♥ ovos de FelizBertas ♥

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No farmers market de Woodland, depois de uma semana de calorão:

posso ter uma duzia de ovos?

não tenho ovos hoje. as meninas resolveram não botar nada essa semana.

é o calorão!

[ quando faz muito calor as meninas descansam. tive que entrar na lista de espera pra conseguir comprar essa dúzia, que estou usando com muita parcimônia. ]

we don't speak no mexicano

A novidade saiu até no jornal da cidade—a abertura de uma lojinha de produtos indianos na Main Street de Woodland. Fui correndo conferir, porque geralmente nesses mercadinhos étnicos se acha muita coisa legal. Como eu normalmente vou no mercadinho indiano de Davis, a possibilidade de ter uma opção na cidade onde moro me pareceu perfeito. A loja fica num quadradinho minúsculo num daqueles strip malls que têm varias salas num formado de "U" com um bloco extra no centro. O dono da loja, Um indiano muito bem apessoado, estava lá ouvindo hits indus num equipamento super high tech. Assim que adentrei o micro espaço percebi que estava numa enrascada. Iria ser difícil sair dali sem comprar nada. Mas foi um pouquinho pior.

Em questão de um minuto o moço já estava no meu calcanhar, me mostrando todos os produtos [todos NUMBER ONE!] indianos e alguns chineses [uma coleção de peixe em lata] que ele herdou do proprietário anterior, que era chinês. Pra tudo ele tinha um comentário elogioso, além do fato de tudo que ele oferecia ser NUMBER ONE, melhor qualidade e barato. Me mostrou garrafas de ghee [tomo uma colher por dia!], as variedades de lentilhas [bom pra gente da nossa idade!], os feijões [esse verde é o melhor, você tem que dar pro seu marido todos os dias!] as farinhas de grão de bico [e me deu receita de um pudim] e os temperos [melhor curry! você usa curry?] e os pickles, chutneys, salagadinhos de ervilha, amendoim e pimenta, caixas com misturas para fazer todo tipo de comida indiana, eteceterá. Fui pegando uma coisa aqui, outra lá, nem sabendo se iria mesmo usar, apenas convencida pelo entusiasmo dele.

indiano—você prepara receitas indianas?
eu—na verdade eu não cozinho nada indiano.
indiano—o que você cozinha então? mexicano?
eu—também não. eu sou brasileira.
indiano—ah, brasileira! você fala mexicano então?
eu—não. eu falo português. nem os mexicanos falam mexicano. hahaha!
indiano—ah, e esse português é um dialeto mexicano?
eu—acho que não é! [mas posso estar enganada, né?]
indiano—se você não cozinha mexicano, cozinha o que?
eu—faço muita comida italiana.
indiano—ah, italiano! vem cá então...
[me leva até o freezer e me mostra pacotes com pão Naan congelado]
indiano—olha, muito parecido com comida italiana, igual pizza!
eu—ah, sim, IGUALZINHO [numa outra dimensão]
indiano—obrigado. volte sempre!
eu—com certeza! [não voltarei!]
indiano—e avise seus amigos!
eu—pode deixar! [que não avisarei ninguém!]

N Market

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Sábado à tarde no meu supermercado local pagando umas compras:
caixa—hmm, parece que você está planejando fazer uns bolos hoje?
eu—ainda não sei, ainda estou pensando em receitas.
caixa—tá certo!

Domingo pela manhã no meu supermercado local pagando outras compras:
mesma caixa—olá, e como foi sua tarde ontem?
eu—foi boa! mas como você pode perceber estou aqui novamente!
caixa—ah, isso é bom!
eu—eu venho muito aqui, acho que quase todos os dias. hahaha!
caixa— tudo bem, sem problemas!

Em Davis eu era assídua do Co-op, o supermercado natureba do tomatão e em Woodland eu bato ponto no Nugget Market, um supermercado que pertence à uma família da cidade. Parece que eu sou desorganizada, mas eu não sou. Eu faço listas e minhas listas são até high tech, com app do iphone que eu carrego sempre comigo e vou atualizando. Mas como vou prever que um ingrediente que eu achava que tinha na despensa, na verdade está com a validade vencida ou não tem o suficiente pra receita? E as inspirações momentâneas ou as decisões de último minuto de fazer uma receita e precisar justamente de um ingrediente que não pode faltar nem ser substituído? Por isso eu vou tanto ao supermercado, além do meu normal e semanal pão-leite-iogurte-queijo-pra-pizza. Mas o bom é que como o lugar é pequeno, acabo conhecendo todos e todos me conhecem. Sou notável por ser aquela moça da cesta incrivelmente bacana [como me disse outro dia a menina que embala as compras] e da sacola colorida super linda [idem, a mesma]. E também porque nas minhas compras sempre predominam os produtos orgânicos e os ingredientes diferentes—como tubos de 5 umami paste, mostarda com tangerina, azeitonas secas, farinha de grão de bico, misô de cevada, macarrão de quinoa, lentilhas germinadas, eggnog de leite de amendoa, pimenta do reino defumada, eteceterá eteceterá eteceterá eteceterá.

beauty is in the eye of the beholder

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Já faz um tempo que estou querendo tocar neste assunto, já que está mais do que claro para os frequentadores desde blog que eu abandonei o uso das firolices fotograficas por aqui. A câmera está num canto, as lentes estão no mesmo canto e tudo o que eu fazia antes com relação à produção de imagens para publicar neste espaço eu não faço mais. O que eu faço agora é o que considero o mais viável para esta fase da minha vida em que o tempo anda escasso. Carrego aquela gadget multi-tasking super-poderosa faz-tudo comigo pra onde vou, o tempo todo. E é com ela que tiro fotos. Neste momento isso incluí absolutamente todas as fotos que aparecem por aqui. Se não fosse essa maravilhosa gadget combinada com o mais funcional aplicativo de manipulação de fotos, este blog já teria morrido à mingua. As fotinhas com filtro do tão criticado instagram foi o que me restou, porque eu simplesmente não tenho mais tempo para fazer mil cliques com câmera, trocar lentes, editar dezenas de imagens, escolher as melhores, eteceterá. Com a dupla iphone-instragram eu posso ser rápida, não perco tempo, a comida não esfria, não pago mico em público, não preciso carregar equipamento, não preciso me antecipar pra nada, porque na hora que a oportunidade aparecer eu estarei pronta para ela. Isso não quer dizer que não preciso ter um minimo de cuidado. Muito pelo contrário, preciso ter um certo timing, ter um olho apurado pra captar a essência da imagem e da mensagem que quero passar e preciso ser bem rápida no gatilho, ter a mão firme e ser decidida, porque muitas vezes só me dou aquela única chance, não fico escolhendo pose, apenas enquadro e clico. Já me senti um pouco culpada por ter adotado esse esquema mais fácil, porque percebo que há uma tendência geral pelas imagens mais profissionalizadas. Mas cada momento é único pra cada caso e pessoa. E o meu momento é esse—me falta tempo e paciência, mas não me falta vontade de criar. Assim então, para satisfação ou desgosto do freguês, continuarei até quando resolver mudar.

a verdadeira história da foto mais fantástica de todos os tempos

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Estávamos trabalhando, quietos e concentrados, quando o meteorologista entrou na sala todo esbaforido, pegou a câmera que ele sempre carrega na mochila e fez sinal para que o seguíssemos, pois aparentemente ele tinha visto algo absolutamente incrível do lado de fora do prédio.

Explicarei primeiro que tivemos semanas e mais semanas de uma ventania brutal, que arrancou árvores pelas raízes, forrou o chão de galhos, de folhas, de flores, desorientou os motoristas e ciclistas, levantou saias, derrubou pássaros no voo, descabelou penteados, mudou coisas de lugares e deixou as pessoas confusas.

Corremos atrás do moço com a câmera naquele dia de ventania. Ele parou bem em frente ao arbusto de feijoa e numa pose de paparazzi ajustava a lente para captar a imagem incrível daquela bolsa pendurada num dos galhos da planta. Ficamos todos com cara de ué olhando pra ele e pra bolsa, pra bolsa e pra ele, pra ele e pra bolsa, até que eu resolvi me pronunciar—essa é a minha bolsa de lanche que eu pendurei aí hoje pela manhã pra secar, porque vazou molho de salada e eu tive que lavá-la.

Fuén geral. Voltamos cada um pro seu cubo e pro trabalho, mas antes tive que ouvir o meteorologista e fotógrafo de imagens bizarras reclamar—você acabou de estragar a foto com a melhor história de todos os tempos: o vento trouxe a bolsa de longe e ela acabou aqui pendurada neste galho. [ SORRY! ]

[ almoço literário ]

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Sentei no meu banco favorito para almoços no campus e atrás de mim veio um grupo de jovens. Um deles sorriu pra mim e sentou-se na grama à uns poucos palmos de distância dos meus pés. Os outros o seguiram e sentaram-se também, formando um círculo. Junto deles estava a professora, uma moça indiana que falava inglês com sotaque britânico e tinha o lenço mais lindo do mundo enrolado displicentemente no pescoço. Era uma aula de literatura outdoors, bem ali na minha frente. A professora elogiou o dia lindo e frisou como todos estavam com a cara muito mais felizes do lado de fora do prédio. É assim mesmo que todos se sentem quando uma aula é libertada das quatro paredes e toma posse do verde da paisagem externa.

Eu tinha meu guardanapo estendido no colo, onde equilibrava potinhos abertos sobre um prato de bambu. Daquela distância não pude evitar de me tornar uma extensão do grupo e ouvir toda a discussão conduzida pela professora. Eu dava garfadas na minha versão improvisada de uma açorda de camarões e ouvia a opinião dos estudantes sobre os personagens do livro—The Ramayana. A saga de Rama, Sita, Lakshmana, Surpanakha e de como os alunos a percebiam e a interpretavam. Comi a açorda e mergulhei floretes de brócolis e palitos de cenoura cozidos num molhinho de tomate e devorei com cuidado os pedaços de abacaxi assados com açúcar de palmeira. Comi bem devagar, sem fazer barulho ou sujeira, como se estivesse mesmo naquela aula. E depois de ouvir algumas das manifestações dos alunos sobre a grande epopéia Indu, talvez eu precise [ou deva] ler também o livro.

✴ pocketful of dreams ✴

Quando passei na frente do Facca Bar na rua Conceição no centro de Campinas comentei com minha irmã o quanto eu adorava o sanduíche com recheio de aliche e salsinha picadinha imerso no azeite que eles vendiam lá e minha mãe às vezes trazia pra casa num embrulho que não se faz mais—na bandeja de papelão embrulhado com papel de pão e amarrado com barbante.

Ele lia um livro, vestia camisa social, paletó e gravata borboleta vermelha salpicada com bolinhas brancas e jantava sozinho numa mesinha de canto no restaurante Chez Panisse, fato que além da idade indicava que o moço era um daqueles frequentadores assíduos desde os velhos tempos, quando o local era um lugar aconchegante para se comer uma comida francesa bem feita.

Na foto ela estava bem aprumada porque normalmente só usava um vestido de tecido estampado com flores bem miudinhas, cortado no molde mais simples sem golas nem manga, tão velho que tinha o sovaco manchado e me fazia rir, criança cruel. Muita gente pensa que naquela foto ela estava vestindo um uniforme de copeira, porque ostentava uma blusa branca impecável, colete azul e gravatona de laço. Mas na minha casa não tinha disso de ninguém usar uniforme e a verdade é que era Sete de Setembro e antes da foto ser tirada a cozinheira Cida tinha desfilado pela rua principal da cidade junto com os colegas adultos do Grupo Escolar onde faziam as aulas de alfabelização do Mobral.

A primeira comida que preparei no primeiro país novo [usando uma panela emprestada] foi peixe com legumes. A primeira comida que preparei no segundo país novo [usando uma panela emprestada] foi peixe com legumes.

A lembrança mais ternura que tenho do meu filho criança é ele dizendo "hmm que delicia!" com uma cara de prazer e alegria para o prato recheado com arroz integral, bardana refogada e agrião cozido ou qualquer outra gororoba que eu por ventura preparasse pra ele comer.

O que me encantava naquele livro não eram realmente as receitas, mas as ilustrações singelas em traço com tinta preta—uma cesta de palha com legumes dentro, uma panela de arroz no fogo, uma mão cortando a cenoura outra picando verdinhos, uma xícara de chá fumegante. o livro favorito, que não sei quem escreveu, muito menos quem ilustrou, nem lembro [diacho!] onde foi que aquele pequeno tesouro ficou.

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a foto original — by Shorpy
Durante a Primeira Guerra Mundial, dada a imensa impopularidade de tudo que fosse de origem alemã em território norte-americano, a famosa receita do repolho fermentado foi renomeada de sauerkraut para liberty cabbage. E todos continuaram a consumir sua porção de chucrute sem problema de consciência patriota.

dois sacos de pistachos

Junto com as romãs e as amêndoas vieram também os pistachos. Não é a primeira vez que o Uriel traz pistachos frescos da fazenda logo após a colheita. Acredito que ele faz isso porque se entusiasma, pois deve ser lindo ver todo aquele mundaréu de frutos saindo daqueles pomares quase infinitos. Mas desta vez foi realmente a última, porque eu dei o ultimato—CHEGA DESSA HISTÓRIA!

Os pistachos crus não são como as amêndoas, que secam sozinhas e conservam fácil. Eles precisam de uma ajuda extra, um processamento e fazer isso em casa simplesmente não dá certo. Já tentamos antes e falhamos. Tentamos novamente e falhamos mais uma vez. Não sabemos como fazer e, sinceramente, eu não estou nem um pouco interessada em saber. Prefiro comprar os pistachos já torrados e prontos para o consumo.

Embora eu não ache muito prudente comer muitos deles assim, os pistachos podem ser consumidos crus e são até bem gostosos, crocantes e com um sabor bem intenso, um pouco diferente da sua versão seca. Mas isso tem que ser feito logo depois da colheita, porque eles não guardam bem com aquela casca molinha exterior, que precisa ser removida para que não mofe e apodreça. E foi o que fizemos durante o final de semana passado, removemos todas as cascas, tentamos torrar no forno e não deu certo. Enchemos dois sacos de 3 litros cada com pistachos ainda crus. Um saco ainda está na geladeira nos esperando, o outro descascamos e despelamos um por um e com os pistachos verdíssimos e aromáticos fiz um sorvete e um bolo. As receitas virão a seguir.

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um dia, dois dias, três dias

mais autenticidade, seria bom, né? sozinha, comi sanduíche de salada de batata com ovo. e vinho. minto, não estava sozinha. o gato Misty estava na cadeira ao lado. e a salada de batata com ovo era CÍTRICA. trilha sonora by Boswell sisters—the devil and the deep blue sea. peguei um monte de apps do Lonely Planet, mesmo não estando indo viajar pra lugar nenhum, só porque estavam dando de graça. sou unha de fome? vestindo uma camisa azul marinho tamanho extra large do meu marido—the same old me. meus planos: cancelar todas as assinaturas de revistas assim que comprar meu iPad. assinar todas as revistas novamente, versão eletrônica para o iPad. Peter, Paul & Mary. mãos geladas e aquecedor da casa ligado. casaco, botas, guarda-chuva. it rained on me. sempre percebo o erro ortográfico ou gramatical quando já é tarde demais. casquei fora do picnic de indio dos funcionários da universidade. sem muitas delongas, disse apenas, it's not my cup of tea. sou uma lesma lerda mesmo: como que eu nunca participei de nenhuma cooking class no Co-op? e falando nelas, encontramos LESMAS ENORMES alojadas dentro de um repolhão meio oco que chegou com a cesta orgânica. A Place in The Sun [1951] obra prima do George Stevens. Elizabeth Taylor linda de cair o queixo aos 17 anos e Montgomery Clift, nem tenho palavras. Montgomery Clift é, pra mim, uma figura trágica. fico absurdamente comovida quando vejo filmes dele depois do acidente que o transfigurou. porque ele era lindo, lindo, lindo! muito mais que o fedorentinho James Dean e o mal humoradinho Marlon Brando. warning—isso tudo é um déjà-vu.

os habitués

Temos esse hábito de voltar sempre ao mesmo lugar e pedir sempre a mesma comida. Quando elegemos um lugar como bom e gostamos da comida, voltamos e repetimos. Não é sempre que isso acontece, mas temos nossas preferências. Uma delas é a pizzaria da esquina do cinema, onde podemos comer uma salada fresquinha, um sanduiche com batatas fritas, pizzas bem razoáveis e beber vinhos locais. O ambiente é agradável, com mesas internas e externas—na varanda e no jardim aproveitadas durante quase todo o ano graças à aquecedores instalados no teto da varanda e um fire pit no jardim.

Vamos lá com uma certa frequência, muito mais do que tínhamos contabilizado. Pedimos sempre uma salada caesar para dividir entre nós dois, eu bebo uma taça de merlot, petite sirah ou shiraz de vinícolas locais, o Uriel bebe uma Buckler, a cerveja sem álcool. Depois pedimos uma pizza margherita de 12 inches. Todo sábado vamos nessa pizzaria e pedimos a mesma coisa.

Num sábado fomos jantar mais tarde do que de costume, depois de sair de uma sessão de cinema. Decidimos não pedir a salada e o Uriel decidiu beber somente água e não pedir a Buckler. O garçon, provavelmente um estudante da universidade como a maioria dos fornecedores de serviços nos restaurantes da cidade, veio anotar nosso pedido:

F—vou beber uma taça de merlot, por favor.
U—pra mim, somente água, obrigado.
G—não vai pedir uma Buckler hoje?
U—[cara de surpresa] ahn, hoje não.
F—e queremos uma margherita de 12 inches.
G—não vão dividir a salada hoje?
F&U—[cara mais do que de surpresa] ahn, não...
G—então hoje vai ser só o vinho e a pizza?
F&U—[sorriso petrificado] sim, só isso, obrigado!

Logo que o garçon se retirou, depois de fazer uns salamaleques meio sem graça, certamente motivado pela nossa reação com as perguntas dele, tivemos um ataque de riso. Eu tive que até ir ao banheiro pra me recompor, enxugar lágrimas e assoar o nariz. Foi um choque perceber que o garçonzinho não só nos conhecia, como sabia até que o que costumavamos pedir. Como assim, não vai beber a Buckler? E não vão dividir a salada? O que está acontecendo com vocês hoje? Algum problema, querem conversar sobre o assunto? Essa mudança na nossa rotina do sábado à noite deve ter desalinhado o chakra do moço, que já estava com o nosso pedido praticamente anotado mentalmente.

[quase famosos]

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—como é trabalhar com o Sr. José Firelli?
—desculpa, mas é Zefirelli.
—ah, para a senhora, que é íntima!

[narrado nas crônicas de Paulo Francis] hahaha!

A vida é realmente um sitcom. Meu chefe uma vez me contou uma história surreal que aconteceu com ele e que ele chamou de The Water Nazi—relativo ao The Soup Nazi do Seinfeld. O cara chegou na máquina de refil de água do supermercado com 17 galões vazios e ocupou as 4 torneiras. Meu chefe pediu pra usar apenas uma, pra encher apenas um galão e o cara respondeu mal humorado que NÃO. E acabou com a água da máquina.

Também tenho uma história similar—The Salad Bowl Nazi. Estava na thrift store num sábado, como é muito meu costume, garimpando coisinhas de cozinha. Achei uns potinhos, uma bandeja e numa pilha de coisas em cima do balcão, descobri uma saladeira bem bonita por $3. Peguei e segui em frente. Regra de thrift store é achou, gostou, segurou firme! Porque tá solto é de qualquer um. Bom, estava na fila pra pagar quando uma mulher se aproximou e arrancou a saladeira da minha mão com a maior violência. Fiquei atônita, como ficaram também todos os outros que estavam na fila comigo. A mulher, numa voz alterada, bradou—isso É MEU, eu já paguei! Pagou e largou em cima do balcão. Merecia perder os três mangos, pra aprender uma lição. Mulher grossa e ralé. Nem todo mundo que frequenta lojas de segunda mão é assim, pelo menos não na que eu frequento.

Uriel comentando uma edição da revista Martha Stewart Living, com ela na capa disse—usaram uma foto dela de 30 anos atrás, né? Incrível, mas a mulher, além de rica, linda e poderosa, ainda parece imortal. Preservada no formol. Muito ódio dessa específica edição de setembro da revista—com ela super xóvem na capa, mostrando a organização da cozinha dela. Isso não se faz! Mostrar aquilo pra nós, pobres e mortais, gente que envelhece e que não tem uma super cozinha organizada por uma equipe. Sem falar que a malandra se apossa de todo e qualquer objeto antigo e vintage disponível no planeta. Não sobra talheres de baquelite nem vasilhas de argila vitrificada pra mais ninguém.

um ano sem safra

Leitores antigos do Chucrute podem estar coçando o queixo e se perguntando por que eu ainda não comentei absolutamente nada sobre as colheitas de verão no meu quintal: as nectarinas e os tomates. Bom, desta vez não tivemos safra e vou explicar detalhadamente os motivos.

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a última colheita de nectarinas

Este ano o Uriel resolveu podar a árvore de nectarinas, que estava com galhos muito compridos tendo que ser amparados por vigas de madeira, porque o tronco não é ainda robusto o suficiente para sustentá-los. Com a poda—que eu achei exagerada, mas ele disse ter sido necessária—perdeu-se muitas flores e com elas foram-se os frutos. As que sobraram sofreram ataques contínuos, primeiro por uma dessas doenças que danificam as folhas, depois pelos habitantes alienigenas do meu quintal. Normalmente somente os audaciosos e agressivos blue jays davam suas bicadas nas frutas, mas neste ano a invasão de criaturas famintas foi devastadora. Tivemos visitas constantes de esquilos, lebres e ratos selvagens, mandando bala em tudo que encontraram pela frente. As poucas nectarinas que sobreviveram à poda e à doença, frutificaram e cresceram para serem completamente devoradas pelos seres invasores. Eu ainda consegui ver algumas penduradas na árvore, parcialmente mordidas e depois só encontrei caroços espalhados pelo chão do quintal. O mesmo aconteceu com os dois pés de pêssegos, cujas poucas frutinhas desapareceram como num passe de mágica.

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—mãos ao alto aí, mocréia! e vai passando todos os tomates pra cá, rapidinho, rapidinho, perdeu prayboy, perdeu, perdeu!

Mas o maior estrago e a maior frustração aconteceu na horta, com os tomateiros. Plantei quatro pés, compro mudas orgânicas de heirlooms e fico na maior expectativa. Este ano plantei também dois pézinhos de berinjela, uma japonesa a outra branca. Consegui colher uma berinjelinha e alguns tomatinhos pera. O resto não deu tempo nem de amadurecer. Um tomate verde que eu via ali num pé, no outro dia já não estava mais. Fui ficando realmente irritada, frustrada e desolada, pois não quero assassinar criaturas no meu quintal e não tenho tempo de ficar vigiando pra pegar meliantes no flagra. O ideal seria colocar uma tela em volta das plantas, mas não vi nenhuma possibilidade de fazer isso num espaço tão pequeno como o da a minha horta. Depois de chorar lágrimas de ódio pelos tomates sumidos e pelos tomateiros semi-destruídos, eu simplesmente desisti, joguei a toalha, deitei tudo a perder e enfurecida declarei aos berros no meio do quintal—VÃO EM FRENTE, COMAM TUDO, A HORTA FOI DOMINADA E CONQUISTADA, VOCÊS VENCERAM, FOFURAS MALDITAS!

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good bye dear tomato

Casquei fora e deixei tudo lá, matagal crescendo, tomateiros cheios de galhos quebrados, pés de berinjela destruídos, nem a menta chocolate conseguiu fazer bonito neste ano. Enquanto eu não tomar coragem pra pegar em armas, explosivos e venenos, ou a bicharada não encontrar outro quintal para se fartar, me rendo. Talvez no próximo ano eu tenha mais sorte.

Pato a Califórnia

Os patos são uma instituição aqui na minha cidade. O habitat natural da pataiada é o Arboretum da UC Davis, onde eles têm um riacho bem comprido para nadar e muito solo orgânico ao redor para bicar e petiscar, numa área realmente enorme e que abriga outros pequenos animais, como lebres e esquilos. Mas se vocês acham que os patolinos estão satisfeitos com o espação que têm e ficam somente por ali, estão enganados. Os aventureiros adentram audaciosamente as ruas do campus e até as da cidade. É bem comum se ver uma fila de carros parados esperando uma fileirinha de patos atravessar a rua, naquele passinho de patatipatacolá. Eu mesma já parei por causa deles incontáveis vezes. E vira e mexe vejo um patolino ou dois perdidos, vagando pelas calçadas das ruas de downtown. Muitos aparecem vez e outra na minha rua e dormem na grama do meu jardim. Eu acho esses patos circulando pelas ruas um perigo, mas felizmente numa presenciei nenhum atropelamento. Todo mundo toma cuidado, pois os patos são ícones da cidade, assim como com as bicicletas e o o cavalo dos Aggies.

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Uma amiga uma vez me contou uma história muito pitoresca envolvendo um pato e um cidadão chinês, quando o último se estabeleceu temporariamente na cidade para trabalhar no seu doutorado na UC Davis. Vamos considerar que para um chinês, o fato de patos [comida!] passearem para lá e para cá livremente, sem o risco de virarem um guisado, deve ter tido o impacto de um baita choque cultural. Todo santo dia o chinês saia e voltava para seu apartamento, num dos complexos para estudantes localizado a lado do campus e do Arboretum, e via a pataiada zanzando, nadando, voando razante, levando aquele vidão. Patos gorduchos, bem alimentados, felizes e... suculentos. Um dia o chinês decidiu pegar um dos patos e com ele preparou um belíssimo jantar. Foi uma reação natural, um procedimento normal e o pato assado ficou delicioso, tão bom que ele não resistiu em contar a façanha para os seus colegas no laboratório onde trabalhava na sua pesquisa de doutorado. O chinês contou que o pato assado tinha ficado delicioso, mas os seus colegas ouviram horrorizados que ele tinha matado um pato do Arboretum, um simbolo da cidade, um animal intocável. Alguém o denunciou pra polícia, que depois de fichá-lo, avisou as autoridades da universidade e o estudante chinês foi expulso do meio acadêmico e em seguida deportado. Não posso afirmar se essa história é verdadeira ou se tornou-se uma lenda local, quando eventos muito menos drásticos começaram a correr bocas, cada um contando o conto e aumentando um ponto, como eu estou fazendo agora, contando esse conto pra vocês.

a straight line exists between me and the good things

O advento da primavera traz mudanças caracteristicas na paisagem do Arboretum, não apenas pelo colorido clássico do aparecimento das novas flores e verdes, mas também pelo nascimento de centenas de patinhos. Caminhando pelo percurso de três milhas que acompanha um riacho, observo a agitação ruidosa provocada pelos novos fofoletes habitantes do local. Vejo muitas famílias com crianças parando para olhar as famílias de patolinos com seus adoráveis patolinozinhos. Vejo também muita gente carregando suas câmeras DSLR com lentes bacanudas, clicando, além das simpáticas trupes patolinescas, as plantas florindo, os horizontes e mil reflexos fotogênicos providenciados pelo riacho. Tenho muita sorte de morar ao lado desse Arboretum, que é um espaço ecológico belíssimo e apinhado de cenários super ultra fotografáveis em qualquer estação do ano.

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Estou tentando ajustar algumas horas de caminhadas no meu dia-a-dia, geralmente nos finais de tarde. Só não rola nada nas segundas, pois todos já sabem que neste dia tenho que pegar a cesta orgânica, dividir tudo com a Marianne, lavar e ensacar os legumes e verduras que serão usados durante a semana. Outros dias podem ser diferentes, com pequenas mudanças necessárias. Como naquele dia em que eu corri até supermercado para comprar pão e frutas, porque ando comendo muitas frutas, além da banana diária, e aproveitando a época dos citrus, que eu adoro. Depois tirei a louça limpa da máquina de lavar e guardei tudo nos armários, enquanto os gatos me cercavam na cozinha, o Roux falando comigo daquele jeito dele, dando pulinhos e fazendo uma cara engraçada. Esses gatos me fazem um cerco acirrado no final da tarde, tudo em função dos biscoitinhos crocantinhos que damos pra eles. É tanto dramalhão, miação, olhares pidões, corre pra lá e pra cá me seguindo, que parece que a bicharada está esfomeada, morrendo à mingua. Eu geralmente faço eles esperarem até às 6pm. Dai satisfaço as lombrigas felinas e eles finalmente sossegam e me deixam circular livremente pelo espaço da cozinha. Mas nesse dia diferente eu não fui caminhar nem cozinhei, porque fomos jantar no Ciocolat com nossos amigos. Depois voltamos pra casa, eu subi pra tomar banho e deitar no ritual de encerramento do dia e o Uriel voltou pro trabalho, como ele sempre faz.

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Esse foi uma noite atípica, porque normalmente eu preparo o jantar e se fizer algo diferente, legal ou criativo, fotografo para o blog. Se não, eu apenas ligo pro Uriel, ele chega, jantamos, depois limpamos a cozinha juntos, embora não sobre muita coisa pra limpar já que eu sou uma cozinheira obcecada em ir limpando tudo enquanto cozinha. E encerro o expediente quando eu subo pro quarto com o Roux atrás de mim, dando bote nas minhas pernas e querendo conversar. Meu dia termina na cama, lendo, com a tevê ligada, chorando com a cena de algum filme, me sentindo cansada, cansada, até desabar e Zzzz...

Iniciei um novo dia com o pé direito, depois de uma noite inteirinha de sono ininterrupto, o que é uma preciosidade pra mim. Fechei os olhos às 10pm e só reabri às 6:20am, como se a noite não tivesse existido e acordando de um sonho super ternura, onde eu estava bebendo chá com minha melhor amiga, Michelle [Obama].

minha religião é a música

Meu primeiro encontro com o Gospel — em Sacramento, maio de 2001.

Etta James, Nina Simone, Aretha Franklin, Sarah Vaughan, Morgana King, Billie Holiday, Mahalia Jackson, Ella Fitzgerald, Shirley Horn, Anita O'Day, Sharon Jones, Dinah Washington, Carmem Macrae, Ma Rainey, Bessie Smith, Whitney Houston, Tina Turner, Gladys Knight, Diana Ross, Martha Reeves, Janet Jackson, Rose Hemphill, Bessie Jones, Deborah Coleman, Koko, Taylor, Ida Cox, Alberta Hunter, Margaret Johnson, Trixie Smith, Memphis Minnie, Macy Gray, Missy Elliott, Me'Shell NdegeOcello, Tracy Chapman, Lil' Kim, Lauryn Hill, Eve, Mary J. Blige, Cassandra Wilson, Sade, Queen Latifah.

Quem já não viu filmes onde os negros norte-americanos cantam numa igreja? As mulheres com vozeirões potentes entoam palavras de louvor ao Senhor no coro; o pastor grita e gesticula para espantar o demônio e trazer a palavra de Deus aos seus párocos; homens, mulheres e crianças cantam, dançando com as mãos levantadas e espalmadas, dizendo palavras de concordância e contentamento.

Perdi as contas de quantas vezes vi essas cenas em telas de cinema e tv. A última vez foi umas semanas atrás, quando revi o clássico The Blues Brothers, e mais uma vez me encantei com a cena musical na igreja: o coro de mulheres e James Brown de pastor comandando a sessão de canto e dança dos fiéis, que culmina com Jake Blues [John Belushi] tendo uma epifania, envolto em luz, dançando e cantando com o resto dos negros na igreja.

Eu sou amante do Blues, a música do demônio, dos marginais, dos bêbados, drogados, do sexo, da dor de cotovelo, enfim, o oposto do que é cantado nas igrejas. O Blues e o Gospel não se misturam. Quem canta Gospel normalmente não canta Blues. Dois estilos tão antagônicos—onde um glorifica o Senhor e o outro faz pactos com o diabo—mas ao mesmo tempo tão similares na maneira gutural como a música é cantada, vinda da alma, em transe, em êxtase.

Minha longa experiência com o Blues tem sido gratificante, mas eu ainda não tinha tido a oportunidade de ouvir o Gospel na fonte, onde ele é mais genuíno e autêntico: na igreja. O meu dia finalmente chegou quando eu li no jornal que a Igreja Batista do Novo Testamento de North Highlands [uma das inúmeras cidades pertencentes à grande Sacramento] iria ter um concerto de Gospel aberto ao público, para celebrar o 'Women in White Workshop Choir'. Eu não tinha a menor idéia do que iria encontrar lá, mas estava decidida a ter finalmente a minha vivência da música negra sagrada de culto e devoção.

Era uma igreja pequena, na esquina de uma avenida numa área isolada. Quando chegamos, muitas mulheres vestidas de branco já estavam esperando na porta de entrada. Todas negras, sorridentes, perfumadas, alegres, em alvoroço, se preparando para entrar. Fomos procurar um lugar para sentar, meio tímidos, sorrindo também e uma senhora nos recebeu na porta, nos deu as boas-vindas e o programa da cerimônia. Fomos sentar na frente, na terceira fileira de bancos de madeira, porque eu queria ver, ouvir e fotografar tudinho, cada movimento, cada som, cada dó, ré, mi, sol...

O coral era composto por mais de 120 mulheres, com idades variando entre 5 e 75 anos, todas vestidas de branco. Quando os músicos [piano, órgão, bateria, baixo e saxofone] começaram a tocar os primeiros acordes da música inicial, elas começaram a entrar na igreja vindas da porta principal, que emoldurava o grupo numa luz brilhante de final de tarde. Elas entraram dançando em movimentos ritmados, pra lá e pra cá, e a partir daquele momento eu não consegui mais me achar ali naquele banco de madeira, tentando segurar a câmera e ao mesmo tempo disfarçar os borbulhões de lágrimas que rolavam descontroladamente pelo meu rosto. Fiquei tão emocionada que tremi todas as fotos. As mulheres mexiam os braços, erguiam as mãos pro céu e dançavam suavemente ao ritmo da música, cada uma achando o seu lugar no mundaréu de cadeiras arranjadas no fundo do altar da pequena igreja. Quando todas estavam em seus lugares, cento e tantas vozes potentes se soltaram num único som, cantando juntas 'He Made The Difference'.

Na igreja lotada fizemos a social com nossa vizinha de banco, que depois das apresentações perguntou à qual igreja pertencíamos. Balbuciamos algo confuso, pois na verdade não pertencemos à nenhuma igreja. Os vizinhos do banco de trás, dois casais nos seus 70 anos, comentavam sobre o último jogo do Sacramento Kings, o time de basquete da cidade. A celebração durou três horas, com muita música, palavras de louvor e até a benção do pastor, que chamou todos para pedir ou somente agradecer graças recebidas e os que foram ganharam uma oração, enquanto o resto gritava 'Amem!'', 'Alleluia!', 'Praise the Lord!', 'God is Mercy!', entre inúmeras outras exclamações de alegria e louvor.

As mulheres cantaram como divas, no coro e em solo. Algumas deveriam estar gravando discos e tirando lucro do seu enorme talento, mas ao invés disso elas escolheram dedicar suas vozes à igreja. Mulheres lindas, com sorrisos enormes, jovens, maduras, casadas, solteiras, todas negras, todas me emocionando às lágrimas e me deixando com uma sensação imensa de paz e alegria. Comentamos sobre todas as mulheres, famosas ou não, que cresceram cantando e ouvindo o Gospel nas igrejas onde as mães, tias, avós, irmãs, amigas, vizinhas também cantavam. Na saída, o senhor do banco de trás pegou na minha mão e deu tapinhas no meu braço enquanto dizia 'beautiful! you're beautiful!'. Confraternizamos com alguns dos fiéis, enquanto procurávamos um banheiro e alguém nos disse 'come back next year!'. Respondemos que com certeza voltaríamos. No espelho do banheiro, não vi onde estava a boniteza naquela cara desgastada, com os olhos inchados, que ardiam de tanto chororô desopilador. Mas o coração batia feliz, e eu suspirava de alegria e prazer, pois tinha finalmente experienciado o Gospel!

**Regressamos nos dois anos seguintes, participando de algumas celebrações e até de algumas missas. Paramos de ir à igrejinha de North Highlands quando numa das missas o pastor declarou enfático que ele gostaria que as pessoas estivessem ali por causa de Jesus e não somente por causa da música. Vesti a carapuça. O pastor estava certo. A igreja abriga aos que ali vão para expressar sua fé e louvar o Senhor. E eu só estava lá mesmo pela música, que é a única religião que eu sigo.

para ler na sala de espera

Nem todos que passam por aqui hoje são leitores antigos. Nem todos leram o vasto conjunto de historietas publicadas neste blog no decorrer dos anos. Por isso selecionei uma lista de textos fortes, para quem ainda não leu poder ler e para quem já leu poder ler de novo, por que não? São histórias variadas, que vão entreter bastante a todos, enquanto eu me teletransporto para outro continente—beam me up, Scotty. Até já! Hasta pronto!

ler.jpgMinhas madeleines

ler.jpgO que não é blogável

ler.jpgUm dia na vida de...

ler.jpgExcuse me

ler.jpgCor-de-rosa & fumegante

ler.jpgCaçarola musical

lá vem ela...

Sempre tomo um susto quando me vejo em fotos. E com essa, clicada pelo paparazzi, não foi diferente. Entendo que nunca nos vemos como realmente somos, temos uma idéia meio fantasiosa sobre a nossa figura, de como nos mostramos ao mundo. Portanto me surpreendi mais uma vez, ao ver a imagem de relance e ter mais uma pequena revelação. fer_old_sac_1S.jpgPrimeiro é muito incrível o tanto que eu estou ficando parecida com a minha mãe. Esse é um fato concreto que não precisa de foto para se mostrar, o espelho já é suficiente. Mas com fotos podemos analisar outras informações importantes, como nesse click casual ai ao lado, que mostra algumas peculiaridades da minha personalidade. O imperturbável descabelamento, as mil caretas que faço inconscientemente, o visual eclético com roupas folgadonas arranjadas em várias camadas, e é lógico, a indefectível câmera fotografica sempre em mãos.

Esse detalhe da câmera é revelador. Sempre carreguei minha câmera comigo, mesmo antes do advento das digitais. Lembro que carregava a câmera na bolsa e sempre tinha um acidente qualquer, porque uma das minhas mais fortes caracteristicas é ser desajeitada e atrapalhada. Então detonei muitas câmeras porque a bolsa caia no chão ou a câmera caia da bolsa. Nem digo mais. E com as digitais não foi muito diferente. A minha primeira câmera digital caiu no chão tantas vezes que num belo dia simplesmente pediu arrego, parou de funcionar, aposentou-se sumariamente. Também já protagonizei algumas cenas tragicômicas com a câmera na mão, como quando levei um tombo espatifante numa rua movimentadíssima em Fan Francisco enquanto tirava uma foto. Eu quebrei umas costelas, mas a câmera permaneceu intacta, num lance de pura sorte! Mas posso dizer com muito orgulho que melhorando muito nessa parte de deixar coisas cairem no chão. Aprendi que conforme a situação, o mais seguro é pendurar a câmera no pescoço, no mais infame estilo turistão. Aqui ninguém repara.

Desde que criei meu blog jurássico que a câmera virou acessório primordial, junto com caderninho e caneta, no mesmo nível do lipbalm e do pacotinho de lenço de papel. Na minha viagem a Portugal carreguei até lentes, uma grande angular e outra macro, que eu trocava conforme a necessidade. Deu um cansaço, mas o resultado, nas fotos lindíssimas, fez tudo valer a pena.

Carregar a câmera é tão praxe, que as pessoas que convivem comigo já se adequaram e não me deixam esquecer ou passar nada em branco. Estou sempre ouvindo daqui e dali—cadê a câmera? não trouxe a câmera? não esquece a câmera!

Um bolo crocante

Eu tinha uns dezessete anos quando peguei o ônibus noturno da Viação Cometa com minha amiga de infância e fomos juntas para a nossa cidade natal, que eu desejava ardentemente rever desde a minha partida aos doze. Lá fiz uma completa peregrinação, visitei as casas onde morei, fui ao rio onde costumava nadar, às pracinhas e escolas que frequentei, revi duas amigas, minha babá e fui também visitar uma antiga vizinha, que idolatrava a minha mãe. Dona Antonieta era uma mulher muito séria e me recebeu com café e bolo de fubá na sua simpática e singela casa de madeira acinzentada—daquelas com acabamento rendado no telhado, com certeza uma herança da imigração polonesa que fazia, com as imponentes araucárias, uma linda paisagem de cartão postal do norte paranaense.

Sentei na namoradeira de assento de palhinha trançada que era o centro da sala da casa simples da Dona Antonieta, e ela me serviu o café passado na hora e uma fatia do bolo quentinho, enquanto me fazia perguntas sobre a nossa vida em Campinas, e principalmente sobre a minha mãe. Eu dava garfadas no bolo e falava, apesar de estar também ouvindo as coisinhas que ela contava, quando mordi uma coisa dura e áspera. O bolo fez crec-crec-crec e eu tremi. Tentando não dar bandeira do meu susto e continuar ouvindo a história da gentil senhora, fui tomada por uma sensação paralisante e de completo horror—meusantoantônio, o que foi que eu mordi, o que tem dentro desse bolo?! Segurei firme os regurgitamentos nauseabundos já precipitantes pela minha garganta e consegui identificar que o que eu tinha na boca, misturado à massaroca mastigada do bolo, eram pedaços de casca de ovo!

Foram minutos de pânico mental e desespero. O que eu iria fazer? Cuspir a gosmeira toda sobre o prato, bem ali na frente da minha delicada anfitriã, que tinha feito o bolo ela mesma? Eu não podia fazer essa indelicadeza, iria ser muita brucutuzice, uma intolerável tosquice, uma atitude vergonhosa que a filha da minha mãe nunca faria. A única saída para aquela abalante situação seria superar todo o meu asco e pavor, mastigar as cascas de ovo e engolir o bendito bolo. Me vendo comer com tanta avidez, a gentil senhora já foi oferecendo—mais um pedacinho? Muito obrigada, mas não vou querer mais—respondi com os olhos lacrimejantes—apesar de que o seu bolo está realmente uma delicia!

um porquinho bem popular

Com minha mãe ao telefone, falávamos sobre comida. Ela me contava que tinha feito a receita da torta de tomate, mas tinha modificado um pouco a massa, e que ia fazer a torta de frango com abóbora. Depois contou do almoço do domingo na casa da minha irmã, que teve um menu diferente. Ao invés da macarronada de sempre, minha irmã preparou o frango piccata que foi servido acompanhado de um purê de feijão branco, que meu cunhado preparou baseado numa receita de um livro que ele ganhou de aniversário. É de um chef inglês, ela acrescentou. Gordon Ramsay, eu perguntei? Não, ela respondeu. É um que eu acho meio porco. Ah, o Jamie Oliver? Sim, esse mesmo! O que cozinha com as unhas sujas? Sim, ele é bem sujinho mesmo. HAHAHAHAHAHA! Gargalhadas profusas dos dois lados do telefone. Bom, felizmente tenho o respaldo da minha mãe, não foi só eu que reparou nas unhas sujas do porquinho popular....

a noite dos mortos-vivos

ou a bruxa escapou e está solta
ou a noite dos horrores pré-halloween

O resultado de querer correr uma maratona no final do dia, quando se deveria estar relaxada e sentada no sofá vendo um filme e bebericando de uma taça de vinho, foi um vidro de um litro do mais puro e saboroso azeite extra virgem, que veio como presente super especial dos amigos espanhóis de Córdoba, espatifado no meio do chão da cozinha. O resultado foi cacos de vidro por todos os lados, mancha imensa verde, oleosa e viscosa se alastrando e se infiltrando pelas ranhuras do chão de cerâmica, gatos dando pulinhos de curiosidade sem atentar para o perigo cortante iminente e uma mulher histérica chorando e praguejando com um rolo de papel toalha na mão, sem saber direito o que fazer.

Foi uma noite realmente assombrada, entremeada por outros tantos acidentes aterrorizantes, como o açúcar caro esparramado na bancada da pia, o remédio errado trazido da farmácia, o cansaço provocando dores nas costas e ainda o choque inesperado ao olhar no calendário e perceber que em dois dias será Halloween.

foi o esquilo que me encarou

Na frente da porta de entrada para a minha sala no meu trabalho tem um arbusto que se enche de pequenas flores no verão e que no outono viram frutos ovalados com uma cor verde bem escura. Esse arbusto é um pé de feijoa, uma fruta deliciosa também conhecida como goiaba mexicana. Eu levei muito tempo para me tocar que aquelas frutinhas eram feijoas, já que elas desaparecem rapidamente por serem vilmente atacadas e devoradas ainda verdes pelos esquilos.

Voltando da minha caminhada estica-pernas das três da tarde observei uma comoção esquilanesca nas proximidades do pé de feijoa. Foi quando peguei no flagra três esquilos, que já roiam covardemente as tais frutinhas. Minha presença e cara nada amigáveis fizeram com que dois dos esquilos se pirulitassem e fossem procurar por coisinhas comestíveis na grama de outra árvore mais próxima. Mas um deles não se moveu, ficou ali plantado e me encarou. O esquilo me encarou sem piscar, nem disfarçar, não abaixou a cabeça, não vacilou. Ele simplesmente me encarou. E eu encarei de volta, enquando ele subia pelos galhos da árvore, sem nunca virar a cabeça, sempre firme me encarando. O duelo de olhares durou alguns minutos. Foi emocionante. Não sei por que, mas eu tive quase certeza de que aquele esquilo era uma esquila.

dias de ventania
[descabelante]

Perdi hora pela manhã, o alarme não tocou. Isso acontece raramente, mas quando acontece desestrutura todo o meu dia. Acordar devagar, abrir os olhos com calma, espreguiçar, pensar na morte da bezerra antes de colocar os pés no chão, me desejar um bom dia, tudo isso faz parte da minha rotina matinal, que foi interrompida porque o alarme não tocou ou tocou e eu não ouvi. Me virei ainda semi-imersa num sonho para olhar o relógio e os números que vi me fizeram pular da cama num sobressalto assustado—sete e cinco!

Felizmente deu pra beber minha xícara de café, remoendo a perda dos preciosos minutos. Cara amarrada. Já saindo para a fazenda ele me perguntou—dormiu bem? A resposta era sim, dormi, mas não pude dizer que sim, já que estava amargurada pelo atraso. Mais ou menos, foi a minha resposta mal humorada.

