, correndo na minha frente, chegando primeiro. Quando eu fecho a porta da casa, a última cena que vejo é ele na beira da escada, ou na cozinha, pois a esperança é sempre a última que morre.

Chegando em casa à noite, abro a porta esbaforida e carregada de coisas—lancheira, cartas, pacotes, e a primeira coisa que vejo é ele no pé da escada. Ele vai bater um ranguinho preventivo e daí começa o plantão número cinco do dia, o mais importante. Enquanto eu faço as coisas na cozinha, guardo louça, preparo o jantar, ele não sai do perímetro que contém a largura dos meus passos. Ele fica como uma estátua, no tapete de cá, no tapete de lá, ou no meio dos tapetes, sentado ou deitado, sempre com um olhar pidão de morto de fome, a não ser que ele fique muito frustrado, daí ele vai pro canto da parede, onde normalmente colocamos os snacks pra ele comer e encara a parede, assim como quem está de castigo, resignado. Marlon Brando tem mesmo muitos discípulos. Assim ficamos, ele ali impassível e eu quase tropeçando no tapete e nele, me irritando com a insistência e com a inconveniência. Ele só dá sossego quando eu finalmente coloco os snacks no cantinho da cozinha. Mesmo assim ele ainda volta, desta vez só pra curtir a companhia, a música, o calorzinho do forno. Depois que jantamos, eu subo pro quarto e ele sobe na frente, fica em cima da pia enquanto eu tomo banho, o plantão que número mesmo?

Essa é a minha rotina com o meu gato Misty Gray, um soturno senhor de treze anos, cheio das manias, quase todas relacionadas à comida e bebida. Eu não passo um minuto sozinha. Não sei se isso é bom ou ruim, ainda não decidi. Sem falar que tem o outro gato. Ah, o outro gato vocês nem queiram saber. O outro gato fica pra outra hora.

a chuva lavou o carro

Por aqui não acontece absolutamente nada diferente. Tudo ainda é velho. Chove e faz frio, o que dá um certo desânimo de colocar o nariz pra fora de casa. Mas isso não é problema, já que na casa tem tudo, tem até pão e leite!

Não vou fazer ceia de ano novo—iurru! Vai ser tudo uma surpresa. Mas terei um rack of lamb descongelado e tenho alface e rúcula fresquinhas e lavadas. E se tem pão, está tudo bem.

Fiz café, que ficou fraco, mas o convidado bebeu, assim como comeu o quiche salgado. Não adianta, entra ano, sai ano, e eu continuo salgando muito as comidas e fazendo café muito forte ou muito fraco. É até chato, porque vocês sabem, né?

O som na caixa é de outros tempos, mas a vida é muito boa aqui, sou feliz onde estou, não olho pra trás, não tenho nenhuma dúvida de que aqui é o lugar onde eu deveria estar, hoje, agora.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

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Será que é culpa do trânsito de Marte retrógado pegando a minha lua?

Primeiro a caixa da quinoa vazou e zilhões de sementes se espalharam rapidamente pelas prateleiras e frestas da geladeira. Depois o triturador da pia entupiu e subiu aquela água borbulhante amarelada, que gira em falso como se fosse um redemoinho gago. Liguei rapidamente pro Uriel pedindo socorro, pois apesar da pia ter duas bacias, a que tem o triturador é a mais útil, a mais fácil, e eu não posso cozinhar sem usar a torneira. Ele veio e a meleca estava realmente grande. Depois de remover tudo o que fica guardado em baixo da pia, desligar o aparelho, remover o cano, drenar a água escura cheia de pedaços semi-moídos de casca de mexirica, apareceu o grande causador do estrago: uma tampinha de plástico, que deve ter caído lá por acidente. O jantar saiu, mas antes tive que trocar os tapetes da cozinha e me descabelar na frente do fogão, pois justamente naquele dia a lentilha que estava na panela tentando virar sopa, não amolecia de jeito nenhum.

E no dia que resolvi fazer uma receita de tuna melt porque iria jantar sozinha e comecei a não achar os ingredientes—um atrás do outro. No final das contas a única coisa que eu tinha era mesmo um lata de um maravilhoso atum espanhol, que eu compro lá no Corti Brother's. Bom, pelo menos isso, eu tinha um atum de excelente qualidade preservado no azeite, que compensou a falta de TODOS os outros ingredientes. Não tinha pita bread, não tinha salsão, não tinha pickles, nem queijo cheddar e a maionese até que tinha, mas quando eu abri o pote ela estava com uma camada amarela e um cheiro de ranço. Foi pro lixo. Fiz então o tuna melt à minha maneira, usando um pão indiano e temperando o atum com salsinha picada. Usei também uns tomates meio sem gosto, fora de época, que ainda teimam em chegar na cesta orgânica, cobri com queijo manchego ralado e assei. Não ficou nada igual a um verdadeiro tuna melt, mas ficou bom e eu comi assim, como sempre como quando estou sozinha, com uma bandeja no colo vendo um filme, na sala de tevê.

cansada, eu?

Passei o final de semana organizando a casa. É aquele ziriguidum que acontece uma ou duas vezes por ano. No sábado eu arrumei tudo o que precisava ser arrumado na parte de baixo da casa. Pilhas de livros na cozinha, uma pilha de papéis pra jogar fora e outra pra guardar, geladeira cheia de produtos com data de validade expirada, gaveta com condimentos que precisavam ir pro lixo. O Uriel me ajudou esvaziando e lavando o que iria ser reciclado. Nosso container de recicláveis nunca ficou tão cheio. E tinha cacarecos mil na lavanderia. Nem cheguei na garagem, pois lá preciso de mais um dia. No domingo me concentrei no closet e armários e gavetas de roupas, depois entrei no mundo encantado de papelada do escritório. Cansei, fiquei mal humorada e com dor nas costas, mas botei ordem no que queria colocar. Segunda-feira na hora do almoço estava trocando as roupas de cama e de banho, trocando também a capa do edredon e dos vários travesseiros que enfeitam a cama. Ainda falta organizar as contas do mês, que eu faço online. Comecei a semana esbagaçada. Como segunda é também o dia da cesta orgânica e o Uriel ligou avisando que iria ter que jantar rapidamente e voltar pro trabalho—o que não é algo inédito na rotina dele, eu fiz o prato coringa que sempre faço quando estou com pressa, quando preciso de um conforto: macarrão ao alho e óleo com bastante salsinha e queijo parmesão ralado na hora. Tive que tristemente reciclar dois maços gigantes de verduras da cesta. Ainda sobrou mais um chard colorido, outra verdura arrocheada, mais uma acelgona, alface e rúcula. Vieram também rabanetes e nabos. Nabos!! Nabos?? For Pete's sake, onde estão as cenouras??

as mudanças que chegam em outubro

A primeira coisa realmente notável é a escuridão pela manhã. Até o final do mês a escuridão da noite vai chegar mais cedo também. Isso significa que minhas horas de luz natural para fotografias vão ficar bem limitadas. Minhas adaptações para conseguir fazer fotos incluem malabarismos ligeiros, usando uns minutos antes de sair para trabalhar ou a hora do almoço. A segunda mudança mais notável é a dos ingredientes. Como eu sigo as estações, agora começam a sumir os tomates, pepinos, pimentões e milhos e surgem as abóboras e as folhas verdes, que vão reinar por um longo período. No trabalho eu volto a beber meus chás—branco, verde ou de ervas. As aulas recomeçam e o campus se enche de estudantes, abundância de bicicletas, perigo eminente de acidente! As blusas de manga comprida tomam a frente nas gaveta, reaparecem os adoráveis cachecóis que eu uso o tempo inteiro, aposento as sandálias, visto meias. Para substituir os fresquinhos chinelos de dedo, desenterro meu velho tamanco birkenstock que uso para ficar em casa, fecho as janelas do quarto, desligo os ventiladores de teto, os gatos começam a dormir em lugares mais quentinhos, as saladas saem do centro da roda e as sopas tomam o lugar de destaque. Sinto vontade de comer uma comida mais quente e substanciosa, mais raizes, mais feijões, mais molhos. Paramos de usar a mesa do quintal para almoços e jantares, os pés de tomate morrem, abandono vergonhosamente a horta, o limoeiro do quintal fica carregado e aparecem os limões meyer na árvore de ninguém. Evito nadar em dias sem sol, acabam os picnics das quartas-feiras no Farmers Market, me preparo para dias de chuva. Outubro é o meu mês favorito, por muitas razões, a melhor delas a grande mudança.

Davis, 3 de agosto de 2007

Querido diário,

Ontem foi um dia estranho. Aliás anteontem também foi um dia estranho, ou melhor, muito mais estranho. Estive muito ocupada no trabalho e no meio da tarde uma dor de cabeça que estava me rondando me pegou de jeito. Tive que sair mais cedo e ir pra casa descansar no quarto escuro. Depois fui cortar e pintar o cabelo, pois eu já estava com aquela cara de mulher louca do saco e era preciso tomar providências urgentes. Minha beleleira é um amoreco. Ela é dois anos mais nova que eu e já é avó, foi padeira, masca chicrete, tem um corte de cabelo super funky, me chama de "honey" e me dá abraços na hora de ir embora. Além do que ela sempre faz o que eu peço—e somente o que eu peço. Me fez massagem na cabeça e usou aqueles produtos aromaterápicos da Aveda. Até melhorei um pouco da dor de cachola. Depois fui buscar o Uriel no trabalho e enquanto ele me contava as novidades do dia e o desenvolvimento das notícias que tivemos nesta semana, eu dirigi como barata tonta por downtown, passando várias vezes pelo mesmo lugar e perguntando—onde você quer comer? Detesto quando ele faz o empurra-empurra respondendo—você que escolhe. Eu não tenho estrutura astrologica pra escolher nada! Parei por acaso em frente a um restaurante tailandês. Davis tem uma abundância de restaurantes asiáticos. Só de tailandeses tem uns seis. Então esse tipo de comida não é especial, nem excitante pra mim. Já passei de fase de achar bacana, agora só acho normal. Carne-de-vaca, como eu diria pro Moa poder rolar de tanto rir. Pedimos uns wontons fritos, que vieram com uma salada de pepino com um molho vermelho cheio de alho cru—todos aqui já sabem da minha ojeriza por alho cru. Resolvi pedir um especial do dia, que era um curry de abóbora com camarão. Eu raramente peço curry no tailandês, mas dessa vez resolvi arriscar e não me arrependi. O curry era vermelho, com leite de coco, camarões, pedaços de abóbora que foram incorporados no molho, abobrinha, cenoura e manjericão. Acompanhou um arroz jasmine. Nós sempre comentamos esse detalhe rindo, pois o arroz vem numa sopeira prateada cheia de rococós com a colher também prateada combinando, e olhando de longe dá aquela impressão de coisa linda e fina. Mas quando a sopeira chega na sua mesa, a decepção é aparente na cara de todos—ela é feita de plástico! O Uriel pediu camarão com gengibre e deve ter gostado, pois comeu tudo. Sobrou metade do meu curry, que o garçon empacotou e vou comer hoje no almoço. Não pedimos sobremesa. Eu não consegui beber todo o meu thai iced tea. Fomos pra casa, onde os gatos nos esperavam na cozinha. O Uriel voltou pro trabalho, como ele sempre faz. Eu tomei mais 800 mg de ibuprofen, um banho e fui pra cama. Um filme antigo, dança, sapateado, vestidos esvoaçantes, dou risada das piadas, viro de lado de costa pra tevê, fecho os olhos..."beautiful music...dangerous rhythm, you kiss while you're dancing, it's continental, ooh, it's continental, you sing while you're dancing, your voice is gentle and so sentimental.." ZzZZzzzzz.