O menu do jantar foi sopa de lentilha verde com alho e ervas. Colocar a receita aqui é chover no molhado, mas eu queria registrar. Começou a ventar horrivelmente. Uma pessoa que conheço, nascida em Upstate New York, sempre bradava num tom apocalíptico que na Califórnia quando chovia, chovia, chovia, chovia, e quando ventava, ventava, ventava, ventava. Eu nunca entendi muito bem essa reclamação exacerbada, mas é verdade que quando venta, realmente venta e venta enlouquecidamente e descabelantemente por vários dias.

Dormi com o barulho dos galhos da árvore chicoteando o telhado da casa. O cachorro do vizinho latia sem parar, chorando. Vento, vento, vento, vento. A manhã chegou gelada e eu perdi hora, perdida no sonho, sonhando com algo que nem mais lembro.

S.O.S Kitchen

Uma caixa de primeiros socorros fica permanentemente numa das gavetas da cozinha. Não estou querendo me fazer de vitima aqui, mas eu me machuco TODO SANTO DIA e garanto—juro, que muitos desses pequenos acidentes não são minha culpa. Eu me corto na folha do livro de receitas que estou olhando, na borda da forma de metal que estou lavando, ou quando vou pegar uma louça no escorredor fatio o dedo no mandoline que está ali proximo, e queimo os pêlos do braço nem sei como, e quando estou refogando algo no azeite quente uma lasca de comida dá um salto de trapezista e aterrisa dentro do meu olho, me corto na borda da lata vazia de comida dos gatos quando vou colocar outra coisa na lata de lixo, prendo o dedo fechando a gaveta ou tampando a panela de ferro. Manchas roxas, cortes sangrentos ou cascudos, bolhas, esfolamentos e cicatrizes abundam. E pra completar essa minha rotina de cumprimento da pena cármica, ainda tem o animal. Sim, o animal, aquele que sempre me espera passar pelo tapetinho entre a sala de jantar e a cozinha pra dar o bote. Sim, o bote que é de brincadeira, mas às vezes machuca. Ele não tem intencão de machucar, mas quando eu passo ele dá um pulinho e lasca uma patada. O alvo da patada é a minha perna. E as patas têm garras afiadas. Então nesta semana eu já colecionei uma bolha, um corte do mindinho, um dedo roxo esmigalhado e três arranhões gigantes na parte de cima do meu pé esquerdo, perpetrados pelo animal, o ANIMAL!

ninguém engana o lobo

Relendo um dos capítulos de Como Cozinhar um Lobo da M.F.K. Fisher, caí na gargalhada quando li essa passagem, onde ela comenta a nossa neurose em encobrir os cheiros causados durante a preparação da comida. Sendo eu uma dessas, que fica um pouco neurotizada com o cheiro de cebola frita, vesti a carapuça.

"Você pode fazer um acordo, encobrindo um cheiro com outro. Você pode fazer isso, seguindo os ensinamentos da escola Stark de Realismo, acendendo um pedaço de jornal amassado e correndo pelos cômodos da casa com o jornal esfumaçado. Você pode, mais efetivamente [e mais ajeitadamente] pingar gotas de óleo de eucalipto ou pinho numa placa de metal quente e movimentá-la pra lá e pra cá. Se voce quiser se sentir como um personagem dos irmãos James num vago momento romântico, você pode pode pingar umas gotas de óleo de lavanda numa bacia de prata cheia de água quente. E se você é alguém que eu não conheço, e mais que isso, não me importo de nunca conhecer, você pode queimar um pequeno cone de incenso. Ou você pode assar a carne, fritar as cebolas, refogar o alho no vinho tinto... e me convidar pra jantar. Eu nao me importo, realmente, mesmo que seu nariz esteja meio brilhante, contanto que você se sinta confiante e certa de que lobo ou nao lobo, sua mente é sua e seu coracão é de alguém e portanto está no lugar certo."

Fisher era uma mulher com uma prosa fina e uma língua afiada. Ela tinha uma maneira elegante, porém direta, de dar uma opinião. Mesmo sendo uma daquelas encucadas com a possibilidade do meu cabelo estar cheirando a bife frito, concordo com cada palavra desse parágrafo e reconheço o ridículo de tentarmos encobrir o efeito das nossas aventuras culinárias. Mas mesmo assim, quando eu acho que devo, fervo umas emanações com cascas de laranja ou pauzinhos de canela. E lavo o cabelo. No entanto, certamente como a Fisher, não me importo de nunca vir a conhecer pessoas que queimam incenso!

choque cultural & feijão preto

Meus anos no Canadá foram um laboratório que me preparou para adotar um novo país. Lá eu não era imigrante, estava somente de passagem, mas mesmo assim inicialmente passei por todos os processos de adaptação necessários para me integrar a uma vida nova, com clima novo, língua nova, elementos culturais novos. Acontece com todo mundo, aconteceu comigo. O surto maior durantes todos os meus anos canadenses foi não poder lavar o banheiro. Onde está o maldito ralo?? Era a pergunta que eu não conseguia fazer calar, até aceitar o fato inexorável de que naquele país não se lava banheiro e pronto. Não foi fácil, mas todos os choques culturais que enfrentei lá me ajudaram numa adaptação mais tranquila aqui. Eu já cheguei nos EUA ajustada.

Um dos processos pelo qual passei foi o da aceitação dos novos ingredientes gastronômicos locais e o da autenticação da cultura gastronômica que eu trazia comigo. Você quer mostrar de onde veio, não só através da língua, música, costumes e comportamento, mas também através da comida.

A universidade que engoliu meu marido num programa de PhD promovia todo inicio de ano letivo sessões de orientação para os novos estudantes internacionais. Tendo participado do evento na condição de esposa do estudante internacional, percebi o quanto era importante tudo aquilo. Me inscrevi como voluntária para trabalhar nos anos seguintes. Havia posições em diversos pontos estratégicos, você podia ser guia de tours, dar palestras, ajudar na organizacão dos eventos acadêmicos ou culturais e também poderia ajudar na cozinha. Serviam-se lanchinhos para os participantes, que eram preparados e empacotados pelos voluntários da cozinha. Nem preciso dizer que a cozinha era o lugar menos atrativo, pois todos queriam voluntariar em posições mais bacanudas, demonstrando suas habilidades intelectuais e interagindo mais intensamente com o grupo de organizadores e os novos estudantes. Ser voluntário na cozinha não tinha concorrência, muito pelo contrário, nem sempre conseguíamos um número necessário de pessoas. Mas todo ano eu estava la, junto com os sempre presentes usual suspects. Era uma turma legal, com estrangeiros e nativos, que devido ao confinamento e as horas passadas juntos cortando cenouras em tiras ou tomates em rodelas, formou algumas boas amizades.

Mas o bacana desse voluntariado na cozinha era que no último dia da orientação rolava um banquete organizado por nós. Tínhamos que trazer pratos típicos de diferentes países, geralmente doados ou feitos pelos próprios voluntários. Essa era a parte que eu mais gostava, pois chegava a hora daquela gente bronzeada mostrar o seu valor, abafando com um belo e saboroso prato tradicional brasileiro. Desde o primeiro ano, a feijoada tinha sido eleita por mim o prato fino da bossa para representar o Brasil no banquete. Porque era bem típico, tinha uma história legal pra se contar se precisasse entreter a galera curiosa e era fácil de fazer em quantidade. Eu adaptava as linguiças, usava as polonesas e russas que abundavam por lá e adicionava beef jerk no lugar da carne seca. O resto eu fazia igual, feijão preto, bacon, alho, azeite, folhas de louro, panelão que cozinhava por longas horas até o caldo ficar grossão. Quando eu finalmente levava a panela de feijão para a festa era um extase coletivo. A minha feijoada era o prato mais esperado da noite, seguido pelas samosas preparadas por uma senhora indiana e que eram, sem dúvida nenhuma, as melhores que já comi na minha vida. No dia do banquete os voluntários da cozinha saiam do ostracismo do confinamento e viravam estrelas, protagonistas da festa. Vestidos com nossas roupetas mais bacanas e ostentando os nossos sorrisos mais amigáveis, servíamos os rangos internacionais, explicando fatos de cada país, tradição e ingredientes. No meu caso, quando eu me prostava em frente ao panelão segurando a concha que eu mergulhava sem parar na deliciosa feijoada, era só dizer—Brazilian black beans para provocar um excitamento geral na malta, que às vezes se recolocava novamente na fila para, timidamente, pedir para repetir. Nem sempre sobrava para os voluntários, então adotamos o hábito de separar porções individuais da feijoada antecipadamente. Claro que todo ano durante o banquete tinha sempre um ou outro que fazia aquela cara de fuínha quando eu pronunciava as palavras mágicas—Brazilian black beans. Se a cara entortava em sinal de nojo ou medo, eu já dizia sorrindo—acho que você vai se arrepender, e não vai poder voltar atrás, porque os feijões brasileiros NUNCA sobram pra contar a história!

a falta que a magrela faz

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Na capital americana das bicicletas encontra-se de tudo, desde as magrelas mais sofisticadas feitas com material levíssimo, altas tecnologias aerodinâmicas, passando pela multidão de bikes comuns, outras inusitadas, daquelas com apenas uma roda ou um banco altíssimo, onde o ciclista pedala deitado ou totalmente em pé. Davis é realmente uma democracia de bikes com espaço para as caríssimas e brilhantemente novas, as não tão novas, as velhas, e velhíssimas, chegando até aos cacarecos caindo as pedaços. A minha magrela é antiga, da marca Schwinn e cor azul, com duas cestas dobráveis de metal atrás. É uma cruiser, isto é, uma bike pra se andar na boa, sem se esbaforir, sem correr. Ela não é bicicleta com marcha, pra dar velocidade, ela é bicicleta pra passear, cruzar o parque tranquila. Eu escolhi essa bike por acaso, porque ela simplesmente apareceu na minha frente e eu achei que ela era perfeita pra mim. Ela é uma bicicleta alta, com banco alto, guidão alto, carregava um estudante gigante pra lá e pra cá e quando ele terminou o curso e foi embora eu fiz uma doação e fiquei com a magrela. Que bicicleta boa, minha gente! Já viu gente alta pedalando bicicleta comum? É de dar pena. É uma corcundice tórpida, uma abertura de pernas patética, gente alta precisa de bicicleta alta, por isso eu me encantei com essa magrela azul. Ela me deixa ereta, não me faz dobrar, me deixa elegante mesmo na tarefa inglória que é pedalar contra o vento ou sobre a chuva. Minha magrela é uma cruiser com breque de pé, que no começo me pareceu uma coisa da era das cavernas, mas com o tempo se acostuma a usar e hoje eu nem sinto a diferença. Estou sentindo é a falta dela nesses dias, quando tive que caminhar pro trabalho. Nem vou dizer que caminhar não deu certo, na minha atual condição. No final acabei tendo que dirigir, o que pra mim é quase um crime. Gastando gasolina pra ir daqui até ali. Mas tudo bem, enquanto não posso pedalar, vou fazer uma reforma na minha magrela, trocar o banco, os apoios do guidão e finalmente instalar um pára-lama, que faz uma falta danada todo inverno.

*na foto o meu irmão Paulo, um moço muito altão, pedala alegremente a minha bike azul com minha sobrinha Paula de carona, num lindo dia de inverno no Arboretum.

vamos tentar, então?

Eu subestimei um bocado essa operação-procedimento-tratamento que fiz. Achei que a recuperação iria ser muito fácil, assim num estalar de dedos, mas não está sendo. Pelo menos já estou fora da caverna, i.e., quarto. Não aguento mais ficar sem fazer nada, vendo e pensando em tanta coisa pra fazer. Resolvi que, conforme anteriomente planejado, amanhã estarei de volta ao trabalho. O único porém é que não posso pedalar a bicicleta e estou caminhando como uma anciã, então vou ter que planejar muito bem o meu dia e certamente almoçar no trabalho. Essa é a parte mais chata de tudo, pois gosto de vir almoçar em casa, de quebrar a rotina, sair da frente do computador, ver os gatos, às vezes até tomar um banho nos dias quentes. E dias quentes serão. Gastei algumas das minhas horas inertes fazendo planos—será que levo uma toalha pra estender na grama mais próxima, fazer da minha hora de amoço um picnic time e ainda poder deitar e relaxar? Mas isso involve carregar a toalha e todos os cacarecos na minha caminhada pela manhã. E se estiver muito quente, não vou querer lagartixar na grama. Levo um chapéu? Levo minha sombrinha portátil? E a parte de higiene, escova de dente, fio dental, preciso levar também. Não quero fazer como os meus colegas, que comem sopa de lata, bolinhos microondáveis ou gororobas compradas prontas em frente ao computador. Mas não quero ficar na toca nem mais um dia. Ainda estou pensando como vou fazer, mas já decidi que vou fazer. E pronto!

A paciente orgânica

Enfermeira—você pode ficar para o jantar, se quiser. servimos às 6pm.
Fer—eu realmente não quero desperdiçar a sua comida…
Enfermeira—ha ha ha! mas se quiser, fique à vontade!
Fer—acho que prefiro beber um copo de leite em casa [e sonhar com um curau de milho que deixei na geladeira]

Eu entendo que hospitais em geral aceitam requisição para dietas especiais, kosher, vegetariana, mas nunca ouvi falar que houvesse opção para os naturebas como eu. Portanto já fui consciente de que qualquer rango que me servissem lá iria ser abominável. Felizmente casquei fora a tempo, antes que eles viessem me empurrar o jantar sem sólidos, que prometia ser monstruoso. Não comi realmente nada lá. No dia seguinte o Uriel me serviu de colher um potinho de suco de cranberry e uva e outro com uma gelatina cor de xixi de alienígena. Algumas horas depois já estava tudo devolvido, já que as náuseas me atacaram ferozmente no primeiro dia. No segundo dia me trouxeram um chá preto com açúcar, outro suco de cranberry, outra gelatina fluorescente [passa, passa!], água com gelo, soda limonada horrivelmente doce, um caldo de carne e crackers salgadas. Nada entrou, nada desceu, simplesmente não deu. Pior é que quando me vejo assim frágil, como no caso de uma estadia num hospital, eu fico extremamente franca e portanto não escondi o meu desprezo por aquela comida sem criatividade, sem nada especial.

Se eu fosse a Alice Waters, delirei, teria um grupo de chefs na cozinha do hospital, cozinhando só pra mim—a paciente orgânica. Mas como sou uma simples ninguém, não posso exigir na bandeja um copo de suco de cenoura fresquinho ou gelatina feita com frutas sazonais, ou mesmo umas bolachinhas de farinha de centeio. Isso eu só posso ter em casa. Por isso não via a hora de ser liberada daquelas quatro paredes verdes, onde eu só dormi, dormi, dormi e dormi, alem de apertar o botão dos narcóticos que me faziam vomitar, e dormir mais e mais.

No segundo dia, quando acordei totalmente desgastada e descabelada, depois de uma noite de náuseas e vômitos constantes entre as dormidas impostas pelos narcóticos que me fizeram sonhar sonhos muitos estranhos, a enfermeira veio fazer o exame dos sinais vitais, que são feitos a cada hora, eu presumo. Eram sempre duas, a enfermeira registrada e a assistente. Sempre extremamente gentis, essa em particular olhou o bracelete com meu nome e idade e exclamou—nossa, mas você não aparenta ter quarenta e seis anos! Eu e o Uriel nos entreolhamos com um sorriso sem graça e eu com aquela cara amarfanhada e torturada respondi—nas atuais circunstâncias, ouvir isso é muito lisonjeiro. Acho que essa é uma das profissões mais honoráveis que existem, porque essas mulheres e homens lidam com a miséria humana, histórias tristes passam pelas mãos desses profissionais todos os dias. E muitas vezes eles vão até o final, até a morte do paciente, cuidando, sorrindo, sendo gentis e falando coisas pra te animar e te colocar mais alegre. No meu caso não foi nada dramático, mas ser tratada com carinho e atenção ajudou bastante no processo.

Ainda estou tendo muitas dores e ontem tive uma febre que só baixou de madrugada e que me assustou um pouco. Estou descansando bastante, vendo muitos filmes na tevê e comendo os ranguinhos brejeiros que o Uriel tem trazido dos meus restaurantes favoritos. Estou alimentando esperanças de que meu corpo vai colaborar e ficar bom logo, e fazendo planos de voltar à minha rotina na segunda-feira. Bicicleta, porém, só no final de agosto. Muito, muito, muitíssimo obrigada à todos que deixaram uma palavrinha aqui, desejando boa sorte e boa recuperação. Senti ondas confortantes de extremely good vibrations, que vieram em ótima hora!

dias de jejum forçado

A primeira e última vez que dormi num hospital foi quando meu filho nasceu, há vinte e seis anos. Portanto não posso me considerar uma pessoa experiente em estadias hospitalares e nem me sinto muito animada com a perspectiva de tubos, macas, enfermeiros, monitores. But a woman's gotta do what a woman's gotta go, então hoje pela manhã me internarei no hospital para fazer um tratamento chamado EMBOLIZAÇÃO UTERINA.

No ano passado uns exames detectaram entidades invasoras residindo no meu útero. O aparecimento dos famigerados fibromas parece ser uma coisa normal em mulheres de mais de quarenta anos. Eles são considerados tumores benignos e não causam nenhum risco, mas se desenvolvem e se multiplicam, evoluindo rapidamente para um quadro de sintomas realmente duros na queda. Eu já estou hospedando muitos, inúmeros, incontáveis fibromas e eles já estão fazendo a minha vida bem miserável. Na busca por uma solução fui colocada frente a frente com a possibilidade de fazer uma histerectomia, que é o procedimento de remoção do útero. Fiquei muito perturbada com a idéia de remover uma parte do meu corpo e eu e o Uriel fomos atrás de mais informação. Descobrimos que noventa por cento das operações de remoção do útero relacionadas à problemas com fibromas são totalmente desnecessárias e que há tratamentos alternativos. Tive várias consultas com minha ginecologista e, depois que optei pela embolização, também com a radiologista que vai comandar a ação e que me explicou todos os micro-detalhes desse procedimento muito menos traumático e agressivo.

Vou pro hospital em jejum, levando comigo minha malinha com alguns objetos pessoais e meu indefectível e robusto mau humor matinal. Estou ciente de todos os pormenores e de como meu corpo deverá reagir a esse tratamento. Já sei que vou ter que ficar uns dias de molho, sem poder cozinhar ou inventar muita moda. Tirei uma semana de licença saúde, que é o tempo que me disseram que vou precisar para me recuperar. Mas estou na expectativa de estar boa antes disso. Até breve então!

um dia em fotos

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Lembro que naquele dia eu acordei com a macaca e com mil idéias na cabeça. Com a câmera fotográfica já preparada, rolos de filmes extras, fui avisando—Gabriel, vamos registrar o seu dia em fotos! E ele, como o menino mais lindo do mundo que ele sempre foi, topou. Quem tem um avô que te fotografa em todas as poses possíveis e uma mãe engraçadona que te pega no flagra quando VOCÊ ESTÄ MEDITANDO NO DÁBLIUCÊ, não estranha quando recebe a proposta de ser modelo da própria vida. Então fomos lá, eu passei o dia atrás dele, clicando. Só não tirei fotos dele tomando banho, porque ele não quis e tive que respeitar. Mas começamos com o acordar, que obviamente na foto está todo encenado, já que a janela está escancarada, o quarto cheio de luz, ele está de óculos e com a boca suja de leite com chocolate, que era o que ele sempre bebia no café da manhã. Depois continuamos com ele estudando, ou melhor, fazendo as tarefas da escola, depois almoçando a comidinha natureba com aquela cara de alegria que ele sempre fazia em frente ao prato cheio de arroz integral e agrião refogado, depois escovando os dentes na frente do espelho—que ficou uma foto criativa, admito. Fizemos o set do cotidiano, que depois eu colei em sequência num pequeno álbum, para guardar para todo o sempre, afinal a gente esquece detalhes com o tempo, e naquele tempo não havia blog nem foto digital, era tudo muito mais dependente da sua memória, boa ou ruim, natural ou ginkobilobada.

fatos da foto:
Estava friozinho, pois ele estava dormindo com o acolchoado de lã de carneiro da minha infância. Minha mãe mandou fazer um pra cada filho, os dos meninos azul, os das meninas vermelho. O Gabriel herdou o meu.

Tinhamos voltado da Bahia fazia pouco tempo, pois o Gabriel está com as fitinhas do Bonfim no pulso e atrás da cama dá pra ver um pedaço do berimbau que ele veio carregando paulistamente no avião.

Filho de peixe. Ele dormia de camiseta, como o pai e a mãe. Somos uma família que nunca teve pijamas. E ele fazia o que eu faço até hoje, dormia com o cabelo molhado e com uma toalha no travesseiro e depois acordava com aquela cabeleira do zezé, com tufos super ondulantes só de um lado da cabeça.

litros, litros e mais litros

Acho que nunca bebi tanta água na minha vida, nem nos meus tempos de nadadora assídua. Com esse calor seco, reidratar é imprescindível e eu acordo e durmo bebendo água. Durante minhas horas de labuta isso irrita um pouco, pois provoca mais idas ao wanderley. Hoje, além dos quarenta e um graus celsius, está um fumacê horrível provocado pelos incêndios que, como todos já devem ter visto nos noticiários, estão castigando o norte da Califórnia. Nós estamos sentindo a calamidade pela névoa amarela e ardida que envolveu o nosso céu. É um cheiro tão forte de madeira queimada, que me faz ter vontade de chorar.

Ontem, jantando sozinha na mesa da sala, olhei para o quintal e vi através da porta de vidro a criaturinha delicada ali perto dos arbustos de lavanda. As perninhas finas, como as do Pernalonga, as orelhonas pontudas esticadas, os olhinhos meigos e o focinho mexendo pra lá e pra cá. O gato Roux já começou a bufar com a visão da lebrezinha, que permaneceu impávida, sem perceber que uma humana e um felino a observavam com diferentes intenções. O Roux mudou até de posição, depois de janela, para poder ver melhor. Eu parei de comer, parei de ler a revista que estava me acompanhando na saladinha de pepino com queijo feta e fiquei olhando com uma cara de parva sorridente apatetada até a lebrezinha dar um pulinho e desaparecer da minha vista tão rápidamente que nem vi pra onde.

Com esse calor miserável, senti muita pena da lebre pernalonga e orelhuda lá fora. Parei tudo que estava fazendo e fui até o quintal onde arrumei uma vasilha bem no meio do piso de tijolinhos e enchi de água fresca. O bichinho vai desidratar, ele precisa de água!

Mais tarde, contando o episódio pro Uriel, ele me disse que esses animais se viram muito bem e que chupam a água dos matinhos e plantinhas. De sede eles não morrem. Especialmente naquela selva que é o meu quintal.

La Sorpresa de Bertha [18/07/99]

[* relato de uma festa mexicana que fui, num dia de verão no século passado.]

Tive um sábado diferente, porque o Uriel está viajando e fui convidada por uma amiga para uma festa hawaiiana de aniversário mexicano. Fui, porque recebi o convite feito com tanta alegria e entusiasmo que não pude dizer não. Além do mais minha outra opção de lazer era boiar na piscina, de novo, e então optei pela novidade.

Me arrumei rapidinho, sem requintes, com um vestido longo preto nesse meu jeitão minimalista, embora tenha colocado uns brincos antigos que tenho, e esperei pela minha amiga, que chegou toda colorida e sexy de sarongue curto e tamancos de Carmem Miranda.

Ela foi dirigindo até Winters—uma das cidades-gueto dos mexicanos, onde a festa iria acontecer. Lá nos encontramos com três irmãs dela, nos aboletamos numa van bacanosa e fomos, matracando e rindo, para 'la fiesta'. Eu de preto e as irmãs Rosalba, San Joana, Irene e Mari todas coloridas, de colares, anéis, pulseiras de ouro, maquilagem caprichada e 'tacones altos' brancos.

Fomos os arrozes da festa. Chegamos e a anfitriã ainda estava passando aspirador no carpete azul turquesa dos cômodos da casa. Ajudamos um pouquinho, papeamos um pouquinho e ficamos encantadas com a decoração no quintal, com tendas e mesinhas ao lado da piscina, tudo super bonitinho, com enfeites hawaianescos por todos os cantos. Logo apareceu um D.J. de bigodinho, que colocou o som pra rolar na caixa—'suave, suave, besa me suave'—cantava a sensação latina do momento, um rapazola porto-riquenho chamado Elvis Crespo. Devoramos nachos com salsa 'picantíssima' e tomamos refrescos e margaritas geladíssimas!

Bem mais tarde chegou a aniversariante, Bertha, que fazia 40 anos. Todos se amarfanharam na garagem pra gritar 'sorpresa!!'. Foi tudo muito bem planejado. A Bertha ficou chocada, chorou, abraçou todo mundo, emocionou-se. Até eu fiquei com lágrimas nos olhos, de tão comovente que foi a surpresa. E fiquei parada lá, sem saber nem mesmo o que dizer, porque não conhecia a Bertha, nem absolutamente ninguém, além das irmãs Muñoz. Eu era a mais perfeita 'bicona', além de ser a única não vestida em trajes hawaiianos.

Com a Bertha recuperada da emoção, fizemos a fila pra comida. Muita comida. Diversas saladas, vários tipos de arroz, uns frangões e carnonas assada. Pão pra acompanhar. E mais salsa picante. Comemos, comemos, bebemos, bebemos, conversamos muito e até recebi elogios ao meu portunhol. Eita gente simpática!

Os mexicanos são todos uma grande família. É meio assim como a gente. Todos se conhecem, são comadres, cunhados, primos, amigos de infância. Eles imigram e trazem o avoilo e a avoila, as tias e tios, os vizinhos, daí se agrupam e vivem felizes no estrangeiro sem sentirem-se estrangeiros. Uma façanha cultural.

Depois de muito comer e 'chismear', rimos com a farra da piñata, aplaudimos a Bertha abrir os 'regalos', cantamos 'feliz cumpleaños', comemos 'pastel' com flan, nos despedimos de todos com muitos abraços e dizeres de 'muchas gracias!' e fomos embora, comentando de tudo e todos. Eu ri muito, prestei muita atenção nas conversas e tive um dia muito bom, riquíssimo e suavissimo, gracias, gracias, besos, besos!

esse papo já tá qualquer coisa

Minha rotina depois do jantar é subir pro meu quarto, ligar a tevê sempre no mesmo canal e clicar no guia pra ver o que está passando ou o que vai passar e assim poder planejar se vou assistir algo no canal ou colocar um dvd. Depois entrar no banheiro, sempre acompanhada por um dos gatos—se for o Misty eu tenho que abrir a água de uma das pias, se for o Roux vou ter que ficar conversando um pouco com ele, que vai miar com uma voz esganiçada que nos faz dobrar em riso. Tomo o meu banho, faço toda a rotina de escovação de dentões e hidratação de corpão, volto para o quarto e vou ler meus livros e ver meus filmes. Ontem já tinha decidido que não iria ver o filme que estava passando no TCM, o meu canal vitalício—The Joy Luck Club. Eu já vi e revi esse filme, inteiro ou em partes, inúmeras vezes. E todas as vezes eu me debulho em lágrimas. Não tem jeito, o filme é um clássico tearjerker pra desopilar o fígado e lavar a alma. Então quando saí do banho, já pensando qual seria o dvd que iria escolher pra assistir e de olho no livro que estou lendo, sentei na cama ajeitando as costas nas muitas almofadas e pow—não consegui mais descravar o olho do filme, que já estava pra lá da metade. E lá fui eu outra vez, chorar de dar bafão, de assustar os gatos, daqueles choros com gemidos, dolorido, que parece que os dentes vão cair e a cara vai estourar, que me deixou esbugalhada, cansada, fungando e de olhos ardendo. Quando o filme terminou com o encontro das irmãs, meimei! meimei!, eu já estava um farrapo humano, suspirando com uma cara aparvalhada. Fui dormir.

O resultado do chororô da noite foi uma cara matinal de pinguça, agravada por uma dor de cabeça que veio galopante e me deu um baita de um coice no crânio. Estou acordada há quase quatro horas e ainda sinto as sequelas da miserável. Somente o Blues poderá salvar este famigerado dia. Escrever também ajuda.

Estou pensando no futuro, no que vou fazer amanhã e em novembro. O dia vai ser quente, mas está nublado e esfumaçado, um ar pesado e poluído devido aos incêndios que se alastram pelo norte do estado. Isso tudo desanima, até de cozinhar e comer. Tenho me dedicado às receitas simples, rápidas e fáceis. Minha cozinha está cheia de produtos fresquinhos de verão, mas eu não ando entusiasmada. Os deliciosos tomates maduríssimos viram uma simples salada ou são combinados com alho e manjericão numa panela de pasta de rodelinha. Chegou um maço tão gigante de manjericão na cesta orgânica, que fui obrigada a fazer um pesto. Usei uma mistura de nozes e pecans, que era o que eu tinha, Torrei as nozes e as pecans e fiz como manda a receita clássica. Usei um pouco da água do cozimento da pasta pra diluir o pesto, dica da Marcella Hazan que já adotei. No outro dia fui às compras e fiz couscous com cranberries secas e pinoles. Mais um rango simples, servido com salada, porque não ando muito insoirada. E há muitas batatas. Batatas amarelas, brancas e roxas, que chegam toda semana, junto com as folhas verdes, que eu decidi impôr férias, então retiro da cesta lá mesmo na fazenda e coloco numa cesta onde acredito as pessoas doam o que não querem pra uma tal de Kara. A cesta de verão é realmente colorida, com muitos tipos de abobrinha, tomates e algumas frutas. Nesta semana chegaram figos, roxos e verdes, que foram devorados em minutos.

O website da UC Davis traz uma reportagem bacana sobre sustentabilidade e nela vocês poderão ver um pouquinho da fazenda orgânica dos estudantes, de onde vem a minha cesta semanal. Em Planting the Seeds of Change, clique no audio slideshow da direita, Student Farm lessons.

um pau pra toda obra

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Vocês já pararam pra pensar que alguns utensílios de cozinha são clássicos. Nós só precisamos ter um exemplar de cada e nem é absolutamente necessário que eles sejam bonitos, que estejam acompanhando o último grito da moda & design, que sejam feitos com o melhor material, talhados em modelos ultra-modernex e cheios de incrementações tecnológicas. Porque o trabalho que eles realizam independe de visual, de material, de luzinhas piscando e cores fosforescentes.

Outro dia tirei meu rolo de macarrão da jarra onde ele sempre fica e ao invés de só fazê-lo trabalhar desengonçadamente [mea culpa, admito], olhei pra ele com uma atenção incomum. Ele é um rolo de macarrão completamente sem glamour. Lembrei que ele foi uma das primeiras coisas que comprei para a minha casa californiana. E adquiri rapidamente porque é imprescindível que toda casa, mesmo as que ainda nem tenham panelas, tenha um rolo de macarrão. Comprei o meu numa garage sale que alguém nos levou. Comprei o rolo de macarrão, usado e meio rachado, junto com uma caneca rústica de cerâmica azul, que aindo tenho e que foi por anos a minha favorita. O rolo de macarrão vem trabalhando incansável por anos e anos, sem nunca dar problema, sem me deixar na mão, abrindo toda e qualquer massa para torta ou massa para pizza, com uma funcionalidade excepcional.

Meu rolo de macarrão é um utensílio de segunda mão, de madeira comum, com um pequeno racho, um pouco desengonçado no manuseio [mea culpa, admito], com uma cor desbotada, mas sempre botando pra quebrar eficientemente no serviço que lhe foi designado.

jazz it up

Bob Dylan na rádio paradise, furando onda no sonho, café sem açúcar, miçanga mania, limões crescendo na árvore, água azul cristalina, móbile de galinhas na janela da cozinha, vento refrescante no rosto, picolé de frutas tropicais, pilhas de papéis, linha azul turquesa, pêssegos saborosos, Nando Reis é um titã, menta chocolate secando, cestinha de pano listrado, telefonema feliz de Paris, lista de coisas pra fazer, gargalhadas a dois, sorvete de creme, mensagem com boa notícia de Campinas, chinelo de dedo, pequena viagem, alface com azeite, muitas revistas, foto nova no porta-retrato, cinco moedas de um centavo, cheiro de grama e terra, gato espiando na porta, colares coloridos, camiseta sem manga, querer é poder, postal da Grécia, lavanda, filme do Hitchcock, uma rosa vermelha no vaso, oitenta e sete graus. [num junho em 2004]

Não foi desta vez, outra vez

Meu marido pode ser considerado um obstinado Sir Lancelot em busca do Santo Graal quando se trata de encontrar a pizza perfeita, ou a melhor pizza de Sacramento. Há anos ele busca por esse tesouro escondido em alguma esquina de algum bairro da capital do estado da Califórnia. Já fomos à muitas pizzarias na cidade, sempre na esperança de que ali iremos comer a melhor pizza, mas nunca realizamos tal façanha. De qualquer maneira, meu darling Lancelot não desiste nunca e no potluck dos blogueiros de Sacramento ele não perdeu a chance de fazer o seu invariável questionamento: onde comer a melhor pizza? Uma das garotas do Sac Foodies indicou uma pizzaria chamada Luigi's.

No domingo, fui fazer um exame em Sacramento na hora do almoço e quando saimos da clinica, resolvemos ir checar a tal pizzaria. Eu sabia que ele não iria sossegar enquanto não fosse até lá verificar se a pizza estava à altura da recomedação de uma foodie.

O Luigi's Pizza Parlor fica numa esquina num bairro bem desprivilegiado da cidade. É um lugar pequeno, que serve pizza sem muita frescura desde a década de cinquenta. Pedimos uma meio queijo, meio linguiça portuguesa e sentamos numa das mesas simples do lugar, ansiosos pela experiência. As opções de bebida eram refrigerante ou cerveja. Algumas pessoas estavam lá só bebendo cerveja. O menu incluia também alguns tipos de pasta e sanduiches. O Uriel ficou um pouco decepcionado logo que viu que o forno não era a lenha. Mas eu me animei quando vi dois senhores abrindo a massa e preparando as pizzas com esmero. Eu estava sem poder comer desde manhã e já tinha visões de bolinhas flutuantes quando a pizza finalmente chegou na nossa mesa. Veredito: não é a melhor pizza de Sacramento! A massa estava ótima, fininha, bem seca e crocante. O molho não era dos piores, mas também não se sobressaiu. O problema maior foi a escolha de adicionar linguiça portuguesa, que realmente foi uma mancada nossa—ou melhor, minha, pois fui a autora da idéia, talvez neblinada pela fome. Comemos, mas não tivemos uma epifania na primeira mordida. Foi uma experiência mais uma vez ordinária.

Notamos uma clientela bem eclética na pizzaria. Na mesa ao lado da nossa sentaram-se três meninas negras, vestidas iguais e falando sem parar no celular. Não pude deixar de notar uma delas, que era extremamente bonita e poderia ser uma modelo, se tivesse a chance. Elas riam muito e falavam o tempo todo. Mas o lugar tinha muito barulho, produzido por uma tevê gigantesca onde passava notícias de esportes e por uma jukebox onde tocava sucessos da Motown. Não estava dando pra ouvir o que as meninas falavam, mas uma delas se virava toda hora e dizia pra nós—I apologize! [eu peço desculpas] Eu estava boiando total, fiquei pensando será que estou encarando muito, porque às vezes eu encaro sem perceber, ainda mais que fiquei realmente encantada com a beleza de uma delas. Mas não tinha nada a ver comigo, pois no final uma delas disse—I apologize! Is too much cursing for you? [é muito palavrão pra vocês?] Eu respondi sorrindo que não era problema algum, pois nem estávamos prestando atenção. Embora eu não tenha realmente notado nenhuma linguagem chula que elas provavelmente estavam usando na conversa, não pude deixar de notar uma coisa chocante que uma delas fez. Além de salpicar a fatia de pizza com aquele queijo ralado vagaba que é muito comum nas pizzarias daqui, esbugalhei meus olhos abismada quando vi ela espremer um tantão de maionese no prato e depois molhar a pizza ali e nhack! Foi a minha vez de &%$#@*@$%!!

uma herança de família

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Fotografia pra mim não é hobby, é simplesmente vida. Influenciada pelo meu pai, sempre tive fascinação por essa mídia. E ele foi meu guru, que me mostrou o caminho, quase sempre pelo exemplo. A vida toda vi meu pai fotografando. Também fui objeto da mira das suas câmeras. Meu pai passou toda a vida clicando muitas fotos, da minha mãe—sua musa e modelo favorita, dos filhos, das pessoas, das paisagens, das coisas. Meu pai sempre teve um laboratório fotográfico no fundo da casa. Hoje ele está desmontado, mas durante a minha infância, eu via ele entrar naquele quartinho para ficar horas lá dentro e emergir cheirando aos produtos químicos que usava para fazer seus experimentos com revelação. Entrar naquele quartinho, para ficar olhando todas as fotos e também desenhos e pinturas que ele fazia lá dentro, era o ponto máximo da felicidade pra mim. Eu entrava quando ele permitia, o que não era muito frequente. E entrava sorrateiramente, roubando a chave, quando ele não estava. Quando eu entrava lá sozinha e podia mexer em TUDO—tomando o devido cuidado de não deixar rastros da minha presença, me dava até cólicas de borboletas, pois estar lá era uma delicia, olhar as fotos que estavam secando no varal, os negativos pendurados, as fotos empilhadas, fotos que eu não tinha nem visto ele tirar, coisas diferentes, bacanas, artisticas. Entrar no laboratório do meu pai foi meu prazer proibido por muitos anos.

Um dia, já adolescente, ele me sentou no sofá, talvez percebendo o meu interesse anormal pela fotografia e disse—se você quer tirar fotos, tem que aprender o básico. E me ensinou a teoria sobre abertura, luz, velocidade, lentes, eteceterá. Eu esqueci tudo, obviamente, mas nunca esqueci da alegria que senti tendo meu pai ali, dividindo um pouco da paixão dele comigo.

Eu não lembro exatamente quando comecei a fotografar, mas foi com aquelas câmeras vagabas da Kodak. Depois ganhei uma câmera boa, e depois outra. Todas foram presentes do meu pai. Agora com as digitais, o céu é o limite para a nossa habilidade e criatividade. Meu pai já não fotografa mais, mas ele me elogia e me critica. Outro dia me deu uma bronca pelo telefone—você tira umas fotos muito próximas do objeto, a gente não consegue nem identificar o que é que você está querendo mostrar! Critica anotada, estou sempre querendo melhorar, afinal essa é a meta para tudo na vida, não é mesmo?

the walking tempura

Meu marido acha que eu exagero nas minhas criticas, mas eu detesto o Zen Toro. Ele é um restaurante japonês pseudo-modernex, que veio para Davis nesses esquemas massificantes de franchising. Está instalado num espaço minúsculo em downtown e quem vai almoçar ou jantar lá sai sempre fedendo a fritura da cabeça aos pés. Mas eu não desgosto de lá somente por isso. Também acho a comida pretensiosa e o serviço uma porcaria. Tá certo que numa cidade universitária, onde noventa e nove por cento dos atendentes dos restaurantes são estudantes, não se pode esperar o melhor serviço do mundo. Mas no Zen Toro eu tive um dos piores, com o agravante que de lá sempre se sai com cabelo, pele e roupa empesteados numa fedentina de óleo de fritura.

Meu chefe veio me ajudar num projeto que realmente eu não precisava de ajuda. Quando ele sentou-se ao meu lado, senti na hora que ele tinha almoçado em algum lugar catinguento, daqueles onde frituras abundam. Depois de me dar uma mão desnecessária ele entabulou num convercê e então confidenciou que ele e a esposa tinham ido almoçar num lugar diferente. E eu—ah é, onde? Nem fiquei surpresa quando ele respondeu—no Zen Toro.

how to make moqueca

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Mais uma vez fui lá eu ensinar a malta a fazer moqueca. No ano passado tivemos um evento chamado Dia do Brasil, quando dei a aulinha, num dia cheio de mil atividades que culminou com eu perdendo inexplicavelmente todas as fotos.

Desta vez o evento foi o Festival Latinoamericano que ocorre uma vez por ano e a nossa associação brasileira Brazil in Davis participa. É um evento beneficiente, onde arrecadamos dinheiro para fazer doções para entidades assistenciais que trabalhem com crianças carentes em cada país respectivo. Sempre participam o Brasil, o Chile, a Argentina, a Colômbia, a Venezuela, o Peru e neste ano Cuba também juntou-se ao grupo. O evento deste ano copiou o esquema que fizemos no Dia do Brasil e então a venue foi um pouco diferente, mas teve comidas típicas, além de palestras, shows de música e dança, exposição de arte, atividades para as criancas, open mic, aulas de dança e aula de culinária, onde eu participei com a infalível receita de moqueca da minha amiga Paula.

Eu uso a receita que a Elise adaptou para o inglês, com medidas mais exatas. Sempre, sempre, essa receita dá certo e faz um sucesso danado. Desta vez não foi diferente. O único problema nisso tudo sou eu mesma, com minha timidez horrorosa e meu temor de falar em público. Apesar do meu descabelamento, ensuvacamento e mal ajambramento pessoal, deu tudo certo. Levei tudo organizadíssimo, pois já tinha a experiência anterior pra me basear. As outras aulas que vi—de uma venezuelana e de uma colombiana, estavam extremamente desorganizadas. Elas não levaram nada e ficavam procurando os utensílios e ingredientes nos armários da pequena cozinha da International House durante a aula. Bocejo! A venezuelana entrou no meu horário e eu comecei minha aula com quinze minutos de atraso por causa dela. Mas eu estava o fino da organização, levei tudo que precisava e não me atrapalhei. Ofereci a receita impressa, com um pouco da história da moqueca baiana e capixaba também. Os atendentes curtiram. A cozinha da IHouse é pequena, então cabem lá umas quinze pessoas. Mas na hora de servir uma amostra da moqueca pronta, que eu levei montada e ficou cozinhando enquanto eu fazia outra na frente das pessoas, não parava de chegar gente para pegar um potinho. Servi a panela inteira. Teve gente que veio pedir mais um pouco e quando acabou o peixe, me pediram o caldinho! O panelão de sete litros que preparei durante a aula foi vendido em porções na nossa barraquinha de comida brasileira. Não sobrou uma lasca. Sucesso absoluto!

Para perder o apetite

Estava escrevendo uma novela sobre como cheguei a ver três episódios do No Reservations com o Anthony Bourdain, no Travel Channel. Deletei tudo e decidi ir direto ao que interessa: achei o programa divertido, honesto, e educativo, assistirei outros, se tiver a oportunidade, mas infelizmente não tenho a mente aberta de um gourmet, ao contrário, tenho uma visão bem limitada sobre o que considero coisas comíveis.

Num hotel finíssimo no Japão, gueixas serviram um café da manhã cheio de coisas muito gosmentas, muito purulentas e muito estranhas à Bourdan. Até ele hesitou. Em Cingapura o guia local mostrou o que seria uma iguaria caríssima e especialíssima—uma espécie de caranguejo carnívoro, que parecia mesmo um besouro jurrássico, importado das catacumbas do Sri Lanka. O bicho se alimenta de carne humana, de defuntos. For Christ's sake, QUEM quer comer as vísceras de um monstro desse? Bourdan não comeu. Em Shangai me apavorei com várias coisas, entre elas o stinky tofu, peludo e cheio de mofo, que Bourdan comeu torcendo o nariz e depois disse que não gostou. Mas a pior cena foi a com um monte de peixes sendo colocados num wok cheio de óleo quente. Nada demais, se não fosse pelo fato dos peixes estarem VIVOS!

Em Cingapura, antes de devorar um balde de sopa de ossos com um molho viscoso vermelho, se lambuzar todo e chupar o tutano dos ossinhos com um canudinho, Bourdan fez uma massagem avaliativa e terapêutica num quiosque de Shiatsu num shopping center. Ali mesmo eu perdi o apetite, vendo closes de ranhuras, calos, unha encravada, unha com fungo e outros detalhes cascudos do pé do afamado chef. Certamente aquilo foi o aperitivo perfeito para o que estava por vir..

Gostei imensamente da experiência cultural proporcionada pelo programa do Bourdain, que me mostrou que comem-se coisas incrivelmente variadas por esse mundão afora. Algumas dessas coisas me provocaram naúseas, tristeza e contorcionismos bucais e faciais. Eu não comeria, mas não deixa de ser comida prar quem o faz.

aquela torta de maçã

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Todo sábado, quando vou para minhas comprinhas no Farmers Market, eu passo por uma banquinha que vende pães, sopas e vejo umas tortas de maçã. Eu não costumo parar nessa banca, cuja vendedora é uma americana que já viveu em Paris, França. Ela faz uns pães bonitos, as sopas são sempre populares nos dias frios e na época do Thanksgiving ela faz umas tortas lindas que parecem ter saido de um desenho animado. No resto do ano, as tortas que ela vende são bem simples. Mesmo assim eu sempre olho pra elas com olhos purpurinantes, porque elas me parecem tão bem feitas e tão deliciosas. Só que até hoje eu nunca tinha comprado nenhuma, porque sempre penso—ohwell, essas tortas são ridiculamente fáceis de se fazer em casa!

Mas fazer que é bom, nada. Então neste último sábado extremamente baforento, que não abria a menor possíbilidade nem de pensar em assar nada em forno nenhum, não tive a desculpinha de sempre para seguir em frente e esnobar as lindas tortas. Comprei uma!

Engraçado como criamos receitas imaginárias para comidas que vemos por ai. Nessa torta eu jurava que tinha uma camada de creme entre a massa e a fruta. Que nada, é só mesmo uma massinha bem fina, com as fatias grossas de maçã por cima. Deu pra perceber que as frutas tinham sido regadas com limão e salpicadas com açúcar, pois estavam um bocado doces. Muito mais fácil de fazer do que a minha imaginação tinha fantasiado. Isso se um dia eu realmente chegar a fazer.

não estou preparada pra hoje

É difícil alguém me pegar reclamand do frio. A não ser que chova muito e a umidade e falta de sol comece a mofar e cansar a beleza. Mas de maneira geral, eu encaro bem outono e inverno, nunca reclamei, nem mesmo quando morei em Alaskatoon. Mas o calor, lordhavemercy, esse me pega sempre com as calças na mão, tentando correr pra me esconder sem sucesso. Como eu abomino os dias infernais. Só não abomino mais os dias infernais daqui, do que a sauna do verão tropical. Sou uma pessoa temperada, não gosto de exageros.

Então me deu um siricotico histérico quando olhei a previsão do tempo para esta semana e vi lá na quinta-feira números inacreditáveis para esta época do ano. Hoje, 39ºC / 102ºF. O que significa isso??