Vivendo sobre as ondas

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Tenho essa impressão fatalista com relação à certos feriados, por exemplo, eu tinha certeza absoluta que sempre iria chover no dia de finados e normalmente sempre chovia. Tá certo que essas "fatalidades" têm uma ligação bem forte com as estações do ano, que costumavam ser invariáveis. Tenho, de qualquer maneira, essas idéias pré-estabelecidas sobre a atmosfera de um feriado. Não tenho mais experiência de dia de finados, felizmente! Mas agora agreguei minhas premonições aos feriados que vivencio aqui na América do Norte. E pra mim não existe fourth of july que não seja tórrido. Todos os quatro de julho que vivenciei, desde que cheguei em Davis há dez anos, foram tórridos. Em alguns deles eu escapei para a praia, onde invariávelmente, verão, outono, inverno ou primavera, faz sempre frio. Já saímos de Davis aos quarenta graus, e tive que vestir um suéter e um casaco chegando na praia. Essas idas à praia são de fato um refresco.

Aquele tal Lulu que disse que iria levar a vida sobre as ondas, certamente nunca cogitou mudar-se para o Central Valley do norte da Califórnia, que é a região onde estou, bem no limite do fresquinho da Bay Area. Aqui, as únicas ondas que pegamos são as de calor, e estamos surfando sobre uma neste exato momento.

Como não fugimos nem pra praia, nem pro lago, resolvemos enfrentar o quatro de julho enfurnados em casa. Nunquinha que eu vou fazer picnic de feriadão em parque sob um solão de 40ºC! Imaginei a cidade em massa acampada no parque onde acontecem os fogos no final do dia. Eu fui à esse evento uma vez e bastou. A base desse feriado é o picnic. E quando anoitece tem aquela queima de fogos, que dependendo da cidade pode ser uma experiência estimulante ou broxante. Aqui em Davis acho que atingimos um meio termo. Mas com bafão, ficar no parque a tarde toda? Nem pensar!

Fui nadar pela manhã, depois demos um pulo ao supermercado onde adquirimos um filézão de salmão selvagem, frutas frescas e ingredientes para uma bela salada, além de pão e bebidas. Não usei o fogão. O Uriel fez o peixe na churrasqueira e almoçamos bem tarde. Eu bebi vinho verde acompanhando o salmão que foi temperado somente com sal marinho e pimenta do reino e assado no papel alumínio sobre uma caminha de batata, para não grudar.

Passamos o resto da tarde esticados no sofá, lendo e cochilando na companhia dos gatos. Fizemos um lanche às oito da noite e subi às nove para abrir as janelas da casa. Ainda estava um pouco abafado. Às nove e meia começaram os fogos no parque e os cachorros do meu vizinho latiram sem parar por mais de meia hora, enquanto eu tentava ouvir os diálogos de Rope, do Hitchcock na tevê.

Hoje, cinco de julho, temperatura de 41ºC, seco como um árido deserto. Mas como sempre, estamos preparados com todas as técnicas e gears, surfando normalmente a nossa onda.

F   O   R   N   O  : parece que essa ondaça de calor engolfou não só o norte da Califórnia, mas todo o oeste norte-americano. muita calma neste momento! permaneçam indoors, não se abanem nem se afobem e bebam muita água!

deu um baita cansaço

São aquelas fases de extremo cansaço que nos pegam desprevenidos e nos dão uma rasteira bem dada. Estou assim, me sentindo cansada e tendo um episódio atrás do outro de trapalhadas, acidentes, esquecimentos, tropeções, avoamentos gerais. Tudo, absolutamente tudo que eu vou fazer tem dado confusão. Uma dose extra, do que já é normalmente confuso.

O Uriel avisou que estava no meio de uns testes e que não viria jantar. Resolvi então fazer apenas um snack pra mim. Antes tive que dar um pulo no supermercado, pois a lista de falturas já estava longa. Lá vi dois itens perfeitos para o meu lanchinho da noite—umas azeitonas recheadas com gorgonzola e uma pimentinha meio adocicada chamada peppadew, que eu quis experimentar. Coloquei as azeitonas e as pimentas na embalagem, peguei meu bloquinho e caneta para anotar o nome, guardei de novo na bolsa e segui em frente com as compras. Deixei o potinho em cima do balcão. Só fui notar—sorvetada na testa—quando cheguei em casa e não achei as coisinhas nos pacotes. Desaforo! Guardei as compras e voltei no supermercado. Nesse vai e vem gastei quase duas horas.

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Mas fiz meu pratinho de gostosuras—salada verde, fatias de queijo brie, damascos secos, figos no balsâmico, as azeitonas, as pimentinhas, framboesas e uma fatia de pão sour dough fresquinho. Acompanhou uma taça de vinho branco. Quando terminei de comer o cansaço já tinha triplicado e tomado conta de todas as partes do meu ser, incluindo mente e alma. Enrolei o quanto pude, mas tentar resistir foi inútil. Subi para tomar um banho e me refugiar na minha cama aconchegante, assistindo meus filmes favoritos. Ainda eram apenas oito e meia da noite e havia claridade lá fora, tive que realmente me esforçar pra aguentar mais um pouco acordada. Dormir às oito e meia da noite é um exagero. Consegui manter os olhos abertos até às nove e meia, quando virei de lado e enquanto Fred Astaire e Ginger Rogers sapateavam pela tela da tevê, eu capotei.