Significa que preciso me vestir o mais confortavel possível, com roupas que não apertem, não sufoquem, e beber muita água, andar devagar, não se abanar nem se afobar, fechar as janelas e cortinas da casa na hora do almoço—na verdade deveria ter fechado agora de manhã—evitar usar o forno e tentar usar o fogão o mínimo possível. Plantas irrigadas, gatos com suplemento extra de água, coragem pra pedalar para casa às 5 pm, quando o mercurio do termómetro estiver batendo lá nos trinta e nove.

Essa ondaça de calor vai durar até domingo. A coisa boa é que está ventando muito. E ontem eu dormi com todas as janelas escancaradas e ouvindo uma deliciosa sinfonia de grilos, que pra mim é sempre um som nostalgico e reconfortante.

necas de pitibiriba

Eu cheguei, mas ainda não estou realmente aqui.

O negócio é que ando sem a menor vontade de cozinhar. Durante a semana tenho feito um rangabofe simples, porque precisamos comer e gastar os produtos frescos que já se aboletam nas gavetas da geladeira. Mas pra falar a verdade, ando sem inspiração e sem ânimo. Olho as receitas nas revistas do mês que se empilharam durante a minha ausência e tenho ganas de jogar tudo pra cima, depois pisotear as folhas coloridas e impressas com fotos bacanas bem pisoteadas e sair correndo pela rua, braços estendidos em direção à qualquer restaurante ou birosca que venda batata frita. Esse é o meu estado de espírito atual. Não tenho nenhuma pretensão de me explicar, só quero registrar esse fato singular de que não ando querendo cozinhar.

Tenho planejado tentar replicar alguns dos rangos bacanas que experienciei em Portugal. Naquele dia da semana passada fiz numa piscada de olho a sopa de tomate alentejana que tanto encanta a minha irmã e que me deixou realmente abismada pela sua simplicidade. Cebola, tomates pelados e picados, azeite e um ovo pochê acomodado no caldo, ajeitado numa cumbuca forrada por uma fatia de pão rústico. Naquele dia eu jantei sozinha às 5:30 da tarde, porque não consegui esperar pelo Uriel, tamanha era a minha fome e o meu sono. Quando a sopa ficou pronta eu pensei em tirar fotos e esse pensamento me fez curvar de tanto cansaço. Simplesmente não consegui tirar foto nenhuma, só consegui comer, comer e pronto.

Não estou querendo cozinhar, não ando querendo tirar fotos das minhas comidas, por isso vou sentar e esperar essa vontade de fazer nada na cozinha passar. Porque vai passar, eu tenho certeza que vai.

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** O tempo que tenho economizado não cozinhando está sendo usado pra fazer outras mil coisas, como capinar novamente a horta que foi tomada por um matagal durante a minha ausência. Finalmente plantei meus pés de tomate. Desta vez apenas quatro, pois quero experimentar dar bastante espaço para os arbustos. Plantei vários tipos de manjericão e orégano, mais cibouletes, sálvia e lemon verbena, pra fazer par com o lemon balm [melissa] que está crescendo lindamente. Replantei também as ervas dos vasos. No interim tomei conhecimento de um novo morador no meu quintal—um esquilo, que se divide entre a minha casa e a do vizinho. No ano passado foi um filhote de lebre muito fofinho que detonou com metade das minhas ervas. Neste ano é o senhor esquilo, que está prestes a fazer um belo estrago, talvez nas frutinhas de pêssego e nectarina.

*** Também aproveitei para fazer um remanejamento das roupas no closet, armários e gavetas. Saí de cena artigos de lã, veludo, mangas compridas, casacos, cachecóis. A previsão do tempo para esta semana está arrepiante. Ainda estamos em meio de maio e já teremos uma ondaça de calor temporã. Quinta-feira, mínima de 16ºC, máxima de 38ºC. ARGH!!!

casquei-me fora

Bem que eu vi o e-mail da secretária chegando, mas me fiz de sonsa e pensei alegremente—estou em férias, não preciso responder, não vou confirmar, portanto me livrei dessa! Bom se fosse. A danada querendo ser gentil e eficiente resolveu confirmar ela mesma a minha presença no fabuloso picnic anual dos funcionários da UC Davis, criativamente batizado de TGFS - Thank God For Staff.

E veio me trazer o ingresso, que eu aceitei com um sorriso amarelo. Conversei um pouco com ela sobre o evento, que na minha opinião é o mais completo acontecimento aborígene que a universidade organiza. Contei que fui ao picnic de 2006 e tinha jurado nunca mais cair nessa armadilha. Expliquei mais ou menos o esquema da coisa: camelar até o final do arboretum, ficar na fila pra pegar um sanduba e um garrafa de água, sentar no chão, pagar todos os micos possíveis com joguinhos infames, só porque você teve a sorte na vida de ser funcionário da grande Universidade da Califórnia. Eu, sinceramente, passo. Trocar meu tranquilo almoço em casa pra ficar lá na grama conversando amenidades sem importância com meus colegas, tentando comer sem ficar com fiapos de carne entre os dentes, ensovacando no sol do meio-dia, ouvindo o "agito" dos funcionários animados, que participam dos jogos com aquele entusiasmo irritante, não é a minha praia, não faz o meu estilo.

Segurei o ingresso imóvel por alguns minutos pensando na única vantagem de ir a esse picnic indigena—poder escrever sobre a famigerada experiência aqui. Sinto muito folks, mas optei por cascar-me fora dessa.

6 am

Cheguei em Davis na noite do mesmo dia que parti de Lisboa, depois de outra maratona transcontinental. Eu não posso acreditar que exista um ser humano normal que curta viajar de avião. Eu sou do time dos que odeiam. Paguei um tantão a mais no total da passagem para descer em Sacramento, cujo aeroporto fica a 20 minutos da minha casa, mas chegando em New York fui recolocada para voar para San Francisco por causa de todos os atrasos que compremeteram a minha conexão. Esperei muitas horas no aeroporto, depois vooei mais seis horas, além das sete que me custaram para atravessar o Atlântico. O Uriel foi me buscar e enfrentamos mais uma hora de estrada até Davis. Eu sempre digo que amarrei meu burro num lugar maravilhoso, mas muito longe. Tudo nessa vida tem vantagens e desvantagens.

Hoje já estava acordada às 5:30 am. Agora vou combater o jet-lag inverso. Meus gatos já me receberam felizes, vi que todas as roseiras estão apinhadas de flores, tem algo cheirando mal na geladeira, vou desfazer as malas, tentar comer uma comidinha decente pra compensar as refeições plastificadas que tive nos aeroportos e aviões. Aos poucos tudo vai voltar ao normal, mas eu ainda tenho muita coisa para comentar sobre Portugal, então ainda vão aparecer muitos posts sobre aquela linda terrinha!

*vou colocar aos poucos as quatro mil e quinhentas fotos que tirei, numa coleção chamada Portugal no meu álbum no Flickr.

duetos

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Uma das coisas mais gostosas da vida é dividir a cozinha com alguém que você ama, fazer o rango juntos, ou apenas colaborar. Meu marido não cozinha, mas esse pequeno detalhe não impede que dancemos juntos um Blues culinário. Normalmente a tarefa fica dividida entre eu cozinhar e ele limpar. Quando terminamos de jantar, ele coloca a louça na máquina de lavar, esfrega as panelas e outros objetos que eu não gosto que coloque na máquina. Quando estou exausta, depois de um dia de trabalho, bicicletagem, cozinhação e comilança, só pensando em subir para o meu quarto, tomar um banho e me enfiar na cama, a visão dele na frente da pia todo compenetrado e deixando tudo arrumadinho me dá uma grande sensação de conforto. Quando temos festa é a mesma coisa, os preparos ficam todos por minha conta, a limpeza é toda dele. Essa é a nossa colaboração, já que ele não é nem de longe um cozinheiro. Essa minha relação na cozinha com o Uriel me faz pensar no Paul e na Julia Child, quando ela começou o seu programa na tevê pública com um orçamento mísero, e ele lavava a sujeirada que ela fazia durante a gravação numa bacia improvisada, agachado no chão. Amor maior que esse não há!

Coloquei umas batatas gigantes pra assar e quando o Uriel chegou dizendo que iria jantar e voltar pro trabalho, avisei que o rango iria demorar. Admito que sou meio possessiva e territorial quando estou na minha cozinha. Quero controlar tudo, fazer tudo, e tudo tem que estar do meu jeito, que é o jeito que eu gosto. Ele sempre oferece ajuda e eu sempre recuso, argumentando que a melhor ajuda que ele poderia me dar é sair da frente e tentar não atrapalhar. Mas como a situação estava meio caótica, sugeri que ele lavasse a alface que já estava de molho na água. Enquanto eu desmembrava a couve-flor em raminhos, cortava a cenoura e os aspargos para cozinhar tudo em etapas no vapor e fazer uma salada, ele começou o processo de lavar a alface. Foi realmente um processo, pois ele desinfetou folha por folha, esfregando cada uma como se estivesse lavando uma peça de roupa. Removeu cuidadosamente duas lesmas e também lavou os ramos de alho verde, as cebolinhas, o alho poró e um macinho de espinafre. No final do processo de lavação, a salada já estava pronta, a batata ainda não estava assada e a pia da cozinha estava uma catástrofe, além de água respingada pelo chão e tapetes. Eu reclamei, mas não muito, pois valorizo cada minuto dessas poucas horas que passamos juntos, colaborando na cozinha, esperando nossa batata assar, conversando sobre o dia, sobre as pequenas e grandes coisas das nossas vidas.

goodbye

Minha casa de hóspedes está vazia. Vamos fazer umas reforminhas, pois uma das floreiras quebrou e a madeira estava apodrecendo. O Uriel quer jogar bark no jardim, pra deixar tudo mais fácil de manter. E queremos fazer um upgrade no ar condicionado, além de pintar os armários do banheiro. Depois que tudo isso for feito, vamos anunciar a casinha para alugar novamente. Ela é um tipo de studio, com sala ampla, banheiro enorme, cozinha minúscula e um dormitório num loft.

Encerrou-se mais uma etapa, com a formatura da nossa querida e divertida inquilina. Ela agora vai trabalhar um pouco com o pai, depois vai se aprimorar na carreira, que ela ainda não decidiu se será na área de saúde ou do meio-ambiente. Estávamos jantando com convidados quando ela apareceu na porta, toda descabelada e molhada, com a roupa suja de material de limpeza. Ela veio se despedir, dizer obrigada, nos dar um abraço. Foi um momento constrangedor, já que tivemos que levantar da mesa, ainda mastigando, com nossos convidados olhando com cara de , e dizer ali no meio da sala de jantar—boa sorte, felicidades, vamos sentir saudade, mantenha contato! Ela retrucou com o sorriso metalizado de aparelho dentário que nós somos muito bacanas, aquela lenga-lenguice de sempre.

Mais tarde, quando estávamos aconchegados conversando com os convidados na sala, materializam-se na porta de vidro, primeiro o irmão, depois o pai, ambos sorridentes e felizes, vieram dizer obrigado por tudo, apertar fortemente a nossa mão, reafirmar que nós somos mesmo muito bacanas. Foi uma despedida familiar. A casinha agora está vazia. Fico sempre naquela expectativa meio pessimista, será que vamos encontrar outra inquilina tão querida e divertida quando essa? Pode ser que sim, pode ser que não. A única certeza que eu tenho é que ela virá nos visitar, vai bater na porta da frente exibindo o seu sorriso metálico, vai dizer que veio ver como estávamos e nós vamos pedir para ela entrar e convidá-la pra sentar, porque com certeza nossa amiga e ex-inquilina vai chegar justamente na hora do jantar.

sofre, gourmerette, sofre

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Fui ao Corti Brothers fazer uma comprinha de gostosuras supérfluas. Note que o Corti Brothers não é nenhuma birosca, portanto a tendência natural é acreditar que tudo que se vende lá é no mínimo o máximo. Vi então umas latas de doces da Argentina—marmelo, batata-doce e doce de leite com chocolate. Eu que sou brasileira escolada e careca de saber que é pra fugir dos doces em latas [redondas], caí na armadilha. Não sei nem explicar por que decidi pagar pra ver o tal doce de leite. Quando abri a lata já pressenti o drama. Dinheiro jogado no lixo. Que porcaria! A lista de ingredientes denunciava o crime. Vou te contar, nem aquela famosa goiabada de xuxu da Cica conseguiu ser tão ruim....

um repolhão para dar, não vender

Eu comprava duas cebolas e ela comprava dois repolhos, pequenos. Ela tinha chegado primeiro, já estava pagando e fez o que eu acho o fim da picada de se fazer num Farmers Market, ela barganhou. Cada repolho custava setenta e cinco centavos e ela pediu pra levar os dois por um dólar porque eles eram pequenos. Virei meu pescoço e encarei, sem nem procurar disfarçar. Queria mesmo era ouvir o diálogo que ela travava com o fazendeiro, ou melhor, o monólogo, que era mais ou menos assim: eu ADOOOROOO repolho, você não tem repolhos maiores, esses são muito pequenos, porque eu AMOOO repolho, faz os dois por um dólar, ah, eu realmente AMOOO repolho! Por um momento eu quis interferir, convidando a referida para dar uma passadinha na minha casa, pois eu tenho lá um repolhão encalhado, repolhão que eu DETESTO, não AMOOO nem um pouco e estou tentando me livrar. Doaria de bom grado, sem cobrar, o que seria um lucro duplo, pois eu não teria que comer nada e ela comeria sem desembolsar nem um centavo.

It's cookie time [AGAIN?]

Mais ou menos nesta época, todo ano, elas chegam com a listinha de biscoitinhos pra vender. E elas estão decididas a fazer você comprar, pois têm uma meta para cumprir e alcançá-la ou não pode acrescentar ou custar uma medalha ou algum outro tipo de prêmio. Com a mudança de estação a cidade é logo invadida pelas garotas escoteiras vendendo caixas dos seus famosos cookies. O Uriel compra da filha de um dos seus colegas, eu compro da filha de um dos meus colegas, e nós dois compramos das nossas fofinhas vizinhas. Elas moram do outro lado da rua. Antes era só a mais velha que vinha com a lista de cookies, mas este ano a mais nova também estreou no oficio. O irmão vem junto, pra não perder os agitos. Quando vejo eles atravessando a rua já me preparo. Quando abro a porta faço aquela cara de surpresa depois digo—oh, it's cookie time! E compramos duas caixas de cada. Assinamos a lista, que é longa. Não é fácil pras pequenas escoteiras cumprir a tal da meta. Elas precisam que os pais convoquem todos os parentes, amigos, conhecidos e vizinhos. E elas, com seu charme, precisam convencer todos a comprarem pelo menos DUAS caixas. É dureza. Precisa mesmo ser uma escoteira pra enfrentar essa maratona—com coragem, confiança e carater!

a mesma velha história

Eu gosto de ver como as pessoas não têm medo de começar de novo, como é o caso da K., uma mulher de mais de cinquenta anos iniciando uma nova carreira. Ela voltou a estudar, se formou e arrumou um emprego em outra cidade. Então tivemos que nos despedir dela, com uma daquelas festinhas básicas de ambiente de trabalho. Deve ter sido porque ela só iria trabalhar pela manhã que resolveram fazer um celebração diferente, com comes de breakfast. Eram dois tipos de muffins, um com açúcar, outro sem açúcar—o que geralmente significa que contém algum tipo de adoçante artificial; uma bandeja com fatias de frutas—maças e laranjas; e duas variedades de dips para as frutas, outra vez um calorico e com açúcar e o outro, bom sei lá, nem quero entrar nos detalhes de um dip para frutas cheio de coisas artificiais.

Fomos lá dar o presente que alguém que a conhecia melhor comprou, ouvir ela contar sobre o novo emprego, onde ela vai morar, como está sendo a mudança, já que só ela vai mudar, o marido e um dos filhos que ainda mora com eles vão ficar. Enquanto isso, enchiam-se os pratinhos com as comilanças. Todos menos eu e meu chefe. Todos sabem que trago uma lancheira com meus snacks saudáveis. Eu tento não ser arrogante com minha posição de não comedora de bolinhos e dips com adoçante e ingredientes artificiais. Mas comi sim uma fatia de maçã, que também foi o que o meu chefe comeu. Nos identificamos nas nossas preferências e entabulamos por uns minutos num convercê sobre comida, que nos divergiu momentaneamente do que se falava no resto da sala. Foi quando ele me passou uma boa idéia que ainda estou pra testar: um sanduiche aberto feito com uma fatia de pão rústico, coberto com uma camada de maçã cortada bem fininha e completado por uma bela fatia de queijo brie.

onde se encontra de um tudo

Com centenas de livros de receitas na estante da cozinha, mais centenas de revistas de culinária empilhadas pelos cantos da casa, sem mencionar aqueles vários pacotes com recortes de jornal e revistas, folhetinhos, receitas impressas ou escritas a mão, eteceterá, eteceterá, onde é que a senhora modernete vai procurar uma receita quando precisa de uma? No Google é claro!

Comentei outro dia com um amigo que os cds estão com os dias contados. Música em breve será basicamente consumida nos Itunes e Amazons. E os dvds provavelmente terão o mesmo destino. Máquinas de escrever, telefones de discar, discos de vinil, filmes em 16 mm—coisas de museus ou de colecionador. E os livros? Os livros de receita, no meu caso? Acho que nunca, nunca vou me desfazer das minhas centenas, nunca foi deixar de folhea-los, de admirar, olhar fotos, me inspirar. Vou continuar comprando, no meu esquema obsessivo, vou continuar empilhando, desejando, buscando pelos mais interessantes, os antigos com páginas manchadas e cheiro das cozinhas do passado, com suas receitas com medidas esdrúxulas e ingredientes inencontráveis. Os livros continuarão a fazer parte da minha vida, sempre, mas na hora que eu precisar de uma receita rápida, numa segunda-feira à noite, vou buscar, sem dúvida, vocês sabem onde, lá mesmo, no google dot com.

salvem as tubaroas!

Fui comprar o peixe do sábado e vi que na lista não tinha o tubarão mais uma vez. Comprei um filé de tubarão outro dia e adoramos. É um peixe saboroso e relativamente barato. Sem essa opção e querendo um peixe carnudão, optei pelo halibut, que é bem mais caro, mas vale cada centavo. Enquanto pagava, perguntei para o pescador:

[F]—quando você vai ter tubarão pra vender novamente?
[P]—ah, não tem jeito de saber, não é sempre que eu pesco um deles...
[F]—eu comprei umas semanas atrás e achei muito saboroso.
[P]—sim, mas eles não são fáceis de pescar e quando eu pego um, só fico com ele se for um macho, se for fêmea eu jogo de volta no mar, porque você sabe, as fêmeas podem estar carregando filhotinhos...

Paguei meu halibut e voltei pra casa toda pimpona de contente. Onde mais podemos ter um diálogo desses? Na peixaria do supermercado que certamente não é.

excuse me

Tem coisa mais chata que ser pega com a boca na botija, comendo algo, com farofa no cantinho da boca, iogurte pingado na ponta do queixo, qualquer coisa colada no dente, não te deixando falar direito? Mas tem sempre aquela pessoa inconveniente que se aprochega bem na hora agá e não se toca que você está com um saco de bolachas numa mão e uma delas mordida na outra, sem falar nas migalhas espalhadas pelo seu suéter preto. Vai chegando e nem repara que você está segurando a colher suja de iogurte e que o copinho está pingando, já puxa um papo descontraído, pergunta como você vai, comenta do frio, conta do gato. E você ali com a colher suspensa, com a boca suja, sem saber o que fazer com as mãos, tendo que responder, tentando não espirrar o que está na boca, procurando manter a pose durante os minutos mais ridiculamente longos do seu dia.

tanto talento desperdiçado

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Um doce para quem adivinhar qual das três sou eu. Algumas dicas para ajudar no prognóstico: uma é minha prima, a outra é minha irmã; o tio da minha mãe apertava nossas bochechas e dizia pra minha irmã que ela era mais linda, pra minha prima que ela era a princesa, e pra mim, cof cof, que eu era a artista. Eu poderia ter virado um Jim Carrey de saias e poderia ter feito fama e fortuna caindo de cara no pudim nos filmes de Hollywood, mas invés disso acabei apenas dandos meus tropeços privativamente no tapete da minha cozinha e caindo com a cara no pudim sem público pagante aplaudindo.

**update revelador: a única com talento pra Jim Carrey nesse trio é a primeira, altona e careteira! e é claro que eu sou a primeira. a segunda charmosinha é minha prima. e terceira fofíssima é minha irmã.

11:39 - hora de encher linguiça

Mergulho num estado de estagnação por um momento, olhando para a tela, mente vazia, nenhuma idéia, nenhum pensamento, nada. Quando então começo a pensar no almoço, no que irei comer. Não são pensamentos sofisticados, pois meu rango é sempre composto de restos requentados ou algo feito rápidamente no improviso. Mas quando chega perto do meio dia meu estômago ronca e eu começo a fazer uma avaliação mental do que tenho na geladeira, decidindo o menu du jour, porque é no almoço que eu sinto mais fome. A caixinha do calendário pula, avisando que está quase na hora de montar na bicicleta e atravessar o campus impregnado pelo cheiro de carne assada, sopa e frango frito. Passo pela horda que carrega pratinhos e caixinhas com comida, pedalo rápido pois estou com fome e os restos de ontem me esperam—delícia de rangabofe, que fica melhor ainda porque é devorado no conforto e na tranquilidade da minha casa.

quem ri por último...

Rir é com certeza a melhor maneira de expurgar idéias ou sentimentos negativos. Quem pensa que a comicidade das minhas histórias é depreciativa, está muito enganado. Rir é terapeutico e nos ajuda a ver uma determinada situação atraves de uma nova perspectiva. A visão do ridículo é purificadora e mostra que até os mais absurdos defeitos podem ser divertidos. É por isso que eu escrevo sobre as minhas patetadas com frequência. Se elas me fizerem rir, todo o efeito negativo de sentir-se um peixe fora d' água, uma esquisita, uma atrapalhada, sempre metida numa gafe, se diluí.

Histórias não faltam. Tenho material para um livro. Não é pra não rir do episódio em que eu beijei a boca de uma mulher sem querer, enquanto tentava cumprimentá-la desengonçadamente numa festa? E até teve gente que se identificou com a talentosa Splashy e suas estripulias aquáticas. Quantas vezes eu revi na minha memória, como se fosse um filme pastelão, a cena que protagonizei quando visitei uns amigos no Brasil: estava sentada num sofá e fui descruzar a perna longa distraidamente, quando chutei uma bacia cheia de cascas e sementes de mexiricas, que voou pelos ares e aterrisou do outro lado da sala, fazendo uma sujeirada tremenda no chão.

Depois que eu escrevo e dou muita risada, não me sinto mais tão esdruxúla, não acho que sou diferente, ou que estou sempre dando foras ou espetáculos patetescos, caindo das cadeiras, tropeçando, rolando pelas escadas, batendo com a cara no poste. Depois que eu choro litros de lágrimas de tanto rir, tenho certeza de que sou abençoada com essa capacidade de conseguir rir saudavelmente de mim mesma.

*texto reciclado do The Chatterbox

pão é o meu chocolate

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A atual secretária do nosso programa é uma gracinha de pessoa. Antes dela nós tivemos uma secretária que fugiu com o namorado bandido e nunca mais deu as caras, depois um secretário que fumava, usava as calças caídas e ostentava uma cara de quem não parecia muito contente com o emprego. Mas essa nova foi um achado. Ela é simpática, conversadeira, educadíssima. Uma coisa fofa que ela faz é decorar o front desk. Eu raramente passo por lá, só vou quando preciso de alguma coisa e outro dia fui pedir umas pilhas recarregáveis e notei a decoração de valentine's day, cheia de coraçõeszinhos, cupidos, eteceterá. Ela mantém também um vidro com treats, que variam conforme a celebração. Desta vez são chocolates em formato de coração, que a nossa técnica estava atacando e no entusiasmo me ofereceu um:

[E]— esses são os melhores chocolates que eu já comi, prova um...
[F]— ahn, eu não sou muito chegada em chocolate.
[E]— você não come chocolate? que tipo de pessoa é você?
[F]— sou normal. mas não morro por um chocolate.
[E]— mas você gosta do que então?
[F]— gosto de outras coisas...

Sim, gosto de outras coisas. O que por exemplo? Gosto de PÃO. Adoro PÃO. Troco qualquer chocolate por uma fatia de pão, como esse da foto com cranberries e nozes da Acme Bread Company de Berkeley. Eu posso ser considerada normal, apesar de não ser a maior fanzoca de chocolate. Porque eu tenho uma paixão, que é o PÃO. PÃO é o meu chocolate.

o dia de pegar na enxada

Parou de chover e deu uma esquentada, o que me motivou a sair para uma vistoria no quintal. Saí principalmente para checar o estado da horta. Duas horas depois eu já tinha capinado uma das beds, removido um monte de mato e muitas folhas mortas acumuladas que cairam da minha árvore ancestral no outono, arranquei também raizes da menta hortelã, porque ela já está rebrotando e se não ficar de olho ela avança em tudo. Deu até pra suar um pouquinho. Enxada, pá, ancinho, luvas de borracha, cheiro de terra, de folhas decompostas—eu não sei por que tudo isso me atraí tanto, já que sou uma péssima jardineira, não tenho os dedos verdes e sou notória por conseguir fazer com que todas as plantas em vasinhos morram quando estão sob os meus cuidados. Mas na horta eu não preciso fazer muito, pois a terra é ótima, cheia de minhocas, bate sol suficiente e tem sistema de irrigação. Fiz uma avaliação geral do que sobrou do final do verão. As rúculas estão reaparecendo, perfumando tudo com o cheiro delicioso que elas tem. Parte do orégano e do tomilho sobreviveu, apesar de não estarem nem um pouco vistosos. Também a salsinha está lá, meio tímida ainda. E um raminho curto de cibouletes. Tudo o mais padeceu com a chuva e o frio. Infelizmente eu não tenho disposição para fazer horta de inverno. Mas no verão eu realmente me animo, apesar de me concentrar basicamente nas ervas e nos tomates. Para este ano tenho uma estratégia diferente para os pés de tomate, que já fiquei no maior entusiasmo de plantar.

*esse ritual de sair no quintal quando o inverno dá um tempinho, é repetido rotineiramente no meio de fevereiro ano após ano.

** a estrategia deste ano eh apenas uma—espaco. vou plantar apenas duas plantas por canteiro, ou apenas uma por canteiro, pois tomates, like Brazilians, need space!! ;-)

***tem uma foto da minha horta AQUI.

[beware of the picky eater]

Na mesa do almoço na vinícola Quixote eu sentei em frente ao Hank Shaw, que poderia ser o italiano que ajudou o Michael Pollan a caçar o porco selvagem e encontrar os cogumelos em O Dilema do Onívoro. A única diferença é que Hank não é italiano e vive na região de Sacramento. Mas ele também planta seus legumes e verduras, colhe frutas silvestres e ervas comestíveis pelos campos e cogumelos na floresta, caça animais selvagens e prepara ele mesmo praticamente tudo o que consome, desde linguiças, passando pelas conservas e até o vinho.

Na mesa do almoço na vinícola Quixote havia um prato com ovos cozidos. Eram ovos das galinhas do vizinho, que foram trocados por serviços, não lembro bem a história. Eles foram cozidos à perfeição e nós alegremente nos servimos deles. Em frente ao Hank, que faz salada de ervas daninhas e queijo com o leite que ele ganha do amigo que tem uma vaca, come de tudo e é super frugal, eu removi cuidadosamente as gemas super amarelas do ovo das galinhas do vizinho, enquanto ele me olhava com um certo espanto. Você não vai comer a gema? Nas entrelinhas eu ouvi, você tem um blog de culinária e não come isso ou aquilo?

Realmente isso parece contraditório e até enganoso, pois como pode alguém que gosta de comida, não comer isso ou aquilo? Desfiei meu rosário pra ele—sim, sou uma chatonilda, não gosto de gema de ovo, nem de leite, nem de frutos do mar, nem de miúdos de animais e carnes estranhas, não como coelho, capivara, macaco ou cobra. Sobra a minha paixão pelos pães, pelos queijos, macarrão, pelas frutas, legumes, verduras, ervas, feijões, gosto também das azeitonas, dos peixes cozidos, como arroz, couscous, quinoa, lentilhas, ervilhas... Será que tenho um bom currículo pra ter blog de culinária? Ah, esqueci de dizer que também não encaro caviar nem foie gras. Mas como feliz um pratão de espinafre.

O sushi zen

*dando uma olhada nos meus alfarrábios, onde guardo receitas por fazer, links e outras coisitas, achei esse texto datado de junho de 2006. Eu publiquei a receita do sushi, mas editei a história—sei lá por que. Então aqui vai o texto original, sem cortes, numa edição super especial. As fotos são antigas. Eu não tenho feito sushi já há alguns anos.

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Tenho mãos frias e não como peixe cru, mas faço sushi sim senhores!

Eu aprendi a fazer sushi em 1994 com um casal de amigos—ela chinesa de Taiwan, ele canadense de Saskatchewan, que eu conheci nos meus anos vivendo na terra do gelo. Ela me ensinou a fazer fazendo. Essa é sem dúvida alguma a melhor maneira de aprender. Eu olhei todo processo com uma super atenção, anotei tudo tin-tin-por-tin-tin num caderninho, e depois de pronto almoçamos os sushis que serviram de exemplo. Eu adorava esse casal, que vivia de uma maneira super simples e frugal, quase sem móveis e sem acúmulos materiais. Mas mesmo com esse estilo de vida quase espartano, eles tinham o dom de deixar tudo bonito e especialmente saboroso. Foi com eles que eu aprendi a meditar cantando, e foi dele que ouvi um monte de histórias fascinantes de viagens de bicicleta pelas nevascas das montanhas, ou pelo agrume do deserto. Mas além da receita do sushi, um item que eu nunca esqueci foi a visão de um crachá que ele me mostrou uma vez. Nele estava escrito—"Dylan & The Dead Tour–Free Pass". Ele me contou que foi o motorista do Grateful Dead durante a turnê deles com o Dylan pelos Estados Unidos, no verão de 1987. "Você falou com o Dylan? Falou com ele??" foi a minha pergunta, completamente exaltada. A resposta foi apenas um sorriso zen.

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sushi party - 2002

Esta é a receita do sushi, que venho fazendo há mais de dez anos:

Para o arroz:
2 1/2 xícaras de arroz próprio para sushi [grãos curtos]
3 xícaras de água.
Lave o arroz e deixe escorrer por vinte minutos. Misture o arroz e a água numa panela grande. Cubra e ponha no fogo alto. Quando ferver, reduza para fogo baixo e deixe cozinhar por uns 25 minutos ou até a água ser totalmente absorvida. Tire a panela do fogo e deixe descansar ainda tampada por mais 20 minutos. Enquanto isso faça o molho de vinagre.

Para o molho:

5 colheres de sopa de vinagre de arroz
1 colher de sopa de saquê
3 colheres de sop de açúcar
2 colheres de chá de sal

Misture todos os ingredientes numa panela pequena e cozinhe no fogo alto até o açúcar dissolver completamente. Colocar sobre o arroz e revolver bem com uma espátula de madeira. Não misture, só revolva. Deixe o arrioz esfriar em temperatura ambiente.

Recheio para os sushis [*como meus amigos eram vegetarianos, essa receita não é de sushi com peixe. mas quem quiser fazer com peixe deve prestar atenção à regra número UM e fundamental do sushi - o peixe deve ser FRESQUÍSSIMO!]:

uma fritada de ovo e sal, bem fininha cortada em fatias
cenouras em palitos
pepino em palitos
abacate
carne de carangueijo ou imitação [kani]
espinafre
cogumelo shiitake

Colocar uma folha de alga Nori já preparada em cima de uma esteirinha de bambu. Colocar uma camada bem fina de arroz por cima e espalhar bem com uma espátula de madeira. Quanto mais fina a camada ficar, melhor. Numa das pontas da esteira colocar sobre o arroz o recheio que preferir. Pode salpicar com sementes de gergelim. Começar a enrolar e vai puxando a esteira, apertando cada vez mais o sushi. Quando terminar de enrolar e estiver bem firme, cortar em rodelas com uma faca bem afiada molhada em água gelada. Servir à gosto, com pickles de gengibre, shoyo e wasabi.

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sushi vegetariano

Eu faço também os saquinhos de tofu frito recheados com arroz. E o sushi invertido, com a alga por dentro e arroz por fora. Tem que ter paciência pro arroz não despedaçar, mas fica lindo. Salpique gergelim na esteira antes de espalhar o arroz. Também já fiz sushi com salmão, mas não comi.... Como eu já disse, não como peixe cru!

não tem horta na Casa Branca

Tarde da noite de 12 de agosto de 1993, o presidente dos Estados Unidos que adorava junk food ligou para o restaurante Chez Panisse direto do seu avião particular, o Air Force One. Ele estava faminto. Alice Waters estava em San Francisco, mas um telefonema a trouxe de volta a Berkeley, atravessando a Bay Bridge em alta velocidade. Uma hora depois, Bill Clinton e companhia aportaram no Chez Panisse. Tentando ignorar os quarenta agentes do Serviço Secreto que se espalharam pelo restaurante, Alice se empenhou ao máximo para montar um cenário de elegante hospitalidade, servindo ao presidente uma pequena ceia no meio da noite, com tomates golden nugget, fettuccine com milho e caranguejo, uma salada de vagens e cogumelos chanterelles, pizza sem queijo [ítem que a dieta do presidente não permitia], prosciutto caseiro, e de sobremesa—a parte da refeição que Alice sabia ser a favorita de Clinton—sorvete de blackberries, raspberry shortcake, framboesas, morangos, maças Gravenstein e um pudim de limão com morangos selvagens. Alice não deixou o presidente pagar a conta.

No dia seguinte o jornal San Francisco Chonicle relatou a visita do presidente ao restaurante em Berkeley—Alice, que tinha declinado o convite para cozinhar na posse do Ronald Regan em 1982 argumentando que não sabia onde ficava Washington, aproveitou a oportunidade para chamar a atenção de Clinton para o projeto das hortas em San Francisco, onde os prisioneiros plantam os legumes e verduras que depois são vendidos para restaurantes como o dela. Ela falou também sobre a importância de estar conectado com o que se come e se planta.

Thomas Mcnamee - Alice Waters and Chez Panisse

Nos anos seguintes, Alice se empenhou numa correspondência com Bill e Hillary, onde abordava a possibilidade da implementação de uma horta na Casa Branca e também sobre o seu projeto dos Edible Schoolyard. O casal Clinton respondia as requisições de Alice, com gentileza, mas sem nenhuma determinação em efetivar nenhum projeto de horta. E nunca fizeram.

um dia na vida de...

Eu acordo e ele já está de plantão na porta do quarto, deitado ou sentado, dormindo ou acordado, ele está lá sempre, infalível, inevitável, exato. Eu desço as escadas e ele desce junto, correndo pra passar na minha frente, porque ele sempre faz isso e eu nunca entendi muito bem o motivo. Em alguns minutos eu vou estar enchendo o prato dele com comida e então terei um tempo sozinha, bebericando o meu café, lendo, pensando na vida e na morte da bezerra. Mas quando eu me levantar pra ir tomar o meu banho matinal, ele já vai estar novamente ao meu lado, correndo na minha frente, pra chegar primeiro, enquanto eu subo as escadas em direção ao quarto e depois ao banheiro. Quando eu chego no banheiro ele já está lá, no plantão número dois do dia, sempre em cima da pia, porque agora a obsessão dele é beber água ali. A bacia da pia do Uriel fica cheia de água pra ele, mas só deixar a água lá não basta, ele quer que você participe, interaja, atue. Eu abro a torneira e ele olha pra água. Entro no chuveiro e começa ali o processo de encaração. Ele fica como uma estátua gorda a altiva, às vezes olhando para o infinito—Marlon Brando tem muitos discípulos, ou simplesmente me encarando. E ele encara com firmeza, mesmo quando o vidro do chuveiro embaça e respinga e eu viro apenas uma confusa silhueta. Eu limpo o vidro com as mãos e me deparo com o carão. Saio do chuveiro e o carão continua ali, me olhando de uma forma desconfortavelmente fixa e blasé, como se estivesse tentando dizer—está precisando se depilar, hein querida?

E assim continuamos o nosso dia, eu desco, ele desce, eu subo, ele sobe. Na hora do almoço, quando eu chego esbaforida com a bicicleta, ele é a primeira visão que eu tenho, quando abro a porta. Ele vai primeiro bater um ranguinho rápido, depois vem se posicionar para o plantão número três do dia, que consiste em apenas ficar dando sopa por ali, olhando o movimento do meu almocinho improvisado ou requentado, sempre na esperança que algo aconteça. Acontecimento seria ele ganhar comida—fato que resume absolutamente TODO o sentido da vida. Eu subo para escovar os dentes e ele sobe também, correndo para passar na minha frente, quando eu chego lá no banheiro, ele já está à postos para o plantão número quatro do dia. Enquanto eu escovo os dentes, ele olha pra água que contínua na bacia da pia, olha pra mim, deita entre as bacias, onde estão algumas coisas que eu uso, então eu preciso mover um rabo peludo do lugar pra pegar algo e praticamente me dobrar em cima do ser balofo pra alcançar outra coisa. Eu faço xixi e ele me encara, eu desço e ele desce, correndo na minha frente, chegando primeiro. Quando eu fecho a porta da casa, a última cena que vejo é ele na beira da escada, ou na cozinha, pois a esperança é sempre a última que morre.

Chegando em casa à noite, abro a porta esbaforida e carregada de coisas—lancheira, cartas, pacotes, e a primeira coisa que vejo é ele no pé da escada. Ele vai bater um ranguinho preventivo e daí começa o plantão número cinco do dia, o mais importante. Enquanto eu faço as coisas na cozinha, guardo louça, preparo o jantar, ele não sai do perímetro que contém a largura dos meus passos. Ele fica como uma estátua, no tapete de cá, no tapete de lá, ou no meio dos tapetes, sentado ou deitado, sempre com um olhar pidão de morto de fome, a não ser que ele fique muito frustrado, daí ele vai pro canto da parede, onde normalmente colocamos os snacks pra ele comer e encara a parede, assim como quem está de castigo, resignado. Marlon Brando tem mesmo muitos discípulos. Assim ficamos, ele ali impassível e eu quase tropeçando no tapete e nele, me irritando com a insistência e com a inconveniência. Ele só dá sossego quando eu finalmente coloco os snacks no cantinho da cozinha. Mesmo assim ele ainda volta, desta vez só pra curtir a companhia, a música, o calorzinho do forno. Depois que jantamos, eu subo pro quarto e ele sobe na frente, fica em cima da pia enquanto eu tomo banho, o plantão que número mesmo?

Essa é a minha rotina com o meu gato Misty Gray, um soturno senhor de treze anos, cheio das manias, quase todas relacionadas à comida e bebida. Eu não passo um minuto sozinha. Não sei se isso é bom ou ruim, ainda não decidi. Sem falar que tem o outro gato. Ah, o outro gato vocês nem queiram saber. O outro gato fica pra outra hora.

uma onda no ar

"O forno de microondas é bom para secar o jornal, quando ele fica molhado pela chuva." Julia Child

Eu tenho a firme opinião de que sempre que possível se deve cozinhar com fogo. Olho para aqueles fogões elétricos com base de vidro com alguma suspeita. Aquilo pode ser até prático para limpar, mas cozinhar ali é no mínimo estranho. Eu já tive um fogão elétrico, com burners em espiral e abominei. Mas quando o assunto chega no uso do forno de microondas, tenho que confessar que já pequei.

Posso dizer que tenho um currículo natureba ”quase” perfeito. A única mancha negra foi fruto do ano em que despiroquei total com a onda do microondas. Foi na década de 80 e os fornos, que na época só existiam em tamanho gigante, eram o último grito de horror da modinha nas cozinhas modernas. Foi logo depois da onda do freezer, que foi uma das que eu não surfei. Mas a do microondas me pegou e me virou no avesso.

Comprei meu imenso Panasonic em prestações, porque o treco era caro. Nem tinha espaço na minha cozinha pra tamanha geringonça. Mas ela virou o centro de tudo. Eu, que preparava diariamente o almocinho fresquinho pro meu filho, fazia iogurte, pão, picles, leite de arroz, me empenhava pra ele só beber sucos de frutas espremidas na hora, arroz integral, eteceterá, de repente fui tomada por um sentimento de exaustão e achei que o microondas tinha chegado para me resgatar daquela extenuante rotina.

Foi um ziriguidum! Fiquei completamente obcecada em fazer o trambolhoondas trabalhar em meu favor. Comprei até uma coleção de livros, desses traduzidos do inglês—Como cozinhar no seu microondas. E fui em frente, enquanto fingia que não ouvia os comentários horripilantes de como as ondas do aparelho se propagavam e cozinhavam o seu fígado, caso você ficasse muito perto. Sem falar nos relatórios assustadores de como o microondas destruía a integridade molecular da comida—seja lá o que isso realmente signifique.

Comprei todos os apetrechos de vidro, eu tinha até forma de pizza de vidro. No caso da pizza eu tinha que fazer meio a meio, forno convencional e microondas. Tudo o mais que poderia ser adaptado, eu adaptei—arroz, omelete, torta, ovo, pudim. Foi um ano de total insanidade, até que eu finalmente despertei do estupor.

Depois disso eu sempre tive microondas em casa, mas nunca mais cozinhei nele. Essa nossa casa veio com um microondas embutido e hoje ele quase não é usado. Água se procura esquentar no bule e, se possível, a comida se requenta no forno ou na panela.

alguma coisa está fora da ordem

7:30!!!!
Cacilda, o relógio não tocou!
Carvalho, eu não armei o relógio!

Meu mau humor matinal é conhecido e notável. Por causa dele eu acordo muito mais cedo do que precisava, para ter tempo de me recompor e chegar no trabalho com uma cara apresentável e um ânimo mais apropriado para me integrar civilizadamente com outros humanos. Eu não faço nada antes de beber uma xicarazona de café com leite morno e sem açúcar, depois ler e-mails, mordiscar uma bolacha, tudo feito no escuro e em silêncio. Só depois desse período de reajustamento no planeta dos acordados, com os neurônios reconectados, é que eu vou tomar banho, decidir roupa, depois fazer a lancheira, porque meu café da manhã não é suficientemente robusto para me sustentar até a hora do almoço. Meu ritual matinal leva quase uma hora e meia, até que eu finalmente possa montar na minha bicicleta e pedalar pelo campus para iniciar o meu dia.

O que acontece quando a rotina é interrompida e invertida, numa fatídica manhã quando o relógio não tocou, porque o cabeção esqueceu de armá-lo na noite anterior? Correria, pânico, caos, incredulidade, amargura! Invés de descer pra beber tranquilamente o meu café, entrei no chuveiro e depois desci correndo para preparar a lacheira—e donde estava a lancheira? ela tinha passado a noite na bicicleta, com um pote de iogurte dentro e a casca da banana congelada—pra poder tomar café no trabalho. Montei na minha bicicleta e pedalei pela neblina densa e gelada, de cara amassada, estômago vazio, um humor que já tinha apodrecido de tão amargo, os olhos lacrimejantes de estupor e insatisfação. Não sei como cheguei no trabalho, não sei como estacionei a bike, não sei como consegui articular um good morning pros meus colegas, não sei como lembrei da senha para entrar no meu sistema, não sei como encontrei uma caneca maior no armário, não sei como enchi ela de água quente e fiz o café com leite morno e sem açúcar. Não sei como desembrulhei e mordi as torradas—eu consegui colocar duas fatias de pão de passas com canela na torradeira e embrulhar em papel alumínio?

Uma hora depois, uma xícara de café com leite sorvida, duas torradas mastigadas, a amargura foi desaparecendo, fui abrindo os programas e iniciando minhas tarefas, liguei a música, olhei pela janela, vi as bicicletas passando, o sol que começava a despontar por detras dos prédios, a neblina finalmente tinha se dissipado, da cidade e da minha cabeça.

foi uma explosão de sabores!!!

Depois de quase dois anos sem pôr os olhos nos programinhas do Food Network, resolvi mudar de canal e ver o que andava acontecendo por lá. Eu enchi do Food Network faz tempo. Peguei uma ojeriza de todos os chefes celebridades que têm programas naquele canal. Cheguei ao ponto de não suportar nem a voz dos cumpadres. Djezuis Craist, será que o pré-requisito pra ter um programa no FN é ter uma personalidade falsa e irritante? Por causa disso eu parei, há mais ou menos dois anos. Parei.

Então na minha clicada de retorno ao Food Network, eu esperava ver algo diferente. Mas que nada. Olha só que eu vejo—o temeroso e escabroso Iron Chef America, que é nada menos que a cópia avacalhada do fantástico Iron Chef , o original japonês, que era criativo e interessante. A versão americana é um festival de exageros e de egos. Eu nunca consegui assistir, porque me dava nos nervos, como quase absolutamente tudo naquele canal.

Podem jogar tomates e me chamar de chata de galochas.

O episódio do Iron Chef America que me recepcionou no FN era a batalha no kitchen stadium entre o chef Mario Batali—o responsável pela popularização e modismo horripilante dos sapatões Crocs pelo mundinho culinário; e o chef Jamie Oliver—o inglês queridinho de nove entre dez food blogs brasileiros. O lance, que eu pesquei rapidinho durante o primeiro comercial, é que os programas do Jamie vão estrear naquele canal. Já não bastava a Nigella lambendo os dedos, agora teremos o Jamie mordendo o pimentão e depois cortando em fatias e colocando na receita. Saliva deve ser um ótimo tempero—hmmm-hmm-hmmm!!

A batalha entre o Batali e o Oliver tinha como ingrediente secreto um peixe. Eles prepararam então vários pratos sofisticados e cheios de ingredientes com o tal peixe no período de uma hora. Daí serviram os pratos para os juizes—uma fulana de cabelão alisado, um cara de cabelo hipongo comprido ajeitado atrás da orelha e uma moça asiatica com um batom cor-de-rosa que não perdeu o briho nem mesmo quando ela comeu o macarrão saturado de molho grosso de tomate feito pelo Batali. O visual dos juizes era o de menos. Muda as caras, mas o esquema eh sempre o mesmo. Antes a bancada dos juizes tinha a presença do Jeffrey Steingarten, que desempenhava o papel de critico cri-cri. A função dele era basicamente detonar e amedrontar os chefs. Mas pelo jeito ele perdeu o emprego e agora todo mundo é bonzinho e só faz elogio. Essa é uma parte que me faz rir de nervoso, pois os juizes devem fazer um treinamento em adjetivologia para participar do programa. O palavreado que eles usam para descrever e elogiar as delicias não tem parâmetros. Nem de posse de um Thesaurus eu conseguiria tal façanha, e olha que eu acho que tenho a doença do bicho adjetivo.