Estou me sentindo assim, não tem jeito, mas pelo menos hoje tenho uma grande motivação e estou corneteando: THANK GOD IS FRIDAY!

37ºC

O verão me provoca muitos sentimentos contraditórios, pois apesar de eu adorar certas coisas que acontecem nessa época do ano, eu de-te-sss-to-o outras. Eu gosto das manhãs frescas, da luz, da abundância de frutas, legumes e verduras, de poder colher nectarinas e pêssegos nas árvores do meu quintal, e tomates na horta, de achar figos no Farmers Market, almoçar e jantar na mesa do quintal, de poder nadar sem ficar parecendo um ET arroxeado, de usar sandálias, fazer picnics e tais. Mas abomino os dias tórridos. Os dias em que não se consegue sair na rua, em que a respiração fica difícil, a água da piscina fica quente e xoxa, as casas ficam fechadas, as pessoas se enclausuram nos ambientes com temperatura controlada. E desses dias, que chegam em ondas de dois, três, quatro, não há escapatória. Hoje e amanhã já teremos um aperitivo. Entre meio de julho e meio de agosto vamos estar implorando por dias como hoje. Sim, piora, e muito. Felizmente o verão é curto e os dias agradáveis deixam boas lembranças.

Quando começa a onda de dias quentes e extremamente secos, temos que fazer alguns rearranjos na nossa rotina. Eu fecho todas as janelas e cortinas antes de sair de casa pela manhã e só reabro quando a brisa da noite chegando começar a soprar. As casas têm um bom isolamento térmico e o segredo é não deixar o calor entrar, nem prodizir calor dentro delas. Eu já desliguei a geladeira extra da garagem, lavo e seco roupa à noite e paro de usar o forno. Na cozinha é onde mais se produz calor. Assar muffins num dia baforento, nem pensar! Meus jantares são reestruturados e reorganizados de uma maneira que se faça menos cozinhamentos possíveis. Os menus giram em torno de saladas e coisas feitas na churrasqueira. Nos dias realmente quentes—e temos alguns de lascar, nem a chama do fogão pode ser acesa. Meu jantar brejeiro de ontem foi todo feito na churrasqueira: uma carnita, pimentões vermelhos e beterrabas assadas. Acompanhou uma salada de alface bem fresca.

dias assim são assim mesmo

Não é que a comida ficou ruim ou incomível. Ela só não ficou maravilhosa, e nem deve ter sido erro de receita ou má escolha dos ingredientes, mas sim efeito moral de final de segunda-feira agitada e cansativa, regada com um pinguinho de mau humor. Fui fazer o jantar usando uma estratégia impraticável para uma pessoa sozinha—usar o forno na cozinha e a churrasqueira lá no fundo do quintal ao mesmo tempo. E fui falar ao telefone, fui lavar os legumes e verduras da cesta orgânica, além de organizar os ingredientes pras receitas. Assim é querer demais, não? No interim o garbage disposer entupiu com alguma coisa e uma das bacias da pia ficou inusável, com aquela água suja boiando. Mesmo assim consegui terminar tudo, sem queimar nada e servi o jantar na mesa do quintal, como sempre—com tudo arrumado, pratos, copos bonitinhos, guarnanapos de pano. Mas não rolou aquele excitamento de receita nova feita com ingredientes frescos. O clima do jantar foi de vamos apenas forrar o bucho. Nem as fotos que tirei prestaram. Dias assim acontecem e são assim mesmo, fazer o quê?

Salada de abobrinha grelhada
Cortei duas abobrinhas amarelas grandes em fatias grossas e temperei com sal marinho grosso, pimenta do reino, sálvia seca e azeite. Coloquei na churrasqueira em fogo baixo—pode ser feita na grelha. Grelhei dos dois lados, coloquei numa vasilha, deixei esfriar e salpiquei com cebouletes picadinha e cubinhos de queijo feta. Servi com um molhinho feito com duas partes de iogurte natural, uma parte de maionese, azeite, suco de limão e sal, tudo muito bem emulsificado pelo batedor de arame.

Tabuli de tomate assado
Ponha o trigo de quibe de molho na água—uma xícara de trigo, uma xícara de água. Deixe absorver toda a água. Mexa com um garfo. Acrescente bastante hortelã, manjericão e salsinha picados. Asse uns tomates no forno, temperados com sal, pimenta, azeite. Deixe esfriar e misture no trigo com as ervas. Tempere com sal, pimenta, azeite e suco de limão a gosto. Sirva.

but the world goes 'round

Histórias do cotidiano de uma pessoa comum têm que ser repetitivas. Não tem como escapar do ciclo - como as estações, os aniversários, as comemorações oficiais, os xis marcados nos calendários, as festas, as marés ou as fases da lua. Tudo vem e vai, vem e vai, vem e vai. É uma boa explicação e até uma reflexão para entender porque estou sempre escrevendo sobre os mesmos assuntos ou mostrando fotos tão parecidas.