A expressão que eu acho mais absurda e engraçada, nesse esforço descomunal que as pessoas fazem para descrever suas experiências com comida, é a tal de foi uma explosão de sabores! Como pode isso ser possiível? Quando eu leio e escuto essa pérola, logo penso naquela balinha em pó que foi bem popular nos anos 80 e que explodia na boca. Aquilo era uma explosão, de fato, mas era somente de um sabor. Essa tal de explosão de sabores eu ainda estou para experienciar.

you better come on in my kitchen

"oh, can't you hear that wind howl?
oh-y', can't you hear that wind would howl?
you better come on in my kitchen
babe, it's goin' to be rainin' outdoors"

Eu adoro essa música do Robert Johnson [neste vídeo numa interpretação do John Hammond], que sempre que escuto imagino o blues man sentado numa cadeira, numa cozinha simples, numa casa no sul dos EUA, dedilhando seu violão e convidando a mulher que passa para entrar, pois logo vai começar a chover. Ficar na cozinha bebericando chá, lendo ou batendo papo enquanto chove lá fora é certamente uma cena idílica.

Está chovendo e ventando de uma forma absurda aqui. Tentei sair de casa para ir trabalhar, mas depois de dar alguns passos na rua o guarda-chuva empinou e me molhei toda. Voltei correndo pra casa e liguei pro meu trabalho avisando. Não tem condições de enfrentar ventos de quase cem quilômetros por hora. Estou na minha cozinha, bebendo chá, mas o cenário não é nada cândido.

E nesse tempo inclemente ele está voando para Los Angeles e depois dirigindo para Santa Barbara. Eu nem sei o que dizer. Lord have mercy....

Pra completar o panorama nada bucólico, o gato Roux estava excitado, miando e dando patadas na porta de vidro que dá para o quintal. Fui ver o que estava pegando e meu coração se partiu ao meio quando vi um pequeno passarinho, todo enrolado como se fosse uma bolinha, tentando se proteger do aguaceiro no cantinho do batente. A letra da música do Robert Johnson de repente se transfigurou num recado apocalíptico—you better come on in my kitchen, 'cause it's goin' to be rainin' outdoors...

foi um sonho? apenas um sonho?

Não tenho certeza se foi um sonho ou se eu realmente acordei no meio da noite e sentenciei decidida—já tenho o menu do Natal todo resolvido: será peito de peru recheado e acompanhado de quinoa com frutas secas e nozes, e bacalhoada acompanhada de arroz branco [eureca!].

Mas não consigo lembrar se também defini os acompanhamentos como salada ou legumes e as sobremesas. Sonho ou não sonho, vou pensar sériamente nessa idéia da quinoa e do bacalhau.

o suplício inevitável da estação

Eu não curto nem um pouco essas festinhas obrigatórias que pipocam todo final de ano. Não é só a festa em si, mas tudo o que é decorrente e inerente à ela. Na festa de Natal do meu grupo de trabalho tem sempre comidas, bebidas, música, conversinhas pra boi dormir e jogos e brincadeiras animadas.

Tudo é tolerável, menos os jogos e brincadeiras, que geralmente vêm acompanhados de prêmios, que nem sempre têm caracteristicas de recompensa, mas sim de punição. Quem quer ganhar um buquê feito de pirulitos coloridos? Ou uma caixa com cubos de chocolates com gosto de parafina pintados de cor-de-rosa? Eu passo. Queria passar os joguinhos também, mas não quero ganhar o título de chatonilda do mês, então participo—bocejando, com uma cara de blasé, sem me esforçar nada, não fazendo a mínima questão. Eu detesto qualquer tipo de brincadeira ou jogo coletivo, principalmente em ambiente de trabalho.

Ninguém escapa da famigerada festa de Natal. Primeiro temos que responder uma survey online, até que os organizadores—voluntários, ainda vai chegar a minha vez—cheguem a uma resolução democrática, depois que todos deram suas opiniões, sobre onde, quando, como, que horas, com catering, potluck, aberto para famílias, eteceterá, eteceterá. Tudo decidido com relação ao local, horário, menu, vem então o turno da organização das brincadeiras.

Neste ano um dos joguinhos de adivinhação pedia a colaboração de cada indivíduo, que deveria enviar para a fulana de tal uma foto sua, de tempos longínquos, vestido em fraldas, ou fantasiado pro halloween, ou saltando de pára-quedas, ou fazendo qualquer coisa de maneira irreconhecível. Eu tinha acabado de publicar a foto reveladora de uma pequena bugrinha muito da mal humorada e resolvi que seria aquela mesma que iria ser enviada para a organizadora meticulosa da brincadeira mais sensacional da festa de Natal.

Ficou decidido que um serviço de catering seria contratado para providenciar a comida—um maravilhoso e variado cardápio de lasagna de legumes e lasagna de carne, mais salada e pão. A sobremesa seria potluck style, então eu fiz uma torta de limão, com uma massa congelada, mais o lemon curd da Alice Waters e um suspiro por cima. Chovia cântaros pela manhã quando ajeitei a torta bem enrolada em papel alumínio dentro de uma cesta e enfrentei o aguaceiro e o vento, que simplesmente destruiu o meu guarda-chuva.

A festinha decorreu naquela previsibilidade. Música sazonal tocando no fundo, sorteio de prêmio que foi abocanhado pela chefona, comida sem graça, sobremesas variadas e os célebres jogos de confraternização. Eu não reclamo de nada, engulo a gororoba banal, passo a manteiga artificial no pão, bebo até Fanta laranja, mas quando chega na hora de jogar o jogo, a mal humoradinha que mora dentro de mim se manifesta com um grunido de protesto. Todo mundo parece adorar os jogos, aplaude, vibra. Eu tenho ganas de ir lavar as mãos no banheiro e ficar sentada num banco no corredor, esperando a função terminar.

Na brincadeira de adivinhar quem era quem em tempos remotos, eu até arrisquei uns palpites com relação à algumas pessoas: o meu supervisor que continua com a mesma cara até hoje, a que posava com o uniforme do clube do Mickey Mouse e uma que eu jurava que era outra. No final quase todo mundo adivinhou quem era a bochechuda de cara amuada sentada numa rede com vestidinho de manga bufante da foto número um. Não mudei muito, não? Muita gente concordou.

como assim, uma semana?

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Acho que eu sou uma pessoa óbvia, pois todo ano tem repeteco da mesma cena: a ficha caindo que faltam apenas alguns dias para o Natal e eu ainda não fiz nada, não pensei em nada. Talvez isso aconteça porque essa festa não é a minha favorita, não é a mais aguardada, não é a mais planejada. Eu somente vou com a onda e talvez seja por isso também que eu sempre tomo um caldo. Pois chegou o dia da ficha cair. Enquanto mantinha os olhos cravados no número 17 do calendário—que está exatamente em cima do 24, quer dizer daqui uma semana será Natal—tive meu chacoalhão, meu wake up call.

Não é novidade que eu sempre deixo tudo pra última hora e por isso mesmo preciso registrar o fato mais uma vez, para que fique bem claro para as gerações que nos seguirão que a grandma Fezoca não curtia muito os festejos do Natal. A casa não tem nenhum enfeite, nem árvore, nem luzinha, nem Bing Crosby cantando White Christmas, muito menos cookies de gengibre e canela assando no forno. O sambalelê vai começar agora, com aquela habitual procura histérica por receitas legais, a correria pelos supermercados da cidade em busca dos ingredientres, a esperança de que todas as sobremesas ficarão comíveis e a única certeza—que o esquema do peru vai ser o mesmo. Gingo-o-beus, gingo-o-beus!

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

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Será que é culpa do trânsito de Marte retrógado pegando a minha lua?

Primeiro a caixa da quinoa vazou e zilhões de sementes se espalharam rapidamente pelas prateleiras e frestas da geladeira. Depois o triturador da pia entupiu e subiu aquela água borbulhante amarelada, que gira em falso como se fosse um redemoinho gago. Liguei rapidamente pro Uriel pedindo socorro, pois apesar da pia ter duas bacias, a que tem o triturador é a mais útil, a mais fácil, e eu não posso cozinhar sem usar a torneira. Ele veio e a meleca estava realmente grande. Depois de remover tudo o que fica guardado em baixo da pia, desligar o aparelho, remover o cano, drenar a água escura cheia de pedaços semi-moídos de casca de mexirica, apareceu o grande causador do estrago: uma tampinha de plástico, que deve ter caído lá por acidente. O jantar saiu, mas antes tive que trocar os tapetes da cozinha e me descabelar na frente do fogão, pois justamente naquele dia a lentilha que estava na panela tentando virar sopa, não amolecia de jeito nenhum.

E no dia que resolvi fazer uma receita de tuna melt porque iria jantar sozinha e comecei a não achar os ingredientes—um atrás do outro. No final das contas a única coisa que eu tinha era mesmo um lata de um maravilhoso atum espanhol, que eu compro lá no Corti Brother's. Bom, pelo menos isso, eu tinha um atum de excelente qualidade preservado no azeite, que compensou a falta de TODOS os outros ingredientes. Não tinha pita bread, não tinha salsão, não tinha pickles, nem queijo cheddar e a maionese até que tinha, mas quando eu abri o pote ela estava com uma camada amarela e um cheiro de ranço. Foi pro lixo. Fiz então o tuna melt à minha maneira, usando um pão indiano e temperando o atum com salsinha picada. Usei também uns tomates meio sem gosto, fora de época, que ainda teimam em chegar na cesta orgânica, cobri com queijo manchego ralado e assei. Não ficou nada igual a um verdadeiro tuna melt, mas ficou bom e eu comi assim, como sempre como quando estou sozinha, com uma bandeja no colo vendo um filme, na sala de tevê.

California rock 'n' roll

O primeiro restaurante de sushi nos Estados Unidos abriu na região de Little Tokyo, centro de Los Angeles, sul da Califórnia, em 1960. Era um pequeno bar com seis banquinhos chamado Kawafuka. Logo em seguida surgiram outros dois outros restaurantes, o Eikiku e Tokyo Kaikan. Os sushi chefs do Tokio Kaikan, Ichiro Mashita e Teruo Imaizumi receberam os créditos pela criação do primeiro sushi cross cultural, adaptado ao paladar ociental—o California roll. Na época o atum fresco em Los Angeles era sazonal, disponível somente durante o verão. Os chefs começaram a pensar no que mais poderiam usar pra fazer os sushis. E encontraram uma abundância de abacates produzidos localmente. Fresquinhos e cortados em cubos, a polpa dos abacates têm uma oleosidade natural que se aproxima muito da textura do peixe gordo. Combinado com king crab, pepino e gengibre, o sushi California era servido para ser comido com as mãos. O novo sushi se tornou bem popular e serviu de estímulo para os clientes ocidentais do restaurante, enquanto iam desenvolvendo coragem para provar os sushis autênticos, com peixe cru. Durante os anos 70, o sushi ainda era considerado uma iguaria exótica. A popularidade veio somente nos anos 80, com o estrondoso sucesso da mini-série Shogun, que colocou o país numa mania coletiva por coisas japonesas. Hoje, o sushi já entrou no cardápio oficial norte-americano e Califórnia virou sinônimo de sushi vegetariano. Não poderia ser mais apropriado!

who wants to live forever...

A inquilina da minha guest house veio pagar o aluguel no domingo e me pegou, como ela sempre me pega, fazendo o rango. Ela tem 21 anos e está no seu junior year na UC Davis. Eu já a conhecia antes dela virar minha inquilina. Ela não cozinha, o que pra mim é até certo ponto um alivio, pois a cozinha da guest house é minuscula e tem que investir num esquema para se cozinhar lá. Mas toda vez que ela vem pagar o aluguel ou só perguntar algo ou me falar algo, nós conversamos sobre comida. Ela me acha no mínimo o máximo porque eu cozinho e acha que eu sou uma mulher de sucesso porque eu tenho um blog de culinária. Ela é muito engraçada e fala umas frases engraçadas, sempre elogiosas e carinhosas, ela é bem querida. Às vezes eu convido ela pra puxar um rango. No meu aniversário ela veio e comeu a brandade de bacalhau, que ficou um pouco sem sal, então ela colocou—sem brincadeira—uma colher de SOPA de flor de sal no meio do prato. Uma vez ela me perguntou—você sabe que existem comidas prontas que você pode comprar e colocar no microondas? Minha resposta foi uma sonora gargalhada! Foi idéia do Uriel iniciar o processo de desova do bolo de laranja com tâmaras que ficou muito doce pro nosso gosto. Ele ofereceu o bolo pra ela, que aceitou prontamente, então eu cortei quatro fatias gigantes e embrulhei numa folhona de papel aluminio, enquanto explicava que o bolo só estava um pouco doce pra nós, mas era coisa fina—usei os melhores ingredientes, ovos fresquíssimos, manteiga orgânica, as tâmaras são locais e estão na temporada, tudo que eu uso é da melhor qualidade. Ela fez aquela cara de encantamento que ela sempre faz quando eu falo de como eu cozinho e nas coisas que eu acredito, e enquanto segurava cuidadosamente o pacote de bolo soltou mais uma das suas pérolas—oh, vocês comem tão saudável, você e o Uriel vão viver pra sempre!

Passe-me uma das coxas do brontossauro, por favor?

No alvorecer da década de oitenta, vivenciei por uns meses algumas situações desconcertantes geradas pela minha participação no processo Fisher-Hoffman. Eu era uma adolescente natureba e fazia a minha comida separada, sem carne, em casa. Essa trabalheira extra e estresse com a minha família não era motivada por nenhuma convicção filosófica, somente pela minha reação natural à uma ojeriza que sempre senti pelos produtos animais, que naquela época incluia também leite e ovos. Eu não entendia muito bem o que era ser vegetariano, porque eu não me considerava oficialmente uma. Mas algumas das pessoas no meu grupo do Fisher-Hoffman—que comigo somavam oito almas a procura de suas ilusões perdidas, eram vegetarianas declaradas. Um casal era bem radical, daqueles que moiam o próprio trigo e faziam aquele pão sólido como uma pedra, que só eles mesmos conseguiam comer. O cara era um agrônomo, ganhou até um prêmio para jovens cientistas por um projeto inovador que ele desenvolveu. E patrulhava com relação às carnes, às farinhas brancas, ao açúcar. Eu concordava com tudo, porque concordava mesmo. Naquela altura do campeonato eu já tinha feito minha passagem pela Raposa Vermelha e tinha lido o Sugar Blues do William Dufty, os livros de macrobiótica do George Ohsawa e já tinha adquirido o meu livro de cozinha favorito, que era a tradução para o português do livro do Ed Brown, The Tassajara Cooking.

Um tempo depois do final do processo eu fui com o Uriel, que ainda era meu namorado, a uma festa de casamento de uma das pessoas do meu grupo do F-H. Nunca vou me esquecer de uma cena que vi durante o almoço que foi oferecido aos convidados. Lá estava o casal que não comia carne de jeito nenhum, que fazia o próprio pão e advogava a vida ultra-super natureba devorando ávidamente coxas imensas de peru assado, que era um dos pratos servidos no almoço. Aquela visão dos vegetarianos totalmente possuídos pelo espírio de Fred e Wilma Flintstone ficou cravada para sempre nos arquivos da minha memória.

the pizza revolution

Quando o chef austríaco Wolfgang Puck abriu o Spago, seu restaurante na Sunset Boulevard de Hollywood em 1982, ninguém esperava que o centro do menu fosse a pizza. Com um poderoso forno à lenha italiano instalado em frente ao bar, o restaurante foi um sucesso instântaneo. Puck inovou o cardápio de pizza da América, colocando sobre os discos de massa ingredientes como camarões frescos de Santa Barbara, prosciutto, scallops, queijo de cabra de Somoma, alcacrofras, berinjelas, flores de abobrinha, ou qualquer tipo de produto fresco que por ventura o chef achasse no mercado do dia. A pizza mais famosa do Spago era a recheada com salmão defumado, caviar, cebola roxa e creme fraische aromatizado com dill.

O restaurante Spago atraia foodies e celebridades. Frequentadores assíduos eram Billy Wilder, Warren Beatty, David Bowie e Jack Nicholson, que sentavam-se às mesas cobertas por toalhas impecavelmente brancas onde talheres de prata da Christofle e pratos imensos da Villeroy & Boch eram arranjados com classe e harmonia.

o estado do que é recorrente

São situações difíceis de se explicar. No inverno, por exemplo, eu sinto frio. Muito frio. Eu tremo, eu suo no sovaco de tanto frio. Tenho frio nos pés, no pescoço e nas mãos. Demoro pra esquentar. É um horror, todo inverno, todo inverno. Outra coisa é que todo dia eu sinto fome, especialmente no período entre nove e doze e cinco e sete. É uma fome irritante, que me faz descontrolar e comer coisas idiotas como um sanduíche de peanut butter ou só a peanut butter com a colher. Nessas horas eu também devoro pizzas e pão e queijo e banana. É um horror, não consigo me conformar! E tem ainda esse negócio esquisito de toda noite eu ficar cansada, sentir sono, querer deitar e dormir. É uma coisa mais forte do que eu. Minha cama tão aconchegante, macia e quentinha me chama—vem, vem, vem. Eu não consigo resistir. Deito, me estico e durmo muitas horas. É um horror, toda noite é a mesma história, toda noite, toda noite!

caçarola musical

Quando o sofisticado e excêntrico Jeremiah Tower tomou posse como chef da cozinha do restaurante Chez Panisse em meados da década de 70, ele imediatamente determinou—chega de Led Zeppelin tocando nesta cozinha, de agora em diante só ouviremos música clássica enquanto trabalhamos.

Eu acredito que ouvir música na cozinha deve ser um fato unânime e universal. Todo mundo ouve alguma coisa enquanto corta cebolas e refoga o molho. Eu sempre tive uma boombox na bancada da cozinha, onde ouvia meus cds. Mas como já mantenho o meu laptop na cozinha há um bom tempo, acabo ouvindo música nele. Ouço os cds que copiei pro computador ou as rádios do ITunes ou websites ecléticos como o Pandora. Eclético é também a melhor palavra pra definir meu gosto musical. Eu ouço muita coisa diferente. Algumas coisas muito diferentes, como hits dos anos 20 e 30.

Eu cresci ouvindo todo tipo de música, providenciadas pelo meu também eclético pai, que comprava de tudo e nos expôs à uma variedade enorme de estilos musicas. Meu pai ouvia de Mozart, a Nina Simone, a Jimi Hendrix. Mas ele se concentrava muito mais na música clássica, que eu passei a infância escutando. Fui amplamente exposta, mas não desenvolvi gosto pelos clássicos. Como também nunca fui a maior fanzoca da MPB. Eu sempre gostei mesmo foi de old Blues, old Jazz, Bob Dylan, a música negra norte-americana em geral e o bom e velho Rock 'n' Roll. Eu sou uma pessoa totalmente Led Zeppelin e iria ser forçada a pedir demissão se por acaso trabalhasse na cozinha do Chez Panisse durante o reinado clássico do chef Jeremiah Tower.

nhoc...

Besta sou eu, que fico tomando meus chazinhos e petiscando meus snacks saudáveis de frutinhas e bolachas integrais, enquanto meus colegas sorvem litros de café com toneladas de açúcar e devoram chocolates de todo tipo, biscoitos amanteigadas e salgadinhos industrializados. Tento manter minha pose blasé de gente superior, que não se auto-polui com porcarias. Mas despenquei do pedestal natureba no minuto em que mastiguei a terceira colher cheia de sementinhas de romãs. Um terrível gosto amargo inundou a minha boca, se misturando ao adocicado da fruta e me dobrando numa careta de surpresa e desgosto. Fiquei confusa por alguns segundos, fazendo aquela cara de pléé. Quando coloquei a lingua pra fora, dela cairam sementes de romã mastigadas e uma joaninha—das vermelhinhas com pintinhas. Não tive condições de ver se ela ainda estava viva.

As joaninhas são fofas—não só porque elas são bonitinhas, mas também porque elas fazem parte do time do bem, os good guys, que ajudam a combater as pragas na agricultura. Você pode comprar um saquinho cheio delas e espalhar pelo seu jardim, que além de enfeitá-lo, as joaninhas vão comer qualquer tipo de pulgão que por acaso esteja infestando suas rosas e plantas. Lindas e úteis. Mas não são comestíveis.

f-i-a-s-c-o

figo_fiasco.jpg

Foi pro lixo uma xícara e meia de organic whole ground buckwheat flour, um tablete da melhor manteiga orgânica, uma gema de ovo caipira, açúcar orgânico com baunilha, uma caixa de figos orgânicos frescos, uma xícara de creme fraiche e duas colheres de chá de água de rosas francesa. A massa queimou a ponto de esfumaçar—não deu pra comer, não deu, simplesmente!

sou um pudim ambulante

Bem na minha frente e atrapalhando o meu acesso à marca de desodorante que eu costumo usar, estava uma mãe com quatro filhas. As meninas abriam os desodorantes um por um, cheiravam e murmuravam comentários elogiosos, dependendo do tipo de perfume. Violeta espanhola, hmmm, esse é realmente delicado. Algodão doce, ohh, esse eu gostaria de lamber. A mãe tentava dissuadir as meninas daquela lenga-lenga que a estava empatando, dizendo algo como—vocês ainda são muito novas pra usar desodorante, o que vocês precisam é apenas um bom banho. Concordei. A mãe também precisava de uma chuveirada, mas isso não vem ao caso. O caso é que eu não gosto de desodorante com cheiro forte e a marca do desodorante que eu uso lançou uma linha com cheiros inacreditáveis. Naquela confusão de meninas matracando, murmurando, cheirando, abrindo e fechando embalagens e tirando e pondo desodorantes das prateleiras, eu tive um cinco minutos de ansiedade, peguei o primeiro desodorante que alcançei e casquei fora. Desde então está tudo muito estranho por aqui, pois nunca na vida eu tive um sovaco com cheiro de baunilha e chai.

hoje eu lembrei

Acho que é hoje que faz dois anos. Não costumo ficar marcando e relembrando datas tristes, mas tenho quase certeza que foi no dia de hoje, há dois anos, que ouvi o recado do meu pai na secretária e depois o som abafado de quem não consegue mais falar. Eu chorei por um tempão, porque ela era uma das minhas pessoas favoritas neste mundo, aquela que eu admirava e imitava, reparava nas parecências e até me assustava. Ela dizia com a sua voz potente e alta—nós duas somos dois livros abertos!

Por tudo isso e mais um pouco, numa época em que meu irmão ainda morava em Los Angeles, nós decidimos que iríamos fazer uma compra mensal de gostosuras pra ela através do supermercado online que entregava tudo direitinho lá no sitio onde ela vivia. Ela amava gostosuras, chocolates, bolachas, geléias. Mas ela tinha aquela doença traiçoeira chamada diabetes. Então minha missão mensal era fazer uma compra de gostosuras que não deixasse ela mais doente. Por três anos, todo final de mês eu me logava e fazia uma comprinha. Era legal, porque durante esses anos eu me interei das novidades nas prateleiras do supermercado brasileiro. Via produtos novos aparecendo, marcas novas, diversidade, variedade. Algumas coisas eu queria comprar pra mim, ficava empolgada. Mas a compra era para ela e tinha que ser especial. Eu comprava também sabonetes variados, porque eu sabia que ela iria adorar. Éramos iguais nisso também, loucas por banho, por cheiros, por perfumes.

Faz dois anos então hoje que eu parei de fazer as comprinhas no supermercado online, faz dois anos que acabou a minha diversão de encaroçar pelas prateleiras virtuais, pensando e escolhendo as coisas que eu sabia que ela iria gostar e depois ficar me sentindo imensamente feliz imaginando a alegria dela ao receber a entrega. Outro dia minha irmã disse que a ausência dela é como se nunca mais tivessemos ido ao sitio visitá-la, no que eu concordei. Dois anos depois eu ainda penso nela sempre que vejo chocolates, bolachinhas e geléias gostosas, sabonetes e perfumes, ou todas as outras coisas que ela adorava. Fico olhando e matutando—hmm, será que compro pra enviar, pois ela iria amar!

where the buffalo roam

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*Vida nas pradarias canadenses: Uriel e Gabriel providenciando a CARNE pra Fer poder fazer o jantar. Bufalo ou bisão, honey?

No menu do restaurante da floresta de Apple Hill tinha a opção de hamburguer de carne de bufalo—cem por cento orgânica. Eu apontei o item do menu para o Uriel e nós dois fizemos aquela cara de bleargh. Eu não sou uma pessoa essencialmente carnívora. Eu como carne, mas tenho crises de consciência e de asco muito frequentes. Nunca quis provar cozido de coelho, que se preparava em festas de família ou o hamburguer de avestruz, que é famoso aqui em Davis. A carne de bufalo, porém, eu provei. Foi uma experiência inesquecível, no mais amplo sentido da palavra inesquecível. Meu paladar para carnes é bem sensível, carnes muito fortes me entojam fácil e a carne de bufalo não é coisa pra amadores. Pra mim foi mais do que eu consigo suportar.

Pedimos um hamburgão de carne de bufalo cada um num passeio ao Wanuskewin Heritage Park em Saskatchewan, Canadá. Um lugar completamente apropriado para a experiência de provar o sabor da carne do bufalo, que é praticamente o simbolo do desbravamento do oeste norte-americano e canadense. Nem preciso dizer que não consegui terminar o meu sanduíche e que me concentrei nas batatas fritas. Será que os índios plantavam batatas? Se eu fosse uma índia no tempo dos bufalos vagando, certamente viveria plantando e comendo muitas batatas.

como arruinar um dia perfeito

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Quando o Uriel propôs de irmos até Apple Hill no domingo, para o festival da colheita da maçã, logo pensei que aquela não era uma boa idéia. Quando li o relato da Sheri no Edible Sacramento tive certeza: seria uma FRIA! Mas fomos assim mesmo. E fomos tarde, pois eu precisava nadar. Eu só consigo nadar nos finais de semana. Pegamos a estrada pensando em almoçar em algum orchard em Apple Hill. Congestionamento na freeway, congestionamente na estradinha que leva aos pomares, dificuldade para estacionar, gentarada saindo pelo ladrão, familias e mais famílias com crianças, pais, avós, bisavós, querendo desfrutar as atividades promovidas pelas fazendas. E que atividades minha gente: correr por pumpkin paths fajutos, andar de cavalo [detesto, detesto essas coisas envolvendo animais], pagar ingresso para brincadeiras de quermesse, ficar horas na fila para tudo, inclusive para comer as mil e uma sobremesas feitas com maçã. No pomar que paramos, eles vendiam de tudo—tortas congeladas de maçã, vinho de maçã, suco de maçã, descascador de macã, e muitas maçãs, é claro. Fomos procurar algo para comer de almoço. O menu maravilhoso de hamburguer, hot dog, corn dog, chili dog, fritas, e eteceterá me desanimou. Mais desânimo quando vi o cartaz na janelinha da venda—espera de 30 a 45 minutos. Esperar tudo isso pra comer um monte de fritura? O Uriel se colocou na fila dos doces de maçã e comprou donuts, tortas, dumplings. Depois pegamos a estradinha congestionada novamente, pra tentar achar um restaurante. No meio de uma floresta de pinheiros achamos um pub inglês que servia todos aqueles pratos típicos, misturados aos norte-americanos, nada que entusiasmasse. Pedimos um rango mesmo assim e saímos de lá frustrados e desapontados. Fomos até o fim da estrada que corta Apple Hill e pegamos a freeway novamente, dando de encontro com outro congestionamento. Nesse ponto meus nervos já estavam em frangalhos e o Uriel decidiu parar em Placerville, que é uma cidadezinha histórica da corrida do ouro, com um ponto de interesse peculiar—um bar que foi construído no local onde ficava uma árvore onde se enforcavam criminosos, bem no estilo old wild west. Uma coisa fantasmagórica e deprimente. A cidade, que já visitamos duzentas e trinta e sete vezes, é bem bonitinha, com um bar a cada metro e muitas lojas de antiguidade. Eu me diverti nas lojinhas, bebemos suco de maçã, café e fomos embora. Que total desperdício de um belo domingo!

This is GOOD stuff!

Toda vez que come a minha comida, ela exclama com seu pesadíssimo sotaque de norueguesa—this is GOOD stuff! Ela nasceu no pós-guerra e cresceu num país pobre, onde o treat de Natal era uma maçã. A Noruega não foi rica até a década de 70, quando descobriram que o país tinha óleo e então tudo mudou. Mas no tempo dela as coisas eram diferentes. O pai tinha uma padaria, onde ela aprendeu a fazer contas e administrar orçamentos. Assim ela cresceu, com aquela noção de conservar, juntar, economizar, guardar a água que cozinhou as batatas pra fazer sopa, fazer caldo com os ossos que sobraram do frango assado. Bem diferente de como eu fui criada, com fartura, sem poupança, minha mãe ajudando os pobres invés de guardar dinheiro pra comprar casa na praia, meu pai dizendo mais vale um gosto que um tostão no bolso, num lugar rico em agricultura, com frutas e legumes abundantes, muito solo, muita água, o slogam do país do futuro. Eu nunca pensei em imigrar. Aconteceu. Ela decidiu e imigrou sozinha, ainda bem jovem, em busca do sonho na América. Hoje somos meio família e quando eu cozinho ela comenta bem alto—this is GOOD stuff! Porque realmente é. Ela é quantidade, estoque de lataria na garagem, compras em bulk no Costco. Eu sou qualidade, bons ingredientes escolhidos à dedo para alegrar o paladar. A comida dela é okay, mas a minha—sem falsa modéstia, é realmente GOOD STUFF!

fatos históricos que adoramos aprender

O restaurante Chez Panisse em Berkeley, Califórnia, serviu o seu primeiro jantar inaugural em 28 de agosto de 1971. O menu único teve pâté en croûte como entrada, canard aux olives e uma salada como prato principal, uma torta de ameixas de sobremesa e café. O preço, também fixo, era de $3.95. Alice Waters ainda estava martelando um tapete na escada quando os primeiros comensais começaram a chegar. Eram na maioria amigos e ela os recepcionou naquele dia usando um vestido antigo de renda beige. Um enorme vaso com flores decorava a entrada. Cinco garçons passaram a noite trombando entre si, enquanto tentavam servir os clientes jantando no pequeno salão, com poucas mesas arranjadas com toalhas xadrez de vermelho e branco, louça e talheres de segunda-mão descombinados. Os vinhos servidos naquela noite foram Mondavi Fumé Blanc, Mondavi Gamay e um Sauternes, Château Suduiraut, vendido por copo. A caótica cozinha foi comandada pela chef Victoria Kroyer. Antes de ser contratada por Alice, Victoria fazia pós-graduação em filosofia na UC Berkeley e nunca tinha trabalhado num restaurante. Sua única experiencia com culinária era os jantares que ela preparava na sua própria cozinha. No final da noite, 120 refeições foram servidas, nem todas foram pagas. Clientes aguardavam na calçada, quando Alice avisou—desculpem, mas não temos mais comida, voltem amanhã. Faltou talheres e no dia seguinte Alice percorreu todos os flea markets da cidade, buscando por mais talheres antigos e o número de garçons baixou para três, o que tornou o serviço mais eficiente. O nome Chez Panisse foi uma homenagem ao personagem Honoré Panisse da trilogia Marius, Fanny, and César do diretor francês Marcel Pagnol, de quem Alice era fanzoca.

a peste do dia

"This summer has been a tough one for us in the pest department... and not just arthropods and diseases! We continue chasing off wild turkeys (that have decimated our second melon planting and have turned their eyes on our cucumbers!) and setting out have-a-heart traps for the jackrabbits that keep sneaking in under our fence. Aside from these crop-munchers, there is always the odd crow or ground squirrel that decides to chew a hole in our irrigation lines. Alas, this is life on an organic farm, and as a CSA subscriber you can feel good about what both you *and* those little critters are putting in your bodies!"

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perus selvagens, uma das pragas que atacam a horta da minha amiga Alison

A cartinha da cesta orgânica desta semana me fez sorrir nervosamente, pois agora eu sei que as pestes na agricultura abrangem muito mais espécies do que eu podia imaginar. Pra falar a verdade, antes de eu ter uma horta eu nem pensava em pestes ou se pensava era uma concepção tão remota, só de ouvir falar, naquele papo dos horríveis agrotóxicos. Mas eu lembro de sempre dizer com muita determinação e empáfia que eu preferia as minhas verduras com furos ou presença física de bichos [escrotos] do que pulverizada por quimicos e venenos. Mas na verdade eu nunca tinha tido muito contato com as pragas e outros miserês agrícolas até então. Claro que os bichos que chegavam com os legumes e verduras da cesta assustavam, mas não me davam raiva. Ter uma praga destruindo a sua horta dá raiva e dá vontade de aniquilar tudo sem dó, rápido e de qualquer jeito—com spray desintegrante, veneno cancerigeno, pó fumegante, bomba de gás, maçarico flamejante, energia nuclear. Foi isso que eu senti quando vi o meu quintal todo esburacado por um gopher no final de um inverno. Fui atrás de uma solução e fui instruída por experts a comprar umas bombas de gás e enterrá-las acesas dentro dos túneis cavocados pelos gophers. Comprei os tubinhos mortíferos movida pelo ódio, mas não tive coragem de implementar o plano assassino. Não sei que fim teve o gopher de olhinhos sapecas. Se ele morreu, foi por qualquer outro motivo alheio à minha vontade. Praga de pensamento cármico, talvez, mas minhas mãos não se sujaram com sangue inocente e minha consciência está tranquila.

Meu trabalho no IPM também contribuiu muito para me abrir os olhos, não só para a quantidade quase incomensurável de pragas nojentas dos mais diversos tipos, mas também para as pragas fofinhas. Não são somente vermes, insetos, ácaros, cracas, doenças, pulgões, lesmas, ratazanas, aracnídeos, répteis rastejantes e ervas daninhas de diferentes procedências, que atacam como uma invasão enlouquecida de entidades devoradoras as nossas frutas, legumes e verduras. Há também o esquadrão das pragas bonitinhas. A descoberta de que coelhinhos, passarinhos, esquilinhos, veadinhos e outros bichinhos fofos podem ser realmente do mal foi um grande choque.

Ainda é muito duro pra mim encarar esses bichos realmente bonitos como inimigos. Mas já estou me acostumando a olhar aquela fauna de filme da Disney com olhos mais suspeitos e tenho certeza absoluta que não quero a visita de um esquilo ou de um coelhinho no meu quintal.

stuck outside of mobile with the memphis blues again

Meus gatos são indoors, isto é, eles não saem na rua. Nem mesmo no quintal. Os motivos são basicamente segurança e saúde. Gatos indoors são mais limpos e mais saudáveis, vivem mais anos. O Misty não pode sair também porque ele é um gato indefeso—ele foi "declawed", teve suas garras removidas cirurgicamente pelo seu primeiro dono. Essa prática, considerada cruel na maior parte do mundo, ainda é feita aqui com a maior naturalidade. O Roux não pode sair porque ele é uma criatura esbaforida e não é muito inteligente. Ele é imaturo e meio bobo, um amoreco total, mas tem suas limitações. Quando eu o adotei, tive que prometer que não iria deixá-lo sair. Estou cumprindo como posso. Mas ele é um gato e é curioso. Se der mole, ele casca fora.

Sexta-feira é dia de faxina na minha casa. O pessoal da limpeza já foi avisado desde o primeiro dia, que os gatos não podem sair. Mas ontem algo aconteceu. Cheguei em casa às 5 pm e fui primeiro checar a limpeza, pois eu sou bem chatonilda e olho tudo nos micro-detalhes. Liguei a máquina de lavar roupa, falei olá pro Misty, que sempre vem me recepcionar e só depois de uns quinze minutos que parei em frente a porta de vidro que dá para o quintal e vi um gato familiar trancado do lado de fora, todo assustado, encolhido, com os pelos sujos de folhagem. Era o Roux!

Alguém deixou ele sair. Com certeza foram varrer o quintal e deixaram a porta aberta e ele, enxerido que só, escapuliu. Foi muita sorte ele não ter saído pra rua, pois atrás da minha casa tem um shopping center super movimentado. E também foi sorte ele não ter pulado a cerca, pois meus dois vizinhos têm cachorros. Baita susto! Esse Roux....

passa-tempo

Porque estamos surfando outra ondaça de calor, o que faz a minha cozinha ficar bem improdutiva, somado à tonelada de trabalho que empilha-se no meu desktop, decidi convidar todos para um passeio arqueológico pelas catacumbas de ChuKruntkhamun (King Chukrutut). Divirtam-se.

Love me Tender—uma receita querida, como lembrança do Rei Pelvis.

Gadgets Galore—um desfile de utilidades & inutilidades imprescindíveis.

Minhas Madeleines—reminiscências proustianas de uma Guimarães Rosa.

Sopa Cremosa de Cogumelos—a receitinha que encantou o meu irmão.

Pistacho, Pistacho—fotos reveladoras.

Oi!—porque fotos com o Roux sempre alegram o ambiente.

eu não acredito em dona Benta

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Eu não acredito em saci pererê, nem na mula sem cabeça, ou no boto cor-de-rosa, nem na bruxa de oz, e muito menos na dona Benta.

Como vou acreditar numa mulher que não existe? Que dá seu nome para um livro sem autores. Que é também marca de farinha. E avó de personagem de ficção. Faz-me o favor, hein?

Eu tenho o livro da dona Benta e já fiz algumas receitas, mas se vocês forem parar pra analisar aquilo é uma compilação de receitas de domínio público, sem muito detalhe, porque sem autor, não se pode dar bandeira.

Quis fazer um bolo [outro] de milho pra gastar a milharada que se empilha de maneira crescente na gaveta da geladeira. Quando vi essa receita pensei imediatamente—tá pra mim! Bate tudo no liquidificador e assar. Iuuru!

Mas quando comecei a misturar os ingredientes, fiquei procurando a farinha. Não ia farinha. Tudo bem. Mas só com ovo, leite e creme de milho não ia dar consistência de bolo. E não deu.

Outra coisa irritante no livrão da dona Benta é a displicência das receitas. Nenhuma tem temperatura de forno, nem tempo de forno. É assim, põe lá e assa. Coisa pra gente batuta, não pra cozinheiras descabeladas como eu.

O bolo virou um belo pudim. Não ficou nem um pouco ruim e eu recomendo que se coma frio e no dia seguinte. Paciência é tudo nessa vida.

Usei o melhor ovo, o melhor leite, o melhor milho, a melhor manteiga, o melhor açúcar. E assei sem saber por quanto tempo num forno médio. Sabe assim, nem muito quente, nem muito morno. Tudo muito etéreo, como o universo encantado da dona Benta.

snifff

Tive uma certa inveja de uma pessoa que conheci anos atrás. Não me lembro exatamente porque, mas ela tinha perdido o olfato. Quando fiquei sabendo disso, imaginei as possibilidades de uma existência sem precisar e poder sentir cheiros. A idéia me conquistou.

Só pra ilustrar, eu tenho uma cara de Ana Magnani que incluí aquele nariz dramático caracteristico. Eu acho que a napa influí bastante na minha habilidade de cheirar, pois muitas vezes tamanho é documento. O nariz não é feio e combina comigo, pois não sou num tipo mignon. Mas o problema é que somado ao narigão, eu tenho um olfato super-hiper sensível e sinto o cheiro de absolutamente tudo.

Muitas vezes estou reclamando de um fedor qualquer e o Uriel está olhando pra mim com aquela cara de patzo, como que não está entendendo o motivo de tanta algazarra. Ele não sente os mesmos cheiros que eu sinto.

E o mundo é um povoado extremamente fedorento. Tem dias que eu penso na mulher sem olfato e desejo ardentemente ser como ela. Assim eu não precisaria cheirar tanto cheiro repugnante. Eu sinto o ar empestiado de bosta de vaca quando o vento sopra de um determinado jeito e traz pro meu lado a caatinga dos estábulos da UC Davis. E é tanto chulé, sovaqueira, bafão. Já passei pelo amargura de trabalhar com alguém que retocava o perfume de gardênia a cada meia hora. E com outro alguém que não depilava o sovaco e não usava desodorante por questão religiosa ou cultural e conviveu dois longos verões comigo. Cheiro de xixi de gato, de cocô de gente, de bodum, de lixo, de comida podre, de naftalina, de gente que cheira estranho—pois não tem gente que cheira estranho? E cheiro de mofo, de revista velha, de garage sale, cheiro de pum, cheiro de cachorro molhado, cheiro de carpete de restaurante, de sabonete vagabundo, de foto velha, de casaco guardado no armário.

Meu olfato é tão aguçado que eu sinto o cheiro das máquinas, dos pistachos, dos computadores, dos laboratórios nas roupas do Uriel. Muitas vezes é tudo tão insuportável, que eu arriscaria perder a capacidade de sentir o cheiro da brisa, da chuva, da terra, do sol, do pão assando e das frutas, flores e plantas, só pra viver confortavelmente na ignorância do quanto esse nosso mundo é fétido!

*este texto foi escrito em 2001 para o The Chatterbox e reciclado para ser publicado aqui.

**disclaimer: eu gosto de escrever e quando tenho uma idéia que acho legal desenvolvo e transformo num texto. acho que dá pra perceber que um texto é apenas um texto, não? eu não quero perder o olfato, nem intenciono fazer uma operação pra isso. tenho muita compaixão pelos que sofrem de alguma incapacidade física, mas isso é um texto, apenas um texto.

one-track mind

Acontece frequentemente comigo, porque eu estou sempre obcecada por algum assunto. Ninguém precisa realmente ficar sabendo qualé o babado. Mas essa é outra caracteristica do tipo bitolado: não conseguir ficar calado quando se trata do seu assunto favorito. Anos atrás eu falava sobre blogs para uma platéia paralisada com aquele sorriso amarelo na cara e um ponto de interrogação na testa. Dava pra perceber que estavam todos pensando sériamente, já em estado de pânico, em fugir correndo pra bem longe daquela pessoa que com certeza falava sobre alguma doença infecciosa e contagiosa—blog? coisa boa que não pode ser.

Me dediquei com afinco à fazer um sorvete de baunilha. Não qualquer baunilha, mas a baunilha fresquinha do Taiti, que eu cortei ao meio e raspei, esquentei por uns minutos no melhor creme de leite fresco e orgânico que pude encontrar e deixei em infusão na geladeira até o dia seguinte. Preparei o melhor sorvete de baunilha que pude preparar para levar ao chá de bebê de uma pessoa muito fofa, que vai ter sua filhinha no meio de setembro. Todo mundo levou uma coisinha, comprada ou feita em casa, nem tudo from scratch, mas tudo preparado com amor e carinho. Eu cheguei carregando um cooler com duas variedades de sorvete de baunilha. Não qualquer baunilha, mas aquela baunilha fresquinha do Taiti. Fiz um mais doce, outro menos doce e com a adição de uma colherzinha de chá de pasta de baunilha.

O problema não é o que eu preparo, mas a minha total obsessão por tudo o que eu faço, o que inclui o tal blog de culinária. Estou ficando seriamente tapada. Vejam só, eu só falo sobre COMIDA. Em qualquer encontro ou evento social, lá estou eu falando sobre comida. Eu falo sobre comida até com o meu marido, que não sabe fritar um ovo, mas sorri gentilmente e até dá palpites. Com ele tudo bem, estou em casa. Mas em outros lugares, preciso ir com cuidado, porque eu acabo entediando as pessoas, especialmente as que não cozinham e não estão nem aí pro assunto de comida.

Fui ao chá de bebê e já cheguei explicando que tinha feito um sorvete de baunilha, mas que não era com qualquer baunilha, mas sim a baunilha fresquinha do Taiti. E pra quem fez cara que não entendeu, eu entrei em detalhes: não tinha usado o extrato liquido, mas sim a fava, fresquinha, do Taiti. Depois tive obviamente que frisar que era tudo orgânico e que a receita era do David Lebovitz. As caras que me olhavam enquanto eu descrevia os detalhes sorriam educadamente, mas demostravam sinais visíveis de que o meu assunto não estava fazendo muito sucesso.

Se eu tiver a oportunidade, vou falar abusivamente sobre comida, com detalhes dos ingredientes, dizer que é tudo orgânico—essa parte é imprescindível, e se sobrar tempo vou dizer que a receita está no meu BLOG, um blog de culinária, preciso sempre sublinhar. Se alguém morde a isca e pergunta onde, eu já disparo rapidinha a frase apoteótica—DÁBLIU-DÁBLIU-DÁBLIU CHUCRUTE COM SALSICHA [TUDO JUNTO] PONTO COM.

a hora e a vez do bolo

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Quando me dá aquela vontade de comer algo gostoso lá pelas três da tarde, eu caminho até a Coffee House da UC Davis e invisto $1.25 numa fatia de bolo. Não é qualquer fatia de bolo, mas um bolo, aquele bolo, o bolo especial, que pra mim é bem parecido com o bolo feito em casa—feito por alguém com mão boa pra fazer bolo. Eles não têm nada de especial, são branco, com poppy seeds, ou com limão, com purê de maçã, de chocolate, receita especial da tia de alguém, sempre com uma cobertura de açúcar e manteiga, que eu cuidadosamente romovo com o garfo antes de comer. Eu adoro esses bolos, porque eles são feitos from scratch pelos estudantes que trabalham na Coffee House, com ingredientes locais e fresquinhos. Pra mim é sem dúvida o melhor bolo da cidade! A Coffee House tem um profile bem interessante, pois é administrada por estudantes, que fazem de tudo, desde organizar o cardápio, fazer a comida e vendê-la diáriamente para os milhares de outros estudantes que passam por lá. A CH consome toneladas de ingredientes fresquinhos adquiridos de business locais. A fazenda da UC Davis, onde eu pego meus legumes e verduras orgânicos semanalmente, é um dos fornecedores.

A hora do bolo é uma hora auspiciosa. Caminho até a Coffee House, escolho o bolo, volto caminhando, removendo a cobertura e devorando o bolo fofinho e macio, no mais popular estilo dos pratos ambulantes. Quando chego no meu prédio, com o prato vazio, apenas o garfo e o creme da cobertura amassarocado num canto, estou feliz, extremamente feliz!

para beber com os amigos

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Fomos ao restaurante italiano com os dois casais de professores espanhóis. Foi interessante ouvir os comentários deles sobre a comida. Sem empáfia nenhuma, somente com aquele conhecimento de quem viaja muito, por ter mais facilidade para viajar. Nós, habitantes do vasto continente americano, ficamos embasbacados com a possibilidade de dirigir por algumas horas e mudar de país. Aqui levamos o mesmo tempo para cruzar um estado. Os espanhóis podem facilmente comer comida italiana na Itália, o que é bem diferente de comer comida italiana aqui. Mas eles gostaram, overall. Eu sugeri um vinho zinfandel para acompanhar as massas, somente porque é uma variedade muito comum na Califórnia. Na hora da sobremesa, ao invés de pedir aqueles doces meia-boca de sempre, resolvemos pegar doces caprichados do Ciocolat e degustá-los em casa, acompanhado de alguma bebida. No meu esquemão, já fui sugerindo um café, um chá? As caras não disfarçaram um muxoxo. Ah, mas vamos tomar um Porto. As faces alegraram-se. Bebericaram Porto , Amarula e Pinga de Banana. Eu fui de Pastis e o Uriel de Ginger Beer [ele não bebe mais álcool]. Um encontro assim animado, no meio da semana, não é muito comum. Conversamos muito, o Roux tentou fazer amizade com todos, até com quem disse na bucha que não gostava de gatos [taí a prova de que ele é uma criatura não muito inteligente]. Falamos até de política. O casal mais velho chegou em Davis pra fazer seu doutorado durante o Summer of Love—quarenta anos atrás. Ele nos contou algumas coisas engraçadas. Depois confessou que tinha três detalhes no seu currículo acadêmico dos quais ele não se orgulhava muito.

—meu diploma de graduação assinado por Francisco Franco; meu diploma de mestrado assinado também pelo Francisco Franco; e meu diploma de doutorado assinado pelo Ronaldo Regan!

—Ha Ha Ha Ha!

—Salud! Tin-tin! Cheers!

que se revela pela distinção

Reunir é bom, aproxima mais os colegas de trabalho, especialmente porque estamos divididos em dois grupos e sitiados em locais diferentes. No meio do campus fica o pessoal da web, onde eu me incluo. E no que chamamos de fazenda, fica o pessoal da publicação, os escritores técnicos, que preparam todo o material que sustenta o website. Por isso temos uma reunião bimestral, que eu estou incumbida de organizar, quando podemos nos sentar para discutir os pequenos enroscos dessa transição do papel para a web. O negócio é que eu peguei uma total antipatia desse evento. Fico tremendamente exausta com os debates extra-super-micro-hiper minuciosos sobre coisas muitas vezes óbvio ululantes pro grupo da web, mas que pro pessoal da publicação é um bicho de sete cabeças. Uma das escritoras é especialmente chata. Ela me causa temor, porque é sempre a do contra, a que acha entrave nas situações já resolvidas e tem as dúvidas mais non sense. A reunião for desmarcada duas vezes por causa dela. Quando finalmente nos sentamos em volta da mesa da sala de conferências, ela já foi avisando que detestava esses encontros matinais e por ter madrugado, desculpava-se, mas teria que tomar seu café ali mesmo na nossa frente. Eu já fiquei de cabelo em pé—ela vai comer durante a reunião? Essa é uma atitude muito comum nos ambientes de trabalho aqui na norte América, mas eu não consigo tolerar nada mais que xícaras de chá, garrafas de água ou latinhas de diet Pepsi. Por ser uma estressadinha, já fui acumulando uma irritação extra, pela iminência dos sluuuurppp, sleeeerrp, crackcrokcrunck e shurrrllffppff durante as discussões infinitas. Meu ânimo, já sóbrio, submergiu num crescente e desgostoso pesar.

Acho que ninguém realmente reparou. Só mesmo eu, porque estava de olhão em cada movimento, me preparando para o pior. Ela tirou uma garrafa térmica enorme de dentro de uma bolsa que estava no chão e encheu uma caneca também térmica com café num movimento quase tão gracioso como o de um balé. Não se ouviu um "chi". Depois, num movimento ainda mais discreto, que nem eu que estava olhando vi, uma vasilha de plástico apareceu sobre a mesa. Nela, uma boa quantidade do que eu concluí ser iogurte natural misturado com pedaços enormes do que me pareceu ser pêssego—eu tentava não encarar muito. Uma colher saiu de não sei onde e ela fez seu desjejum durante a reunião, sem chamar a atenção, sem fazer barulho, sem se lambuzar, sem sujar nem respingar nada, nem falar com a boca cheia de comida, nem mesmo o batom cor de chocolate perdeu o brilho. Tudo muito impecável, com muita classe e finesse, num comportamento exemplar de comer em público.

*Se outros pudessem seguir esse bom exemplo....

tudo por um sorvete de figo

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Culpa da Fafah, que deixou um comentário mencionando um tal sorvete de figo. Minha mente obsessiva entrou em modalidade ziriguidum. Não sosseguei enquanto não fiz o sorvete. Felizmente estamos em temporada de figo. Felizmente em moro num estado onde os figos abundam. Felizmente eu tenho acesso à uma árvore de figos. Felizmente pra Fafah também, pois se eu não conseguisse fazer o tal sorvete de figos, certamente ela iria receber mensagens ameaçadoras das minhas lombrigas mafiosas.

Para fazer o sorvete de figo foi super simples. Envolveu apenas algumas etapas que foram facilmente superadas. Primeiro fui dirigindo até a estação experimental de vegetable crops da UC Davis, onde tem uma figueira de ninguém dando sopa e muitos figos. Esses não são dos figos roxinhos, mas da variedade calimyrna, que é verde. Fui até a figueira munida de luvas e cesta, me espichei toda pra colher as frutas mais madurinhas—a árvore estava lotada, então já sei que ainda vou poder voltar lá mais vezes. A estação experimental fica no meio de um poeirão, com greenhouses de um lado, campos de milho e outros legumes do outro. Tem que ir de sapato fechado e tomar cuidado pra não pisar em figos podres e depois pisar na terra e pedregulhos. E tem que lembrar de checar as solas do sapato antes de entrar no carro.

Munida de muitos figos madurinhos, rumei para casa onde eles foram lavados e despolpados—alguns devorados animalisticamente ali na frente da pia mesmo. Depois fiz uma mistura de 2 xícaras de creme de leite fresco, 1 xícara de leite integral, 3/4 de xícara de açúcar e 2 colheres de chá de essência de baunilha. Misturei bem com o batedor de arame, até o açúcar dissolver completamente. Acrescentei a polpa de vários figos, mexi bem e coloquei na sorveteira.

Olha, não vou nem tentar contabilizar aqui em público a quantidade absurda desse sorvete que eu devorei, enquanto murmurava palavras elogiosas e prazeirosas degustando o creminho gelado impregnado do sabor e das sementinhas de figo. Obrigada pela inspiração Fafah. As lombrigas de pança cheia mandam lembranças!

as boas compras—ninguém é de ferro!

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Quando participei daquela yard sale onde levei o bolo de figos da Elvira, não vendi quase nada—eu estava vendendo pela Brazil in Davis. Mas imaaaagineee só se eu iria voltar pra casa sem comprar nada! Sou uma gastona, uma compradora compulsiva. Mas pelo menos essas coisinhas foram baratotais. Na verdade nem comprei tudo. A linda colher de pau e a latinha francesa eu ganhei. A toalhinha foi $0,50 cents, o livro $0,25 cents, a cesta foi $1,00 pataca e ainda tem um bowl de cerâmica belíssimo, que não saiu na foto, mas me custou apenas $1,00 green buck e estou usando praticamente todos os dias.

esganada

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ou, lust for life, ou, vivendo como se não houvesse um amanhã, ou, será que um dia me arrependerei disso?

Comigo é tudo aqui & agora. Eu não poupo, não economizo, não sou do tipo moderado. Se tem gostosuras, eu como. Se tem bebidinhas, eu bebo. Sabonetes cheirosos e caros vão pro uso. Perfumes são espirrados aos montes, sem comedimento. Roupas compradas hoje são usadas hoje mesmo, ou o mais tardar amanhã. Sapatos são gastos conforme a vontade e a necessidade. As iguarias são devoradas, coisas novas e diferentes compradas, a grana é pra gastar, não consigo passar vontade.

Eu sou assim esganada, não guardo dinheiro, não guardo nada, todas as roupas que eu tenho são para serem usadas, não tenho nada especial reservado numa caixinha dourada, minhas bijous simplórias são guardadas em latinhas de pastilhas e caixas de sabonete, não tenho ouro, nem prata, nem roupas de seda. Como e bebo até passar a vontade, faço as coisas que quero fazer, mesmo quando uma vozinha me aconselha o contrário. Sou espontânea, sincera e arrebatada. Adoro comprar e dar presentes. Choro na hora que o choro borbulha, escandalosamente, não importa onde eu esteja. Dou risada na hora que o riso explode, posso estar onde for. Passo vergonhas monstruosas por causa disso, mas nem penso em tentar me controlar. Não dá.

Quando olho para a vida de pessoas com poupança no banco, vida organizada, tudo meticulosamente planejado, me sinto um ser selvagem, que só se preocupa em satisfazer as necessidades básicas, sem pensar muito no depois. Na verdade, nem é tanto assim, mas é quase.

O homem do garfo

Me contaram que ele adora comer. Mas não parece, quer dizer, eu não vejo ele comendo, nem andando pelo local com bolachinhas nas mãos e a boca cheia de farelo. Vejo sim ele segurando uma caneca de cerâmica artesanal sempre cheia de café com leite. Mas a caracteristica principal dele é ser engraçado pacas! Me contaram também que ele é o "punster" do local, tem sido por mais de vinte e cinco anos. Eu saquei isso rapidinho, antes mesmo de alguém me dizer qualquer coisa, pois toda vez que ele aparece na minha frente eu começo a rir. É a entonação da voz, as palavras usadas e, é claro, o humor peculiar. Isso é uma coisa que já vem embutida no DNA, ninguém se transforma numa pessoa espirituosa e sagaz, tem que ter nascido com os genes.

Então noutro dia, no meio de uma reunião, ele começou a contar o causo mais delirantemente divertido que eu já ouvi nos últimos meses. Era um roteiro de filme pastelão, totalmente Buster Keaton, onde ele fica preso na biblioteca pública à noite. Foi depois de um encontro mensal do clube dos aviadores da região. Quando tudo terminou ele resolveu ir ao banheiro. Ninguém notou a ausência dele e foram embora, trancaram a porta e jogaram a chave na caixa do correio. E ele ficou lá dentro. Todo mundo chorava de rir com o jeito que ele contou a história, que mesmo se tivesse sido contada por uma pessoa comum teria sido engraçada. Eu ria em dobro, pois tinha notado um detalhe extra que ninguém notou: enquanto ele falava empolgadamente segurando a tal xícara de café com leite, UM GARFO de metal prateado saltava à vista, sobressaindo-se enquanto fazia companhia para algumas canetas e lápis, no bolso da camisa.

Ashima Ganguli fez o jantar

Contar sonho em blog é pior que fazer lista, o famoso enche linguiça. Mas nem todo sonho é cinematográfico ou tem um tema culinário, então vou deixar meus brios de lado e dizer que perdi hora pela manhã por causa de um sonho desses. Eu sonho muito, desde que era criança, e lembro de todos os micro detalhes quando acordo. Mas nem sempre meus sonhos são agradáveis ou pândegos, geralmente eles conseguem mudar o meu humor ou estragar o meu dia. Meu mundo onírico tem muitas semelhanças com filmes como os de Tim Burton ou do Terry Gilliam. Nesta manhã, porém, sonhei um misto de Woody Allen com Mira Nair. Na realidade o Uriel convidou um colega professor e sua esposa para jantar aqui em casa no próximo sábado. Eles são indianos e vegetarianos. O Uriel mencionou a possível presença de um dos filhos. São dois já adultos, génios da computação. Cogitamos convidar também o Gabriel. E fiquei pensando no que vou cozinhar, um cardápio brasileiro veggie. Fui dormir e sonhei que estávamos em casa num sábado qualquer, relaxados e despreocupados, quando de repente bateram na porta. Era o casal indiano, mais os dois filhos. Os filhos eram mini-adultos se comportando [horrívelmente] como crianças mimadas. O casal era Ashoke e Ashima Ganguli, personagens do filme The Namesake [Nome de Família] da Mira Nair. Pânico total, não por eles serem o Ashoke e a Ashima, mas por terem vindo jantar na nossa casa no dia errado! Eu fiquei paralisada, enquanto a Ashima tomava as rédeas e dizia, não te preocupas, eu te ajudo. E se pôs a cozinhar na minha cozinha, que ficou perfumada de cheiros indianos e cheia de fumacê de algumas frituras que ela fazia nas panelas. Vi ela dissolver um molho vermelho, fritar samosas, fazer chapatis. Eu estava envergonhadíssima, pelo fato de estar despreparada e não ter muitos ingredientes disponíveis. Mas Ashima nem tchuns, e continuou improvisando e fazendo rangos e mais rangos. Em breve corri desajeitadamente para arrumar a mesa e nos sentamos para degustar uma fartura de pratos feitos pela minha convidada. O resto do sonho se desenvolveu como sketches de programa humoristico, onde personagens que faziam vizinhos ou conhecidos riam da minha situação enternecedora: convidou Ashoke e Ashima Ganguli para jantar e foi Ashima quem cozinhou.

Meu passado me condena

Aniversários são datas empolgantes para pessoas que gostam e sabem como assar um bolo. Pra mim sempre foram datas de sacrifício, desgaste, estresse e humilhação. No aniversário de dois anos do meu filho inventei de fazer um bolo de chocolate. Não tive ânimo de buscar uma foto para ilustrar a tragédia, que pode muito bem passar sem a imagem constrangedora de uma amassarocado de cor marrom, torto e desnivelado, lambuzado e melecado de brigadeiro mole e pegajoso e salpicado aleatóriamente com balinhas coloridas de goma. Felizmente ninguém fez nenhum comentário e até que comeram fatias do desmilinguido bolo. O importante é que o Gabriel aproveitou muito a sua festinha e saiu em todas as fotos com o seu sorrisão feliz. Depois dessa fiquei anos sem fazer bolo por muito tempo, se bem que a atmosfera inebriante dos aniversários ainda me fez cair em algumas armadilhas. Anos atrás resolvi que tinha que superar esse trauma e sentimento de incapacidade. Munida de uma infalível receita da minha melhor amiga, a Marthinha Heleninha Kostyraa, fiz num cuidadoso passo-a-passo um bolo de aniversário, mesmo não sendo aniversário de ninguém. Fiquei tão abobalhada com o resultado positivo, do que posso chamar de meu primeiro bolo, que fiz a receita novamente para o aniversário de uma amiga. Meus arroubos bolísticos são bem raros. Hoje eu sei que consigo fazer um bolo de aniversário semi-decente, se me concentrar e usar uma receita detalhada e testada. O duro é quando resolvo inventar moda, como fiz no aniversário de trinta e cinco anos do Uriel. Eu deveria ter queimado a prova do crime, mas resolvi confessar abertamente—o passado me condena.

o cafona

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O grande equívoco gastronômico do século 20—melão com presunto. Uma aberração que virou uma mania internacional e um símbolo de chiqueresa e fineza durante praticamente duas décadas. Fiz uma cara de repugnância quando serviram melão com presunto no café da manhã de um bed & breakfast onde me hospedei uma vez no Rio de Janeiro. Sei lá, não fui com as fuças daquilo. Mas com o tempo vamos aprendendo a relevar e a memória dos horrores da mesa vai se apagando, até que resolvemos reinventar ou dar uma segunda chance para o indigníssimo prato. No caso do melão com presunto, bati definitivamente o martelo com o veredito de culpado. O delinquente deve ser condenato ao ostracismo, sem direito a apelação.

Outras comidas infâmes cujas receitas foram adaptadas, viraram moda e foram consideradas chiques, depois amaldiçoadas e finalmente resgatadas e ressuscitadas em nostálgicos revivals: estrogobofe de carne, frango ou camarão com molho de catchup e creme de leite—felizmente não inventaram o gobofe de porco—cocktail de camarão, aspic de legumes, salpicão de frango com abacaxi, surpresa de atum, hors d’oeuvre de salsicha, queijo e azeitona, pastinha de sopa de cebola com creme de leite, crepe suzette, charlotte russe, fundue de chocolate, eteceterá, eteceterá...

O sabor de cada um

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A inconveniência dos dias quentes é a grande desculpa para que eu jogue as panelas e frigideiras para os ares, ignore minhas 687906543 mil fontes de receitas e me acomode no conforto da simplicidade e da improvisação. Essa é uma excelente oportunidade de saborear os alimentos na sua maior intensidade. Imaginem uma refeicão onde cada prato contém apenas um ingrediente, maximizado e concentrado, onde nada mais que uns frugais temperinhos influem no resultado final. Pra mim isso é a essência do verão.

Dois peitos de franguete orgânico temperados com suco e raspas de um limão verde, pimenta vermelha em pó, sal grosso e uma dose de tequila, e assados na churrasqueira. Duas abobrinhas amarelas, cortadas ao meio, retirada as sementes, temperadas com sal, pimenta do reino e azeite, a assadas na churrasqueira. Salpicadas com ciboulettes picadinhas antes de servir. Uma salada de folhas verdes e ervas, temperada com sal, pimenta do reino, azeite e suco de limão. Milhos amarelos e tenros cozidos na água e sal. Uma baguete de pão francês fresquinho com manteiga caseira. Sobremesa: melão em fatias, framboesas e red currants frescas.

Comemos como se estívessemos diante de um banquete pantagruélico. Foi uma orgia de sabores puros e simples, que pudemos degustar sem interferências ou intrusões. Cada sabor, único. Nenhum alimento foi dominado, nenhum se subjulgou. Foi uma refeição equilibrada, sem distinções ou privilégios, onde cada sabor se sobressaiu por suas próprias qualidades. Tudo isso é uma ótima desculpa pra não cozinhar, não é? Ôoo, se é!

minha cozinha social

Tenho memórias de muitas cozinhas, tanto nas diversas casas que morei durante a infância e adolescência, quanto nas minhas moradas de pessoa jovem casada com filho. Na minha primeira casa de pessoa jovem casada com filho, a geladeira era bem pequena, o chão era cor de ferrugem e as paredes tinham azulejos decorados com tons de beige e marrom. A pia tinha um tampo de mámore cor de gelo e era pequena e baixa para a minha altura. Eu sempre ficava com a barriga molhada enquanto lavava coisas. O fogão era o mais chique, presente de casamento que destoava de tudo mais. Nessa cozinha pequena eu fiz muita comida ruim, joguei muita comida fora, lembro de um frango inteiro indo pro lixo, pois achei que o cheiro estava estranho. Nessa cozinha eu fazia as papinhas de legumes sem carne pro Gabriel e ele comia sentado num cadeirão. Um dia eu fui pra universidade e esqueci no fogo uma leiteira com água esquentando uma mamadeira. Estava no meio da aula quando me deu um click. Voei aos passos triplos pelas ruas, correndo como uma enlouquecida. Cheguei em casa esbaforida e cega de pavor e encontrei a panela ainda no fogo, chiando. A base da mamadeira derreteu e a leiteira ficou imprestável, mas a casa não pegou fogo. Ali uma vez eu cozinhei feijão numa das centenas de infrutiferas tentativas de fazer um feijão bom. Deixei a vasilha esfriando em cima da mesa e o Gabriel foi lá e virou tudo no chão cor de ferrugem. Era tarde da noite, o guri acordado aprontando todas, um disco da Yoko Ono tocando e eu lavando o chão, louca da vida e rindo ao mesmo tempo, porque as crianças às vezes fazem a gente rir nas horas mais insólitas. Era um prédio de quatro apartamentos por andar, um de frente pro outro, as portas da frente e as cozinhas. Da janela da minha cozinha eu via a cozinha do vizinho, que era um jogador do Guarani Futebol Clube chamado Banana. Apelido Banana, pois acredito que ele deveria ter um nome normal como Sérgio Wanderlei ou Márcio Roberto. Pois naquele ano o Guarani estava na crista da onda e o Banana estava deslumbradão e pimpão com a possibilidade de "make it big", ganhar muitos milhares de Cruzeiros, ficar famoso, sair na capa da revista Contigo. Enquanto eu cozinhava minhas gororobas destinadas ao lixo, as papinhas do Gabriel ou lavava as louçinhas, ouvia o Banana bradar lá do outro lado do edifício, pra mulher dele que cozinhava, o que ele iria fazer com a grana que estava entrando. Abraçava a mulher, olhando de soslaio pra ver se eu estava ali na minha cozinha para poder ouví-lo—MULHER, PREPARE-SE POIS VOU TE COMPRAR UM ANEL DE DIAMANTES! Um diamante é para sempre, mas a onda de sorte e prosperidade do Guarani e do Banana não parece ter durado muito.

deu um baita cansaço

São aquelas fases de extremo cansaço que nos pegam desprevenidos e nos dão uma rasteira bem dada. Estou assim, me sentindo cansada e tendo um episódio atrás do outro de trapalhadas, acidentes, esquecimentos, tropeções, avoamentos gerais. Tudo, absolutamente tudo que eu vou fazer tem dado confusão. Uma dose extra, do que já é normalmente confuso.

O Uriel avisou que estava no meio de uns testes e que não viria jantar. Resolvi então fazer apenas um snack pra mim. Antes tive que dar um pulo no supermercado, pois a lista de falturas já estava longa. Lá vi dois itens perfeitos para o meu lanchinho da noite—umas azeitonas recheadas com gorgonzola e uma pimentinha meio adocicada chamada peppadew, que eu quis experimentar. Coloquei as azeitonas e as pimentas na embalagem, peguei meu bloquinho e caneta para anotar o nome, guardei de novo na bolsa e segui em frente com as compras. Deixei o potinho em cima do balcão. Só fui notar—sorvetada na testa—quando cheguei em casa e não achei as coisinhas nos pacotes. Desaforo! Guardei as compras e voltei no supermercado. Nesse vai e vem gastei quase duas horas.

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Mas fiz meu pratinho de gostosuras—salada verde, fatias de queijo brie, damascos secos, figos no balsâmico, as azeitonas, as pimentinhas, framboesas e uma fatia de pão sour dough fresquinho. Acompanhou uma taça de vinho branco. Quando terminei de comer o cansaço já tinha triplicado e tomado conta de todas as partes do meu ser, incluindo mente e alma. Enrolei o quanto pude, mas tentar resistir foi inútil. Subi para tomar um banho e me refugiar na minha cama aconchegante, assistindo meus filmes favoritos. Ainda eram apenas oito e meia da noite e havia claridade lá fora, tive que realmente me esforçar pra aguentar mais um pouco acordada. Dormir às oito e meia da noite é um exagero. Consegui manter os olhos abertos até às nove e meia, quando virei de lado e enquanto Fred Astaire e Ginger Rogers sapateavam pela tela da tevê, eu capotei.

Estou me sentindo assim, não tem jeito, mas pelo menos hoje tenho uma grande motivação e estou corneteando: THANK GOD IS FRIDAY!

nem queira saber...

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Não canso de bradar a minha admiração pelas pessoas que cozinham bem, aquelas que jogam uns ingredientes quaisquer na wok e transformam tudo numa refeição digna de restaurante. Aquelas que fazem num instantinho um bolinho de três camadas com cobertura. Aquelas que conseguem impressionar sem esforço. Pois eu, mis amis, eu sou daquelas que tem que se concentrar muito antes de entrar na cozinha, esvaziar a mente, meditar, cantar mantras, let go. E não pode fazer nada muito complicado, nada que tenha mais que dois passos ou mais que quatro ingredientes, nada que implique no uso abusivo do elemento fogo ou dos utensílios cortantes. Tudo tem que ser feito com um cuidado extremo, para o resultado final ficar apenas razoável.

Pois lá fui eu usar a gadget nova de despolpar abobrinha, toda pimpona, me achando a bacana, porque iria INVENTAR uma receita, take that Heidi Swanson! Comecei muito bem, despolpando excelentemente o legume. Piquei a polpa e misturei com grãos de milho que raspei da espiga com a faca afiada. Piquei um quarto de cebola, refoguei na manteiga, joguei a abobrinha e o milho, uma pitada de sal, um pingo de leite, deixei amolecer. Enquanto isso moí um punhado de amêndoas e piquei um outro punhado de cibouletttes. Quando os legumes ficaram molinhos, desliguei o fogo e resolvi acrescentar uma pitada de pimenta cayenne.

Nisso o Uriel chegou e me distraiu perguntando do dia. Eu estava começando a contar as estrepolias do Roux, que está tendo uma certa dificuldade para se adaptar ao banheiro-robô, e falando e olhando pra ele abri o vidro da cayenne pelo lado errado jogando de uma virada só metade do pote dentro do refogado!

Meu prático marido sugeriu rapidíssimo—vamos comer fora! Eu me recusei a desistir daquilo. Retirei com cuidado a parte grossa da pimenta, acrescentei a amêndoa moída e as ciboulettes e joguei um potinho de sour cream na mistura, pra ver se refrescava a quentura. Recheei as abobrinhas e pus no forno. Foi daí que me deu um cansaço, um desânimo, um desalento e acabei jogando a toalha—tá, pega um macarrão lá no Fuzio. Em dez minutos estavamos jantando o macarrãozinho do restaurante. A abobrinha recheada assou, mas eu ainda não tive as caras de provar. Talvez amanhã…

for the times they are a-changin'

TRUST
Na Swanton Berry Organic Farm em Davenport, nos deliciamos com os morangos orgânicos colhidos na hora, mergulhados no chocolate, transformados em sorvete cremoso, cheese cakes e tortas, acompanhados de bolo e chantily. A fazenda de morangos não usa mão de obra barata [imigrantes ilegais] e tem um sistema de pagamento self service na sua lojinha de comilanças: você pega o que quer e deixa o dinheiro numa caixinha. Pega o troco se precisar, ninguém vem conferir. Confiança é uma palavra em desuso, mas não completamente obsoleta!

Em junho de 2004 eu escrevi esse pequeno relato da visita que fizemos à uma fazenda de morangos.

Vivenciamos tantas situações similares, tanto aqui nos EUA, quanto no Canadá. Um dos exemplos acontecia na fazenda de orgânicos da UC Davis, onde eu vou buscar a cesta toda semana há uns seis anos. No inicio havia somente uma estrutura de madeira, para acomodar as dezenas de cestas e protegê-las do sol. Com o tempo, atos de surrupiagens começaram a acontecer e então a administração da fazenda colocou uma porta de correr na estrutura de madeira, para os meliantes não verem as cestas que ficavam ali expostas. Passaram-se uns anos e os roubos continuavam acontecendo, até que a administração resolveu colocar um cadeado na porta durante a noite—pois muita gente vai pegar a cesta bem tarde ou no dia seguinte. Passaram-se muitos meses e algumas cestas continuavam desaparecendo misteriosamente, até que a administração decidiu deixar o cadeado nas portas o tempo todo.

Fui pegar a minha primeira cesta do trimestre de verão e não consegui abrir os cadeados. Tentei o código nos dois cadeados um montão de vezes, comecei a suar, me irritei, me enervei, estressei. Já disse aqui que eu sou uma estressadinha, que perco a paciência rapidinho quando as coisas que eram pra funcionar não funcionam? Bufei, amaldiçoei as almas dos imbecilóides que roubam as cestas e que obrigaram a administração da fazenda a tomar essa medida antipática, coisa de selva de pedra, onde ninguém confia em ninguém, tudo trancado a sete chaves. Me senti deprimida, pois percebi que o mundo está mudando e até os lugares onde havia confiança estão se fechando. Agora me diga, quem é que passa fome aqui em Davis pra roubar cestas de legumes e verduras? Só pode ser pura sem-vergonhice de estudante que mora nos apartamentos do campus perto da fazenda. Voltei pra casa toda irritada e tensa, e sem a cesta. Regressei na fazenda mais tarde com o Uriel, que com a sua incrível habilidade abriu o cadeado com a maior facilidade, assim plick-plock. O truque era dar uma puxada no dito, pra ele destravar. Toda essa história estragou a minha noite, sem falar que dá um enorme sentimento de pena, pois está ficando cada vez mais raro vivenciar situações onde a confiança predomina e a palavra vale tanto quanto um recibo.

não comer morei

O nosso secretário Joshua se formou, classe de 2007 na UC Davis. Duas tortas da Bakers Square foram compradas para fazermos uma mini-celebração. Todos se reuniram no conference room para dar os parabéns ao Joshua e dividir uma torta de morangos e outra de chocolate com caramelo. Eu tinha acabado de voltar do almoço e só de olhar pra aquelas tortas me senti inflando imagináriamente como um balão e flutuando imagináriamente pela sala. As tortas, cheias de açúcar, massa feita com gordura vegetal e chantilly artificial me olhavam com uma cara maquiavélica de vilão de filme B. Como eu iria me livrar dessa? Todo mundo escolhendo—quero chocolate—quero morango—quero morango e chocolate! Eu decidi falar uma meia verdade: vou pegar a de morango mas vou comer mais tarde, pois acabei de almoçar. Foram muitos minutos presenciando uma verdadeira orgia açúcarada, garfos afundando no chantilly branco, bocas lambuzadas, dedos melecados. Encostada solenemente na porta segurando o meu pratinho sobre a minha mão esquerda estendida, como se eu fosse uma garçonete de algum diner congelada no tempo e espaço, aguentei firme. Quando o regabofe comemorativo terminou, caminhei até a minha salinha, ainda com o prato na mão, e lá ele ficou. Horas mais tarde abandonei sorrateiramente a torta intacta na geladeira da nossa micro-cozinha. Pra tudo há um limite e esse tipo de torta passou além da minha justa e estabelecida fronteira.

o dia do ruibarbo

No meu primeiro ano no Canadá eu conheci a Grace. Não lembro exatamente como a conheci, porque meu primeiro ano lá ficou um tanto nublado na minha memória, tantas foram as mudanças que tive que enfrentar e administrar. Mas a Grace tinha essa determinação de querer ser minha amiga, apesar de eu não querer muito ser amiga dela. O negócio é que a Grace era meio chatonilda, tipo me ligava no sábado às sete da manhã pra me avisar que tinha uma garage sale ótima na rua tal, número tal, que era imperdível e que eu tinha que ir lá. Normalmente eu balbuciava algo concordando só pra me livrar e voltava pra cama com o meu sono já arruinado pela irritação. Mas uma vez eu segui a dica da Grace e fui na tal sale que ela recomendara, porque o Gabriel queria um globo mundial daqueles que rodam e acendem a luz, e aconteceu dela ver um não sei onde. Dei com os alces n' àgua, é claro. A dica da Grace era uma furada, entrei na casa errada onde não estava tendo garage sale nenhuma, maior bafão, depois rodei, rodei, rodei e não encontrei nada. Ainda tive outras histórias chatas com a Grace, mas não vamos nos fixar só nos pontos negativos. Uma das coisas boas que a Grace fez por mim foi me apresentar à uma planta que eu nunca tinha visto nem ouvido falar—o ruibarbo. Ela me levou à uma casa onde tinha uma plantação de ruibarbos no quintal. Fiquei espantadíssima que aquilo fosse comestível e cozinhável, pois eu passaria reto, achando que era apenas um tipo de planta invasiva. Mas ela me explicou que comia-se somente os talos, e somente os talos cozidos. Normalmente se misturava os talos do ruibarbo aos morangos, pois a acidez bem peculiar que eles tinham casava bem com as berries. Comi uma fatia da torta de morango com ruibarbo feito pela Grace e ficou tudo por isso mesmo.

Quinze anos depois..... Me deparo com talos de ruibarbos no Farmers Market e realmente só prestei atenção porque tinha lido a Valentina e a Tatu postarem que tinham feito umas receitas com eles. Nunca, nunca, em todos esses anos eu me animei ou me interessei em reproduzir a torta de morango com ruibarbo, ou mesmo fazer uma geléiazinha. Acho que o ruibarbo me trazia lembranças daqueles telefonemas chatos em horas impróprias e de como eu não tinha jeito pra me desenvencilhar daquela canadense. Mas nesse dia no mercado respirei fundo, tomei coragem e comprei um maço de talos de ruibarbos orgânicos.

Cinco semanas depois... Disse, é hoje que faço essa torta e uso esses ruibarbos, doa a quem doer! E lá fui eu, aproveitando que o calor diminuiu um pouco e já dava pra ligar o forno um pouco mais tarde, depois do jantar. Lavei bem e dei uma descascada nas pontas dos ruibarbos, piquei e coloquei numa panela junto com um montão de morangos cortadinhos que já estavam misturados com açúcar demerara. Cozinhei por pouco tempo, só até o ruibarbo derreter. Deixei esfriar. Fiz então a massa, com a receita de pâte sucrée. Juro que segui à risca, mas não sei como deu xabú e desandou de uma maneira inexplicável. Eu conferi e reconferi as medidas umas dez vezes, não sei o que aconteceu. Achei que precisava de mais farinha de trigo, mas a farinha tinha acabado. Usei então uma farinha integral bem grossa, que também ajudou na função de abrir a desengonçada massa. Deixei gelar bem, abri, forrei uma forma de torta, enchi com a mistura de morango e ruibarbo, cobri com o resto da massa e assei por meia hora em forno alto. O cheiro estava inebriante, houve até comentários do tipo hmm, o cheiro está bom!. Mas e o sabor?

No dia seguinte.... Na hora do almoço provei a torta. Quase não pude crer, mas ela ficou boa! Até a massa quase arruinada e consertada com farinha integral vingou. O recheio não ficou muito doce, exatamente como eu gostaria que fosse. E pelo que eu me lembro, minha desajeitada rhubarb strawberry pie ficou tão gostosa quanto a da Grace.

I see jack rabbits

Grumpy old me indo para a cozinha pela manhã para abrir a lata de comida dos gatos com aquela cara de mal humorada de sempre, quando vejo uma coisa peluda pulando pelo quintal. Tive um sobressalto, pois às vezes recebemos visitas nada bem-vindas de ratazanas vindas do Arboretum da universidade—de onde vem também os patos que acampam no gramado do jardim. Mas que surpresa, parei admirada e encantada com a visão delicada e fofinha de um filhotinho de lebre, um jack rabbit. Eles são uma verdadeira praga, mas oh dear lord, são também tãooooo adoráveis. Fiquei um tempão ali na sala, olhando o bichinho com um sorrisão na cara, enquanto ele piscava as orelhinhas e comia folhas verdinhas de um belo dandelion ali brotado no meio dos pedregulhos. Os gatos me olhavam da cozinha com aquela cara de "cadê o nosso rango, madame?". Só parei de sorrir e voltei à minha cara normal de birrenta matinal quando a lebrezinha se retirou, aos pulinhos. Esses bichinos comem as ervas da minha horta, destroem tudo, mas são fofos demais de olhar. No campus da universidade há uma verdadeirta infestação de esquilos e eles muitas vezes são inconvenientes, atrapalhando a passagem das bicicletas e nos dando sustos, quando pulam sem aviso na nossa frente. Mas mesmo eles sendo uma importuna onipresença, sempre dou risada quando vejo um—e acho que vejo uns 877665554 por dia! Como as lebrezinhas, os esquilos também são uma das pestes mais adoráveis do planeta.

Thinking out of the box

Panzanella com aspargos e croutons? Mas panzanella não é .... Opaaaa, pode parar, pode parar!!

Quando vi a panzanella do Della Fattoria em Petaluma a minha primeira e mais primitiva reação foi lembrar das receitas tradicionais e pensar que algo ali estava errado. Eu não costumo pensar com esse tipo de bitola e quero me considerar sempre uma pessoa aberta para experimentos, novidades, inovações, transformações. Acho que uma das coisas mais irritantes que existe no mundo culinário é a intolerância e o tradicionalismo. Isso não pode, aquilo não é feito assim, tal ingrediente não vai com tal receita, não é assim que se cozinha esse prato, não pode fazer deste modo esta iguaria, não isso, não aquilo, não aquele outro, porque a tradicão é assim, porque lá na minha terra faz-se deste jeito que é o jeito certo.

Minha personalidade rebelde e não seguidora de receitas se agita nesses momentos. Não pode por quê? Quem disse? Quem ditou essa regra? E por que seguir restritamente uma regra, se temos fartura de ingredientes e imaginação de sobra para criar e recriar nossa própria tradicão? Acho imprescíndivel que se tenha ganas e intrepidez para mudar e transformar. Gosto de ver receitas sendo reinventadas, tanto através da criatividade, como da necessidade. E a necessidade é a mãe da invenção—não tem isso, põe aquilo, falta algo, substituí, esse não tem por aqui, usa aquele. E assim temos a explêndida oportunidade de experimentar sempre algo novo.

O que seria da deliciosa lasanha de berinjela se os patrulheiros do tradicionalismo tivessem execrado o prato e não permitido que ele recebesse o nome de lasanha? E a pizza portuguesa, de catupiry com frango, a havaiana ou californiana? Não são pizza? E o cassoulet de grão de bico, não pode ser chamado de cassoulet porque não tem feijão branco? E o clafoutis só pode ser de cereja, não pode ser de damasco? Quem disse que eu não posso mudar alguns ingredientes, tirar, acrescentar, e continuar usando o nome original do prato? Onde está a lei que me força, me obriga a só fazer a tal receita de um certo modo?

Eu já andava ruminando sobre esse tipo de bitola gastronômica, quando me encontrei com os blogueiros de Sacramento e ouvi as mesmas preocupações e reflexões proveniente de outras fontes. A sopa de cebola tradicional não é feita assim, a torta de carne não tem esse ingrediente, o queijo certo não é esse, como você ousa apresentar essa receita? Bem, somos todos visionários! No dia em que alguém me ouvir dizer, não é assim, isso não é o certo, pode me esbofetear com força. Insubordinados do planeta culinária, uní-vos! Mudem os ingredientes e as receitas! Revolução já!

déjà vu

Um post játevi, requentando textos e fotos do passado chucrutal. Mas são textos e fotos tão fino da bossa que merecem uma reprise!

»De perto ninguém é normal—leia e tire a sua própria conclusão.

»Mesa de café da manhã—uma das fotos mais requisitadas através dos search engines, o que as pessoas fazem com ela eu já não sei.

»Toda segunda é dia das verduras—cestinha + melões + os gatos.

»Esse rango saí ou não saí?—um dos shots favoritos do Roux, porque foi tudo tão natural...

»quando nós fomos lá longe... —um autêntico passeio de índio!

»chá da tarde—a lovely afternoon, com minha cunhada Iri em Windsor.

»Flores do mercado—adorei a idéia dessa foto.

Daqui se vê a África

Minha última lembrança de praia no Brasil foi em mil novecentos e noventa e um, quando passamos férias em Ubatuba. Sentada sozinha na cadeirinha posicionada de frente para o mar, lendo e tentando não ficar muito tostada, levantei a cabeça, olhei pro horizonte e pensei—no final desse marzão está a África...

Meu marido recebeu um professor da Universidade de Córdoba, que vai trabalhar com ele por cinco meses no projeto das azeitonas. Recebemos ele para um jantar no sábado à noite e eu fiquei um pouco surpresa, pois esperava encontrar uma pessoa um pouco mais velha, de uns trinta e poucos anos. Mas o professor é um guri de vinte e nove anos, com um inglês razoável, pontuado com o sotaque forte da Andalucia. Ele falou bastante sobre a cidade onde mora com a esposa e o gato cor de laranja, Sevilla. Ele contou que tem uma oliveira no quintal e que compra vinho e azeite de pequenos produtores. Contou de como todo mundo diz que o clima de Davis é muito paracido com o do sul da Espanha, com a diferença que aqui sempre esfria a noite.

E ficou provado, pois sentamos para jantar no quintal sob as luzes das lanterninhas coloridas e esfriou mesmo. Depois da sobremesa entramos para tomar café. No menu da noite, pizza mussarela e portuguesa, azeite português na mesa, vinho português nos copos. Estava eu tentando provar alguma coisa pra ele? Não sei, foi tudo sem querer ou inconsciente. Mas ele elogiou tudo e contou que Sevilla fica muito próxima do Marrocos. Eu então perguntei se dava pra ver a África de lá e ele respondeu que sim, num dia bem claro sem névoa, dá pra ver a África...

a culpa foi do Misty

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o desastre

A ironia disso tudo é que eu tenho publicada uma excelente receita de pão de queijo, uma das receitas mais requisitadas aqui neste blog. É verdade que eu nunca fiz o pão de queijo Pat, nem pão de queijo algum. Sou uma brasileira que nunca fez pão de queijo! Bem, eu fiz daqueles horrorríveis de liquidificador que foi moda total nos anos oitenta, mas esses nem contam como pão de queijo. Outro dia me deparei com uma receita de um pão de queijo colombiano numa edição antiga da revista Gourmet. Me meti a fazer, porque eu tenho mesmo esse espírito de porco que incarna vez ou outra.

A receita é super simples, como quase toda receita de pão de queijo. Mas eu resolvi fazer com metade das medidas, pois não tinha polvilho suficiente pra receita inteira. Quando a gente vai mudar alguma coisa numa receita—principalmente medida, tem que se colocar num modo de concentração extremo. Essa parte já não é o meu forte, especialmente porque eu tenho inúmeras distrações na cozinha. E a pior delas é o meu gato Misty. Só quem tem animal de estimação em casa vai entender o que é fazer tudo com uma criatura peluda aos seus pés. No caso do meu gato Misty, ele está constantemente ao meu lado. Se eu não fechar a porta do banheiro na cara dele, ele me acompanha e fica na minha frente, me encarando, enquanto eu estou sentada na privada. Na cozinha ele é uma presença constante. E fica nos lugares estratégicos—em frente da pia e do fogão, ou no meio entre a pia e o fogão, que é o território por onde me movimento quando estou cozinhando. Pois enquanto eu fazia a receita do pão de queijo da revista, o gato gordo se postou insistentemente aos meus pés, com o rabão esticado, me deixando nervosa, me atrapalhando e me distraindo. O resultado é que eu errei as medidas de açúcar, sal e fermento. Os pãezinhos cresceram na largura e achataram. Ficaram massudos, adocicados e borrachudos. Tenho uma penca deles agora e não acredito que eu possa fazer um reaproveitamento, como torrar ou grelhar. Com certeza vão todos pro lixo, que tristreza. Meus primeiros pão de queijo, um fracasso total!

* a receita, pra quem quiser tentar. retire antes os gatos e cachorros da cozinha!

Pan de Bono
receita dos chefs Jose Luis Flores e Douglas Rodriguez.
revista Gourmet novembro de 2004

3 xícaras de polvilho - tapioca flour
2 xícaras de farinha de trigo
2 colheres de sopa de açúcar
1 1/2 colher de chá de sal
1 colher de chá de fermento em pó
3/4 lb - 3 xícaras de mussarella fresca ralada grosseiramente
1 xícara de leite integral
2 ovos
1/2 tablete [1/4 xic] de manteiga derretida e esfriada
2 colheres de sopa de óleo

Aqueça o forno em 375ºF/200ºC. Forre duas formas com parchment paper. Misture os ingredientes secos numa vasilha e bata com o batedor de arame. Junte o queijo. Incorpore bem. Numa outra vasilha bata os ingredientes liquidos. Misture o liquido ao seco, misture bem com uma colher de pau, faça bolinhas, coloque na forma com espaço entra cada uma e asse por 30 minutos. Deixe esfriar numa grade.

multiplicam-se

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Os pés de pêssegos, cujo fabuloso e heróico resgate foi aqui relatado, estão dando frutos. Bem acomodados, mesmo ainda dentro de latões de plástico, eles prosperam e já precisaram ganhar um suporte, envergados que estavam pela fartura de lindos pêsseguinhos—ainda verdes, mas crescendo à vistas grossas e prometendo uma colheita abundante.

foi um dia bem cansativo

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Comecei o dia mal humorada, pois tinha 8996534 coisas pra fazer e meu filho avisou que só apareceria ao meio-dia, pois tinha aula de akidô. E meu marido saiu pra trabalhar como se fosse um dia normal [dele] e só apareceu quando os convidados já estavam aqui. Tive seis pessoas para o brunch, mais nós e a família da minha irmã, então fiquei bem esbaforida. Felizmente minha querida irmã me ajudou a cortar todos os ingredientes para a moqueca e quando os convivas chegaram eu já estava preparando o brunch e limpando a meleca que a cafeteira resolveu aprontar, vazando liquido e pó por toda a bancada. Coisas assim sempre acontecem nas horas inapropriadas. Mas o brunch foi gostoso, todos comeram bem, fiz panquecas, três omeletes de forno, cornbread, salmão, além dos queijos, pães, morangos, geléias, café, vinho, chá, sucos. ufaaaa!

Às três da tarde peguei minhas cestinhas com toda a "gear" para preparar a moqueca e fui para a International House com a minha irmã-assistente. Preparei a cozinha, montei os ingredientes na bancada, felizmente tive o bom senso de levar uma panela de arroz e outra de moqueca pra cozinhar enquanto eu falava. As pessoas foram chegando e se aboletando na cozinha. Quando comecei a falar, me apresentei, disse quem era, de onde era, citei meu blog, e algumas pessoas já exclamaram—ah, te vimos no jornal! Pois é, a fama me persegue! Fiquei um pouco nervosa, tremi levemente, mas falei bem, expliquei bem e todos tiveram uma visão razoavel da panela no fogão, viram como é fácil fazer uma moqueca. Quando terminei de falar, a moqueca que eu trouxe montada e o arroz estavam prontinhos e todos puderam provar um pouco. Foi um sucesso absoluto! Eu custo a crer o quanto essa moqueca fica boa e agrada a todos. A outra panelona de moqueca que fiz durante a aula foi vendida inteira, nao sobrou uma lasca de peixe e só se ouviu elogios. Ela chegou atrasada e concorreu com uma feijoada completa, então dá pra ter uma idéia de como esse prato de peixe faz sucesso. A prefeita de Davis estava no evento e entrou na minha aula, comeu a minha moqueca e elogiou, depois tirou fotos comigo. Eu não sabia que ela era a prefeita—a total purfa! O evento foi um tremendo sucesso, com muita gente nas palestras e comprando comida, que teve uma venda recorde. A diretora da I-House estava com um sorriso histérico congelado na cara. Ela ainda não tinha tomado tento que TUDO que envolve o Brasil atrai muita gente e é sempre um sucesso. Esse evento não foi diferente.