Todo ano eu faço aniversário e publico os números dramáticos em letras garrafais, depois esfria, as folhas das árvores ficam amarelas, vermelhas, douradas e caem, acendemos a lareira, o gato quase queima os bigodes, assamos um peru que dividimos com a família no dia de agradecer, fazemos compras, ficamos com dor no lombo varrendo folhas, começa a chover, eu me acovardo da piscina, tiro fotos dos enfeites de Natal, publico um cartão e desejo tudo de bom para todos, fico aliviada quando o ano se inicia, como nove sementes de romã, reclamo que não pára de chover, reciclo, recrio, me animo com a chegada da primavera, encho o saco da humanidade com as minhas fotos de flores e, principalmente, rosas. O jasmim abre, capino a horta, planto tomates, as pestes chegam devagarzinho. O Gabe faz anos, faço o meu próprio breakfast no dia das mães, reclamo que esta ficando muito quente, nado diáriamente, não tiro as havaianas legítimas dos pés, arranco mais mato, detono as pestes e colho tomates, o Ursão viaja, viaja, viaja e eu reclamo mais um pouco, as aulas e o ano recomeçam na UC Davis, eu aguardo ansiosamente uma brisa de outono, faço compras, combino uma social com os amigos, asso um bolo, vou dançar o Blues, penso no meu aniversário que já está chegando, jesus como este ano voou!

Por isso, estou parando um pouco de me incomodar com a repetição dos meus assuntos, pois a vida é terrivelmente repetitiva e não é assim que é bom?

A eterna dúvida que me consome intensamente

Hora do almoço: o que vou comer? o que vou comer? Serão sempre restos requentados do jantar, ou um misto quente com salada de folhas, tomates, algo fácil. Eu tento comer bem no almoço, porque sinto que preciso—além de forrar o bucho pra não ficar esfomeada durante a tarde e acabar comendo porcarias—também ter uma refeição nutritiva. Pra mim o almoço ainda é, mesmo realmente não sendo mais, a refeição mais importante do dia.

Hora do jantar: o que vou fazer? o que vou fazer? Todo dia, sem exceção, eu fico muito tempo vagando pela cozinha com a cabeça vazia de idéias, olhando repetidamente dentro da geladeira e nos armários de despensa, pois não consigo planejar menu e nunca sei o que fazer. Todo dia eu tenho um momento de absoluta certeza de que não vou conseguir cozinhar nada. É um começar do zero diário. Quando eu tenho a sorte de dar de frente com uma receita legal e ainda ter todos os ingredientes, fica muito mais fácil. Mas o normal é sempre faltar um ou dois ingredientes e eu ter que improvisar, substituir, ou se acho que não vai rolar, desistir. O jantar é sempre um esforço, também porque no final do dia eu já estou bem cansada, e sonho—ou melhor, deliro—com a idéia de chegar em casa e encontrar a mesa posta com um ranguinho brejeiro—caseiro não feito por mim, já servido, fumegante, saboroso e prontinho para ser devorado.

comprar, papear e coçar, é só começar

Parando pra pensar, é incrivel constatar que eu passei o dia de sábado fazendo coisas relativas à comida. Pela manhã fui ao Kim's Market, que é a loja que simboliza a nossa Chinatown. São apenas três corredores abarrotados de ingredientes orientais. Comprei umas cumbuquinhas pra missô soup, que procurei na Chinatown de San Francisco e não achei. Dali fui para o Farmers Market, de onde achei que não sairia nunca mais, de tantos amigos que encontrei por lá. Com a minha cestinha em punho, fiquei horas caminhando e conversando e até que consegui comprar pão, tangerinas, morangos. À tarde fiz outra maratona, num outro mercado internacional, mais o supermercado normal. Fui comprar mais ervinhas para a horta também. Em todos os lugares em que estive, encontrei amigos ou gente conhecida e parei pra conversar! Davis é um small town mesmo.

No intervalo entre entre as saídas e papos, fiz um macarrão integral com abóbora assada, rúcula, tomate seco e azeitona preta pro almoço. E pizza calabresa pro jantar. Derrubei um tupperware cheio de sopa de cebola na geladeira, que se espatifou e melecou geladeira e chão da cozinha numa sujeirada simplesmente atroz! Felizmente alguém limpou pra mim, num ato de incrível delicadeza e bondade.

Hoje, domingo, não vou sair de casa e tudo vai ser muito simples, pois às três da tarde vou subir para a sala de tevê carregando o meu laptop para poder conversar com o Moa e comentar os micro-detalhes de tudo. Hoje é aquela noite que todos já sabem: não posso ser perturbada, pois vou estar entretida assistindo ao Oscar!

o prato ambulante

Eu não conheço muitos países e os que eu conheço só fui visitar, então não posso afirmar nada com relação aos outros, mas aqui no norte da América - EUA e Canadá, essa visão dos pratos ambulantes é muito comum. Digo pratos ambulantes para o pessoal que caminha em público carregando um prato e comendo com um garfo, como se estivesse numa festa, mas em movimento. Todo santo dia eu vejo muitos pratos ambulantes caminhando pelo campus da Universidade da Califórnia, onde eu trabalho. Vou ao banheiro, lá vem um prato. Vou ao correio, lá vejo outro prato. Vou esticar as pernas, mais outro prato no horizonte. Claro que esse fenômeno acontece mais próximo da hora do almoço, quando os enlouquecidos estudantes e professores mal têm tempo para bater um rango decente. Muitas vezes se alimentam andando e discutindo assuntos acadêmicos, ou sentados em qualquer cantinho ou janela, outras vezes comem na sala de aula. Pratos ambulantes competem com os estudantes munidos de laptops, livros e cadernos que infestam os cafés das cidades universitárias. Bom, pelo menos nos cafés eles sentam.

um dia de inverno

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Roux no melhor lugar da casa

Depois de dias de chuva gelada, abriu o sol, fez um dia azul de inverno que eu adoro. Frioooo, um ventooooo. Meu irmão, minha cunhada e minhas sobrinhas foram esquiar em Lake Tahoe. Eu fiquei pra organizar mil coisas na casa, ir ao correio, fazer umas compras [mais! afe!]. O Uriel está trabalhando, preparando o material pra classe que ele vai ensinar neste quarter de inverno, que começa dia três. Eu estou de folga do trabalho, iaruuu! Está sendo bom pra fazer coisas com minha família e também pra fazer outras coisas que normalmente não faço. Tenho cozinhado uma vez por dia. Hoje estou fazendo um minestrone. Ando usando muito o meu panelão de ferro que comprei em novembro, porque ele dá conta de quantidade para mais de seis pessoas. Essa é a primeira vez em anos que eu curto o break de final de ano. Já estou pensando no rango da virada do ano!