A sogra do Gabe com o namorado também foram ao evento e entraram em algumas palestras. Voltamos para casa, bebemos café no quintal e eles foram embora. Estava uma noite tão agradável que resolvemos comer a pizza lá fora. As crianças dormiram e ficamos até onze da noite bebendo vinho e conversando no quintal. Foi um dia cheio e cansativo, principalmente pra cozinheira!

*Murphy é padrasto e apareceu pra fazer outra sacanagem comigo. Tiramos muitas fotos do brunch e minha irmã se empenhou tirando fotos da minha aula de moqueca. Não sei explicar o que houve, mas perdi TODAS as fotos. Gone! Estou até agora inconsolável....

but the world goes 'round

Histórias do cotidiano de uma pessoa comum têm que ser repetitivas. Não tem como escapar do ciclo - como as estações, os aniversários, as comemorações oficiais, os xis marcados nos calendários, as festas, as marés ou as fases da lua. Tudo vem e vai, vem e vai, vem e vai. É uma boa explicação e até uma reflexão para entender porque estou sempre escrevendo sobre os mesmos assuntos ou mostrando fotos tão parecidas.

Todo ano eu faço aniversário e publico os números dramáticos em letras garrafais, depois esfria, as folhas das árvores ficam amarelas, vermelhas, douradas e caem, acendemos a lareira, o gato quase queima os bigodes, assamos um peru que dividimos com a família no dia de agradecer, fazemos compras, ficamos com dor no lombo varrendo folhas, começa a chover, eu me acovardo da piscina, tiro fotos dos enfeites de Natal, publico um cartão e desejo tudo de bom para todos, fico aliviada quando o ano se inicia, como nove sementes de romã, reclamo que não pára de chover, reciclo, recrio, me animo com a chegada da primavera, encho o saco da humanidade com as minhas fotos de flores e, principalmente, rosas. O jasmim abre, capino a horta, planto tomates, as pestes chegam devagarzinho. O Gabe faz anos, faço o meu próprio breakfast no dia das mães, reclamo que esta ficando muito quente, nado diáriamente, não tiro as havaianas legítimas dos pés, arranco mais mato, detono as pestes e colho tomates, o Ursão viaja, viaja, viaja e eu reclamo mais um pouco, as aulas e o ano recomeçam na UC Davis, eu aguardo ansiosamente uma brisa de outono, faço compras, combino uma social com os amigos, asso um bolo, vou dançar o Blues, penso no meu aniversário que já está chegando, jesus como este ano voou!

Por isso, estou parando um pouco de me incomodar com a repetição dos meus assuntos, pois a vida é terrivelmente repetitiva e não é assim que é bom?

My Many Colored Days

Verde. Plantei mais salsinha e tomilho. Vermelho. São tantas rosas que desisti de colocá-las em vasos, vou deixá-las enfeitando os meus jardins. Azul. Olha o céu! Finalmente abriu o sol. A previsão da meteorologia estava certa. Agora a prima é vera! Branco. Esperei ansiosamente pelo carro do Fedex. Preto. Não consigo mais ler o jornal. Todos os dias é um susto e uma tristeza na primeira página. Amarelo. Logo vão recomeçar as viagens do Ursão. Rosa. E eu que pensava que essa cor não me vestia bem. Hoje sou Mrs. Rosa. Cinza. Uma mala grande nunca é suficiente. Violeta. Uma pastilha de menta com gosto e cheiro de flor. Laranja. Tenho pilhas de coisas para ler e não suporto vestir os óculos. Degradê. Os números têm cores, os dias da semana e meses têm cores, as letras do alfabeto têm cores, você nunca reparou nisso?

Dia de preguiça e papo-furado

Fez um tempo horrível na semana passada e final de semana. Chuvarada incessante e frio, parece brincadeira, quase no final de abril. Desencavei umas blusas de lã, que já tinha sido guardadas pro próximo inverno. O aquecedor da casa ligou numa dessas manhãs frias. Deu até um desânimo. Mas hoje olhando a previsão do tempo, constatei que essa deve ter sido a última bufada que o inverno deu na nossa cara. Hoje máxima de 23ºC, quinta 26ºC e no final de semana 29ºC! Minha irmã chega aqui em Davis na quarta-feira e já tenho um barbecue meio planejado para o sábado, pois sexta é aniversário do Gabe.

Já começo a pensar na comida. Vou ter duas crianças aqui por duas semanas. Do que eles gostam? O que eles comem? Pra mim, ter crianças em casa envolve algumas mudanças na lista de compras, porque eles comem coisas que nós normalmente não comemos. Mas pelo que a minha irmã me disse, o Fausto e a Catarina comem de tudo.

Sábado no Farmers Market, um friooo, um tempo ruim, fui às compras empunhando a minha sacolinha e cestinha. O negócio de cidade pequena é que você não consegue ir à lugar nenhum sem cruzar com algum amigo ou conhecido—e eu tenho muitos amigos e conheço muita gente! No Market não tem jeito, eu levo o dobro do tempo fazendo compras, pois sempre encontro alguém. No sábado encontrei minha ex-chefe com o marido e um casal de professores que conheci outro dia. Minha ex-chefe estava prestes a ter um colapso físico causado pela obesidade, quando teve uma crise da meia-idade e mudou absolutamente tudo na vida dela: emprego, rotina, relacionamentos e alimentação. Ficou natureba, frequentadora de academia e perdeu sei lá—muitos, muitos quilos. Ficou magérima e agora, invés de se lambuzar de junk food como fazia antes, come produtos fresquinhos e orgânicos! Um exemplo a ser seguido por muitos. Na saída do mercado, quando compro o peixe, reencontrei o casal de professores e ela disse—você sabe o que é comida boa! Estávamos comprando as mesmas coisas nos mesmos lugares, então respondi com uma piscadela—você também sabe, hein!

Fui comprar uma garrafa de Brandy pra fazer o pudim de croissant no sábado à noite, quando o pessoal despenca nos supermercados da cidade pra comprar snacks e booze para o final de semana. Quando passei minhas comprinhas pelo caixa, incluindo a garrafa de mé, o rapazinho que me atendeu perguntou com uma cara folgazona— o Brandy é pra hoje ou pra amanhã? Mas tem cabimento uma pergunta dessas? Olha bem pra minha cara rapaissszzzzzz! O Brandy é para uma receita—respondi.

Julia comprando verduras

O nome dela é Joanne e ela é amiga antiquíssima da sogra do meu filho. Ela nos recebeu para um thanksgiving na casa dela já faz alguns anos. Naquela ocasião Joanne cozinhou um menu vintage dos anos 50, usando livros da época, que eu folheei numa linda biblioteca que ela tem na cozinha. No papo de hoje, também na cozinha, bebendo champagne e falando de comida, ela começou a contar que o marido tinha sido AMIGO da Julia Child e que tinha TODOS os livros dela. Como ele cozinhava muito e usava os livros o tempo todo, eles estavam todos manchados de vinho, molhos, e começaram a despencar. Ela então descobriu uma pessoa que fazia encadernação e mandou reformar os livros todos. Como surpresa para o marido, ela procurou a Julia Child e pediu que ela autografasse os livros com a dedicatória — "com carinho, para fulano de tal, o melhor cozinheiro do mundo!" e Julia replicou que nem pensar que ela iria escrever "o melhor cozinheiro do mundo", e escreveu somente "com carinho, para o fulano", afinal de contas não é qualquer um que pode ter esse título de melhor do mundo, além DELA e mais alguns privilegiados! Joanne também contou que apesar de viver no sul da Califórnia, Julia tinha uma irmã, que ainda está viva, morando em Sausalito e estava sempre aqui pelo norte, onde podia ser vista às vezes comprando legumes e verduras no supermercado local. Joanne também fofocou que Julia bebia, também em cena no seu programa de tevê, por isso ela fazia tanta trapalhice, como derrubar coisas no chão. Eu queria saber mais sobre a Julia Child, mas a conversa rumou pra outras direções, e não consegui mais retornar. Mas depois do almoço eu e a Joanne fomos xeretar a biblioteca da sogra do meu filho, e encontramos muitos exemplares dos livros da Julia, vários deles repetidos, em edições vintage e originais, publicadas nos anos 60, quando ela fazia o seu inovador programa culinário na televisão, The French Chef.

No meio da couve-flor tem a flor, tem a flor

Que além de ser uma flor tem sabor...ôô

O inverno voltou, com ventania. Choveu florzinhas, que caiam de todas as árvores, espalhando uma densa camada de pétalas delicadas pelas ruas. Choveu granizo que, como toda chuva de granizo, atraiu as pessoas às portas e derreteu em minutos. Ventou muito, fez frio e fez sol, confundindo os passantes, que nunca sabem como se vestir apropriadamente nesses dias de transição.

O jantar foi uma fatia de pizza e um kiwi. Corri. Banho. Maquiagem. Brincos que só saem da caixinha em raras ocasiões.

Foi meu único show da temporada de inverno. Digam que foi sorte, ou pauzinhos sutilmente mexidos a meu favor. Eu não ando trabalhando muito no Mondavi Center, porque à noite estou sempre cansada, e quero tentar caminhar e tentar cozinhar, ler, ver um pedaço de filme. Mas me enlistei para trabalhar na apresentação do Gilberto Gil.

Tudo me parecia uma miragem— numa noite fria de primavera em Davis, o ícone da Música Popular Brasileira que embalou nossos anos de adolescência e inicio de vida adulta, bem ali no palco, cabelos grisalhos longos em tranças, túnica e calça branca, cantando Maracatú Atômico. Foi um show longo, delicado e bonito. Fui dormir tarde e estraguei o meu dia seguinte. Mas quem disse que não valeu a pena?

o outro lado

Denny's, Applebee's, IHOP, Lyon's, HomeTown Buffet, Red Lobster, Carrows, Chevy's, Chili's, Chipotle, Sizzler, Outback, Fresh Choice, Marie Callender's, The Old Spaghetti Factory, Olive Garden, Bakers Square... Uma pequena lista de rede de restaurantes que têm algumas coisas em comum: bom preço, pratos fartos e comida massificada. Uma fonte fidedigna [um insider] me contou que nessas redes tudo é congelado e preparado industrialmente, nada, absolutamente nada é feito na hora, from scratch. Tudo vai do freezer para o forno, de pacotes, caixas e esquemas de preparo antecipado pra agilizar e baratear o processo. Quando você vê do balcão o cozinheiro preparando o seu prato ali na hora, e come tudo fresquinho, orgânico, local, preparado com os melhores ingredientes, não dá mais pra enfrentar essa massificação, que infelizmente já virou modelo de comida americana para exportação.

Mas numa bela tarde de domingo o inusitado acontece. Eu queria beber um chocolate e comer umas torradas francesas. Era o nosso café de fechamento do finde, que sempre fazemos em casa, mas o Uriel quis inovar e fazer na rua. Pensamos em ir no Ciocolat, que é uma casa de chá muito boa a três quarteiros de casa. Mas no meio do caminho fica uma Bakers Square, e então eu tive a idéia de girico de tomar nosso café lá. O Uriel foi contra, mas eu teimei!

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Pedimos o cardápio de café da manhã às cinco da tarde. O restaurante estava cheio de velhinhos já jantando. Nesses lugares quem manda é o cliente. Se você quer tomar café da manhã na hora do jantar, será feita a sua vontade. Pedi um prato com as french toasts, que era o que eu queria, mas que de quebra trouxe ovos mexidos e bacon. Uma xícara de chocolate quente, que veio num copão de papel de um litro. O chocolate, um pozinho misturado no leite. Os ovos, saidos de uma caixa de omelete pré-misturada. As french toasts, congeladas. O bacon, pré-frito e requentado no microondas. Pra acompanhar maple "fake" syrup. TUDO, TUDO era industrializado. NADA, NADA tinha gosto de comida caseira, feita na hora. O Uriel com aquela cara de "tá feliz agora??" e eu simplesmente chocada por estar ali, comendo aquela comida plastificada.

Na hora de pagar a conta, fiquei olhando a vitrine das famosas tortas da Bakers Square: açúcar, açúcar, açúcar, açúcar, açúcar, toneladas de açúcar, e chantily falso cheio de conservantes, massa das tortas cheia de gordura vegetal, ou margarina. E por falar em margarina, veio uma bolotona de algo amarelado no meio das minhas french toasts e eu perguntei pro garçon, o que é isso? E ele, é manteiga! MANTEIGA??? Tá boa, hein santa?!

um pão na minha sopa

Foi há tantos anos, eu nem era casada, tinha acabado de entrar na faculdade de psicologia, conhecera um grupinho odara e tinha iniciado uma daquelas terapias inovadoras e alternativas que abundavam na época. Essa era importada da Califórnia e chamava-se Fisher-Hoffman. No primeiro dia me senti incrivelmente perdida e no intervalo para o almoço - que nesse dia teve - fui levada por uma garota para uma república de estudantes hiponguissimos, daquelas onde não tinha geladeira, o sofá era um colchão forrado de panos indianos e os armários eram caixotes de maçã empilhados. A menina ferveu uma água e abriu um envelope de sopa Knorr ou Maggi, daquelas bem ruizinhas sabor canja de galinha. Preparou e serviu em dois pratos, um pra mim, outro pra ela, acompanhados por uma bisnaga de pão francês da fornada de ontem da padoca da esquina. Estávamos sorvendo a sopa e conversando quando chegou um outro habitante da república, um indivíduo realmente espaçado, que na boa, enquanto conversava comigo e com a menina, partia pequenos pedaços do pão que estava na mesa com as mãos, molhava NA MINHA SOPA e comia. Se eu tinha qualquer ilusão ou sonho hiponguitico naquela época, ele deve ter morrido ali mesmo, com aquela magnífica demonstração de displicência. Tive outras experiências absurdetes com comida no grupo do processo Fisher-Hoffman, mas essa foi a mais memorável.

Zen and the Art of Cats Maintenance

Enquanto limpo o banheiro dos gatos reflito sobre a importância de uma areia de boa qualidade para cristalizar bem os xixis, encroquetar bem os cocôs, manter o cheiro suportável e deixar o meu trabalho mais fácil. Com a pá que também é peneira, vou cavocando a areia cheia de granulados azuis e colocando as bolotas fedorentas dentro de vários sacos de supermercado, um dentro do outro. Limpo o que é preciso limpar concentrada e relaxo dando risada com o fulano xereta que vem colocar a cara na caixa aberta e checar curiosamente o que estou fazendo. É um trabalho detestável, mas que eu faço com cuidado e dedicação. E acaba virando um momento de meditação, quando eu posso refletir sobre alguns fatos da vida. Como por exemplo, quando pensamos que estamos sendo espertos economizando dinheiro comprando uma coisa de qualidade inferior, achando que ninguém vai notar, que não vai fazer diferença, que é tudo a mesma coisa - mas não é! Areia pro banheiro dos gatos tem que ter qualidade, senão forma poeira, espalha pela casa toda, intoxica o ar numa fedentina insuportável, o bloco de xixi esfarela e a limpeza fica muito mais difícil e chata. Pode-se também usar o momento da limpeza do banheiro dos gatos para refletir sobre a impermanência de tudo, de como fazemos uma coisa hoje e temos que refazê-la amanhã, ou de como sempre alguém acaba limpando a sujeira do outro, mesmo que o outro seja um animal. O cristal azul quebra a frieza da areia cinza, o cheiro inebria, a textura hipnotiza, a pá que também é peneira faz desenhos circulares, os pedregulhos fecais são escuros e inertes, como, exatamente como, num pequeno e zen jardim japonês.

Capinar, pra despois prantar

Fez um dia tão lindo e agradável no domingo, que finalmente eu criei coragem, vesti as galochas e fui até o quintal para avaliar os estragos do inverno na minha horta. Estava tudo um matagal! Nós não somos pessoas que praticam o gardening como hobby. Somos relapsos e do tipo que só faz por necessidade, ou paga alguém pra fazer. Estou pensando que vou precisar novamente dos serviços de um jardineiro. As lavandas estão enormes, as roseiras ainda ostentam algumas flores deprimentes e descoloridas, e a horta - ah, a horta - estava um caos! Toda esburacada pelo malditinho do gopher que aparece todo inverno e faz um tremendo estrago por todo canto. Os pés de tomates todos secos, apodrecidos e engruvinhados, ainda ostentavam uns míseros e persistentes tomates, alguns furados de bicho. O matagal corria solto. Das ervas, sobraram um pingo de tomilho, um ramo de sálvia, uns brotos de orégano e umas cebolinhas francesas. Ah, renascendo está o hortelã, que esse você pensa que se livrou, mas ele persiste, como uma praga - o que realmente ele é. Dizem que se deve plantar hortelã em vasos e não no chão, como eu fiz, pois ele espalha como uma erva daninha, com uma raiz que toma conta de tudo. Esse é o caso de uma das caixas da minha horta, totalmente tomada por esse hortelã escuro, chamado de Menta Chocolate.

Usando minhas luvas velhas do ano passado, todas furadas e deixando os dedos pra fora, agarrei a enxada e o ancinho e mandei bala. Removi os pés secos de tomate, parte do mato, revolvi um pouco da terra. Enquanto fazia isso, pensava o que vou fazer na minha horta neste ano. Ela consiste de três caixas quadradas e largas de terra - que eles chamam aqui de "bed", rodeadas por cerquinha de madeira com portaãozinho, um mimo. Numa caixa eu sempre planto 4 ou 5 pés de tomates. Nas outras eu variava, mas neste ano estou pensando em enchê-las com ervas, nada mais. Não tô podendo me aventurar em nada que dê muito trabalho neste momento. Mas estou planejando aproveitar muito o meu quintal, como fazia em outros anos. Mas ele está precisando de um make over, porque depois do frio e das chuvas fica tudo com uma cara de desolação. Logo terei muitas flores, e já será hora de plantar coisinhas. Mas fevereiro é o mês de pegar na enxada. E dá-lhe muque!

Comida de sonho e de vida

Acordei de um sonho, no meio da noite, onde eu estava almoçando no Shambhala, um centro de meditação aqui em Davis. Lá não tem almoço e o local do sonho não era o real Shambhala. Mas sonho é sonho, ninguém discute. Mas nele eu colocava arroz e outras preciosidades vegetais numa caneca branca de cerâmica bem comprida e comia com hashis azuis. Acordei com uma sensação incrivelmente boa, e levei um tempo pra pegar no sono novamente. Nesse interim, algumas histórias de comida começaram a pipocar freneticamente na minha mente, como se o sonho tivesse aberto uma gaveta fechada há muitos anos. Tive até que cantar um mantra pra conseguir dormir novamente, tal o estado de animação mental que fiquei.

Fui visitar uma amiga da Etiópia que tinha tido um bebê. Levei presentes, flores e fui recebida com comida. Ela tinha preparado uma carninha desfiada imersa num molho vermelho super apimentado, um refogado de batatas e pão achatado caseiro. Eu fiquei pasma! Ela me disse que era essa a tradição do país dela, a recém-parida servir comida para as visitas. E me ensinou como comer, cortando pedacinhos do pão macio com as mãos e usando para pegar bocados da comida.

Minha amiga indiana cozinhou um festim de comidas típicas para mim. Almoçamos juntas e eu não sabia nem por onde começar - era tudo uma delícia, vários pratos, tudo vegetariano. Comi muito um cozido de grão-de-bico, os pães fritinhos crocantes de lentilhas e as samosas.

Fui com minha amiga chinesa a um templo budista coreano. Era aniversãrio do Buda e após o ritual e celebração da manhã, teve um grande almoço. No fundo do templo armou-se toldos e muitas mesas e cadeiras. A comida era fora desse mundo de deliciosa. Tudo vegetariano. Infelizmente não lembro os detalhes, pois já faz muitos anos, mas lembro de como fiquei encantada com tudo. O detalhe é que eu era a única ocidental no lugar - altona, cara de Ana Magnani, com esse meu jeito típico desengonçado, me sentindo a girafa perdida no reino dos pinguins. Mas minha amiga sorria e dizia, fica tranquila que você é muito bem-vinda aqui.

Tempos depois voltei a esse templo com a minha mãe - as duas sozinhas dentro do templo, mais estranhas e estrangeiras impossível. Uma senhora muito pequena e amável nos aproximou de nós, falou algo com gestos e nos ofereceu laranjas enormes, super suculentas. Agradeci imensamente...

Muitos anos depois conheci um casal do Sri Lanka e fui convidada para outro aniversário do Buda, desta vez num templo bem pequeno e humilde onde teve a cerimônia e depois um almoço. Foi tudo muitro simples, dentro do templo mesmo, que era na verdade uma pequena casa. Na cozinha muitos pratos vegetarianos, um com a aparência mais apetitosa que o outro. Pegamos os pratos e o casal todo sem graça veio me dizer - nós não usamos talheres, comemos com as mãos. Sentamos no chão com nossos pratos no colo e eu novamente a única cara de ocidental, mal ajambrada pois tenho certa dificuldade em me sentar no chão, comi feliz da vida aquela comida deliciosa em homenagem ao Buda.

um jantar [quase] perfeito

Como descrever uma tarde na cozinha preparando um jantar para amigos, que me deixou imensamente frustrada? Resolvi fazer frango à caçadora com polenta. Acrescentei ao menu o famoso carpaccio de abobrinha e uma torta de limão meyer que vi no NY Times. Parecia tudo muito simples, tudo muito fácil. O problema é que sou uma pessoa rebelde e mereço muitas chibatadas por isso.

Migrei da receita do The Silver Spoon para outra do The New Best Recipe by Editors of Cook's Illustrated Magazine, porque ela parecia mais bem explicada, com mais detalhes ilustrativos e portanto dando menos chances para erros. Escolhi fazer o frango com vinho branco, porque ainda tinha muitas garrafas que sobraram do Natal.

Li e reli a receita, as micro-explicações dadas pelo livro, tudo parecia sob controle, sopa no mel. Mas dei um pequeno passo em falso - me rebelei nas quantidades dos ingredientes. Ingenuamente pensei que poderia passar a perna nas onces, xícaras, unidades, gramas. E sei exatamente onde errei: coloquei muito vinho e muito tomate, o que causou uma profusão de molho que não engrossou com o tempo regular no forno e eu tive que apurar no fogo, até o ponto desastroso em que a carne do frango descolou dos ossos e virou uma gororoba assustadora, cheia de pedaços alienígenas, ossos pelados boiando, cogumelos quase irreconhecíveis, uma aparência realmente tétrica. Deu vergonha de servir aquilo aos meis convidados.

Ninguém falou nada e todo mundo comeu a sopa à caçadora, que ficou saborosa. Mas aprendi a minha liçao. Quando decidir usar uma receita, siga os ingredientes à risca [siga os ingredientes à risca, siga os ingredientes à risca, siga os ingredientes à risca, siga os ingredientes à risca,siga os ingredientes à risca, siga os ingredientes à risca, siga os ingredientes à risca, siga os ingredientes à risca, siga os ingredientes à risca, siga os ingredientes à risca, siga os ingredientes à risca!], tamos combinados?

pet peeves
[*things that make me go awgh!]

Torneira pingando, barulho de gente mastigando com a boca aberta, gadgets tecnologicas que não funcionam como deveriam, gente que te deixa falando sozinha, papo hipocondríaco, generalizações, chegar atrasada à lugares, perder coisas, roupa apertada, receber conselhos não requisitados, telefone que toca na hora errada, gritaria, monólogo sem chance de virar diálogo, caixa de correio vazia, lero-lero de gente que sabe-tudo, criança mal educada, bagunça no banheiro, porta de armário e gaveta aberta, tentar falar com alguém pelo telefone e não conseguir, viajar longas distâncias de carro ou avião, água quente que acaba no meio do banho, papo de dinheiro, caixa de leite ou suco vazando, patrulhamento de qualquer tipo: direita, esquerda, em cima do muro, não achar a chave dentro da bolsa, falta de tempo, spams, ter que esperar.... esperar.... esperar por alguém, sala de cinema lotada, caixa eletrônico que cobra $1,50 para fazer retiradas, ficar com o pé molhado, alça de sacola de supermercado que arrebenta, água quente que acaba no meio do banho, criança dando escândalo dentro de loja, imitonildos que não têm idéias próprias, caixa de e-mail que dá pau toda hora, aquela laranja podre no meio do pacote de oferta fechado, não encontrar lugar pra estacionar, recibo de loja com códigos indecífraveis para descrever as mercadorias, livro de referência que você não pode retirar da biblioteca, caneta que falha no meio da assinatura, qualquer bebida sem gelo, gato que fica no seu pé o tempo todo e mia quando você acidentalmente pisa no rabo dele, acordar às 7am no domingo, perder cds e meias no 'buraco negro', esquecer de pagar contas e receber cartas de cobrança, vendedor de loja que fica toda hora te perguntando se você quer ajuda, ouvir briga de vizinhos, mentiras esfarrapadas, faca que não corta, colocar gasolina no carro, toalha suja de migalhas de pão, moscas rodeando, gente que não saca que enquanto eles estão indo com o fubá você já está voltando com o bolo.

o prato ambulante

Eu não conheço muitos países e os que eu conheço só fui visitar, então não posso afirmar nada com relação aos outros, mas aqui no norte da América - EUA e Canadá, essa visão dos pratos ambulantes é muito comum. Digo pratos ambulantes para o pessoal que caminha em público carregando um prato e comendo com um garfo, como se estivesse numa festa, mas em movimento. Todo santo dia eu vejo muitos pratos ambulantes caminhando pelo campus da Universidade da Califórnia, onde eu trabalho. Vou ao banheiro, lá vem um prato. Vou ao correio, lá vejo outro prato. Vou esticar as pernas, mais outro prato no horizonte. Claro que esse fenômeno acontece mais próximo da hora do almoço, quando os enlouquecidos estudantes e professores mal têm tempo para bater um rango decente. Muitas vezes se alimentam andando e discutindo assuntos acadêmicos, ou sentados em qualquer cantinho ou janela, outras vezes comem na sala de aula. Pratos ambulantes competem com os estudantes munidos de laptops, livros e cadernos que infestam os cafés das cidades universitárias. Bom, pelo menos nos cafés eles sentam.

nº5

Minha amiga Eli e eu temos muitas coisas em comum, começando pelo dia do nosso aniversário. Duas librianas porretas, estamos sempre encontrando mais coisas em comum entre nós. A primeira delas, que descobrimos logo no início da nossa amizade e da qual nunca me esqueço, é a nossa paura por estar/ficar cheirando a comida - roupa, pele, cabelo. Eu e a Eli temos uns rituais, umas maneiras de fazer as coisas na cozinha, de modo a estarmos sempre cheirosas. Acho que a maioria é como nós - uns mais obcecados, outros mais relax.

Com o meu olfato super apurado, eu sinto e cheiro de tudo e fico incrivelmente preocupada em não ser eu a figura com o cabelo fedendo a bife com cebola. Como a Eli, eu primeiro faço o rango e por último tomo um banho e lavo o cabelo. Faço verdadeiros contorcionismos e desenvolvo complicadas estratégias, pra não receber convivas cheirando a alho, ir a uma festa rescendendo a fritura, voltar pro trabalho denunciando que comi um misto quente, ou mesmo ir dormir com o cabelo cheirando a qualquer coisa que não seja shampoo e sabonete.

Já repararam que tem uns restaurantes de onde você sai fedendo? No inverno é pior, pois o casaco impregna, sem falar que nessa época os ambientes fechados abundam. Eu odeio sair de um lugar cheirando a comida. Quando faço o meu voluntariado no Mondavi Center - o teatro da Universidade - percebo quem chega vindo de um restaurante fumacê. Quando as pessoas entram no teatro e passam por você para serem levadas até as suas cadeiras numeradas, alguns cheiram a perfume, tem gente que capricha, uns cheiram muito bem, mas tem sempre aqueles que chegam parecendo que estão vindo do chinês da esquina, com um cheiro de fritura e molho de carne.

Hoje fiz um tofu frito pro jantar, dai pensei em dar uma passadinha no Co-op para pegar um pão. Cheirei e recheirei meu sueter de lã e decidi - no way, josé que eu vou dar esse bafão, aparecer em público cheirando a tofu frito. Fiquei em casa e fui tomar um banho - lavar bem o cabelo, que é como deve ser depois de lidar com uma frigideira!

Leite Queimado

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Há dias de inverno em que até os ossos tremem. Sei lá por que, dá aquela friaca, um telecoteco físico, que só esquenta se você mergulhar o corpão num banho fevendo, ficar com os pés em cima do aquecedor ou tomar alguma coisa quente bem substanciosa. Meu reino por um sopão! Mas na hora do almoço não tinha sopão. Beber o que, então? Chá? Nãã... Chocolate? Nããã...

Lembrei do leite que minha mãe costumava fazer e que bebíamos nas noites geladas de inverno, quando anunciavam que ia ter geada e éramos obrigados a vestir o joguinho de camisola e calça de flanela, que minha mãe mandava fazer especialmente para essas noites - caso nos descobríssemos dos acolchoados de lã de carneiro ou de penas de ganso. Com a calça por baixo da camisola não corríamos o risco de pegar friagem nas pernas. Com as crianças, o seguro morria de velho!

Então nessas noites frias, minha mãe preparava o Leite Queimado, que nós bebíamos como se fosse um néctar. Ele servia também para abaixar febre, acalmar dores de garganta, tratava do frio e de qualquer eventual achaque piriritico de criança inventadora de moda. E como aquilo esquentava, mãe do céu! Eu, que sempre fui uma pessoa avessa aos apertamentos e confinamentos de qualquer espécie, já ficava toda incomodada com tanta roupa, puxava a calça de flanela com os pés e a deslizava para fora do acolchoado. Minha mãe enlouquecia com isso!

Hoje, me esquentei na hora do almoço com uma xícarazona do Leite Queimado, que sempre que acho que preciso, faço. E é a coisa mais simples e fácil.

Derreta duas [ou três, ou quatro - dependendo do tamanho da sua gana pelas cousas dolces] colheres de açúcar numa panela em fogo médio. Eu usei açúcar demerara, mas pode usar qualquer outro, branco, mascavo. Quando o açúcar estiver derretido, jogue uma xícara de leite e mexa bem, até todo o caramelo derreter novamente e se misturar no leite. Apague o fogo, transfira o Leite Queimado para uma xícara e beba imediatamente, sentindo o vapor do leite no rosto e queimando um pouco os beiços [faz parte!]. Depois me diga se não esquentou...

Christmas Swiss Cookies

Nos meus anos no Canadá, todo dezembro a minha amiga Annemarie, uma suiça emigrada para a geleira, me trazia uma caixa com uns biscoitinhos. Eram os "guetzli" [goodies/gostosuras em dialeto suiço-alemão], uma tradição do país dela. Eu adorava aquilo! Os cookies eram simplesmente o máximo e super especiais, pois eram feitos em casa, por ela. O meu favorito era o de anis. Um pouco antes de me mudar de lá, eu comprei uma revista que tinha todas as receitas desses cookies suiços. Não tenho a menor idéia de onde ela foi parar durante o meu vai e vem entre países. Mas as receitas são facilmente encontradas online. Eu achei duas delas. Não que eu vá fazer, vocês sabem que não sou boa nessa área da culinária. Mas ficam aqui as receitas pra quem quiser se aventurar:

Basler brunsli
Faz 5 dúzia de biscoitos

1 1/2 xícaras de açúcar
1 1/2 xícaras de amêndoas inteiras
170 gramas de chocolate meio-amargo cortado em pedacinhos
1 1/2 colher de chá de canela em pó
1/2 tcolher de chá de cravo em pó
2 claras de ovo
Açúcar extra para abrir a massa

2 formas de assar cobertas com papel manteiga ou alumínio.

Misture o açúcar e a amêndoa num food processor com a lâmina de metal instalada. Pulse até a mistura ficar bem moída, como uma farofa.

Adicione o chocolate e as especiarias e pulse novamente até o chocolate ficar moído bem fininho. Adicione as claras dos ovos e pulse repetidamente até ir formando uma bola.

Coloque a massa numa superficie coberta com açúcar. Abra a massa e corte nos formatos que desejar, com moldes ou faca. Deixe os cookies secarem em temperatura ambiente por 2 horas antes de assá-los. Pré-aqueça o forno em 325ºF/162ºC. Abaixe a temperatura para 300ºF/150ºC e asse os biscoitos por 10 ou 15 minutos. Deixe esfriar numa grade, guarde em latas bem fechadas com tampa.

Mailaenderli
Faz de 4 a 5 dúzias de biscoitos.

Massa:
16 colheres de sopa [2 tabletes] de manteiga sem sal, amolecida
1/2 xícara de açúcar
3 gemas grandes
1 colher de chá de extrato de baunilha
2 1/2 xícaras de farinha de trigo

Egg wash:
1 lovo grande
1 lgema grande
1 pitada de sal

2 formas cobertas com papel manteiga ou alumínio

Bata a manteiga e o açúcar numa batedeira em velocidade média por uns 3 minutos. Acrescente as gemas uma de cada vez, batendo sempre. Adicione a baunilha.

Adicione a farinha mexendo levemente com uma espátula. Coloque a massa num pedaço de filme plástico e forme um quadrado. Deixe gelar por duas horas. Essa massa pode ser feita com dias de antecedência.

Faça o egg wash. Bata todos os ingredientes e coe para um recipiente.

Pré-aqueça o forno em 350ºF/176ºC.

Vá trabalhando a massa por partes, mantendo o resto na geladeira. Abra a massa numa superfície polvilhada com farinha. Corte em forma de diamante. Quando todos os biscoitos estiverem cortados e nas formas, pincele com a mistura de ovo.

Abaixe o forno pra 325ºF/162ºC e asse por 20 minutos. Deixe esfriar em grades. Guarde em latas fechadas com tampa.

o almoço de despedida

O restaurante italiano fez uma reserva para mais de vinte pessoas para um dia em que eles estavam fechados. Chegamos lá e batemos com a cara na porta, até que alguém com uma capacidade acentuada para achar soluções rápidas e eficientes para pequenos problemas como esse, sugeriu que atravesassemos a rua e fossemos a um restaurante chamado Cantina del Cabo. Não sei definir o tipo de comida que eles servem lá: hamburguers, carne, peixe, frango, macarrão, sopa, saladas, batata frita. Nada realmente especial. Era um almoço de despedida do nosso diretor, que vai ser Dean do Colégio de Agricultura da University of Melbourne, na Austrália. Achei tudo muito pobre, mas acho que a maioria não se importou. Eu e meu colega ficamos criticando tudo. Eu expliquei que posso criticar porque eu cozinho. Bem argumentado! Discutimos a pobreza da maioria dos restaurantes de uma cidade universitária, que prioriza servir bastante comida barata para uma população de estudantes. Não é fácil! Eu pedi a Pasta of the Day, que consistia de um fettucine com molho de cogumelos, peito de frango grelhado e queijo parmesão. Acompanhava uma salada mista de saco - que eu identifico na hora, com aqueles molhos horrorríveis, que eu pedi pra vir separado. Também vinha pão de alho, que eu pedi pra trocar por corn bread, e no final não usei o molho honey mustard que pedi e temperei minha salada com sal, azeite, vinagre. A assessora de imprensa do programa, que sentou ao meu lado, exclamou - uau, você realmente costumizou o seu prato! Comemos, teve discurso com olhos cheios de lágrima, presentes, papo furado. Ninguém bebeu álcool. Cada um pagou a sua parte.

dá pra pôr num marmitex?

Essa história já foi contada e recontada na minha família zilhões de vezes. Virou uma fábula.

Quando eu ia ao Rio, ou ela ia a Campinas era comum passarmos as noites em claro conversando. Como a gente conversava, e como curtíamos a companhia uma da outra. Na última vez que fui ao Rio visitar a minha prima Helô, os nossos convercês atravessaram as madrugadas, o que era um tantinho sacrificante para os nossos filhos - o meu Gabriel com uns seis anos, e o Pedro dela, com uns quatro. Acordávamos tarde, tomavamos aquele café da manhá longo e ficávamos na mesa conversando, conversando... Íamos jantar super tarde, era uma bagunça geral. Pobres crianças, filhos inocentes de duas malucas.

Num belo domingo, levantamos super tarde, tomamos café e ficamos na mesa até tardão, nem pensamos em almoço nem nada, até que alguém sugeriu irmos comer numa churrascaria rodízio. O marido da minha prima era amigo do dono do lugar, então o cara ofereceu um desconto para a nossa mesa. Beleza pura! Sentamos para comer e o Gabriel simplesmente desembestou. Encheu o prato com tudo que era possível e toda carne que era oferecida ele aceitava. Ficamos de olhos esbugalhados olhando o guri comer. E como ele comeu! Na hora de pagar, o dono da churrascaria falou - olha, vou dar o desconto como prometi, mas vou ter que cobrar aquele menino como adulto, pelo tanto que ele comeu.

O marido da minha prima pagou a conta e voltou rindo, inconformado, nos contando o ocorrido. Começamos a rir também, quando vimos um garçon se aproximar do Gabriel e ouvimos ele pedir - dá pra você pôr os restos num MARMITEX que eu vou levar pra casa?

Pobre guri, filho de uma mãe desnaturada, estava tentando se prevenir. Vai que não tivesse almoço no dia seguinte! Até hoje não me conformo - que dóóóó!!!!

O café, o café!

Eu me considero uma excelente anfitriã. Recebo meus hóspedes muito bem, com corforto e salamaleques. Preparo o quarto, a cama fofinha, ponho um vaso de flores na mesa de cabeceira, barrinhas de chocolate, toalhas macias no banheiro, carafe com água fresquinha, roupão e pantufas felpudas. Faço café da manhã caprichado, sempre procurando agradar - ovos mexidos e café para uns, chá e presunto com tomate e mostarda para outros. Mas todo mundo está sujeito a cometer aquela gafe histórica. A minha aconteceu na primeira vez que eu hospedei a sogra do meu filho. Ela não podia ficar com o Gabriel e a Marianne porque eles ainda moravam na minha guest house - que embora seja uma guest house, naquele momento não servia para acomodar nenhum guest.

Tudo bonitinho, arrumado, a sogreta instalada e confortável, fomos dormir. No dia seguinte acordei com o som da voz da minha hóspede - ela fala alto e acorda cedíssimo. Pensei, vou levantar e descer pra fazer o café. Mas juro - J-U-R-O - que ouvi a voz do Uriel no meio do blábláblá. Fechei os olhos e resolvi dormir por mais alguns minutos, reconfortada pela idéia de que ele estava na cozinha e iria pelo menos fazer o café, colocar as xícaras na mesa, me daria um tempo extra curtindo a cama. Quando finalmente levantei e desci, crente que a minha hóspede já estava bebendo o seu sagrado café preto, encontrei as duas - mãe e filha, conversando na cozinha e combinando um lugar para sair e tomar o café da manhã. Não era o Uriel dialogando com ela, pois ele tinha acordado mais cedo que todo mundo e já tinha saído. Quase enfartei de vergonha!! Preparei um super café e aprendi a minha lição - anfitriões TÊM que levantar ANTES dos hóspedes.

Mas a história não acabou aí. A gafe teve repercussão, pois da próxima vez que a sogra do meu filho veio passar a noite na minha casa, ela trouxe uma GARRAFA TÉRMICA CHEIA DE CAFÉ na mala. Pra se garantir na manhã seguinte.

trick-or-treating

Quando nos mudamos para o Canadá em 1992, meu filho tinha dez anos e estava entusiasmadíssimo com cada novidade que o novo país lhe oferecia. Nos nossos anos no Brasil não havia ainda o aculturamento do Halloween, então o Gabriel nunca tinha feito o trick-or-treating. Final de outubro chegou e ele estava realmente animado—ganhar balas dos vizinhos, quantas ele quisesse, era para o guri natureba um ticket só de ida para o paraíso. Então no 31 de outubro ele estava todo preparado. Até se fantasiou, o pobre, e tentamos planejar como ele iria fazer o tar do trick-or-treating. Vendo a nossa inexperiência canuca, uns vizinhos se apiedaram e convidaram o Gabriel pra acompanhá-los no Halloween dos filhos deles. Não tínhamos sacado o detalhe mais importante da noite das bruxas naquele país— já estava um frio dos demônios com possibilidade de nevasca. Os vizinhos sabiam das coisas e como iria nevar—e realmente nevou—eles levaram os meninos pra pedir balas de carro. Fantasia? Forget about it! Todas as crianças vestiam casacão, luvas, mittens, touca e cachecol por cima dos super-heróis, astronautas, princesas, bailarinas. Ninguém via nada. E saiam do carro, faziam o blinblon trick or treat na porta das casas decoradas com abóboras e corriam de volta para o carro. Foi assim o primeiro Halloween do meu filho.

Nos anos seguintes ele já estava mais experiente e tinha uma turma de amigos que fazia absolutamente tudo juntos. Mesmo se o tempo não ajudasse, eles saiam trick-or-treating à pé, usando a técnica da fronha de travesseiro. Eles levavam uma fronha, que enchiam de doces e faziam pit stops em casa para esvaziar e voltar para as ruas para pedir mais. O Gabriel acumulava uma verdadeira montanha de doces todo ano, que durava quase que até a primavera! Eu me resignava, apenas lembrando dos bons tempos, quando açúcar não fazia parte da dieta do meu filho. Ele e os amigos nem se preocupavam em se fantasiar, voltavam pra casa com as caras vermelhas, as pestanas cheias de gelo e um excitamento que só uma tonelada de açúcar pode provocar. Quando viemos pra Califórnia, onde o clima permite que as crianças se fantasiem e saiam pelas ruas pedindo doces sem perigo de congelar os ossos, o Gabriel já tinha perdido o interesse por essa maratona. Eu continuo firme, todo ano decoro a minha porta e dou docinhos pros visitantes. Não tenho pena mais das crianças, que aqui não ficam congeladas, mas ainda penso nos pobres canadensezinhos - será que vai nevar esta noite em Saskatoon?

Farofa a bordo

Assim que o comandante avisou que teríamos que esperar por pelo menos uma hora e meia, até os mecânicos terminarem o conserto do problema no avião, eu ouvi o barulho de desembrulhar de pacotes de papel e plástico nas cadeiras atrás de nós, onde sentava um casal de americanos. Senti cheiro de pão sendo cortado e barulhinho de vinho enchendo copos. Pensei, essa gente trouxe um farnel? Sim, trouxeram! Não olhei pra trás, é claro, mas fiquei invejando a idéia. Estamos acostumados com a falta de rango nos vôos domésticos, quando sempre garantimos comendo antes ou levando alguma coisinhas na mala de mão, mas para esse vôo internacional atravessando o Atlântico, eu só tinha trazido o básico: água, bolacha e umas barras de chocolate—o que não era nada comparado ao que eu ainda iria ver.

Eu ainda estava inebriada pelo cheiro do pão e vinho dos americanos, quando um espanhol que sentava com a esposa na fileira ao nosso lado se levantou. O fulano era uma figuraça de calça Calvin Kline e camiseta do sindicato Solidariedade. Tira coisa dali, tira coisa de lá, se vira, se revira e então eu comecei a sentir um cheiro maravilhoso de pão com queijo e presunto. Virei a cabeça e vi com meus dois olhões esbugalhados os espanhóis devorando enormes sanduiches embrulhados em papel branco. Em seguida os vi brindando com copos cheios de vinho tinto. Eu salivava de inveja. E pra completar a farra gastronômica, o espanhol começou a descascar laranjonas suculentas com um cortador de unha. Picnic completo! Levantei pra esticar as pernas e vi os americanos sentados atrás de nós guardando uma caixa de plástico com presunto cru e retirando do farnel uvas gigantonas verdes e potinhos com algum creme de sobremesa, que eles comiam com uma colherzinha descartável—gente organizadíssima! A mulher me ofereceu umas uvas, que eu recusei gentilmente por educação. Eu já tinha dado bandeira suficiente da minha dor de cotovelo por não ter tido essa idéia também.

Quando o avião finalmente decolou—quatro horas mais tarde, eu já tinha bebido toda a água, perdido todo o meu humor, estava descabelada e quase a beira de ter um dos meus ataques claustrofóbicos de avião, mas os sabidos americanos e espanhóis estavam felizões, dormindo refastelados de bucho cheio. Da próxima vez que eu fizer uma viagem internacional, vou ser esperta como esse pessoal e levar uma farofinha. Comida de avião é uma droga mesmo e pelo que eu percebi ninguém regula a entrada de comida clandestina a bordo!

* quando escrevi esse texto, em outubro de 2005, dava pra contrabandear garrafas de vinho para o avião. fosse hoje, com todas essas medidas extremas de segurança, essa turma iria ter que comer os sanduíches à seco.

cooking for one

Finalmente acabou a colheita da azeitona e do pistacho, e meu marido volta para Davis e para suas atividades normais - que não exclui correria, mas pelo menos é por aqui! Foram algumas semanas de omeletes, saladas, sanduíche de queijo com tomate, macarrão e outras improvisações. Eu não tenho motivação para cozinhar só para mim. Ontem fui pintar minha cabeleira mariabetânica descabelada, que estava lindamente multicolorida. Fiquei no salão, lendo revistas da Oprah até tarde. Saí de lá com tanta fome! Já tinha me decidido parar num restaurante no caminho de casa - eu faço tudo à pé aqui em downtown, mas depois que me vi no espelho com uma kanekalon NEGRA, parecendo um corvo corcunda gigante, resolvi só passar no lugar das saladas e pegar uma to-go. Mas da esquina já vi a fila dentro do lugar e desanimei total. Corri pra casa e preparei o famigerado alho e óleo com uma massa integral, e temperei uma salada de rúcula com tomates secos. Um copo de vinho e voalá - melhor do que qualquer restaurante. Mas com a volta do Uriel, vou poder retomar às minhas excursões culinárias, sem falar que ele está trazendo da fazenda uma tonelada de azeitonas fresquinhas, e já falou - procura uma receita para prepará-las. Azeitonas verders virgens, alguém sabe como processar as ditas?

eu, a fer e o bob

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Ele vem sempre em outubro, e eu considero isso um presente. Sou fã dele desde que eu tinha uns quinze anos e nem entendia o que ele cantava. Sempre detestei línguas e digo pra quem quiser ouvir que uma das minhas motivações para aprender o inglês foi para entender o que Bob Dylan cantava. Sou uma mulher realizada! Hoje vou vê-lo em Sacramento, pela quinta vez. Só que vai ser um pouco diferente, pois o Uriel não vai comigo. Ele está na fazenda e eu convidei uma amiga para ir ao show comigo. Eu e o Uriel temos muitas histórias com o Dylan. Apesar de que eu já era uma fanzoca do Mr. Zimmerman antes de conhecê-lo, foi com ele que vi o Dylan pela primeira vez, sem contar que considero o meu marido my private Bob Dylan. Ele detesta quando eu falo isso, mas eu tinha essa foto do Dylan colada na parede do meu quarto, e um dia olhei pra ela e tive uma luz—eu conheço esse cara! Era o Uriel! Ele nega, recusa, abomina, rejeita. Eu acho que minha vida não seria a mesma sem os meus dois Bobs. Hoje vou sentir falta dele falando as coisas engraçadas, tentando me distrair, demonstrando ciúmes de um cara completamente inatingível e que não tem a menor idéia que eu existo. A melhor história que tenho com o Uriel e o Bob foi na nossa lua de mel. Fomos pra Ilha Bela com a Caravan do meu pai—éramos dois pirralhos e estudantes pobres—e eu levei todos os meus k7s do Dylan, que tocaram sem parar no tape do carro. Na volta, um amigo do Uriel fez uma pergunta bem cretina—e ai, Uriel, como foi a Lua de Mel? E ele respondeu prontamente—ah, foi ótima, eu, a Fer e o Bob!

quando nós fomos lá longe...