Natal? Que Natal?

À noite consegui ir ao supermercado comprar umas coisinhas, pois minha geladeira estava vazia de itens frescos. Fui capengando. Chega quatro da tarde meus olhos começam a arder. Mas considerando que eu mudei de hemisfério e voltei seis horas no tempo, até que estou super bem, funcionando.

Hoje é a festinha de Natal do meu trabalho. Vamos a um lodge, cada um leva seus próprios utensílios e um prato de comida, eu peguei carona no último bonde e vou levar bebidas. Nada de álcool, nem preciso dizer. Comprei umas falsas champagnes de maçã e cranberry - sparkling cider. Não sei como vou levar cinco garrafas na bicicleta, mais minhas coisas, mais eu. Está difícil pedalar de manhã cedo, com temperaturas negativas. Como sempre diz um dos meus colegas, se continuar frio assim vou me mudar pra Califórnia! Ha ha ha!

Tentando ler todos os blogs que não li nas duas últimas semanas, dou de frente com o fato de que não fiz absolutamente nada referente ao Natal ainda. Nem tirei meus velhos enfeites do storage. Vai ter árvore? Não sei. Minhas sobrinhas vãoo curtir uma, o Roux também—that's the problem! E a comida? Vou ter que ir até o Corti Brothers em Sacramento comprar meus peitos de peru borboleta, então o Uriel que tem o dom de simplificar tudo sugeriu que eu comprasse qualquer peru, ali mesmo no Safeway. Vou pensar. A cesta orgânica está de férias até começo de janeiro. Terei tempo de passar no Farmers Market? Comprarei e prepararei gostosuras? A casa ficará com cara de Natal? O espírito natalino descenderá sobre nós? To jingle bells, or not to jingle bells, that's the ho ho ho question.

home sweet home

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Está um frio absolutamente lasqueira por aqui, mas eu estou com um sorriso congelado na cara, pois estou feliz de voltar pra minha casinha e cozinha. Ainda não coloquei as mãos na massa, só estou fazendo um misto quente pro almoço. Nada como férias da cozinha para voltarmos a todo vapor. Eu comi muito no Brasil. Comi bem e fiquei satisfeita!

rotina

6:30pm: trimtrim, alô, e aí vem jantar, só estou terminando um negócio, ihh, não, é sério, em meia hora eu te ligo e vamos comer em algum lugar, tá, tchau, um beijo, outro.

7pm: resolve fazer uma sopa de milho, vê que tem pão fresquinho e queijo suiço pra acompanhar, refoga cebola, milho, caldo de galinha, salsinha picada, vrumvrumvrum tritura a mistura, creme de leite, desliga o fogo.

7:30pm: cd da Motown, dança, dança, assusta o gato, lê um caderno do jornal, outro caderno, senta, levanta.

7:45pm: música, música, pega uma revista, senta, lê, morre de rir, levanta, dança, assusta o gato de novo, termina de ler a revista.

8:15pm: trimtrim, alô, assim não tem condições, o que foi, você sabe que horas são, ew, não.., vou jantar sozinha mesmo, mas não íamos sair pra comer fora juntos, ah, deu até tempo de fazer uma sopa, mas que horas são, você não disse que iria ligar em meia hora, é.., já se passaram quase duas, oh..., eu li o jornal, a revista, agora chega, então quando eu chegar, cheguei, é, quando você chegar, chegou, tchau, um beijo, tchau, outro.


* post reciclado do The Chatterbox de novembro de 2004 - certas rotinas não mudam nunca!

todo dia eles fazem tudo sempre igual

Meus dias se iniciam às seis e meia da manhã, que nem consigo dizer 'manhã', pois ainda está escuro. Vou para a cozinha com dois gatos pulando entre as minhas pernas. Ponho uma xícara com água no microondas pra fazer meu café com leite e um waffle na tostadeira. Vou até a laundry e pego os potinhos e a lata de rango felino. É um excitamento, uma coisa tão dramática que dá a impressão que os bichos ficaram uma semana sem ver comida. Eles correm pra laundry quando me vem caminhando pela cozinha com os potes e se arranjam no tapetinho, sempre na mesma posição: Roux pra direita, Misty pra esquerda. Volto pra cozinha, termino de preparar meu café, que é minguado, pois todos já sabem que não tenho apetite logo que acordo. Sento e bebo o café com leite enquanto leio e-mails, bloglines. Enquanto isso os mortos de fome devoram o rango, o Roux tudo de uma vez só, o Misty fazendo pausas de lord pra lavar as patas, como quem usa um guardanapo de linho. Eu ainda estou na cozinha lendo quando começa a função do banheiro. Todo dia é a mesma coisa e todo dia eu fico rindo alto, considerando o meu permanente mau humor matinal. Primeiro vai o Roux, que faz tudo escandalosamente. Esse gato não faz nada discretamente - come fazendo barulho, caga e mija fazendo barulho, até para andar pela casa ele faz barulho. No banheiro dá a impressão que ele vai virar a caixa de cabeça para baixo. Finalizado a aliviação geral da fome e dos intestinos, ficam os dois caminhando pela casa, como que procurando coisas pra fazer. Se encaram, o Roux dá pulinhos, tenta dar um bote no Misty, que sai correndo injuriado. Um tédio de vida.... Nessa altura já são sete e alguma coisa e eu subo pra tomar banho, me arrumar. Rotina de gato é divertida de se observar, mesmo com um humor azedo, às seis da madrugada.