» Deixando um comentário no blog lindinho da Dani e Márcia sobre a lista de compras da Márcia que incluia Nescau, lembrei dessa história, que é velha e já foi publicada anos atrás no The Chatterbox. Ela fez muita gente sacudir a pança, porque não é todo dia que se pode ler um relato assim, de um autêntico passeio de indio!

update: está todo mundo comentando sobre acampamento, mas gentes, nós não acampamos, ficamos num hotel muito bom, muito confortável, com lareira nos quartos, banheiro limpinho, tudo normal. La Ronge é uma cidade como outra qualquer. aliás um erro muito comum é pensar que as reservas indígenas são acampamentos com tabas, chão de terra, pau a pique, essas coisas. não é nada disso, pelo menos nas reservas da América do Norte. só pra esclarecer...

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No inverno de 1994, minha irmã foi nos visitar em Saskatoon, Saskatchewan, Canadá. Foi uma delícia para nós - a parte da família que estava isolada lá nas planícies canadenses. Não sei se foi tão delícia pra ela, que escolheu a pior época do ano para um passeio por aquelas bandas. Mas mesmo assim nos divertimos com o que havia pra se divertir por lá durante o inverno: nadar nas piscinas internas da cidade, ir à biblioteca, patinar no gelo, visitar os amigos, ir ao teatro e ao cinema, sair pra comer, pra beber, pra ver shows e dançar. Até que a vida era bem agitada, mas fizemos tudo isso na cidade, não viajamos.

Então num belo dia, o Uriel ficou indignado - "Como? não levamos a Le pra viajar ainda? mas ela tem que viajar, conhecer outros lugares, ver outras paisagens!". Mas viajar pra onde, se tudo lá era tri-longe e não tínhamos tempo, nem dinheiro para planejar uma viagem decente, pras Rocky Mountains, pro extremo oeste [Vancouver] ou pro extremo leste [Montreal ou Toronto]?

"Vamos para La Ronge!" foi a idéia brilhante do Urso, achando que estava abafando e fazendo um super agrado para a cunhada.

La Ronge é uma reserva indígena, mais para o norte de onde estávamos. Deixa eu explicar - mais norte do que onde estávamos, era exatamente a fronteira entre o mundo semi-normal e o desconhecido inabitável. Mas não conseguimos argumentar com o Urso e como minha irmã concordou, nos aboletamos no carro com o imprescíndivel kit de inverno [cobertores, chocolates, velas, isqueiros] e fomos para La Ronge.

Passamos por Prince Albert, uma cidadezinha a uma hora e meia de Saskatoon, ouvindo Bob Dylan no tape do carro, comendo snacks e conversando alegremente. Ainda não tínhamos saído da normalidade. De Prince Albert até La Ronge foram três horas de estrada deserta, ladeada de pinheiros e tudo mais coberto de neve. Nosso entusiasmo de desbravadores começou a arrefecer. Eu, que me transformo num monstro em viagens, já fui ficando calada e de mau humor.

Chegamos em La Ronge [que agora já chamávamos de Lá Longe] mortos de fome. Deixamos as malas no hotelzinho e fomos tentar achar um restaurante na rua principal da cidade, que parecia ser a única e era onde ficava tudo, o hotel, o posto de gasolina, o restaurante. Quando chegamos já estava escuro. E estava tremendamente frio.... Não vou lembrar quão frio, mas foi o suficiente pra assustar a minha irmã, que nunca imaginou que pudesse ter um frio mais frio do que aquele que ela enfrentou em Saskatoon.

Alguém nos disse que havia um restaurante do outro lado da rua. Ficamos animados. Mas atravessar a rua em La Ronge foi mais difícil que andar trinta quarteirões em San Francisco com vontade de fazer xixi. Parecía que estávamos atravessando um verdadeiro deserto de gelo..... e eram apenas alguns metros. E o restaurante estava fechado!! Voltamos, nos agarrando um nos outros, xingando, chorando, isso não é justo, que absurdo, minha retina está congelando, quem inventou essa merda de viagem imbecil?

Usamos o telefone do hotel e descobrimos que um Kentuck Fried Chicken estava aberto na esquina da mesma rua. Fomos novamente, heróica e bravamente, caminhando até lá. Devoramos uns pedaços de frango frito morno e batatas fritas murchas num restaurante cheio de índios. Eles chegavam dirigindo ski-doos, vestidos em roupas de astronautas, que tiravam no meio do corredor, transformando-se novamente em seres humanos normais, com suas calças jeans, botas de cowboy e camisas de flanela xadrez. Nós, os quatro brasileiros comendo o menu requentado do almoço, éramos verdadeiros ETs ali.... Nunca me senti tão estrangeira, tão peixe fora d'água.

Voltamos pro Hotel, onde dormimos como pedras. No dia seguinte, eu e a minha irmã tivemos um desentendimento no breakfast. Olhando o menu do restaurante, com ovos, bacon e um monte de ítens que ela nem conhecia e nem queria conhecer, minha irmã reclamou e disse que só queria um café normal, será que era tão díficil arrumar um simples copo de leite com Nescau pra beber no café da manhã naquele país? Estávamos numa reserva indígena, no norte do nada, e ela queria um copo de leite com Nescau! Saímos do restaurante de cara virada, ficamos emburradas e choramos dentro do carro, enquanto o Gabriel dormia no banco de tras e o Uriel dirigia pra lá e pra cá, num passeio bucólico pela linda cidade de La Ronge.

"Olha que paisagem linda!"

[tudo branco, cheio de neve, um índio cruzando o lago congelado num ski-doo]

"Grmpfg"

Resolvemos voltar pra Saskatoon mais cedo, quatro horas numa viagem em total silêncio, secretamente felizes por estarmos voltando à civilização. Só podia ser coisa de Urso, inventar um passeio de índio desses.......

pizza é napolitana

Meu filho não visita o Brasil desde 1997. Novembro ele estará chegando em São Paulo com a namorada Marianne. Meu irmão irá buscá-los no aeroporto para levá-los para Campinas, onde a família com certeza estará aguardando com bandinha de música, bandeirinhas flamulantes, bexigas e serpentinas coloridas. Combinando com o tio os detalhes da chegada ele falou:

—quero que você pare na primeira pizzaria que passarmos pela frente, antes mesmo de chegar na casa do vovô.
—pizzaria, Gabriel?
—sim, quero comer uma pizza portuguesa, aquela com cebola, presunto, ovo cozido.

Ouvi esse diálogo e fiquei rindo com a boca aberta, mostrando todos os meus dentões. Pizza portuguesa, Gabriel?? Isso é um oximoro!

obladi oblada

Porque o dia vai ser cheio, o post vai ser Seinfeld style, sobre nada. Porque não pára de chover e o dia está escuro. Porque estou trabalhando em vários projetos e um deles - segredo - é muito especial. Porque fico triste que meus gatos não são amigos. Porque decidi comer uma maçã por dia, mesmo não curtindo muito essa fruta. Porque não mexi a bunda ainda para nada relativo ao Natal. Porque estou animada para ver o mar no inverno. Porque estou aceitando mais desafios. Porque admiro pessoas que tem classe. Porque desprezo gente babaca. Porque meu travesseiro cheira a sachê de açaí. Porque eu simplesmente amo filmes antigos. Porque tento cozinhar peixe uma vez por semana. Porque me falaram mais uma vez que eu pareço com a Nigella Lawson. Porque vou precisar pegar na vassoura em breve. Porque estou sempre ouvindo Blues tradicional. Porque eu não ligo pra modismos. Porque estamos sempre rindo. Porque eu sou desorganizada pacas. Porque ele também é. Porque a água me anima e me conforta. Porque quero assar um bolo. Porque os legumes e verduras deixam a geladeira colorida. Porque tudo aqui cheira a lavanda. Porque tenho muitas pilhas de revista. Porque estou sempre click-click-click. Porque gosto de inovar. Porque também gosto de tradição. Porque nunca vamos ser iguais. Porque eu não consigo parar de tricotar. Porque eu não gosto de falar com qualquer um no telefone. Porque eu gosto de papear com a minha irmã no telefone. Porque eu sou Esther Williams. Porque eu sonho muito, demais. Porque eu tenho amigos que eu adoro. Porque bebemos muita limonada. Porque não consigo parar de escrever, mesmo que eu só escreva sobre o nada.

*post reciclado do The Chatterbox, de 8 de dezembro de 2004.

A Raposa Vermelha

Minha melhor amiga no colegial, a Teresa, era neta e sobrinha das proprietárias da Raposa Vermelha. Por anos, a Raposa foi uma loja de discos e livros, novos e usados, instalada na garagem/basement da casa da Dona Olga e da Ieda na rua Padre Vieira, em Campinas. Era uma casa antiga, de dois andares, mais o porão, toda pintada de um roxo cor de berinjela. Era um dos lugares mais cool da cidade para se ouvir a melhor música, achar raridades. As paredes da loja eram cobertas de posters de bandas e músicos. Aquilo era um paraíso. Sempre inovadoras, Dona Olga e sua filha Ieda praticavam a macrobiótica e resolveram abrir um entreposto. A Teresa trabalhou lá por um tempo e me chamou para substituí-la quando precisou parar. Era 1980. Foi meu primeiro emprego! Eu ganhava uma miserinha, mas adorava trabalhar lá. A loja de macrobiótica foi instalada no porão da casa, entre a loja de discos e livros e uns cômodos ultra maravilhosos, decorados com móveis antigos, onde a Ieda lia tarôt e vendia umas roupas super transadas. Pra chegar na loja macrô tinha que atravessar a loja de música, entrar num corredorzinho e voalá, atrás de um balcãozinho de madeira crua ficava eu, toda odara, extremamente tímida e reservada, lendo livros e vendendo os produtos. Às vezes eu tinha que ensacar arroz integral, que a Ieda comprava no atacado. Outras vezes eu reorganizava as prateleiras. Quando chegava cliente, eu orientava, cobrava a mercadoria, empacotava muito simplesmente em sacos de papel e dava troco, essas coisas. Mas na maioria do tempo a loja ficava vazia e eu ficava ouvindo as músicas maravilhosas que o Fer, que trabalhava na parte de discos, tocava o tempo todo, e lendo os livros macrôs e naturebas da pequena livraria, que oferecia literatura básica e avançada sobre o assunto. Eu li muito nessa época - li e me surpreendi com o fato de que eu era NORMAL na minha repugnância por carnes. Naquela época eu encontrei a minha turma, mesmo sendo eu uma natural born e sem nenhuma idéia filosofica sobre alimentação natural, carnes, açúcar, eteceterá.

A Raposa Vermelha mudou a minha vida. Eu passava as minhas tardes lá, se não lendo, ouvindo os papos mais variados do pessoal que frequentava a loja, entre eles muitos malhadores da Coca-cola e demonizadores do açúcar branco. Um deles batia ponto no local diáriamente e contou uma vez como ficou envenenado depois que comeu uma lasca de frango e do barato que ele sentiu respirando oxigênio puro nos tubos quando ele mergulhava. Era cada história... Pra mim era tudo o máximo! Um dia um casal muito estranho entrou na loja e ficou numa atitude suspeitíssima num cantinho da loja [e ela era minúscula!] onde ficavam uns produtos bem caros. Eu fiquei com a pulga atrás da orelha, mas a loja estava cheia e não pude prestar muita atenção as manobras do casal. Quando o movimento acalmou, fui lá no cantinho ver o que o casal olhava tanto e vi que uma das caixinhas daqueles suplementos importados estava aberta e vazia. Eles tinham roubado o negócio. Contei pra Ieda e ficamos confabulando sobre essa história. Um dia a Ieda veio me contar que estava iniciando um papo com aquele fulano assíduo da loja, o do barato do oxigênio, contando as preliminares do roubo, falando algo do tipo, nossa, a gente confia nas pessoas e vê só no que dá, elas nos roubam, quando o cara começou a chorar e a pedir perdão! Sem querer ela provocou a revelação de outro meliante, que confessou aos prantos que toda vez que ia ao banheiro da loja - onde ficavam estocados alguns produtos, ele embolsava algo. Ficamos pasmas e rimos muito! O cara voltou a frequentar a loja, mas nunca mais pediu para usar o banheiro.

* Por que o nome da loja era A Raposa Vermelha? Por causa da raposa vestida de vermelho da capa do álbum Foxtrot do Genesis ainda com o Peter Gabriel, de quem o marido da Ieda era fã.

nada a declarar

Minha cunhada pediu um vidro de peanut butter e uma caixa de taco shells. No inicio eu achei esse pedido meio bizarro, mas depois repensei e percebi que essas coisas são muito mais naturais quando estamos do lado requisitor do pedido. Quem não rola os olhos e faz aquela cara de deboche quando me ouve pedir um naco de goiabada cascão, um pacote de carne seca, envelopinhos de guaraná em pó, ou mesmo - o recorde da indignação e dos risinhos - uma lata de azeite Maria, que nem é azeite puro, mas misturado com óleo de soja. Ninguém explica essas bichas alimentares. Então quando alguém me pede algo, eu nunca questiono, vou comprar resignadamente.

Histórias de carregamentos estranhos de um país para o outro são super comuns. Minha mãe é expert nesses contrabandos gastronômicos. Uma vez indo me visitar no Canadá ela enfureceu o meu irmão, quando enfiou DEZ sacos de farinha de mandioca na mala, para satisfazer o meu pedido de UM saco. Meu irmão ficou louco - mas que farofice, que coisa brega, que baixaria! Ela trouxe assim mesmo, junto com tuperwares cheios de maria-moles feitas em casa, pela empregada. Eu acabei virando a pessoa mais popular do pedaço, quando presenteei um monte de brasileiro com sacos fresquinhos de farinha. Nem se eu comesse farofa todo santo dia, iria dar conta dos dez sacos. Mas as maria-moles nós devoramos em minutos.

Numa outra vez, quando eu já estava nos EUA, ela parou primeiro em Los Angeles, pra ficar umas semanas na casa do meu irmão. Na mala, seis ovos de Páscoa para as minhas duas sobrinhas. Também trouxe a máquina de fazer macarrão e preparou uma bela macarronada lá, e outra aqui, quando o Gabriel girou a manivela mais uma vez e nós devoramos aquela delicia feita com apenas farinha e ovos, temperada com um molho de tomates grosso que só ela sabe fazer e ninguém consegue imitar.

Nos aniversários do Gabriel e natais, chegam sempre umas caixonas vindas do Brasil. Elas vem carregadas com bandejinhas de quindim, queijadinha, pé de moleque, cocada, maria-mole, olho de sogra, cajuzinho, brigadeiro. Remetente: Dona Odette Guimarães.

Quando minha mãe vai a Portugal, volta parecendo uma quitanda, carregando vidros de pimenta em conserva e garrafas de vinho na mala de mão. Uma vez ela ganhou um bacalhau enorme da sogra portuguesa da minha irmã. Levou o bacalhau pro Brasil bem embrulhado e tal. Daí veio me visitar e sugeriu trazer o bacalhau com ela. Por mais que eu adore essa iguaria e sinta falta de uma bela bacalhoada, eu a proíbi categoricamente - NADA de trazer bacalhau nenhum! Imagina, passar com um bacalhau na alfândega americana? Onde já se viu, mamãe, tá louca? Mas ela ouviu? Obedeceu? Concordou? Claro que não! Quando ela chegou, abriu a mala e me mostrou morrendo de rir um pacotão comprido: era o bacalhau! Resignada, aceitei o fato de que teríamos bacalhoada no final de semana. E assim minha mãe preparou para o nosso deleite, a receita de bacalhoada da portuguesa Dona Rosa, mãe do Luís, marido da minha irmã.

sambando com o crioulo doido

Cozinhar? Como? Quando? Não consegui nem fazer umas comprinhas de supermercado ainda. Não fui ao Farmers Market. Não tenho a menor idéia de menu ou planos para assuntos culinários. É que às vezes o bicho pega.

Sexta-feira abriu a temporada de outono do Mondavi Center e eu trabalhei no show do fantástico Bo Diddley. Reencontrei muita gente conhecida, foi bem legal. O show foi excente, Diddley fez a platéia levantar e dançar. Até o chancellor da UC Davis, que assistia ao show do seu camarote, deu umas reboladas, batendo palmas e tal. Quando eu tenho show no Mondavi, não dá tempo de cozinhar. Tenho que comer algo improvisado e sair, pois tenho que estar no saguão do teatro, de uniforme, às seis e meia.

Sábado tivemos uma garage sale da Brazil in Davis na minha casa de hóspedes, para arrecadar uma graninha para mandarmos para uma entidade assistencial no Brasil. Eu passei a semana em função dessa garage sale. No sábado acordei às seis e meia da manhã e fiquei no meu estado clássico de estressadinha, até que tudo ficou em ordem e a coisa engrenou. Fazer a garage dentro da casa foi legal, pois não ficamos expostas na rua, tínhamos banheiro e cozinha, onde deixei um pote de café para os visitantes se servirem. Fizemos uma graninha boa e no final do dia aconteceu o inesperado - aluguei a minha casa de hóspedes!! Minha nova inquilina é uma pessoa que eu já conheço há uns dois anos, uma menina muito meiga, estudante da UC Davis, que aprende português com a Brazil in Davis e ama o Brasil. Eu a conheci quando alguém me indicou para ajudá-la a fazer uns telefonemas para uma comunidade no Rio Grande do Norte, onde ela tinha passado uns meses e estava doando uma grana do bolso dela pro pessoal lá comprar sementes e alugar um trator para arar a terra e fazer uma roça de feijão e milho comunitária. O curriculo dela é dez, vamos ver como ela vai se sair como minha inquilina!

Depois da garage eu e minhas amigas fomos almoçar num restaurante gostosinho aqui em downtown. Bebemos vinho e relaxamos! Eu comi um prato bem interessante chamado Fazzoletti: uma massa fininha como de lasanha recheada com milho, cogumelos e queijo de cabra, dobrada como um pacotinho e temperada com molho de tomate e tomates cerejas frescos. Estava muitíssimo bom. Além da companhia, da conversa e do vinho!

A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte

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Fui ao banheiro com uma banana na mão. Fiz xixi, voltei comendo e pensando como a nossa vida gira e acontece em volta da comida. Não tem muita coisa que a gente faça que não esteja relacionada à comida. Encontros, passeios, o dia-a-dia de trabalho e compromissos. Apesar de eu ir almoçar em casa, eu trago uma lancheira para o trabalho. Nela sempre tem uma fruta, uma barra de cereal, bolachas salgadas.

Meu final de semana foi super corrido e cansativo, mas todo permeado - se não baseado, em comida. O avião trazendo o meu irmão aterrisou às oito da noite em San Francisco. Ainda pegamos muito tráfego na I80, que é a interstate que liga San Francisco à Sacramento e continua até Reno, em Nevada. Aquilo está sempre abarrotado de carros. Chegamos em casa às dez e meia e fomos dormir? Claro que não, fomos jantar e conversar. Eu tinha deixado uma sopa preparada, pãezinhos e salada engatilhados. Jantamos às onze da noite, sopa, salada, pão, vinho. E conversamos até não sei que horas. Eu estava tão cansada - pois acordo às seis da manhã - que num certo ponto fiz uma coisa que normalmente nunca faria: apressei meus convidados e praticamente sugeri ao meu filho e minha nora que já era hora de ir embora.

O final de semana foi uma maratona de conversas, passeios e comida! Almoçamos em casa, um churrasco que é sempre a coisa mais prática, o Gabriel cuidou e deixou a carne bem saborosa. Fiz uma salada e batatas fritas no azeite. Ficamos papeando à mesa, bebendo vinho e depois devorando blueberries com chantily [que eu adoço com mel] e figos rami, que meu irmão trouxe na mala. À noite fomos comer mais, num restaurante italiano em Sacramento.

No domingo já foi hora de partir, rumamos novamente para San Francisco e como chegamos cedo matamos tempo conversando num café, bebendo mocha, suco de laranja, iogurte, mordiscando scones de framboesa. Nem preciso dizer o quanto fico feliz quando recebo minha família aqui, e de como me entristeço com as despedidas. Foi uma visita muito rápida, mas já deixamos planos estipulados para outra, em feverereiro, quando ele vier novamente à trabalho para Las Vegas.

Como já estávamos em San Francisco, eu quis passar no Ferry Plaza Market, que é um mercado de produtos orgânicos que foi construído no antigo porto da cidade. É um predio lindo, na beira do oceano com vista para a Bay Bridge, cheio de lugares deliciosos para comprar e comer. Almoçamos num japonês muito bom e depois pegamos uma barca até Sausalito. Essa é uma cidadezinha do outro lado da baia, com muitas galerias de arte e lojinhas variadas. Voltamos para San Francisco e eu fiz comprinhas na Sur La Table - pra espantar o banzo de dizer tchau pro irmão! Ainda compramos pães, gelatto e voltamos para Davis. Quando chegamos em casa fizemos um lanchinho. Me digam se a vida da gente não é só comida? E um pouco de diversão e arte...

uma tradição italiana

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Lívia ajudando o pai na fazeção da macarronada

Sexta-feira vou buscar meu irmão no aeroporto de San Francisco. Ele está no Texas à trabalho e vai dar um "pulinho" até a Califórnia só pra ver a irmã dele! Eu tenho dois irmãos—os dois cozinham. Este que está chegando é o responsável pela sobrevivência da grande arte de fazer macarrão em casa, que é a tradição que vem passando de geração em geracão no lado materno da minha família.

Minha mãe aprendeu a fazer a massa de macarrão com a minha bisavó, uma imigrante italiana aportada em São Paulo no começo do século vinte. Por muitos anos fui eu a menina girando a manivela da máquina, ajudando a fazer a massa amarela ficar fininha, fininha. Depois foi a vez do meu filho Gabriel que girava a manivela enquanto a avó pegava a massa do outro lado. Muitas crianças da família giraram a manivelinha. Hoje quem gira é a Lívia, enquanto o pai dela prepara a massa. Por mais incrível que pareça, não sou eu que estou carregando a tradição pra frente. Meu irmão é hoje o dono da máquina, que ele usa todo final de semana para preparar a massa, que depois será temperada por um fabuloso molho de tomates feito em casa e devorada por toda a família—ou la famiglia, como diz meu pai, que descende de portugueses, mas já foi totalmente seduzido e dominado pela italianada. Quando eu ligo lá nos domingos logo depois do almoço, ele diz —só faltou vocês aqui e um cantor de operetas para animar mais o nosso almoço, pois o resto estava completo: macarronada, frango assado, muito vinho, adultos conversando aos berros, crianças correndo pela casa e a cachorrada latindo!

um verdadeiro milagre

Nos meus primeiros meses como staff do programa de controle integrado de pestes [IPM], levei muitos sustos. Vejam só, eu sou uma web developer e fui contratada para me dedicar full-time à este web site gigantesco, que é mantido pelo Departamento de Agricultura dos EUA, UC Davis, UC Berkeley, UC Riverside, o condado de Yolo e outras entidades. É um programa importantíssimo e útilissimo, tanto para os fazendeiros do estado, quanto para as pessoas comuns que mantém uma horta ou um jardim. O IPM divulga informação científica para ajudar no controle das pragas, dando prioridade para gerenciamentos biológicos, culturais e orgânicos, aconselhando o uso de químicos somente em último caso, observando e cuidando também para não poluir o meio-ambiente e as redes de água.

Bom, quando coloquei as mãos pela primeira vez nas páginas que monto e mantenho, já tive um chocante encontro inicial de primeiro grau com as pestes da cultura do milho. Passei muito tempo levando sustos horríveis, fazendo caretas, pondo a língua pra fora e me contorcendo toda de arrepio e nojo na frente do meu monitor. Eu não imaginava - realmente, que inocência - que existissem tantas pragas atacando a nossa comida! Achava que o pior que poderia acontecer era uma geada ou uma seca. E eu só conheci até agora as pestes que atacam a produção agrícola da Califórnia. Um IPM do país ou do mundo seria um completo circo de horrores!

A primeira coisa que me passou pela cabeça quando fui apresentada aos horroríveis insetos, ácaros, doenças, ervas daninhas, coisas vertebradas e invertebradas foi - putsz, ter uma salada ou um cozido na nossa mesa é um verdadeiro milagre, pois temos que primeiro lutar bravamente contra todas essas pragas! Meu marido rolou de rir quando me ouviu falar isso, porque ele está cansado de saber quem são os purulentos e cascorentos que infestam os nossos campos e pomares. Eu precisei de um bocado de tempo para digerir essa informação, abismada com o quanto nós humanos temos também que rebolar para poder nos alimentar. Felizmente somos mais fortes e mais inteligentes, senão com certeza nosso menu teria apenas dois itens: sopa de pedra e pão de areia.

o dedo caolho

Queridos amigos e amigas que me lêem. Se vocês têm um olho bom para os detalhes, com certeza já perceberam a minha tendência para fazer typos e erros banais em frases. Não quero dar uma de sonsa e deixar todo mundo pensando que fugi da escola. A verdade é... bem, a verdade é... cof cof... a verdade é que eu NÃO SEI DATILOGRAFAR! Cato milho com um dedo só e olho para o teclado enquanto escrevo. É um péssimo hábito enraizado, coisa de gente turrona que sempre se recusou a aprender o bê-á-bá do teclado. E não insistam em dicas, não sugiram cursos online, porque eu não vou fazer, não vou fazer, não vou e pronto! Só queria explicar por que eu faço tantos errinhos.

Mas não bastasse ser dedológrafa, ainda ando meio cegueta. Preciso de óculos para ler e não uso, porque não gosto, me irrita, me dá tontura. Isso tudo somado ao fato de que escrevo a maioria - não todos - os meus textos num pequeno laptop, onde eu perco muito em visualização. Isso tudo tem me deixado imensamente preocupada. Será que vou virar um velhinha [velhona] cheia das teimosias, ameaçando os incautos com um guarda-chuva pontudo quando confrontada, com o batom borrado, uma meia de cada cor em cada pé, achando sempre que tem razão e escrevendo receitinhas de canja de galinha e bolo de cenoura cheias de teupos... tiupos... tiupos... TYPOS?

quem não arrisca não petisca

Cansada e esgotada, fui à Sacramento depois do trabalho para uma shopping therapy. Nada exagerado, mas eu queria ir à uma loja especifica comprar umas roupitchas. Eu vou rarissimamente à malls, porque não temos nenhum aqui em Davis. Tenho que ir até Sacramento e não gosto muito do ambiente dos malls. Faço minhas compras em outlets, lojas de fábrica, pontas de estoque e lojinhas da cidade. Sou super thrifty com roupas, porque enjôo delas facinho, além de ser uma desastrada e manchar tudo, rasgar tudo. E gosto de ter MUITA roupa, então não pago preço regular. Mas ontem fui no de downtown Sacramento, que é o mais próximo pra mim. Ele é um típico mall californiano, todo aberto, até que bonito. Mas por que, perguntam-se vocês, eu estaria escrevendo sobre isso? Outra vez um post off topic? Nãnanina! É que eu preciso dizer o quanto eu ABOMINO comida de shopping. Eu tenho nojo, asco, revolta. Não consigo comer aquelas porcarias fast-food, simplesmente. Então camelei onde queria, comprei o que queria e dirigi correndo, faminta, de volta para Davis.

Atrás da minha casa tem uma pequena área de comércio, com algumas lojas, alguns restaurantes com mesinhas na área externa, um imenso gramado onde as crianças correm, os adultos se esparramam deitados, e um jardim de plantas típicas da região, que faz parte do Arboretum da UC Davis, com mesinhas, cadeiras e bancos para o pessoal se aconchegar. Nem preciso fazer a comparação desse shoppingzinho vizinho com um mall qualquer em outro lugar... Mil vezes aqui! Então voltei decidida que iria jantar - sozinha mesmo - num dos restaurantes dali. É só atravessar a rua, super tranquilo.

Fui ao Fuzio um franchise que abunda aqui na Califórnia. Uma mistura de cozinha italiana com oriental. É esquisito mesmo... O ambiente é modernex, o serviço é simpático e atencioso, mas a comida deixa um tanto a desejar. Sentei no bar, porque assim não me sinto tão deslocada por estar sozinha. Pedi um ravioli recheado com tomate seco e queijo, com molho de cogumelos grelhados, que não estava totalmente ruim, só a massa que estava um pouquinho dura. E bebi uma taça de Chardonnay [sempre californianos] que supostamente teria um leve sabor de melão. Não estava mau, mas também não impressionou. Se o Fuzio fosse um bom restaurante, com um menu mais variado, eu seria uma frequentadora mais assídua nos meus dias solitários de final de verão. Mas nem tudo pode ser perfeito....

folga na cozinha e outros papos

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Todo final de agosto, início de setembro, meu marido some na fazenda de pistacho ou em congressos pelo mundo afora. Então eu fico meio desorganizada na cozinha, porque não tenho muito ânimo de cozinhar só pra mim. Improviso muito, também porque não gosto de comer em restaurantes sozinha. Faço coisas simples e práticas. Sandubas e saladas são a base do menu. Ontem fiz uma coisa horrêver... Jantei uma salada Caprese - tomate, mussarella fresca e basilicão - com uma fatia de pão preto, em pé na cozinha, enquanto telefonava para as minhas amigas e combinava um cinema.

Fomos ao Varsity Theater, o cinema independente da minha cidade, ver o documentário Who Killed the Electric Car. Logo na entrada, notei uma janelinha que eu não tinha visto antes, no lado esquerdo do hall principal e fui lá xeretar. O teatro tem o seu balcãozinho estilo anos 50 vendendo pipoca, refrigerante, mas aquela janelinha vendia café e sorvete - gelatto e regular. Me encantei por um sabor de berries com cabernet. Achei uma ótima idéia, só que senti um pouco de dificuldade para terminar o sorvete quando a sala ficou escura.

a trilha sonora do capítulo de hoje é Dylan

Ele está na fazenda de pistacho no sul da Califórnia. Não fui nadar, porque estava ansiosa para ir até a Borders com um cupom comprar o novo cd do Bob Dylan. Comprei também mais um livro de culinária francesa, desses com fotos bonitas, e postais pro meu amigo Guto. Na volta passei ao lado da inquilina da minha guest house e seu cachorro de três pernas conversando com o meu vizinho cinqüentão tri-atleta na calçada. Essa foi uma história traumatizante que felizmente acaba depois de amanhã.

Comida, comida! Nao quis comer no restaurante italiano, nem no bistrô das saladas. Peguei o carro e fui até o Co-op, nosso supermercado cooperativa. Enchi o carrinho de coisas tolas - sorvete de frutas, wrappings com hummus e falafel, marmelada, pão preto, duas bananas, polenta corn chips, hamburguer vegetal. Ouvi pela terceira vez neste dia um elogio à minha roupa - your top is awesome! Sim, é mesmo!

Uma taça de vinho branco de Cadiz na Andalucia, salsa de vidro com coentro e azeitonas, figos verdes e roxos, iogurte grego com mel. Bob Dylan tocando no cd player me leva quase às lágrimas. Meu vizinho recebe uma visita, um cabeludo hipongo. Será o George da esquina? Eu achava que o George era desempregado e até sentia pena da mulher sorridente dele, quando fiquei sabendo que ele é um professor do departamento de Artes. Quanta diferença do departamento de Engenharia agrícola, onde ninguém tem tempo pra nada e ainda viaja. Todos os meus vizinhos são acadêmicos.

Vou ler A Little Taste of France, vou escrever postais, de óculos que eu odeio, vou terminar de mastigar os figos, que eu adoro, e sentir as sementes estourando entre os meus dentes, vou terminar de ouvir Dylan e seu Modern Times, tentando não sair dançando pela cozinha, evitando que o meu vizinho me veja pelas janelas e me pegue no flagra comendo, bebendo, cantando.

pança cheia

* post reciclado de agosto de 2005, do The Chatterbox.

Uma amiga mencionou um prato típico do norte ou nordeste chamado baião de dois e eu fiquei com as bichas. Então hoje resolvi fazer o tal prato, mas num esquema muito do improvisado. Procurei a receita no cybercook e ia tanto ingrediente regional - manteiga de garrafa, feijão não sei das quantas, farinha de não sei o que. Pensei, vixe maria, acho que vou ficar só na vontade. Mas a capacidade de improvisação do ser humano é uma coisa impressionante. Fiz o tal baião com um bacon americano que eu descongelei no microondas, um feijão italiano e um arroz basmati indiano que eram sobras de outro dia, adicionei pimentão e tomate, salpiquei com queijo ralado e servi acompanhado de um refogado de quiabo. Nem sei se combina, nem se esse baião fajuto pode ser chamado de baião. Mas que ficou muito bom e eu enchi a pança é a mais pura verdade!

a pêra crocante

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O produtor de quem eu compro pêras no Farmers Market me disse que ele cultiva dez tipos diferentes dessa fruta. Eu gosto dessa variedade asiática, por causa da textura. Acho também que elas são menos doces que as outras mais moles. Sempre que compro essas pêras lembro da minha querida amiga Alessandra. Eu comprava a pêra asiática no mercadão de Piracicaba, quando morei lá nos no final dos anos oitenta, e quando eu falava pra Alessandra que essas frutas eram crocantes, ela se acabava de rir e dizia—só na casa da Fer que se come pêras crocantes!!!

o primeiro encontro com a sopa em lata

Na introdução de The Art of Eating, Anna Parrish, a filha mais velha da autora M. F. K. Fisher, escreve um pequeno parágrafo sobre a sua mão. Ela conta que seus amigos ficavam embasbacados quando jantavam com ela, pois a mãe servia coisas simples e boas, como uma prato de salame, prosciutto e melão, uma salada de alface, pão e vinho. De sobremesa uvas ou sorvete.

Lendo isso me lembrei de muitas histórias da minha inocência culinária, fazendo coisas simples e boas - como sempre fiz, mas pra audiêcia errada. Nos nossos primeiros meses no Canadá, a filha de um casal de amigos se encantou com o meu filho. Ela devia ter uns sete anos e o Gabriel tinha dez. Um dia ela se convidou para dormir em casa e passar o sábado lá. Nem lembro se o Gabriel curtiu aquilo, mas ele sempre foi extremamente gentil.

Fui logo perguntar o que a menina gostava de comer e quando ela disse que a comida preferida dela - ever - era sopa de cogumelos, fui correndo ao supermercado, comprei os cogumelos mais frescos que encontrei e fiz aquela sopa simples, saborosa e linda. Na hora no almoço a menina veio toda pirilampa, sentou-se para comer e quando olhou para o prato fez uma careta de nojo e desapontamento, enquanto mexia a sopa com a colher como se estivesse revirando uma lavagem de porco. Saiu da mesa abruptamente dizendo que tinha mudado de idéia, não estava com fome. Eu depois fui perguntar, mas como, você não quer comer nada, não esta com fome, como pode, brincou a manhã toda, e a educadinha canadense disse sem papas na língua - eu não gostei dessa sopa que você fez, eu gosto da sopa de cogumelos DE LATA!

Bom, a partir daí vi que não podia mesmo fazer nada. Eu não podia ousar competir com uma lata de sopa Campbell.

a cozinha também está dominada

Vocês já sabem que a cozinha sempre foi um lugar perigoso pra mim. Foi em cozinhas que ganhei minhas maiores cicatrizes, em terríveis cortes e queimaduras. Tenho sempre uma atitude prevenida quando estou fazendo comida ou qualquer outra coisa numa cozinha. Eu me vejo em situações gravíssimas, sangue jorrando, morte eminente. Vou tentar traçar o mapa do local minado: um tapete entre a cozinha e a sala de jantar, outro tapete largo em frente da pia e máquina de lavar louças, um forno e um fogão sempre ativos, uma geladeira com duas portas que se abrem opostas uma a outra, muitos armários com portas pontudas na altura da minha cabeça, e dois gatos. Se todo o resto não bastasse para provocar situações de acidentes mortais, ainda temos os gatos na cena. Eles são a cereja no topo do bolo do meu infortúnio destino.

E eles são onipresentes no local. Estão sempre deitados nas cadeiras onde você vai sentar, correndo pra lá e pra cá ou ou escarrapichados nos tapetes. Quando eu estou fazendo o rango e andando de um lado para o outro na cozinha, nada mais apropriado do que ter um gato gordão, sentado, deitado ou em pé feito uma estátua, bem no meio do seu caminho. Ou ter um gatinho maluco dando pinotes e corridas alucinadas pelo meio da cozinha, chispando como um furacão pelo meio das minhas pernas ou passando frenéticamente aos pulos enquanto joga um ratinho de pano pra lá e prá cá pelos ares e ocasionalmente dando botes nas minhas pernas e pés.

Este é o cenário realista e perturbador. Por isso não se assustem se eu contar histórias de como tropecei num gato com um facão numa das mãos e só deus sabe como consegui recuperar o equilibrio sem me auto-degolar ou me auto-estripar. Ou de como tropecei no outro gato [ou seria o mesmo?] e quase caí de cara na sopa borbulhante na panela e periguei virar coadjuvante de um réplica caseira de uma cena de Angel Heart. Eu piso em ovos para não pisar em gatos e se for vitima de mais um freak acidente na cozinha, vocês já estão avisados, para não haver nenhuma sombra de dúvida sobre a identidade dos futuros supostos culpados!

um toque de classe

Era uma segunda-feira, quando eu vou buscar minha cesta orgânica, lavo, guardo e tento usar os legumes e verduras que encalharam ou sobraram da outra semana. Geralmente é um dia bom para deixar um caldo preparando na panela elétrica, e para fazer pratos simples, nada que necessite mais que três etapas - lavar, picar, cozinhar rapidamente ou temperar em salada.

Pra acompanhar a refeição simples que eu fiz naquele dia, eu resolvi usar um pacote de noodles cozido que eu tinha na geladeira. Esses pacotes são muito práticos, pois o macarrão feito com ovos vem prontinho, você só precisa despejar no stir fry ou sopa. Pois nesse dia fritei na wok umas fatias finas de alho no azeite, joguei os noodles, sal, pimenta, cobri com muita salsinha fresca picada e servi com bastante queijo pecorino ralado. Um alho & óleo oriental.

Pois o que foi que ouvi quando servi o jantar?

- Ah, você fez miojo hoje?

Á? Á? Á?
MIOJOOOOO???!!!
Nem preciso dizer que fiquei chocadíssima e ofendidíssima...

A saga das panquecas

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Acontece também com você? E você não odeia quando acontece? Você decide fazer uma receita, pensa em todos os ingredientes, menos nos óbvios - farinha, leite, ovos, fermento, pois esses você tem certeza que sempre tem! Mas o quê? Basta você começar a se preparar, pôr os utensílios alinhados, abrir o caderno de receitas, separar os ingredientes para constatar que NÃO TEM FARINHA DE TRIGO!!

Foi isso que me aconteceu quando resolvi que iria fazer panquecas recheadas com ricota para o almoço de sábado. Fiquei muito irritada, pois tive que mudar as direções da barca culinária, o que não foi uma situação feliz.

Resolvemos a questão no sábado à noite, quando o Uriel foi comprar umas coisas no Co-op e trouxe um saco de farinha. Pro almoço de domingo fiz as panquecas, recheadas com ricota e onde usei o molho de tomate que preparei para uma eventual macarronada.

A receita da massa das panquecas é da minha mãe. O recheio não tem segredo, é ricota amassada com cebolinha e salsinha picadinha e temperada com sal e pimenta do reino.

Para a massa, bata no liquidificador 2 xícaras de farinha de trigo, 2 xícaras de leite, duas colheres de sopa de manteiga, 1 colher de chá de fermento em pó, 2 ovos, uma pitada de sal. Bata bem e deixe descansar por 5 minutos. Frite as panquecas o mais fininho possível na frigideira untada com manteiga. Enrole cada uma com o recheio de ricota. Ponha num refratário, cubra com molho de tomate e salpique com queijo parmesão. Leve ao forno médio por uns 15 minutos e sirva.

Minhas madeleines

Porque minha mãe tinha uma carreira e trabalhava fora oito horas por dia, na casa dos meus pais sempre teve duas empregadas—uma pra cozinhar e outra pra fazer todo o resto, inclusive cuidar das quatro crianças endiabradas. Agora eu entendo por que minha mãe tinha uma pessoa só para cozinhar. Pra ela, a alimentação era uma coisa importantíssima e nós sempre tivemos quatro refeições por dia, todas preparadas do zero, sem congelar, descongelar, requentar, pois naquele tempo nem era comum as famílias terem freezer, muito menos microondas.

Então a cozinheira cozinhava o dia inteiro. Tomávamos o café da manhã a família toda junta, com a mesa arrumada, xícara com pires, colherzinha, guardanapo. Meu pai e minha mãe iam almoçar em casa e então sentávamos todos juntos à mesa de novo. À tarde tinha o café da tarde, que ora era café com leite, ora chocolate, ora mingau, sempre uma fruta, bolacha salgada ou doce. Meu pai às vezes aparecia para tomar o café da tarde em casa—e muitas vezes nos pegou no flagra fazendo arte durante as férias. No jantar a coisa incrementava, pois minha mãe fazia questão de servir sempre uma sopa antes do prato principal, mais salada e sobremesa. Durante a semana as sobremesas eram simples, frutas, ou salada de frutas, gelatina, sorvete. Para o sábado e domigo tinha sempre algo mais sofisticado, um pavê, uma torta. Todo sábado à noite tinha pizza, todo domingo macarronada com frango—se não houvesse um churrasco muito raro. Todas as refeições tinham horário fixo. Meu pai às vezes ganhava dos fazendeiros da região um porco vivo, ou galinhas, ou um sacão de batatas, ou outro artigo comestível. A empregada que cozinhava era incumbida de matar a galinha—tarefa repugnante que eu testemunhei uma vez e que marcou a minha memória para sempre. E minha mãe sempre inventando receitas novas, pegando idéias nos livros, que a cozinheira concretizava. Uma vez por mês ela encomendava peixes, que chegavam num caminhão refrigerado. E o leite vinha todo dia numa carroça puxada por um cavalo.

Minha casa tinha dois andares, em cima tinha uma cozinha que nunca foi usada, com um fogão, pia comprida, armários e um aparelho americano de assar frango. Ao lado tinha uma sala de jantar. Mas o buxixo ficava no andar de baixo da casa, onde tinha a cozinha pequena toda branca, onde a cozinheira com quem eu passei mais tempo—a Cida—ficava. Ao lado tinha uma copa grande, onde fazíamos praticamente todas as refeicões. Eu estava sempre pela cozinha, atrás das empregadas, xeretando a geladeira, abrindo armários, lendo os livros de receita. Essa Cida era uma mulata alta, gorda e muito mal humorada, que ficava muito irritada comigo sempre atrapalhando o serviço dela. Mas eu nunca me intimidei e um dia comecei a mexer nas panelas. Eu devia ter uns oito ou nove anos, não lembro exatamente qual foi a minha primeira invenção na cozinha, mas me lembro de uma idéia de girico que fracassou, fez uma sujeirada e me deu uma dor de barriga danada - eu misturei manteiga com ovos e açúcar e fritei à colheiradas no óleo quente. A Cida só revirava os olhos, grunia—devia estar me rogando pragas de caganeiras—e ia de cara fechada limpar a minha arte antes que meus pais chegassem, minha mãe tivesse um xilique e me desse uma surra.

Mais tarde lembro de ficar bem arrojada e abrir o livro de receitas A Alegria de Cozinhar da Helena Sangirardi e fazer uns sanduichinhos com pão pullman, maionese e pepino. Ninguém quis comer aquilo. Hoje entendo o que aquele sanduíchinho tão nada a ver com a nossa cultura culinária estava fazendo naquele livro. Dona Helena Sangirardi traduziu o The Joy of Cooking, então a herança inglesa da cozinha dos americanos foi parar nas nossas cozinhas brasileiras. Usei muito aquele livro nas minhas investidas na cozinha da Cida. Fui melhorando aos pouquinhos, claro, até chegar num ponto, durante a minha pré-adolescência, em que consegui fazer coisas completamente comíveis.

Misty na janela

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Essa foto foi feita durante os nossos primeiros dias morando nesta casa. Quando mudamos pra cá, nós só tinhamos o Misty. A vida ainda era pacata para esse pobre gato, que hoje vive sendo perseguido pelo enlouquecido Roux. Bom, não tínhamos cortinas na cozinha, e as roseiras que hoje cobrem praticamente toda a parte de baixo das janelas - nos dando um bocado de privacidade, tinham sido podadas pelos jardineiros que cuidam da vila. Então essa bay window foi a televisão do Misty por alguns meses. Eu sempre enroladora, não sabia como iria cobrir essas janelas. Quando compramos a casa ficamos extremamente durangos por um bom tempo. Um dia, quando minha mãe estava aqui me visitando, ela me disse que uma amiga dela foi lhe contar - ah, passei pelo Aggie Village ontem à noitezinha e vi você, sua filha e seu genro jantando! Quando eu ouvi isso, falei - agora chega, vou pôr qualquer cortina nessas janelas. E assim fiz! Comprei três cortinas azuis, que estão até hoje penduradas ali. Agora chegou a hora de trocá-las. Muita coisa mudou, as roseiras cresceram, as cortinas desbotaram de sol, e o Misty perdeu o seu sossego e a sua televisão.

um papo muito odara

Eu encho as paçocas dos meus amigos, pois tudo o que preparo e sirvo tenho que frisar antes: é orgânico! Como se alguém se importasse. Mas eu me importo. E compro cada vez mais produtos orgânicos, já que agora até o Safeway tem a sua linha certificada pelo USDA.