cooking for one

Finalmente acabou a colheita da azeitona e do pistacho, e meu marido volta para Davis e para suas atividades normais - que não exclui correria, mas pelo menos é por aqui! Foram algumas semanas de omeletes, saladas, sanduíche de queijo com tomate, macarrão e outras improvisações. Eu não tenho motivação para cozinhar só para mim. Ontem fui pintar minha cabeleira mariabetânica descabelada, que estava lindamente multicolorida. Fiquei no salão, lendo revistas da Oprah até tarde. Saí de lá com tanta fome! Já tinha me decidido parar num restaurante no caminho de casa - eu faço tudo à pé aqui em downtown, mas depois que me vi no espelho com uma kanekalon NEGRA, parecendo um corvo corcunda gigante, resolvi só passar no lugar das saladas e pegar uma to-go. Mas da esquina já vi a fila dentro do lugar e desanimei total. Corri pra casa e preparei o famigerado alho e óleo com uma massa integral, e temperei uma salada de rúcula com tomates secos. Um copo de vinho e voalá - melhor do que qualquer restaurante. Mas com a volta do Uriel, vou poder retomar às minhas excursões culinárias, sem falar que ele está trazendo da fazenda uma tonelada de azeitonas fresquinhas, e já falou - procura uma receita para prepará-las. Azeitonas verders virgens, alguém sabe como processar as ditas?

sambando com o crioulo doido

Cozinhar? Como? Quando? Não consegui nem fazer umas comprinhas de supermercado ainda. Não fui ao Farmers Market. Não tenho a menor idéia de menu ou planos para assuntos culinários. É que às vezes o bicho pega.

Sexta-feira abriu a temporada de outono do Mondavi Center e eu trabalhei no show do fantástico Bo Diddley. Reencontrei muita gente conhecida, foi bem legal. O show foi excente, Diddley fez a platéia levantar e dançar. Até o chancellor da UC Davis, que assistia ao show do seu camarote, deu umas reboladas, batendo palmas e tal. Quando eu tenho show no Mondavi, não dá tempo de cozinhar. Tenho que comer algo improvisado e sair, pois tenho que estar no saguão do teatro, de uniforme, às seis e meia.

Sábado tivemos uma garage sale da Brazil in Davis na minha casa de hóspedes, para arrecadar uma graninha para mandarmos para uma entidade assistencial no Brasil. Eu passei a semana em função dessa garage sale. No sábado acordei às seis e meia da manhã e fiquei no meu estado clássico de estressadinha, até que tudo ficou em ordem e a coisa engrenou. Fazer a garage dentro da casa foi legal, pois não ficamos expostas na rua, tínhamos banheiro e cozinha, onde deixei um pote de café para os visitantes se servirem. Fizemos uma graninha boa e no final do dia aconteceu o inesperado - aluguei a minha casa de hóspedes!! Minha nova inquilina é uma pessoa que eu já conheço há uns dois anos, uma menina muito meiga, estudante da UC Davis, que aprende português com a Brazil in Davis e ama o Brasil. Eu a conheci quando alguém me indicou para ajudá-la a fazer uns telefonemas para uma comunidade no Rio Grande do Norte, onde ela tinha passado uns meses e estava doando uma grana do bolso dela pro pessoal lá comprar sementes e alugar um trator para arar a terra e fazer uma roça de feijão e milho comunitária. O curriculo dela é dez, vamos ver como ela vai se sair como minha inquilina!

Depois da garage eu e minhas amigas fomos almoçar num restaurante gostosinho aqui em downtown. Bebemos vinho e relaxamos! Eu comi um prato bem interessante chamado Fazzoletti: uma massa fininha como de lasanha recheada com milho, cogumelos e queijo de cabra, dobrada como um pacotinho e temperada com molho de tomate e tomates cerejas frescos. Estava muitíssimo bom. Além da companhia, da conversa e do vinho!

folga na cozinha e outros papos

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Todo final de agosto, início de setembro, meu marido some na fazenda de pistacho ou em congressos pelo mundo afora. Então eu fico meio desorganizada na cozinha, porque não tenho muito ânimo de cozinhar só pra mim. Improviso muito, também porque não gosto de comer em restaurantes sozinha. Faço coisas simples e práticas. Sandubas e saladas são a base do menu. Ontem fiz uma coisa horrêver... Jantei uma salada Caprese - tomate, mussarella fresca e basilicão - com uma fatia de pão preto, em pé na cozinha, enquanto telefonava para as minhas amigas e combinava um cinema.

Fomos ao Varsity Theater, o cinema independente da minha cidade, ver o documentário Who Killed the Electric Car. Logo na entrada, notei uma janelinha que eu não tinha visto antes, no lado esquerdo do hall principal e fui lá xeretar. O teatro tem o seu balcãozinho estilo anos 50 vendendo pipoca, refrigerante, mas aquela janelinha vendia café e sorvete - gelatto e regular. Me encantei por um sabor de berries com cabernet. Achei uma ótima idéia, só que senti um pouco de dificuldade para terminar o sorvete quando a sala ficou escura.

a trilha sonora do capítulo de hoje é Dylan

Ele está na fazenda de pistacho no sul da Califórnia. Não fui nadar, porque estava ansiosa para ir até a Borders com um cupom comprar o novo cd do Bob Dylan. Comprei também mais um livro de culinária francesa, desses com fotos bonitas, e postais pro meu amigo Guto. Na volta passei ao lado da inquilina da minha guest house e seu cachorro de três pernas conversando com o meu vizinho cinqüentão tri-atleta na calçada. Essa foi uma história traumatizante que felizmente acaba depois de amanhã.