Ontem e hoje a minha cidade está sendo pulverizada com um produto químico para matar os mosquitos infectados com o vírus West Nilo. Os verdes da cidade protestaram, mas o protesto foi em vão, pois a decisão foi feita pelo distrito e não pela cidade. Anunciou-se que os produtos usados na pulverização têm efeito zero nos humanos e animais. Seria o mesmo que pulverizar a cidade com um repelente. Vai matar os insetos e evitar que muita gente morra ou fique incapacitada. Esse virús, segundo o que eu li, atinge o sistema neurológico e os menos resistentes morrem, outros mais fortes podem ficar paralisados. Bom, a horta orgânica da fazenda da universidade, por ser certificada, não vai ser pulverizada. Perguntei pro administrador como que funcionava isso, ele me disse - será tudo feito por gps.

A minha amiga que fez a sopa de pepino fria também cozinha num forno solar. É a tendência! Realmente, com os verões que temos aqui, mais essa perspectiva de acabarmos torrando no aquecimento global, um forno solar é a pedida. Preciso pensar nisso e começar a olhar um pra comprar.

Meu papo natureba é velho. Quando eu conto pras pessoas como eu alimentei meu filho, todo mundo faz cara de pena - dele, é claro. Mas chega uma hora que eles fogem do nosso controle e das dietas déspotas. Então num belo dia, quando ele tinha dez anos nós fomos morar no Canadá e o guri arrumou um desses empreguinhos de entregar jornal. Trabalhava somente nos finais de semana e fazia uma boa graninha. Por um ano ele despirocou e bateu ponto numa lojinha de conveniência que tinha perto de casa, onde gastou todo o seu salarinho experimentando absolutamente TUUUUUUUUU-DOOOOOOOO que ele nunca havia comido. Balas, doces, chicletes, refrigerante, porcaria de saquinho, com corante, com sabor artificial, you name it! Hoje, aos 24 anos acho que ele tem uma dieta saudável - eu imagino, pois ele tenta cozinhar em casa.

Nos anos 80, quando os microondas viraram moda, eu me dobrei à praticidade do uso do trambolhão. Mas fui logo arranjanto uma maneira de usar o meu naturebamente, adaptando o esquemão para cozinhar comidas mais saudaveis, seu usar óleo, por exemplo. Dai eu fazia ovo frito no microondas, que era um verdadeiro horror, mas meu marido comia, assim como comia as carnes de soja, tofu, agrião cozido, cevada e tais. Um amigo dele ficou sabendo desse tal ovo frito e declarou:

- precisa MUITO AMOR pra fazer alguém comer um ovo frito que não é frito!

Hoje só usamos o microondas pra esquentar água e comida. Mas eu e o meu marido pegamos uma mania irritante de ficar lendo rótulo de todos os produtos. Checamos a porcentagem de açúcar, de gordura, de trans-fat, de carboidratos, de sódio, e deixamos de comprar coisas dependendo do que lemos. Tem vezes que até eu me irrito, pois deveríamos simplesmente comprar por gosto, e pronto! Bom, ás vezes fazemos...

Não bastando isso, ainda reciclamos neuroticamente todas as embalagens da cozinha - caixas de leite, jarras de suco, caixas de waffles, invólucros de iogurte, etiquetas, latas, tudo, tudo.

Então todos já devem imaginar que sou meio chata na cozinha. Eu sou super exigente com a qualidade dos ingredientes. Bato o pé no orgânico, mesmo ninguém dando bola. E quero saber o que eu estou comprando. Uso muito azeite, alguma lataria, mas sou bem escassa nos congelados e uma coisa que eu nunca consegui usar na minha cozinha são aqueles cubos ou pó de caldo de carne/galinha/legumes. Tudo tem um limite!

lei seca

Eu gosto de bebericar. Já fui exagerilda tomando porres inesquecíveis, caindo na sarjeta, perdendo a festa, abraçando a privada, chorando com a cara ramelenta, todo o currículo que muitos já viveram. Hoje eu sou bem cuidadosa, pois a última coisa que quero fazer na minha idade é dar bafão de bêbada no high society. Meu período mais seco foi durante os meus anos canadenses, e foi também quando tomei o maior porre da minha vida, daqueles inesquecíveis em todos os sentidos, tentando acompanhar uma alcólatra. Foram anos que eu usei pouquissima bebida na comida - coisa que eu ADORO e que sempre fiz. Nas terras canucks não se vende bebida no supermercado, na farmácia, na mercearia da esquina, como em todo lugar civilizado. Lá a bebida alcóolica é toda controlada pelo governo, que sobretaxa tudo e determina as licenças das liquor stores. Então você tem que comprar seu mézinho nas lojas do governo, onde tudo é super caro e super controlado. Comprando uma garrafa de brandy numa liquor store canadense você se sente um bandido. Mas isso não impede que todo mundo beba, caia de bêbado, morra de bêbado. Só que isso já é outra história....

A história de hoje, ou melhor, de ontem, é que nos perímetros da Universidade da Califórnia é proíbido beber álcool. Nós que sempre levamos garrafas de vinho nos picnics no parque da cidade, tivemos que repensar o esquema. Nos parques teóricamente também não se pode beber, mas o povaréu leva vinho, taça de vidro, tudo chique e escancarado. Mas na UC Davis é diferente e eu coçei meu queixo. Mas como boa bebum meliante dei meu jeitinho. Invés de vinho levei uma garrafinha térmica com Pastis e gelo. Fomos nos servindo de Pastis e enchendo os copos com água, acho que ninguém percebeu a infração. Mas rolou aquela culpa, pois antes de começar eles agracederam a nossa colaboração com a política de não-álcool da universidade. Contraventoras quase sem escrúpulos, nos continuamos sorvendo nosso Pastis. Assim o Jazz desceu muito mais suave.

de perto ninguém é normal

Eu tenho um livro de receitas bem bonito chamado I AM ALMOST ALWAYS HUNGRY, que comprei só por causa do título. Me identifiquei, pois sou exatamente assim - estou quase sempre com fome, e não sei explicar por que. Talvez seja o meu metabolismo. Eu não preciso me entupir de comida, ou fazer uma refeicão completa, mas preciso de uma fruta, um suco, um biscoito, uma barra de granola, uma fatia de queijo, de duas em duas horas. Trago uma lancheira pro trabalho. Meus colegas devem pensar - what the flock? Mas eu preciso das coisinhas da minha lancheirinha, principalmente no período da manhã, pois meu café às 6:30 am é paupérrimo. Além do que fico com fome ao ver alguém comer, ou ver foto de comida, ou se vejo uma cena de filme com gente comendo. Imagine o meu suplício assistindo ao Food Network. Mas acho que metade da humanidade é assim, e felizmente eu tenho condições de satisfazer essa fomezinha neurótica e mimada.

Meu café da manhã não é nada sofisticado, mas precisa ter um item que é completamente imprescindível pra mim: uma xícara de café bem forte, com uma pitada de açúcar e um pingo de leite assim que eu acordo. Sem esse líquido eu não funciono, não saio do lugar, as células cerebrais não reconectam e eu não me livro do mau humor que acorda comigo todo santo dia. Como resolver isso quando eu viajo e saio da minha rotina? O coitado do meu amigo MOA que bem sabe! Ele acordou todo pirilampo e sorridente quando eu estava hospedada na casa dele, e foi fazer panquecas de cranberry, laralás e tals, e eu sentada num banquinho da cozinha, vestindo minha camisetona do Super-man, com a cara tri-amassada e esperando uma caneca de café aparecer a qualquer momento para me ajudar a iniciar decentemente o dia . Como o papo rolava, mas o café não aparecia, deixei de lado meus melindres de visitante e pedi encarecidamente - será que eu podia ter uma xícara de café, PELOAMORDEDEUS?? No dia seguinte o xícrão de Nescafé foi providenciado rapidamente!

Todo mundo tem suas maniazinhas, não gosta de cebola crua, gosta de comer feijão com macarrão, descasca a maçã, põe açúcar no mamão, come arroz com colher, não mistura a salada com a comida quente, enche o suco de gelo - you name it! Eu tenho inúmeras, uma delas é que eu DETESTO ficar com as mãos sujas de comida enquanto estou comendo. Então já protagonizei algumas cenas Seinfeldianas, quando comi com garfo alimentos que não são comuns de se comer com garfo. Uma mania quase inconfessável é a minha adoração por Cheetos, aquele salgadinho de milho cor de abobrão, que quando me dá vontade de comer, eu compro na seção dos orgânicos pra aliviar um pouco a culpa. Eu como os Cheetos com um garfo, é claro. Anos atrás, quando eu trabalhava como professora, virava e mexia eu aparecia na escola comendo os tais com um garfo de plástico. As outras professoras viam aquilo e não se conformavam. Já as crianças nunca viram exatamente o que eu estava comendo, pois eu escondia o saco de Cheetos dentro de um saco de papel marrom. Eu sou meio boba da côrte, mas nunca dei moleza pra criançada rir da minha cara!

um pratão de macarrão

Hoje foi um dia de desastres. Cheguei em casa à tardezinha com uma dor de cabeça cegante. Tomei uns comprimidos e fui esperar a dor passar enquanto pensava no meu jantar. Meu marido está em Portland, mas tenho comido em casa, porque não curto muito frequentar restaurantes sozinha. Sem falar que tenho montes de tomates, folhas verdes e legumes pra salada, além de uma tonelada de frutas. Pensa daqui, pensa dali. Fui abrir o armário da despensa, que é uma desorganização total, e derrubei um vidro cheio de feijão. Ele caiu em cima de uma mantegueira e quebraram-se em zil pedacinhos, fora os feijões, fora a manteiga. Fiquei um tempão catando caco, milagrosamente sem me cortar, e me certificando que nenhum gato iria espetar a fuça curiosa. Pra completar, a queimadura na minha mão está horrível, não cicatriza e eu bato o tempo todo nela, parece que mirando estratégicamente bem na parte mais machucada. Hoje bati nela umas quatro vezes desde que acordei. O dia não está pra peixe! Pensei, com tanta chatice acontecendo eu preciso comer uma coisa que me dê conforto. Então fiz macarrão ao alho e óleo, que é uma das comidas que eu considero desde a minha infância uma das mais confortantes. Espaguetti ou cabelo de anjo, um dente de alho, sal, pimenta do reino, muito azeite e muita salsinha picada. Um bom queijo ralado na hora por cima e já estou me sentindo outra pessoa. Agora só falta um banho e cama. Arrivederci, dia besta!

Beware of the cook!

Quem me conhece de outros carnavais ou pelo menos leu a minha pequena apresentação, já tem uma idéia do tipo de cozinheira que eu sou. Desengonçada, atrapalhada, esquecida... Não tem jeito. Eu inocentemente achava que ter um laptop na cozinha iria diminuir os recorrentes episódios pastelônicos, quando eu descia as escadas quase rolando para tentar salvar o rango já destruido. Quem nasce Didi Mocó nunca chegará a Nigella.

Hoje saiu a pele da minha mais recente queimadura na mão direita. Vai ficar uma cicatriz. Mais uma. Minha mão direita é franksteiniana. Olhando pra ela, me lembrei de muitos dos acidentes que eu já tive na cozinha. Meu marido vive em sobressaltos, principalmente quando eu estou usando facas para cortar coisas. Me pelar, queimar, cortar, ralar, isso é cotidiano e não significa nada. Duro é quando eu acabo no hospital.

Duas cicatrizes que eu tenho na perna foram feitas na cozinha, uma delas abrindo uma gaveta, na outra abrindo uma gaveta com uma faca na mão.

A queimadura séria que fiz na mão vinte anos atrás e que ainda tenho as marcas aconteceu num dia quando eu precisava lavar a louça, fazer comida para o Gabriel e ainda tinha que ir à uma aula na universidade. Eu precisava me organizar, focalizar nas tarefas e me apressar, mas sei lá por que demônios resolvi em cima de tudo aquilo ainda fazer um pudim. Tropecei num tapete com a forma cheia de caramelo quente e não lavei a louça, meu filho ficou sem comer, não apareci na universidade e acabei vocês sabem onde.

O corte que abriu meu polegar, cortou um nervo e ainda formiga, eu fiz tentando tirar um queijo grudado de um prato de cerâmica - esses são um perigo! Foi uma correria, uma sanguera, até hoje eu tremo quando vejo um dos pratos, que guardei no fundo do armário.

Será que eu tenho jeito? Ainda serei uma cozinheira organizada, atenta, cuidadosa? Talvez só na outra encadernação, né?.... hm, snif, êpa, peraí acho que tem algo queimando!

Consciência pesada

Fomos comer caranguejo e camarão num desses restaurantes barulhentos e atravancados e badulaques pendurados no teto, que marcam presença em cidades em beiras de rio ou mar. Me contaram então como se cozinha o caranguejo ou siri—nunca sei se são sinônimos com sotaques regionais, ou coisas completamente diferente—para que a carne fique macia, suculenta e com muito sabor. É o horror dos horrores! Os bichos são mergulhados vivos em água fria e vão cozinhando lentamente....

O caranguejo que comemos não passou por essa tortura. Foi morto e congelado antes de ser cozido. Menos mal. Mas o assunto foi pra uma área muito complicada e realmente difícil pra mim. Falamos dos frangos de granja que vivem uma vida curta e sofrida, sendo alimentados forçadamente de duas em duas horas, e das pobres vacas que viram bife, e das lagostas jogadas vivas na água quente, e dos peixes degolados. Sinceramente, se eu pensar muito viro vegetariana. Alias, não viro, mas sim desviro, pois tenho certeza absoluta que nasci uma vegetariana e fui lobotizada para me tornar uma carnívora. Minha mãe que sabe o sofrimentro que era me fazer engolir um bife. Resisti a minha infância toda, até me libertar na minha adolescência, quando eliminei todas as carnes da minha dieta. Se proteína animal é imprescindível para o crescimento do ser humano, eu certamente sou uma aberração, pois cresci - e muito, sem ela.

Hoje eu como carne vermelha, peixe, camarão, carangueijo, lagosta, frango, mas tudo em moderação. Porco muito de vez em nunca. Não como molusco de nenhum tipo, nem sapo, escargot, paca, cobra, macaco, capivara, jacaré. Também não como coelho, nem pombo, nem vitela. Fico satisfeita e feliz com um bom prato de espaguete ao alho e óleo, queijo e pão.

bem acompanhada

Meu marido estava voltando de uma viagem de trabalho ao sul da Califórnia e eu fui camelar em downtown pois precisava comprar um presente pra uma amiga. Lá pelas tantas, me deu aquela tonteira de fome. Eu não gosto de comer sozinha em lugares públicos. É uma bobeira e eu sempre acabo comendo sozinha de qualquer maneira, mas faço minhas tentativas para evitar. Entrei num lugar onde poderia rapidamente pegar uma salada com picanha grelhada para levar para casa. Mas o lugar estava lotado, com uma filona pra pegar o pedido, ah, não tive paciência. Atravessei a rua e fui ao Seasons, um restaurante refinadinho que tem uma comida interessante. Entrei e disse pra hostess - sou só eu! Ela ofereceu o balcão do bar, que era o que eu planejava. Nada de mesa, esperando solitariamente pela comida.

Como nunca tinha comido sozinha sentada no bar de um restaurante, me surpreendi. O serviço foi impecável, rápido e gentilíssimo. Comi exatamente como se estivesse sentada na mesa, só que com mais discrição e atenção. O bartender cuidou de mim como se eu fosse uma princesa. Não deixou o meu copo vazio nem um minuto e me desejou bom apetite, logo depois veio perguntar como estava a comida, não deixou eu me sentir uma coitada sentada num bar de um restaurante cheio de gente numa sexta-feira à noite.

Comi um Gnocchi fortíssimo, com pancetta, asparagus, mushrooms, parmesan cream e truffle oil, acompanhado de pão italiano quentinho e água Pellegrino.

minha pequena roça

Todo ano, mais ou menos nessa época, eu pego na enxada. Neste ano um pouco mais tarde, por causa da chuvarada incessante. Mas tenho feito minha horta anualmente, embora perdendo um pouco do entusiasmo a cada ano que passa, mas faço assim mesmo. Todo ano eu também digo que vou fazer a horta no inverno e falho miseravelmente. Com chuva e frio não dá. Eu fico meses sem por as caras no quintal, e quando ponho está aquele matagal, que eu que tenho que lidar.

Luvas, instrumentos, um pouco de disposição, e coloco tudo nos eixos - bem, mais ou menos nos eixos, em alguns dias. Já fiz avaliação do que sobrou do outro ano, ou melhor, do que sobreviveu. Ainda tenho garlic chives [cebolinha fina], muito tomilho, muito orégano e um mundaréu de hortelã chocolate. A terra das caixas está bem compactada e tem um pouco de mato, que tem que ser retirado manualmente - afê. Tenho que revirar a terra, pra arejar e só depois posso plantar. Essa terra da minha horta é muito boa, cheia de minhocas, não ponho nem um pingo de fertilizante, nada. Tudo que cresce ali é cem por cento orgânico. Eu plantava muita coisa, acompanhando os inevitáveis tomates - vários tipos de pimentão, variedades de berinjela japonesa e branca, pepino-limão, melão, ervilhas. Já plantei até batatas - no pun intended. Mas neste ano estou decidida a plantar apenas tomates.

Tomates crescem e frutificam como praga aqui nesta região onde u vivo, por causa dos verões extremamente quentes e secos. Os tomates adoram. Não é a toa que essa área é a maior produtora de tomates do país. Eu planto os pézinhos, de vários típos - heirlooms, orgânicos, verdes, amarelos, vermelhos, bicolores, minúsculos, médios, gigantes. Todos eles vingam e todos os pés se alastram e produzem muitas frutas. Eu gosto porque não preciso fazer NADA! Tirar um pouco de mato de vez em quando, irrigar [temos um sistema de sprinklers], vigiar as pragas, colher e comer!

O que me anima a pegar na enxada todo ano é a visão dos tomates na minha cozinha. Por eles, eu viro até jardineira!

give me the chocolate and nobody gets hurt

Eu gosto, é claro, mas não sou viciada, nem louca por chocolate. Também não sou uma formiga, sempre atrás do açúcar. Mas todo mundo tem seus dias, quando acontecem coisas inesperadas, que nos fazem agir de maneira pouco comum. Ontem foi um desses dias pra mim.

Fui ao dentista para a minha limpeza semestral. Eu tenho uma história com dentista. Não é uma história feliz, apesar de eu ter uma dentista fenomenal, com uma equipe fenomenal. O problema é que eu nasci assim, com essa propensão para ter problemas dentários. Never mind, isso não interessa. O que interessa é que eu fico toda tensa e estressada quando visito minha dentista. Ontem não foi diferente, tive até uma dor de cabeça.

Quando voltei pro trabalho o inusitado aconteceu. Me deu um desejo incontrolável de comer chocolate. Podia ser qualquer um, bad American chocolate, cheio de caramelo e peanut butter, eu encarava qualquer coisa. Catei 3 mangos e corri pra maquininha de tranqueiras mais próxima. Peguei uma barra de Crunch [dark, edição especial!], um pacote de M&Ms de amendoim e um saco de sour gummy bears!! Eu ADORO tudo o que é sour, isso é uma fraqueza que não posso negar. Mas M&M e Crunch foi novidade. Nem preciso dizer que devorei tudo enlouquecidamente e depois bebi água pra digerir a culpa.

Acontece.... Hoje já estou mais tranquila e voltei pro chá branco, frutas desidratadas, iogurt e barrinhas de cereal!

You can get anything you want at Alice's Restaurant

O vinho é francês, o queijo é irlandês, o chá é inglês, os biscoitos holandeses, o azeite espanhol, as azeitonas são gregas, o arroz é indiano, o macarrão italiano, o peixe norueguês, as castanhas portuguesas, o chocolate é belga, a cerveja é mexicana, o molho de salada é libanês, os snacks japoneses, o palmito costa riquenho, leite de coco tailandês. Estou na América.

Full of baloney

Baloney poderia ser comparado com uma mortadela muito da vagaba. É cortado em fatias grossas, tem uma cor estranha, uma textura estranha, um cheiro e um gosto, hmm, estranhos. Mas é um frio muito popular, especialmente entre os membros da classe trabalhadora. E as crianças também gostam. Eu comi uma vez de curiosa que sou. Eca, bleargh! Deve ter tanto corante, anabolizante, preservativos... nem quero saber!

Mas a palavra Baloney é também parte de uma expressão que eu ouvia muito mais no Canadá, do que ouço aqui. "Full of Baloney", quer dizer cheio de porcaria, cheio de coisa que não presta, ou não vale nada, não acrescenta nada, que não diz nada, como deve ser o valor nutritivo desse frio usado como recheio de sanduíche.

um engenheiro na cozinha

Meu marido não sabe fritar um ovo. É uma situação frustrante, e irritante às vezes. Eu sinto muito a falta de domínio dele na cozinha quando fico doente. Já houve episódios memoráveis, que até hoje são contados em minha defesa. Como aquela vez no Canadá, quando peguei uma desgraceira de um stomach flu e fiquei totalmente dismilingüida na cama, coisa pesada mesmo, incapaz de me levantar e ele cheio de trabalho no PhD dele, saiu e me deixou lá tremendo e suando, com remédios na cabeceira da cama e UMA LATA DE SOPA CAMPBELL'S com o ABRIDOR DE LATA ao lado, na bancada da cozinha. Hoje ele não ousa mais fazer isso, porque pegou SUPER mal.... Ele perdeu muitos pontos comigo, minha família e amigos. Mas mesmo ele se esforçando não tem jeito. Caí de cama no sábado e à noite ele comprou uma pizza congelada de caixa e deixou torrar. Não dava nem pra cortar com a faca, comi uma fatia como se fosse uma bolacha e voltei pra cama. No domingo, hora do almoço, um frio da cacilda, eu doente e desejando uma sopa quente e o que ele traz? Uma caixa com SALADA. Comi a salada tremendo e praguejando. Carvalho! Será o benê que a pessoa não se toca que doente quer conforto, quentura? Quando ele ficou doente duas semanas atrás, eu fiz uma sopa substânciosa. Mas no meu caso, tô ferrada.

Quem sabe se eu sugerir o cooking for engineers... Sei lá. Acho que quando o homem sai assim, com certeza deve ser culpa da mãe que não ensinou requisitos super básicos para a sobrevivência. Como saber cozinhar, por exemplo.

da boca pra fora

* post velho reciclado

Pra quem ainda não sabe, comida é um dos meus assuntos favoritos, logo depois de cinema, é claro! Mas eu falo muito mais do que cozinho ou como. Falar é mesmo o meu ponto fraco!

Eu tenho duas amigas com quem converso muito e sempre sobre comida. Trocamos receitas, dissecamos ingredientes. Uma delas é da área de ciência dos alimentos, então eu aprendo muito com ela. Outro dia nós passamos umas duas horas caminhando pelos corredores do Corti Brothers em Sacramento, olhando ingredientes e comentando sobre eles. No Corti Brothers tem tanta variedade de feijões e lentilhas, além das massas, das latarias, dos vinhos.... Oh, é bom demais! Outra coisa que eu amo é ler livros sobre comida, de receita ou de história. Nem uso muito os meus livros pra seguir receita passo-a-passo, mas eles são uma fonte inesgotável de inspiração. Minha fascinação por esse assunto fica bem clara quando você entra na minha cozinha e vê logo ali no canto a minha biblioteca culinária . Eu posso nem cozinhar muito bem, mas estou incrívelmente bem informada!

Queijo Duro com Vinho & Pão

Li na revista...

"Camponeses suiços criaram o fondue séculos atrás e transformaram numa refeição o queijo que ficou duro, misturado com o vinho de mesa. Já o fondue de chocolate foi uma invenção americana, que ficou muito popular nos anos sessenta."

Essa é a prova de que nem todo prato servido hoje em restaurante caro ou que a plebe pensa que é chique teve suas origem em sofisticados salões das cortês reais. Muita coisa era comida de camponês, de gente pobre, pra aproveitar restos, usar os ingredientes da estação ou da ocasião - que nem sempre era de fartura.

Eu quase não faço fondue porque o Uriel detesta, mas de vez em quando no inverno até que me dá vontade. Nunca me esqueço de um fondue que fiz uma vez pra um casal de amigos, quando aconteceu um forrobodó inexplicável na hora de sentarmos, acho que alguém esbarrou na fonduzeira sem querer e ficamos olhando petrificados a toalha de mesa [novinha!!] PEGAR FOGO!! Eu acordei do transe letárgico de incredulidade à tempo de correr pra cozinha, encher uma vasilha com água e CHUÁÁÁ! Não consegui salvar a toalha, que foi pro lixo.

Eu acho fondue uma comida meio cafonona, apesar de ser inegávelmente gostosa. Acho que é porque aqui, onde ele virou moda nos anos sessenta, vemos e revemos ad nauseaum os resquíscitos dessa moda em centenas de fonduzeiras cor de abóbora e verde oliva à venda nas garage sales e thrift stores. Parece que todo mundo quer se livrar dessas aberrações, mas ninguém consegue, então elas permanecem firmes e onipresentes na sua feiura e insistência. Eu já tive uma dessas quando éramos estudantes e pobres no reino canadense. Mas hoje tenho uma normal - preta, com cumbuquinhas de cerâmica. Mesmo assim continuo achando o business do fondue uma coisa um pouco over the top, quando todo mundo come demais, se lambuza, queima os beiços e põe fogo na toalha.

Eu tinha uma receita de salada que eu servia com o fondue, pra contrabalançar as zil calorias do queijo e todo aquele pão. Não tenho mais a receita, mas acho que consigo lembrar.....

Salada Alice

Um pé de Alface cortado em pedaços
Um bulbo de erva doce picadinho em fatias
Uma laranja em gomos cortados em quatro
Cenoura ralada em fitas
Fatias finas de maçã

Misture tudo e tempere com o seguinte molho:

Sal/pimenta do reino
Azeite
Suco de limão/suco de laranja
semente de erva doce
iogurte natural
Bater bem e temperar a salada.

Friday Night Fever

Em Orleans ficamos num Holiday Inn de beira de estrada, o que foi um tremendo alívio, pois não precisamos nos perder pela cidade para achar o hotel. Saímos do pedágio — dele não escapávamos nunca — e já entramos no estacionamento do hotel. Com essa economia de tempo tivemos a chance de sair caminhando calmamente depois de um banho e procurar um restaurante para jantarmos sossegados.

Logo na outra esquina encontramos uma brasserie—Le Bouche à Oreille. Era um local simpático e logo que entramos escutamos a música. Nas sextas-feiras havia a animation musicale, transformando o local num restaurante dançante. Não sei onde vi isso antes, se na minha infância de interior ou em algum filme, mas eu não conseguia parar de sorrir com a familiaridade daquela situação. As mesas do restaurante se posicionavam ao redor de uma pista de dança, onde os comensais se requebravam antes, durante e depois da sobremesa e do licor digestivo. No pequeno palco, que se elevava em um degrau, uma duplinha super animada botava pra quebrar. Um tocando keyboard, que fazia o som de uma banda completa, e o outro cantando com muita animação.

Nós pedimos a comida à la carte, depois de perguntarmos em francês se alguém ali falava inglês, ou português, ou espanhol. Nada. Com gestos, apontando, sorrindo amarelo, suando, conseguimos pedir uma água Perrier, uma cerveja Stella Artois sem álcool, um frango com arroz e um bife com batata frita. Ufa. Estava muito divertido ver o pessoal dançar e a comida estava muito gostosa. A garçonete até que se esforçou muito para não nos deixar passar fome, nem acabar comendo carne crua ou tripa.

A ironia desse nosso jantar na brasserie de Orleans foi que enquanto nos descabelávamos para decifrar o menu em francês e nos comunicarmos com a garçonete, a duplinha musical cantava hits EM INGLÊS e os dançantes faziam conjuntamente passinhos de square dance, imitando os bailes country norte-americanos, enquanto cantavam acompanhando a música. E cantaram especialmente alto e excitados quando a duplinha interpretou um sucesso da Shania Twain - Man! I Feel Like A Woman!

comida de cowboy

Fomos à uma festa que comemorava a aposentadoria de um dos professores colega do Uriel. O cara, muitíssimo simpático, fez parte da banca de contratação dele anos atrás. Numa das fases da contratação teve um jantar num restaurante quando eu fui convidada. A intenção era me conhecer, saber a minha opinião sobre viver definitivamente aqui em Davis. Fomos à um restaurante de california cousine - tudo light, fresco, seasonal, orgânico. Lembro que o John comentou durante esse jantar que tinha uma fazenda onde criava gado. Pois agora, aposentado, ele vai se dedicar cem por cento à sua fazenda.

Um pouco diferente do costume, o homenageado foi o cozinheiro para o banquete. Ele fez questão de preparar a carne - barbecue, para quase cem pessoas. Fiquei um pouco desconfiada quando o meu marido disse que o menu da festa seria churrasco, mas estava confiante que teria sorte de comer um naco de carne bem passada. Mal sabia eu que o churrasco seria cowboy style.

Tri-tip é um corte de carne que já me falaram equivaleria a picanha ou a maminha. É um corte muito bom para churrasco ou mesmo para fazer assada. Mas no menu de ontem ela veio misturada num desses molhos de churrasco adocicados que é muito popular por aqui. A carne era de excelente qualidade, vinda da fazenda do John, macia e saborosa. Mas o tal molho estragava tudo.

Esse é o menu do cowboy - carne com o molho doce acompanhada de feijão. No jantar de ontem havia também salada de folhas verdes e tomate cereja, salada de batata [que foi o que mais gostei] e pãezinhos. O feijão é exatamente aquele que se vê os cowboys comendo nos filmes - pequenos grãos de cor marrom clara, molho viscoso, sabor adocicado tal qual o molho da carne. Sinceramente, ECA!

Não vou dar, nem mesmo quero saber a receita desse feijão e desse molho de barbecue, porque esse é o tipo de comida que só se prova por curiosidade ou por falta de opcão, quando não se pode ofender o dono da festa.

a primeira vez que mordi um cachorro

Eu não me lembro exatamente quantos anos eu tinha, mas certamente foi antes dos meus dez anos. Estávamos no Rio de Janeiro visitando a minha tia, irmã da minha mãe. Éramos sete crianças e as duas mulheres corajosas, que sei lá por que motivos resolveram sair pra rua com toda a tropa. Normalmente íamos à praia, mas nesse dia passamos a manhã caminhando pelas ruas de Copacabana. Numa certa hora entramos num lugar. Eu lembro de um balcão alto e de como de repente um sanduíche enrolado em folhas de papel manteiga chegou às minhas mãos, junto com uma garrafinha de Coca-Cola. Abri aquilo com curiosidade. Minha mãe controlava o nosso consumo de refrigerante e como morávamos no interior de São Paulo naquele início dos anos setenta, ainda éramos virgens dos modismos americanos de hamburgueres e hot-dogs. Quando mordi aquele sanduíche comprido recheado de salsicha e com um molhinho de tomates, cebola e pimentão, fui aos céus! Pra mim aquilo passou a ser a comida mais deliciosa do mundo e a que eu iria desejar comer novamente por muitos e muitos anos.

Em 1974 nos mudamos para Campinas, que é a cidade natal do meu pai. Lá fui finalmente reencontrar o maravilhoso sanduíche, descobrir o seu nome peculiar e o lugar que o vendia: o cachorro-quente das Lojas Americanas. Passei anos da minha pré-adolescência sentada naqueles banquinhos em frente ao balcão verde claro em formato de S no subsolo das Lojas Americanas do centro de Campinas. Pra mim nunca existiu nada igual - o pão macio, a salsicha saborosa, o molho super cheiroso, as chips de batata, sempre acompanhados de uma super Coca-Cola gelada. Nunca mais comi um cachorro-quente como aquele da LASA, que tentei replicar por anos e anos na minha cozinha.

Quando morei no Canadá, provei um cachorro-quente muito bom, que fiz por muitos anos e até hoje faço. Não chega nem perto do cachorro-quente da LASA, mas fica muito bom.

Cozinhe as salsichas na água. Escorra. Retorne a panela com as salsichas ao fogo, regue com bastante azeite, deixe fritar. Acrescente rodelas de cebola a vontade. Pode salpicar a cebola com um pouco de sal. Servir no pão de cachorro-quente com mostarda e catchup [se quiser].

a pior comida do mundo

Ainda adolescente, visitando os meus tios na Querência Echaporã, perguntei ao meu tio, jornalista e gourmet, qual era a melhor e a pior comida do mundo. Ele respondeu - melhor, chinesa, pior, inglesa.

Eu comi muito bem em Londres, quando visitei o meu irmão. Comi comida francesa, italiana, japonesa e o trivial brasileiro feito pela minha cunhada. Num sábado fomos à um pub de trezentos anos - o Lamb & Flag, o mais antigo de Covent Garden. Realmente, se aquele menu ficar de amostra única da comida deles, os ingleses ganharam mesmo a medalha dos piores. Eu comi com curiosidade, não reclamei, até achei legal. O pub tinha uma atmosfera muito charmosa e os donos foram bem simpáticos nos atendendo meio fora de hora. Mas o Uriel não parou de reclamar um segundo e abominou a tal comida no pub. Até hoje ele fala que a pior comida que ele comeu na vida - blearg - foi aquela no pub inglês. No menu bem restrito, sausages, lamb ou roastbeef acompanhados de batata, cenoura e ervilha, gravy e yorkshire pudding, que foi o ítem que eu mais gostei.

A receita do melhor do pior:

Yorkshire Pudding

This dish was originally cooked in a tin under the rotating spit on which roast beef was cooking - the juices from the meat dripped on to it, giving a delicious flavour. In Yorkshire, it is still cooked around the meat tin and is served as a first course before the meat and vegetables. Serves 4-6.

Ingredients: Lard - a little, melted, Plain flour - 110 g (4 oz), Egg - 1, Milk - 300 ml.

1. Pre-heat oven to 220C / 425F / Gas 7.
2. Put a little lard in 12 individual Yorkshire pudding tins (or deep bun tins) or a single large tin and leave in the oven until the fat is very hot.
3. Place the flour in a bowl, then make a well in the centre and break in the egg. Add half the milk and, using a wooden spoon, gradually work in the flour. Beat the mixture until it is smooth then add the remaining milk. Beat until well mixed and the surface is covered with tiny bubbles.
4. Pour the batter into the tins and bake for 10 to 15 minutes for individual puddings; 30 to 40 minutes, if using a large tin, until risen and golden brown.

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the food market

Eu adoro comprar em dois mercadinhos internacionais aqui em Davis. Um deles é o Kim's Market e o outro é o International Food Market.

No Kim's você encontra todo tipo de ingrediente e produtos asiáticos - do japão, coréia, china, tailândia.... Lá eu compro arroz e alga para sushi, todo tipo de soba japonês pra fazer frio, salgadinhos de arroz, banchá, tofu frito, missô. Eu adoro uns cubinhos feitos de pipoca de arroz e snacks de algas. Eles também têm os maravilhosos pickles de gengibre, raiz de bardana e os lactobacilos vivos do yakult! É um lugar pequeno, com três corredores, uns cinco freezers e uma senhora atendendo no balcão, rodeada de tranqueiras e muitos doces interessantes, que eu sempre fico na tentação de comprar.

O International Food Market consegue ser mais caótico e mais diversificado. Ele é um mercadinho indiano, mas vende de tudo, em dois corredores compridos incrívelmente bagunçados! Lá eu compro azeite espanhol, bolachas holandesas, belgas, francesas e turcas, temperos indianos, chás ingleses, pita bread fresquinho, quentinho e cheiroso, trigo de quibe, pistachio, feta cheese, iogurt grego, halaw, ervilhas de todas as cores e tamanhos. E me divirto olhando produtos que nem sei como usar. Eles têm até uma parte de produtos mexicanos, onde eu achei farinha Láctea Nestlê! O dono indiano ou as filhas dele, atendem no balcão também bagunçado, perto da porta, rodeados de revistas, cds e outros badulaques escritos numa língua indecifrável.

Uma visita a esses mercados é sempre uma aventura de descobertas. Eu gosto de olhar tudo, ler os pacotes, sentir os cheiros e comprar coisas diferentes. Me dá uma sensação boa de que o mundo é uma aldeia, onde podemos pelo menos comer igual e assim diminuir nossas diferenças de língua e cultura.

Comfort food

Peguei na Wikipedia uma explicação para um termo muito usado em inglês: comfort food.

“The term comfort food refers to any food or drink to which one habitually turns for temporary respite, security, or special reward. The reasons that something becomes a comfort food are diverse but include the food's familiarity, simplicity, and/or pleasant associations. Small children often seem to latch on to a specific food or drink (in a way similar to a security blanket) and will repeatedly request it in high stress situations. But adults are certainly not exempt. A substantial majority of comfort foods are composed largely of simple or complex carbohydrate, such as sugar, rice, refined wheat, and so on. It has been postulated that such foods induce an opiate-like effect in the brain, which may account for their soothing nature”.

Pra mim, comfort food é uma comida que me faz lembrar da minha infância, de bons momentos, que tem um cheiro aconchegante, que faz você se sentir em casa, como o cheiro das roupas de cama e banho ou do cobertor. Fazendo uma pequena lista, essas são as minhas comfort foods:

Mingau de aveia
Feijão com arroz
Sopa de feijão com macarrãozinho
Canjica
Arroz doce
Pudim de pão
Bala de mel
Café com leite
Pão com manteiga
Pão francês com queijo e presunto
Leite com açúcar queimado
Vaca Preta [sorvete com Coca-Cola]

potluck

Eu gosto dessa palavra—potluck—cada um leva um prato e todos dividem. Às vezes a divisão não traz muita sorte pra uns ou outros, pois nunca se sabe que tipo de comida vai aparecer na mesa. Ainda mais quando o potluck envolve uma turma internacional. Eu já fui num potluck onde não consegui comer quase nada, pois tudo era estranho demais pra mim. Era uma confraternização entre os estudantes chineses do meu professor de inglês canadense. Eu sempre metida em tudo, me danei. Não lembro o que levei, mas tenho certeza que não fez o menor sucesso. Nosso gosto ocidental nem sempre agrada aos orientais. Mas eu lembro vivamente de um peixe com molho de feijão preto que me assustou pacas. E os ovos de pato esverdeados. Eu não como ovo nem normal, quem dera um que ficou "estragando" envolto em ervas e folhas. Bom, eu também já tive minha comida rejeitada em potlucks, como nos banquetes internacionais da U of S, no Canadá, quando eu preparava a minha maravilhosa feijoada brasileira e muita gente torcia o nariz e dizia no thanks! enquanto eu oferecia sorridente os brazilian black beans. Uma vez eu levei refresco de guaraná num potluck, desses de pacotinho da TANG, que misturei com água gasosa e acrescentei gelo e rodelas de limão. Quando eu falei que era guaraná, alguém me perguntou se a bebida era apropriada pra crianças. Nem todo mundo tem a obrigação de saber desses detalhes culturais, né? Mas essas situações são ótimas pra gente contar no blog e dar bastante risada. Pode ser que a minha cara de nojo e susto olhando pro peixe no molho de feijão tenha virado uma história divertidíssima, contada em cantonês ou em mandarin, entre gargalhadas de desprezo pelas babaconas ocidentais cheias de nojinho.

enquanto cozinho a sopa

Eu sempre fui encanada com comer direito e natural. Passei uns quinze anos da minha vida, entre a infância e a adolescência, lutando contra um nojo que tomava conta de mim e que não me deixava comer carne, frango, peixe, ovos ou leite..... Do jeito que eu comia, praticamente obrigada pela minha desesperada mãe, nem sei como cresci e fiquei alta. E de repente, durante os últimos anos da minha adolescência, me deu o cinco minutos e eu virei natureba. Era uma saída para a minha repugnância com relação à toda comida derivada de animais. Virei uma comedora de pão, cenoura, sopa de missô e macarrão alho e óleo. Só depois de muitos anos, já mãe do Gabriel, é que fui devagarzinho voltando a comer os bifes da vida. Hoje eu como de tudo, menos coisas muito exdrúxulas é claro, mas não perdi a mania de comer natural, orgânico, evitar óleos, açúcares, ler maníacamente rótulos de qualquer produto para ver o conteúdo.

Por causa disso, toda segunda-feira eu encosto a barriga na beira da pia e fico com dor nas costas lavando verduras e legumes. Isso é coisa que só os naturebas freaks fazem aqui neste país, onde tudo é industrializado e muito mais fácil e prático, pois ninguém tem tempo de nada, muito menos de ficar lavando folhas de salada. Mas eu arranjo um tempo e faço questão de comer o máximo que puder sem aditivos químicos.

Hoje tive que fazer um sopão e vou congelar brócolis e couve-flor cozidos, porque tava acumulando tanto desses legumes dentro da geladeira que já estava dando dó. E toda semana eu jogo fora umas verduras que nem tenho mais idéias de como cozinhá-las. Esse desperdício involuntário e cheio de sentimento de culpa é a consequência de querer ter uma vida além da minha capacidade. Sem falar que além da lavação ainda tem os sustos de achar bichos estranhissímos residindo nas alfaces e repolhos. Um dia eu desisto dessa história, mas até esse dia chegar, vamos comendo nossas saladinhas, refogados e sopas com verduras e legumes fresquinhos.

O duro é meus amigos me aturarem, pois toda vez que eu sirvo alguma coisa, lá vem a frasezinha - "é orgânico!" - como se alguém desse a mínima!

bravo!

Fico imaginando um programa de culinária onde eu seria a apresentadora. Primeiro que eu não ficaria falando, falando, como na maioria dos shows culinários. Eu ficaria ouvindo música, como realmente faço na minha cozinha, às vezes cantando, outras vezes falando com os gatos, rindo sozinha e praguejando quando as coisas dessem errado. E tudo iria dar errado, como é normal acontecer. Eu iria cortar o dedo, esquecer o prato no forno, queimar o molho de tomate, não iria conseguir achar a tal forma ou um utensílio qualquer. Iria perder a paciência, cortar tudo grossão, acrescentar ingredientes à olho, inventar receitas, espirrar, derrubar, contornar. Assim seria o meu show e tenho certeza que seria um sucesso!

velhos cadernos de receitas

Resolvi fazer uma cata de posts culinários no meu blog ancião, o The Chatterbox , e achei coisas incríveis. Eu já escrevia sobre comida lá desde os tempos em que tinha apenas dez leitores e praticamente não me importava em publicar um monte de tontices. Hoje já não escrevo dessa maneira, mas vale a pena ler de novo um post de dois mil e um onde eu faço comentários sobre comida e até dou uma receita ótima de salada ayurvedica.

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January 22, 2001 - Several hours of sun...

Mais receitas [ow,no!]: pegue um pentelhudo bem maduro, adicione flash-trash, uma pitada de x-files, um dedinho de technomusic e voilá...... EnJoYiT! .... Blurp!!! :-)

“Do vegetarians eat animal crackers?”
[placa na frente de uma igreja em Los Angeles]

Será que comer muito tofu faz mal? Eu adoro tofu! Como derivados de soja várias vezes por semana. Faço sopa de missô, que eu adoro, com tofu frito, tofu defumado, tofu fresco, tofu barbecue, tofutofutofu! :-) Aprendi a fazer a tradicional hot & sour soup dos restaurantes chineses, que eu faço com cenouras, cogumelos e TOFU! :-) E tem os noodles de arroz, que eu faço com o que tiver de vegetais mais TOFU! :-) E quando eu faço sushi, se sobra arroz eu recheio aqueles deliciosos quadradinhos de TOFU frito! ;-) E como um trail mix malasiano, onde eu misturei grãos de soja torrados [a soja não é muito saborosa sozinha] e devoro yorgut feito de leite de soja, porque eles são ótimos! A Iri disse que soja é muito boa para a mulher… Mas será que comer demais….. hum…

E eu como animal crackers quando tenho a oportunidade. Eles têm gosto de bolacha de maizena…. And I like it! :-)

Às vezes eu penso que deveria fazer um curso de Chef [no Napa Valley, aqui pertinho, tem um hotel que forma cozinheiros(as)] porque eu curto tanto falar de comida! Não curto tanto cozinhar e comer quanto ficar procurando receitas, lendo, comprando ingredientes e falando de comida! Já me disseram que cozinhar seria uma ótima atividade pra mim, porque ela preencheria as minhas necessidades de FOGO [eu tenho 1 de fogo no meu chart… e 10 de terra, o que explica as minhas medronices…] e da lua em câncer na VI, que adora ficar cuidando dos outros. Eu tenho pensado seriamente nessa possibilidade…..

Outro dia experimentei uma salada nova num jantar aqui em casa [ah, não posso esquecer de mencionar que sou uma soberba misturadora de saladas!] e ela fez um sucesso. É uma salada ayurvedica. Quer provar?

Fennel Cole Slaw with Pecan Dressing

Misture 1 1⁄2 xic de repolho picado fininho, 1 1⁄2 xic de erva doce picada fininha, 1 1⁄2 xic de cenoura ralada, 1/3 xic de gengibre cristalizado picadinho, 1 colher de sopa de sementes de erva doce torradas, 3⁄4 xic de coentro fresco picado.

Para o molho: bata no liquidificador ou no mixer 1/3 de óleo de gergelim [misture com um pouco de azeite de oliva, pois o óleo de gergelim tem um sabor muito forte], 1/3 xic de nozes pecan, 3 colheres de sopa de suco de limão, 2 colheres de sopa de mel e sal à gosto.

Tempere a salada com o molho e salpique com um pouco de pimenta do reino moída. Sirva!

Era só o que faltava!

Pois é, eu nem sou aquela cozinheira de mão cheia que faz pratos maravilhosos e saborosos. Na cozinha eu sou aquela que se esforça. Queimo comida, salgo demais, substituo quantidades e ingredientes e enfrento as consequências, me queimo, me corto e tropeço no tapete com uma forma de caramelo quente na mão.....

Não sou perfeita, não sou gourmet, não freqüento restaurantes finos, mas ADOOORO falar de comida, ler sobre comida e até timidamente arriscar pratos e receitas mas elaboradas. Minha cozinha é inventiva, no sentido que eu invento um monte de modas. Às vezes dá certo, mas nem sempre. Gosto de comer orgânico, comprar ingredientes de qualidade, sou a rainha das novidades e das gadgets inúteis.

Há tempos olho sites de culinária e outro dia pensei, por que não ter um também? Escreverei as histórias mais bizarras e diferentes, ilustradas por fotos dos meus tomates e nectarinas. Me inspirei na maravilhosa receita de Chucrute com Salsichas que achei num dos cadernos de receitas da minha mãe. Ela, tão ocupada, mas sempre antenada, me mostrou que tudo é possível e tudo é valido. Então já vou colocando o meu avental e colocando as mãos na massa!




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