Comida, comida! Nao quis comer no restaurante italiano, nem no bistrô das saladas. Peguei o carro e fui até o Co-op, nosso supermercado cooperativa. Enchi o carrinho de coisas tolas - sorvete de frutas, wrappings com hummus e falafel, marmelada, pão preto, duas bananas, polenta corn chips, hamburguer vegetal. Ouvi pela terceira vez neste dia um elogio à minha roupa - your top is awesome! Sim, é mesmo!

Uma taça de vinho branco de Cadiz na Andalucia, salsa de vidro com coentro e azeitonas, figos verdes e roxos, iogurte grego com mel. Bob Dylan tocando no cd player me leva quase às lágrimas. Meu vizinho recebe uma visita, um cabeludo hipongo. Será o George da esquina? Eu achava que o George era desempregado e até sentia pena da mulher sorridente dele, quando fiquei sabendo que ele é um professor do departamento de Artes. Quanta diferença do departamento de Engenharia agrícola, onde ninguém tem tempo pra nada e ainda viaja. Todos os meus vizinhos são acadêmicos.

Vou ler A Little Taste of France, vou escrever postais, de óculos que eu odeio, vou terminar de mastigar os figos, que eu adoro, e sentir as sementes estourando entre os meus dentes, vou terminar de ouvir Dylan e seu Modern Times, tentando não sair dançando pela cozinha, evitando que o meu vizinho me veja pelas janelas e me pegue no flagra comendo, bebendo, cantando.

um pratão de macarrão

Hoje foi um dia de desastres. Cheguei em casa à tardezinha com uma dor de cabeça cegante. Tomei uns comprimidos e fui esperar a dor passar enquanto pensava no meu jantar. Meu marido está em Portland, mas tenho comido em casa, porque não curto muito frequentar restaurantes sozinha. Sem falar que tenho montes de tomates, folhas verdes e legumes pra salada, além de uma tonelada de frutas. Pensa daqui, pensa dali. Fui abrir o armário da despensa, que é uma desorganização total, e derrubei um vidro cheio de feijão. Ele caiu em cima de uma mantegueira e quebraram-se em zil pedacinhos, fora os feijões, fora a manteiga. Fiquei um tempão catando caco, milagrosamente sem me cortar, e me certificando que nenhum gato iria espetar a fuça curiosa. Pra completar, a queimadura na minha mão está horrível, não cicatriza e eu bato o tempo todo nela, parece que mirando estratégicamente bem na parte mais machucada. Hoje bati nela umas quatro vezes desde que acordei. O dia não está pra peixe! Pensei, com tanta chatice acontecendo eu preciso comer uma coisa que me dê conforto. Então fiz macarrão ao alho e óleo, que é uma das comidas que eu considero desde a minha infância uma das mais confortantes. Espaguetti ou cabelo de anjo, um dente de alho, sal, pimenta do reino, muito azeite e muita salsinha picada. Um bom queijo ralado na hora por cima e já estou me sentindo outra pessoa. Agora só falta um banho e cama. Arrivederci, dia besta!

enquanto cozinho a sopa

Eu sempre fui encanada com comer direito e natural. Passei uns quinze anos da minha vida, entre a infância e a adolescência, lutando contra um nojo que tomava conta de mim e que não me deixava comer carne, frango, peixe, ovos ou leite..... Do jeito que eu comia, praticamente obrigada pela minha desesperada mãe, nem sei como cresci e fiquei alta. E de repente, durante os últimos anos da minha adolescência, me deu o cinco minutos e eu virei natureba. Era uma saída para a minha repugnância com relação à toda comida derivada de animais. Virei uma comedora de pão, cenoura, sopa de missô e macarrão alho e óleo. Só depois de muitos anos, já mãe do Gabriel, é que fui devagarzinho voltando a comer os bifes da vida. Hoje eu como de tudo, menos coisas muito exdrúxulas é claro, mas não perdi a mania de comer natural, orgânico, evitar óleos, açúcares, ler maníacamente rótulos de qualquer produto para ver o conteúdo.

Por causa disso, toda segunda-feira eu encosto a barriga na beira da pia e fico com dor nas costas lavando verduras e legumes. Isso é coisa que só os naturebas freaks fazem aqui neste país, onde tudo é industrializado e muito mais fácil e prático, pois ninguém tem tempo de nada, muito menos de ficar lavando folhas de salada. Mas eu arranjo um tempo e faço questão de comer o máximo que puder sem aditivos químicos.

Hoje tive que fazer um sopão e vou congelar brócolis e couve-flor cozidos, porque tava acumulando tanto desses legumes dentro da geladeira que já estava dando dó. E toda semana eu jogo fora umas verduras que nem tenho mais idéias de como cozinhá-las. Esse desperdício involuntário e cheio de sentimento de culpa é a consequência de querer ter uma vida além da minha capacidade. Sem falar que além da lavação ainda tem os sustos de achar bichos estranhissímos residindo nas alfaces e repolhos. Um dia eu desisto dessa história, mas até esse dia chegar, vamos comendo nossas saladinhas, refogados e sopas com verduras e legumes fresquinhos.

O duro é meus amigos me aturarem, pois toda vez que eu sirvo alguma coisa, lá vem a frasezinha - "é orgânico!" - como se alguém desse a mínima!




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